O que nos interessa sobre a corrida eleitoral estadunidense?

GOP Presidential Candidates Debate In Milwaukee

Donald Trump já é considerado o principal candidato republicano (Photo by Scott Olson/Getty Images)

 

Conhecer e entender a política internacional é essencial para qualquer cidadão que queira se inteirar um pouco sobre o mundo que o cerca. Saber qual é a influência de Rússia e Estados Unidos no governo de Bashar al-Assad na Síria, entender o avanço do ISIS (o autointitulado Estado Islâmico) no oriente médio com o hiato de poder causado pela invasão estadunidense no Iraque e a Primavera Árabe de 2010; entender o avanço da direita política na América Latina nos últimos anos (no Paraguai , na Venezuela , na Argentina). São exemplos que, por mais que tenham um certo afastamento com a realidade da economia e da política interna brasileira, podem de fato influenciar o Brasil.

Na história da economia brasileira são incontáveis os fatos associando Brasil e EUA. A relação de Getúlio Vargas e os democratas Truman e Roosevelt, a crise da dívida e o avanço das ideias neoliberais já na década de 1980 com o republicano Reagan, e, mais recentemente, as fortes relações do democrata Clinton e FHC, Bush Filho e Lula, Obama e Dilma, são só alguns exemplos.

Ter uma ideia do processo eleitoral nos Estados Unidos e conhecer um pouco cada candidato nos faz criar cenários sobre o futuro na economia mundial e doméstica. Apesar de ser presidencialista assim como no Brasil, a lógica do sistema político lá é um pouco diferente. Ao invés de existir uma série de partidos que representam causas bem particulares como aqui, nos Estados Unidos são apenas dois partidos que têm relevância no debate político e de fato concorrem às eleições: os republicanos e os democratas, que historicamente vêm alternando o poder na Casa Branca. Dentro de cada partido existem alas mais conservadoras ou mais liberais, isto é, mesmo os republicanos que historicamente são mais conservadores possuem seus partidários mais liberais e no partido democrata, mais liberal, existe também uma ala mais conservadora.

A corrida eleitoral em si já ocorre desde o fim de 2015, um ano antes das eleições em 8 de novembro de 2016. Isso acontece porque existem as prévias de cada partido em cada estado, ou seja, há uma eleição para escolher qual candidato de fato entrará na corrida eleitoral este ano. No partido republicano, os principais pré-candidatos são Donald Trump, que tem um duro discurso com relação aos imigrantes e propõe a construção de um muro entre os EUA e o México, o banimento da entrada de mulçumanos no país e algumas propostas bizarras; Marco Rúbio, foi senador pela Flórida em 2010, questiona o aquecimento global, é contra a reaproximação estadunidense com Cuba, é contrário ao aborto mesmo em casos de estupro e incesto; Ted Cruz, assim como Trump, propõe a construção de um muro com a fronteira mexicana, é contra uma legislação que dificulte a compra de armas além de ser contrário à legalização da maconha e, assim como Trump e Rúbio, critica fortemente a ideia da existência do aquecimento global.

No partido democrata, são apenas dois os principais: Hillary Clinton e Bernie Sanders. Hillary foi senadora por Nova Iorque, secretária de governo de Obama entre 2009 e 2013, além de ter sido primeira-dama entre 1993 e 2000 e tem uma proposta bastante progressista com relação a igualdade salarial entre homens e mulheres e regulamentação do setor financeiro. Sanders, que faz parte de uma ala ainda mais liberal dentro do partido democrata, tem um discurso duro contra o setor financeiro e promete universidades gratuitas nos EUA, tendo um forte apoio dos mais jovens. Nesse primeiro momento, cada estado dos EUA escolhe os delegados que apoiarão os pré-candidatos na convenção nacional de cada partido em julho. A partir daí os candidatos percorrerão o território nacional em busca de votos.

O discurso inicial de política externa dos republicanos se mostra contrário a todas as conquistas do governo Obama, como as reaproximações de Cuba e Irã. O discurso dos democratas parece bem próximo ao que já é feito no atual governo. E apesar de tratarem em grande parte de temas domésticos em suas prévias, como a causa do aborto e das armas, é importante buscar nas falas dos pré-candidatos pistas que nos ajudem a projetar a participação estadunidense nesse período crítico que vive a economia mundial – de baixo crescimento do PIB global, puxado principalmente pelos emergentes. Além de temas internos polêmicos, o novo presidente precisará ter boa articulação para resolver problemas de política internacional.

