Tô me guardando pra quando o carnaval “passar”…

No Brasil o senso comum apregoa que o ano só começa depois do carnaval (não posso deixar de me incluir). O carnaval finalmente passou, estamos na quarta-feira de cinzas, e agora? O que nos aguarda em 2016?

Muito se fala sobre uma confluência de crises (política, econômica, ambiental, etc) e parece que vai mais longe. As pessoas estão ansiosas, depressivas, histéricas, raivosas. A necessidade de ler e comentar sobre tudo é imperativa e parece que vivemos uma séria crise moral. Nesse contexto fica complicado analisar as coisas sob o prisma meramente econômico…

A sensação é de que nossa capacidade de enxergar e entender qualquer coisa que vá um pouco além da nossa realidade é reduzida e parece que existe uma impossibilidade em admitir que a mesma coisa tem o lado positivo e negativo, e que tudo é assim.

Nosso maniqueísmo é tão grande que parece que até para não concordar com algo é obrigatório  concordar com o oposto.

Quando fala-se em dólar alto, por exemplo, pensamos nas nossas compras, nas nossa viagens. Aí vem alguém e diz: “ah, mas que pensamento pequeno, dólar desvalorizado é uma boa forma de incentivo as exportações e a indústria interna”; assim como há também quem diga: “ah, mas assim a inflação não cede…”

Veja bem, essas coisas podem ser verdade, mas, como tudo, não são absolutas e estáticas. Dólar desvalorizado é muito bom para vender soja, mas é claro que é melhor que esteja mais desvalorizado em março (mesmo sabendo de como o mercado futuro está forte e em muito desprende a venda da data de colheita) do que no final do ano, quando iniciam-se os plantios e há as compras de insumos (quase todos importados).

Dólar desvalorizado pode ser muito bom pra incentivar a indústria interna, mas também pode ser uma enorme restrição externa pra indústrias dependentes de componentes importados, etc. (Quero deixar bem claro que, ao meu ver, é preferível um dólar mais desvalorizado, o exemplo é apenas pra ilustrar que verdades mudam bastante quando vamos analisar cada caso e que nunca uma política ou qualquer outra coisa pode ser positiva pra todos. Toda vez que algo muda alguém sai ganhando e alguém sai perdendo).

Assim é para tudo. Paras reformas que tanto demandamos também, a exemplo da necessidade de reforma tributária, que é quase um consenso, ao passo que como ela deve ser não é e nunca será… Não se trata de uma decisão apenas técnica, trata-se de jogo de poder, de política, de ideologia, de como se entende economia.

O meu ponto é: existe historicidade, particularidade, heterogeneidade no mundo. Pensar os problemas do Brasil ou do outro com os nossos olhos sem fazer um esforço de empatia complica tudo. O nosso maior problema é esse: a incapacidade de pensar além de nós mesmos e de conseguir enxergar em cada governo, política e problema o que concorda e o que discorda. Saber que não temos que assumir um lado e achar que tudo que está no outro está errado e não conseguir atribuir nada bom a ele.

Assim, agora que o carnaval passou, penso que talvez seja a hora não só de programar a dieta ou o exercício, mas também de mudar a forma de pensar os problemas.

Até a próxima,

Ludmila

*as ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos dos autores, não de todos os membros do grupo.

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2 comentários sobre “Tô me guardando pra quando o carnaval “passar”…

  1. Texto sensato, o que é muito bom se ver atualmente. Nesse sentido, uma surpresa.
    Mas por se tratar da autora, que conheço há um bom tempo, nada de surpresas.
    Sucesso “pro cê” e pro blog, Lurdes.
    Bjão.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: Crise moral e falsas analogias

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