Hollywood: Crise criativa ou econômica?

Nos idos de 2007 Syd Field, um dos maiores roteiristas de Hollywood alertou, em uma de suas palestras sobre cinema, como a indústria cinematográfica estava passando por transformações um tanto quanto profundas, e uma inescapável crise criativa. Mas Hollywood não é apenas uma das maiores produtoras de conteúdo audiovisual do mundo, se trata do centro de produção cultural mais importante do ocidente, e que por via disso acaba por transmitir toda a identidade cultural da maior potência do mundo. Mas estaria o centro da criatividade estadunidense de fato em crise?

Falar em crise de criatividade de forma geral me parece um tanto quanto forte, uma vez que filmes são lançados atrás de filmes e a produção não para, mas quanto a crise de originalidade essa de fato ocorre. Desde início da década de 2000 uma enxurrada de filmes adaptados de HQs, ou sequencias de universos já criados foram propagados nas telonas. Títulos como Homem-Aranha, Harry Potter, Transformes, e o mais recente universo cinematográfico da Marvel tem mostrado seu poder de arrecadação, e a disposição dos estúdios de não se arriscar em histórias originais, garantindo grandes investimentos em obras com maior possibilidade de retorno financeiro.

Retorno financeiro? Sim. Por que não seria? Antes de tudo se faz necessário reconhecer que Hollywood, assim como quase toda a produção audiovisual feita em qualquer parte do mundo é uma indústria. E, vale ressaltar, uma indústria poderosa, capaz de movimentar bilhões de dólares e empregar uma quantidade gigantesca de profissionais, e como tal, a necessidade de retorno financeiro se justifica. Entretanto se percebe cada vez mais que os executivos dos grandes estúdios hollywoodianos têm trocado qualquer risco pela acomodação de garantir lucros, o que pode ser perigoso para a maior indústria cultural do ocidente.

Não que histórias de super-heróis sejam necessariamente ruins, mas ao focar sua produção em criar grandes pacotes de marketing em torno de sequencias e adaptações de histórias já consideradas populares a indústria pode garantir o torno de um lucro previsível em detrimento da criatividade característica do centro produtor de cultura e entretenimento que está em xeque. Se o foco da própria produção é o lucro, poderíamos falar de uma possível crise econômica em Hollywood?

O advento da internet trouxe problemas não apenas para a indústria fonográfica, que hoje vende apenas algumas parcelas reduzidas dos álbuns que vendeu no final da década de 1990. Com a popularização e barateamento de conexões de internet de banda larga, e o sucesso de serviços de streaming e de TV por demanda, bem como a corrida tecnológica com criação de aparelhos televisores com qualidade de imagem e som cada vez melhores, se tornou possível pra que cada um possa ter em sua casa uma sala de cinema. E Hollywood está sentido no bolso o impacto da concorrência com o mundo virtual. Mesmo que se analise os lançamentos recentes como Os Vingadores, e Star Wars: O Despertar da força, com arrecadação de respectivamente 1,5 bilhão e 2 bilhões, inegáveis sucessos de bilheteria, quando comparados em valores reais (ajustados com a inflação) não conseguiram ultrapassar o desempenho de clássicos, como …E o vento levou, ou E.T. o extraterrestre*.

star wars.jpgA franquia sem fim de Star Wars significa dinheiro infinito no bolso da Disney? (Foto: Divulgação/Disney)

Para fazer a audiência sair do conforto de seu sofá e se dirigir ao cinema mais próximo, a indústria tem entendido ser necessário ampliar investimentos em marketing e diferenciação da apresentação do produto. Mas não diferenciação do produto em si. Grandes promoções, investimentos milionários em novas tecnologias como a inovação do cinema 3D – já no filme Avatar (2009) – a criação e expansão de salas IMAX, o estabelecimento de universos cinematográficos, moldagem de personagens que gerem afeição com o público capaz de motivar a criação de fã bases são medidas entendidas como capazes de lotar as salas de exibição da próxima produção. A criação de universos cinematográficos, do ponto de vista do roteiro, aproxima das histórias do cinema às séries de televisão. O público passa a esperar e acompanhar o próximo filme da franquia assim como espera pelo próximo episódio da nova temporada de sua série preferida.  Ao mesmo tempo, a necessidade de se criar histórias com caráter mais global, capaz de atender audiências a nível mundial, se torna uma realidade em uma indústria cada vez mais internacionalizada e menos dependente de resultados domésticos, no caso dos próprios Estados Unidos. Bem mas essa ainda é outra discussão.

E sair da zona de conforto, ainda que de forma razoavelmente sútil, pode ser sinônimo de sucesso, mesmo que não seja uma tarefa fácil. O recente lançamento de Deadpool (O anti-herói mercenário e tagarela da Marvel) demonstrou isso. Mesmo sendo uma adaptação, ao se fazer mais fiel a história original, repleta de sangue, violência, humor ácido e até mesmo autocrítica somada a um orçamento relativamente baixo – que difere das atuais produções – o título conseguiu até o momento arrecadar cerca de 700 milhões* mundialmente (mais de 11 vezes seu orçamento), um sucesso claramente inesperado, daquele que era considerado um investimento de alto risco pelos executivos da Fox.

De qualquer forma, apesar da indústria cinematográfica estadunidense estar passando por grandes desafios, os caminhos escolhidos são cada vez mais reafirmados, como na recente intenção de se criar um universo da Dc Comics, editora de HQs famosa por personagens como Superman e Batman. Como já dito isso pode não ser necessariamente ruim. Entretenimento de qualidade é feito como em Os Vingadores (2012), Guardiões da galáxia (2014) e franquias de animação como os divertidos Minions (2015) que surgiram do anterior Meu Malvado Favorito (2010). Mas mesmo para entreter a indústria está dizendo ao espectador para não esperar muito mais que adaptações e caso o ‘novo’ título alcance sucesso espere revê-lo dentro de alguns poucos meses novamente. E pode ter certeza que Hollywood deseja que você o faça, de preferência na sala de cinema 3D mais próxima.

Até a próxima,

Marcelo

*Informações sobre bilheteria foram retiradas do site Box Office Mojo.

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