Iago L Silva

Mestrando em Economia o Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

* estadunidense é o gentílico de quem nasce nos Estados Unidos e não reflete o fato do autor do texto ser de esquerda ou de direita

**para acompanhar de perto as eleições nos Estados Unidos, além de seguir colunistas que tratam do tema como Guga Chacra, é interessante seguir agências de notícias que tratam mais de perto o assunto se comparado com a mídia brasileira, como CNN, The Economist, DW e em especial eu recomendo um canal excelente no Youtube, o Xadrez Verbal, que além de vídeos trata do tema por podcasts também.

***as ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos dos autores, não de todos os membros do grupo.

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Deu Zika!

Há tempos se observa certo esvaziamento da mídia, cujas preces diárias de seus representantes giram em torno do surgimento de uma tragédia, escândalo ou polêmica qualquer, a fim de “aquecer” suas pautas nos telejornais. A morte de algum famoso, uma peça nova no quebra-cabeça da corrupção, a amiga do papa, o forjado “culto à mandioca da presidenta” e agora o Zika Vírus. Entra matéria, sai matéria e o Zika permanece. Sabemos que realmente é uma questão preocupante, mas que deveria ser tratada com a seriedade necessária e não ser foco de uma superexploração, com o objetivo de diminuir o desespero da mídia em encontrar notícias, sejam relevantes ou não.

O desespero do jornalismo vazio (não é o caso de todos, é claro) tem diminuído à medida que ele o espalha por toda a sociedade. “Gestantes, vistam calça e blusa de manga comprida, dentro de casa, além de manter portas e janelas fechadas”, disse o jornalista um dia desses. Como assim?? No Brasil? Nessa época do ano? Como se todo mundo pudesse viver de ar-condicionado.

“Você prefere vestir roupas mais claras ou ser picado pelo mosquito que transmite o Zika”? Perguntou o repórter nas ruas de São Paulo, após noticiar que há indícios de que o mosquito é mais atraído por roupas escuras, principalmente o preto. Ainda se a avalanche de notícias fosse em torno da conscientização…vá lá!! A verdade é que, certamente, a camiseta branca não vai contribuir mais para a resolução do problema que o fim dos criadouros.

Não proponho aqui que se mascare ou esconda o problema, mas que se tenha mais responsabilidade ao situar-se enquanto veículo de comunicação e difusor de informações, principalmente nesse contexto em que existe uma verdadeira avalanche de notícias e opiniões, a respeito de tudo, principalmente na internet. Uma das soluções para esse esvaziamento da mídia seria o questionamento por parte da população que recebe um verdadeiro turbilhão de notícias diariamente, muitas vezes sem checar as fontes, veracidade e teor de sensacionalismo contido nelas. Além disso, a própria mídia poderia fazer uma espécie de crítica interna, na qual um veículo de comunicação seria crítico do outro, criando debate com argumentação e não perseguição vazia de conteúdo (o que acaba acontecendo, por vezes, na mídia impressa brasileira).

Em relação a essas soluções, surge um novo problema. Como tecer críticas sobre determinada conduta de seu “concorrente”, uma vez que você faz exatamente a mesma coisa? Essa é a realidade da mídia hoje, sobretudo a televisão, principalmente após a proliferação das agências de notícias, as quais comercializam as matérias prontas que são difundidas por diversos canais (sem que se altere uma vírgula sequer) e repetidas muitas vezes em todos os telejornais de um mesmo canal. Quem nunca percebeu isso?

Pois é, deu Zika! Realmente, a realidade é desalentadora e pode fazer com que as propostas de solução permaneçam apenas no campo das ideias. Diante disso, o mínimo que nos cabe é exercitar e incitar ao nosso redor o exercício do senso crítico – em escala cada vez maior – para que possamos ser menos influenciados por essa onda de desespero que permeia cada vez mais os difusores de informações.

Até mais,

Douglas

*as ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos dos autores, não de todos os membros do grupo.

Em tempo, compartilho com vocês um vídeo engraçado que um amigo me mostrou sobre a repetição de notícias prontas. Vale a pena dar umas risadas!!

