A queda dos investimentos externos no Brasil representa de fato a queda dos investimentos externos no Brasil?

Todas as transações realizadas entre pessoas e/ou empresas residentes no Brasil com o resto do mundo e, todas as transações entre não residentes com o Brasil são contabilizadas numa conta única, o chamado Balanço de Pagamentos (BP). Dentro do BP podemos encontrar todos os valores dessas transações, seja de bens ou serviços. O Balanço de Pagamentos possui, resumidamente, três grandes contas para diferenciar estas transações quanto sua natureza, sendo elas: Conta Corrente, Conta Capital e a Conta Financeira. A Conta Financeira é aquela que contabiliza o nosso objeto de interesse, os “investimentos” externos.

Quando coloco o investimento entre aspas, o faço no intuito de alertar para os erros que o uso comum desta palavra pode nos levar. O conceito de investimento*, em economia, se refere ao incremento da formação bruta de capital fixo (compra de máquinas, equipamentos, etc.), e não a simples aplicação de recursos na busca por valorização. Assim, a compra de ações de uma empresa brasileira por um estrangeiro, por exemplo, não apresenta o caráter de investimento de fato, mas apenas uma aplicação financeira através da troca de propriedade (se estas ações não forem aquelas lançadas diretamente pela empresa).

Desta forma, quero alertar para o fato que parte dos recursos que entra no país através da Conta Financeira, comumente chamado de investimento, não é propriamente um investimento. Sendo assim, precisamos qualificar quais são as subcontas dentro desta Conta Financeira para conseguirmos distinguir o investimento produtivo do investimento não produtivo.

A Conta Financeira é dividida (no seu primeiro nível de abertura) em outras quatro subcontas, sendo elas: Investimento Direto (ID); Investimento em Carteira (IC); Derivativos e Outros Investimentos. As duas primeiras contas (ID e IC) são as que possuem maior participação quanto a entrada líquida de recursos (entrada líquida de U$ 82,24 bilhões de dólares em 2015, enquanto os OI e DR apresentaram uma saída líquida de U$ 18,66 bilhões de dólares, também em 2015**) nos últimos anos (além de também possuírem alta volatilidade) e, são as que mais confundem os leitores quanto a natureza de seus recursos, já que as duas levam nos seus primeiros nomes a palavra investimento.

conta financeria

Conta Financeira do Balanço de Pagamentos segundo a nova metodologia (BPM6)

Fonte: Elaboração própria

Os capitais entrantes qualificados como Investimento em Carteira são aqueles destinados a compra de ações e/ou títulos. No entanto, tanto a compra de ações quanto a de títulos podem ser apenas troca de propriedade, financiamento do governo, ou de fato, recursos destinados a ampliação da capacidade financeira para se realizar investimento do tipo produtivo. O que quero frisar é que aqueles capitais entrantes desta rubrica não necessariamente são “capitais bons” para o nosso país, no sentido de gerarem emprego. Assim, quando vemos notícias de que reduziram a entrada de “investimentos” no país não podemos inferir que está redução é um fato tão ruim quanto parece, mas que devemos melhor qualificá-la quanto a natureza deste capital. Lembrando, é claro, que precisamos da entrada de capitais externos sim, pois necessitamos de moeda estrangeira (dólar) para realizarmos outras transações com o resto do mundo, mas, lembrando também, que a entrada de capitais a fim de buscar aplicações mais rentáveis e não produtivas requer o envio de lucros e juros no futuro, que representa um envio de renda para o exterior.

Quanto aos Investimentos Diretos, ainda que estes normalmente tenham caráter mais produtivo, nem todos os fluxos de capitais entrantes por esta rubrica também podem ser qualificados como investimento. As duas subcontas que dividem os Investimentos Diretos (saltando a prime divisão entre residentes [ativos] e não-residentes [passivo], para facilitar o raciocínio) são os Empréstimos Intercompanhia e a rubrica Participação no Capital. Dessa forma, os recursos entrantes por estas subcontas também podem ser apenas troca de propriedade (e não investimentos como qualificamos no início do texto), já que a compra de mais de 10% das ações preferencias de uma empresa é qualificada como ID Participação no Capital e, a entrada de recursos através de empréstimos – ID Empréstimos Intercompanhia (transação normalmente realizada entre matriz e filial) – não necessariamente será vinculado à atividade produtiva.

Em suma, o que pretendi foi o esclarecimento daquilo que chamamos de investimento estrangeiro, chamando à atenção para a diferença entre investimento real, do uso comum da palavra “investimento”, que neste último caso pode ser mera aplicação financeira, não guardando nenhuma relação com o setor produtivo. Além do fato de que a oscilação dos resultados das contas que recebem estes capitais não é tão simples assim de ser qualificada.

Obrigado pela leitura!

Observações e críticas serão recebidas com grade apreço.

Henrique***

* INVESTIMENTO. Aplicação de recursos (dinheiro ou títulos) em empreendimentos que renderão juros ou lucros, em geral a longo prazo. Num sentido amplo, o termo aplica-se tanto à compra de máquinas, equipamentos e imóveis para a instalação de unidades produtivas como à compra de títulos financeiros (letras de câmbio, ações etc.). Nesses termos, investimento é toda aplicação de dinheiro com expectativa de lucro. Em sentido estrito, em economia, investimento significa a aplicação de capital em meios que levam ao crescimento da capacidade produtiva (instalações, máquinas, meios de transporte), ou seja, em bens de capital” (SANDRONI, Paulo. Novíssimo dicionário de economia. Editora Best Seller, 1999)

** Dados do Banco Central do Brasil (http://www.bcb.gov.br/pt-br/#!/n/SERBALPAG)

*** Mestrando em Economia pelo IE/UFU

**** As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

Anúncios

Um comentário sobre “A queda dos investimentos externos no Brasil representa de fato a queda dos investimentos externos no Brasil?

  1. Vocês prestam um grande serviço aos leigos, Henrique, valeu..nesse aqui a diferenciação entre investimento e aplicação de recursos em busca de valorização (o que chamamos de especulação, neh?) ficou bem clara, desanuviou umas coisas.. Falei num outro post, seria legal que vcs publicassem os textos em páginas de escolas, por exemplo..

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s