O consenso é a negociação da liderança (Margaret Thatcher)

Com o declínio recente da economia brasileira, a média de crescimento, tão ostentada pelo PT em seu governo, está cada vez mais dependente do passado do que do presente e futuro. Agora, até que ponto podemos esperar que a memória da população seja boa o suficiente para manter no poder uma presidente que vem perdendo a identificação social?

blog

Em 2010 o PIB brasileiro cresceu 7,6%, foi um auge de crescimento após um período de grandes reformas sociais ocorridas no Brasil, um período lembrado com orgulho pelo povo, pois passou a ter voz e atrair o interesse do governo, que propôs e fez grandes reformas sociais estruturais. A redução da desigualdade social foi tratada em várias frentes pelo governo Lula, com o aumento real do salário dos trabalhadores, o ingresso do povo nas universidades públicas e privadas, profissionalização nas escolas técnicas federais, formalização dos micro e pequenos negócios e diversos programas que beneficiaram nichos sociais esquecidos por outros governos e que agora estão transformando a estrutura social nacional.

Porém, a partir de 2011 o PIB brasileiro passou a crescer em um ritmo cada vez menor, chegando, segundo alguns analistas, a uma grande depressão em 2016, dado dois anos seguidos de forte recessão. Atualmente estamos no 6° ano de governo Dilma sem uma grande conquista para celebrar.  Temos uma agenda mais próxima da oposição do que do PT e com poucas mudanças na forma de se lidar com a crise econômica em seu segundo mandato, intensificando o ajuste em reformas econômicas que reduzem os direitos sociais, mas com a manutenção, sem revisão, de vultuosos subsídios, que já passam de 400 bilhões de reais para empresários que não investem no setor produtivo nacional.

Pela mídia, a presidente da 7° maior economia mundial é vista como uma grande negociadora de cargos e benefícios para permanecer no poder, um exemplo é o atual ministro da saúde Marcelo Castro (PMDB-PI), que já se envolveu em uma investigação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no qual pediram a anulação de seu mandato de deputado pela suspeita de compra de votos, além disso, já foi acusado pela Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares  de ser  incapaz de lidar com a atual crise do sistema público de saúde, dadas suas declarações polêmicas e inconvenientes, como “torcer para que mulheres pegassem o Zika antes de engravidar”, o Brasil esta perdendo a batalha contra o mosquito Aedes Aegypte e “sexo é para amadores e gravidez é para profissionais”. Em um ano normal de governo Lula seus defensores diriam que estas negociações fazem parte do jogo político para o bem final do povo, porém como justificar este tipo de comportamento agora? Em 2015, perguntávamos se um presidente consegue governar o país sem aliados, hoje a pergunta já deve estar em outro patamar, será que um presidente consegue governar sem base?

Muito tem se falado de uma agenda política progressista ou ainda um projeto de país, porém neste ambiente político adverso quem realmente está batalhando por isso? O poder não tolera fraquezas, e o presidente de uma economia expressiva como o Brasil não pode ficar refém de chantagens e jogos políticos, que não seja o protagonista, isto não é compatível com o desenvolvimento de um projeto de país, na verdade não é compatível com nada e nos reflete a outro termo muito mencionado nas eleições presidenciais de 2015, o tal retrocesso.

Em um período de crise econômica boas intenções não faltam, depois de muita articulação política o senador José Serra (PSDB-SP) conseguiu passar seu projeto de flexibilização das normas para participação da Petrobrás no pré-sal. A articulação contou com o apoio do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da presidente Dilma Rousseff (PT) que contrariou seu próprio partido na decisão de apoiar o projeto.

De acordo com o professor Edmilson Coutinho, do Instituto de Energia e Ambiente, da Universidade de São Paulo (USP) as mudanças na legislação do pré-sal são necessárias para dar folego ao caixa da Petrobrás, alavancar os investimentos no pré-sal, ampliar a independência gerencial da empresa. O novo texto desobriga a Petrobrás de ser a operadora única e de ter participação mínima de 30% dos investimentos no pré-sal.

O problema, ao meu ver, é que a votação foi acelerada, sem um debate digno da importância do tema e, pra piorar, o documento aprovado é impreciso em várias questões que devem ser revisadas, inclusive o ponto mais sensível e que demorou meses pra ser aprovado que é a distribuição dos royalties do pré-sal para saúde, atualmente 25%, e educação em 75%. O documento ainda dá preferência à Petrobrás na exploração do pré-sal, para tanto, a Petrobrás terá 30 dias para identificar quais áreas é de seu interesse após ser notificada pelo conselho. Após se manifestar, o CNPE deverá propor à Presidência da República quais blocos deverão ser operados pela empresa, recomendando a participação mínima da empresa.

Neste arranjo operacional, dependendo de uma negociação entre o CNPE e o presidente da república vigente, acredito que o texto trás grandes mudanças práticas para a exploração do pré-sal, pra começar, transforma uma política estratégica de Estado numa política de governo, que poderá variar de acordo com o presidente vigente, sobre um ativo que levará décadas de exploração, podendo gerar instabilidade jurídica e legislativa num ambiente de investimento à longo prazo.

Dada à conjuntura política, acredito que o apoio popular à democracia e ao ex-presidente Lula são fundamentais para a presidente, além de ser a única força que a mantém no poder atualmente. Estas negociações ao qual a presidente está se submetendo até agora, tem como resultado o desgaste político com sua base, o distanciamento da presidente com o povo, o prolongamento de sua elevada taxa de rejeição e o aumento da incerteza política, por isso, talvez todas estas concessões e negociações que Dilma está entregando para permanecer no poder, seja a grande força que a enfraquece e a pressiona por um impeachment.

Isto porque não há uma contrapartida aceitável para tamanho pagamento, e a lista de oportunidades de chantagens políticas ainda é longa, podendo ameaçar o ajuste fiscal com pautas bomba, recusa em aprovar as medidas de ajuste, acelerar a votação de projetos contrários ao governo, aprovar a flexibilização no regimento do pré-sal, a reforma previdenciária e tantas outras reformas que o país precisa. Nada mais paradoxo do que negociar a permanência do mandato com a estrutura corrupta que tentou destruir. O objetivo da oposição não é mais negociar favores, apoios ou projetos. Agora, o objetivo é fazer a presidente sangrar, e se não conseguir um impeachment, não tem problema, as eleições são em 2018 e a oposição tem folego e pautas bombas o suficiente pra chegar a te lá, e o que conseguir pelo caminho já é um bom lucro.

Acredito que as coisas estão acontecendo no Brasil porque com a revolução do acesso à educação, os brasileiros estão menos propensos a aceitar as coisas como elas estão e querem uma liderança que reforme o Brasil em busca de alternativas a este país, em que, com recursos tudo pode e qualquer um manda, um país que talvez nossa presidenta já não representa com tanto vigor como no começo de seu governo. Neste estado caótico e carente de perspectivas, onde o progresso faz cada vez mais parte de nosso passado do que nossa perspectiva de futuro, onde uma presidente troca de partido e de ideologia de forma explicita e não necessariamente formal, em que a manutenção de seu cargo está mais ligada à fé popular no PT e no ex-presidente Lula do que pelo seu próprio desempenho.

A impressão que tenho é que estamos desenvolvendo nosso espírito crítico envolto em um vórtice de verdades e mentiras, intensificados pela mídia, sociedade e pelo governo. Não há como construir uma sociedade que supere tais dificuldades se continuarmos defendendo nossas opiniões em trincheiras de vidro, escondendo nossas intenções egoístas em um manto de país melhor.

Abraço,

Kel

*as ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos dos autores, não de todos os membros do grupo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s