Tô me guardando pra quando o carnaval “passar”…

No Brasil o senso comum apregoa que o ano só começa depois do carnaval (não posso deixar de me incluir). O carnaval finalmente passou, estamos na quarta-feira de cinzas, e agora? O que nos aguarda em 2016?

Muito se fala sobre uma confluência de crises (política, econômica, ambiental, etc) e parece que vai mais longe. As pessoas estão ansiosas, depressivas, histéricas, raivosas. A necessidade de ler e comentar sobre tudo é imperativa e parece que vivemos uma séria crise moral. Nesse contexto fica complicado analisar as coisas sob o prisma meramente econômico…

A sensação é de que nossa capacidade de enxergar e entender qualquer coisa que vá um pouco além da nossa realidade é reduzida e parece que existe uma impossibilidade em admitir que a mesma coisa tem o lado positivo e negativo, e que tudo é assim.

Nosso maniqueísmo é tão grande que parece que até para não concordar com algo é obrigatório  concordar com o oposto.

Quando fala-se em dólar alto, por exemplo, pensamos nas nossas compras, nas nossa viagens. Aí vem alguém e diz: “ah, mas que pensamento pequeno, dólar desvalorizado é uma boa forma de incentivo as exportações e a indústria interna”; assim como há também quem diga: “ah, mas assim a inflação não cede…”

Veja bem, essas coisas podem ser verdade, mas, como tudo, não são absolutas e estáticas. Dólar desvalorizado é muito bom para vender soja, mas é claro que é melhor que esteja mais desvalorizado em março (mesmo sabendo de como o mercado futuro está forte e em muito desprende a venda da data de colheita) do que no final do ano, quando iniciam-se os plantios e há as compras de insumos (quase todos importados).

Dólar desvalorizado pode ser muito bom pra incentivar a indústria interna, mas também pode ser uma enorme restrição externa pra indústrias dependentes de componentes importados, etc. (Quero deixar bem claro que, ao meu ver, é preferível um dólar mais desvalorizado, o exemplo é apenas pra ilustrar que verdades mudam bastante quando vamos analisar cada caso e que nunca uma política ou qualquer outra coisa pode ser positiva pra todos. Toda vez que algo muda alguém sai ganhando e alguém sai perdendo).

Assim é para tudo. Paras reformas que tanto demandamos também, a exemplo da necessidade de reforma tributária, que é quase um consenso, ao passo que como ela deve ser não é e nunca será… Não se trata de uma decisão apenas técnica, trata-se de jogo de poder, de política, de ideologia, de como se entende economia.

O meu ponto é: existe historicidade, particularidade, heterogeneidade no mundo. Pensar os problemas do Brasil ou do outro com os nossos olhos sem fazer um esforço de empatia complica tudo. O nosso maior problema é esse: a incapacidade de pensar além de nós mesmos e de conseguir enxergar em cada governo, política e problema o que concorda e o que discorda. Saber que não temos que assumir um lado e achar que tudo que está no outro está errado e não conseguir atribuir nada bom a ele.

Assim, agora que o carnaval passou, penso que talvez seja a hora não só de programar a dieta ou o exercício, mas também de mudar a forma de pensar os problemas.

Até a próxima,

Ludmila

*as ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos dos autores, não de todos os membros do grupo.

Será? Depende.

É com grande alegria que tenho o prazer de inaugurar um projeto que já estava no forno desde o ano passado. O grupo existe desde 2014, mas o blog surgiu após um de nós dar a ideia  de escrever a respeito daqueles assuntos que costumam gerar mais de 100 mensagens em menos de 1 minuto no nosso grupo  do whatsapp. E por que não?

O primeiro assunto tratado será sobre economia, mas busquei escrever de uma forma descomplicada para que o leitor, por menos familiarizado que seja com o tema, se sinta a vontade durante a leitura e possa, se quiser, comentar a respeito também.

A discussão no Grupo da Cris se iniciou após a leitura dessa reportagem. A reportagem incitou uma série de comentários, entre nós, mas também de leitores virtuais, que chegam a ser até engraçados de tanto raivosos que são, as pessoas nas redes sociais têm tanto ódio que às vezes tenho a impressão que passaram a descontar nos textos de economia e política aqueles momentos em que batem o dedinho do pé na quina da porta!

Algumas questões foram levantadas no diálogo, como se é possível oferecer crédito com o nível de endividamento atual, se apostar na iniciativa privada não seria mais uma decisão errada repetida, que já não deu certo em outros momentos, se o Estado aumentar os investimentos em infraestrutura não seria mais viável (…).

Na minha opinião, todas essas perguntas que fizemos podem ser respondidas com a palavra que nós economistas temos uma relação de amor e ódio: depende. A forma como o setor privado vai responder a qualquer ação do governo, se as expectativas serão ajustadas para melhores ou mesmo piores,  ainda é muito incerto, pois depende também do comportamento de outras variáveis. Além disso, o tempo com que vai levar esse tipo de medida ter impacto na economia, é outra incógnita.

A despeito da discussão se o governo precisa ou não intervir no mercado,  comecei a nos perguntar se a maneira de incentivar, a forma de se chegar a um cenário mais favorável, parecido com o que tínhamos não precisaria ser repensada. Adiantaria facilitar financiamentos, dar maior acesso ao crédito, subsídios (…) capital de uma forma mais direta, se não se tem o controle de como o dinheiro será gasto? A ideia é bacana. Governo buscando incentivar iniciativa privada e tal, mas a questão é:  para onde vai esse recurso, como ele realmente é utilizado? A impressão que tenho é a de que a partir do momento que o dinheiro está na conta do empresário, muitos poderão não saber o que fazer com ele. Quitar dívidas? Comprar maquinário/ contratar mais funcionários? Diferencia o produto ou mercado? Utilizar como giro? São n as possibilidades.

Daí é que surgiu uma dúvida/ideia: será que nos bancos, principalmente nos públicos, o campo de prestação de consultoria existe e é disponibilizado para os clientes que captam recursos? Pode ser por falta de conhecimento, mas até onde eu sei, existe sim uma certa fiscalização da aplicação dos recursos adquiridos com subsídios do governo, mas ainda me parece pouco.  Vamos fazer o seguinte exercício: se imagine não como uma vítima que trabalha parte do ano apenas para pagar tributos que são mal administrados pelo governo, te fazendo pagar a mais por um pedágio, segurança, escolas particulares, e todas as lamentações que já sabemos de cór e  salteado (..), mas sim como um investidor que destina parte de sua renda para uma entidade (governo) que lhe dará em troca alguns serviços básicos como segurança e saneamento, além de realizar ações sociais, buscando promover o combate a fome, ao trabalho infantil, a violência doméstica etc. Se o governo fosse uma empresa e você estivesse investindo nela, esperaria uma contrapartida que seja em formato de serviços, certo? Pois é, a questão é que nós pouco acompanhamos os resultados dos nossos “investimentos”, bem como essa empresa (governo) também pouco o faz, ao que me parece. Onde estão os controles das aplicações que os agentes fazem com o dinheiro que tomaram emprestado a juros baratos? Como saberemos que serão bem investidos, de maneira a gerar dinamismo para a economia, ou se servirão apenas para aumento na taxa de lucro ? Talvez hoje os micro e pequenos empreendedores precisem mais de uma consultoria especializada, que poderia indicar os limites e as oportunidades que o cenário econômico apresenta, ao invés de apenas uma injeção de dinheiro em um período de expectativas abaladas.

Será que não perdemos muito tempo  nos preocupar se a teoria a, b, ab, ba está certa ou errada ao invés de nos preocupar com qual prática é mais adequada ? Se o Sr. João da padaria da minha rua ler uma notícia compartilhada por uma das grandes mídias no facebook, dizendo que a taxa de Juros Selic pode aumentar, com certeza isso não vai impactar tão diretamente no preço dos seus produtos. Mas se ele for visitado por um consultor, que prestasse o serviço de mostrar onde ele pode economizar, como ele pode gerar mais renda, independente de qual vai ser a capa de indicativo catastrófico que aquela revista vai apresentar na próxima edição,  talvez a engrenagem da economia fosse sendo purificada aos poucos, de maneira o dinamismo poderia ser visto mais uma vez.  É claro que existem empresas especializadas nesse tipo de serviço, mas o que me veio é, já que o governo quer incentivar o privado, porque não buscar uma nova forma de incentivo?

De qualquer forma, são apenas pensamentos soltos traduzidos em palavras. Espero ter feito você, leitor, pensar um pouco além do que costumava pensar, ou então, concordar, discordar – se pensou, já cumprimos o objetivo do projeto. Além disso, lembro que as ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos dos autores, não de todos os membros do grupo.

Até a próxima,

Yas.