Economia e Ética

Desde o início do século XX, enraizou-se na nossa sociedade o conceito utilitarista, no qual a elevação de consumo geraria aumento de bem-estar. Junto com essa ótica, houve uma explosão da população, do crescimento econômico e das tecnologias em um período marcado por mudanças intensas. A ciência econômica, nesse cenário marcado por necessidade de avançar produtivamente, preocupou-se com intensas formalizações matemáticas e aproximações para que pudéssemos dar respostas a essas demandas.

Crescimento Econômico: o registro estatístico 

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Fonte: Maddison (2008).

Em resposta ao economicismo que pautava os conceitos de progresso, o economista indiano Amartya Sen foi laureado com Nobel de Economia, entre outras coisas, pela expansão do conceito de desenvolvimento. Até ali, as métricas que definiam uma nação mais ou menos desenvolvida estavam pautadas em indicadores econômicos, tais como PIB per capita, aumento de renda, industrialização etc. Muito disso decorre do fato de que as teorias do desenvolvimento enquanto ciência procuraram responder, em um ambiente geopolítico bipolar da guerra fria, questões relacionadas às economias do então denominado “terceiro mundo”, as nações subdesenvolvidas, e por isso trataram o desenvolvimento como sinônimo de aumento da complexidade capitalista, pautado no nível de consumo dos indivíduos e tendo os Estados Unidos como parâmetro.

Em sua obra, Sen alerta para uma confusão entre meios e fins do desenvolvimento.

“Os seres humanos são os agentes, beneficiários e juízes do progresso, mas também são, direta ou indiretamente, os meios primários de toda produção. Esse duplo papel dos seres humanos dá origem à confusão entre fins e meios no planejamento e na elaboração de políticas. De fato, essa confusão pode tomar — e freqüentemente toma — a forma de uma noção da produção e da prosperidade como a essência do progresso”

Dessa forma, crescimento econômico, produção e prosperidade seriam meios para encontrar um verdadeiro fim, a melhoria da qualidade de vida das pessoas. O autor desenvolve em sua argumentação o conceito de liberdades e capacidades. Nessa abordagem, o desenvolvimento seria caracterizado pela a expansão de liberdades humanas. Para isso,  defende que o Estado garanta liberdades instrumentais para que as outras, as verdadeiras liberdades, pudessem ocorrer, e não apenas atuar de maneira formal.

As  liberdades instrumentais colocadas por Sen seriam cinco: (1) políticas (o indivíduo escolher o que prefere para a sociedade e ter direito a criticar as ações que considerar erradas); (2) econômicas, com garantias de mecanismos de mercado; (3) oportunidades sociais; (4) garantias de transparência e (5) segurança protetora. Dessa forma, com o Estado sendo agente possibilitador de expansão das capacidades dos indivíduos, o desenvolvimento seria a realização do potencial humano, na medida que o aumento de capacidades leva a um aumento de possibilidades, e portanto, liberdade.

A crítica advém da hegemonia da ótica utilitarista de maximização de bem estar, que é expressa em consumo. Isso decorre do que Amartya Sen em sua obra Economia e Ética chama de o distanciamento entre as duas origens da Ciência Econômica: a ética e a engenharia. Na origem ética da economia, Sen recorre a Aristóteles, que afirma que a  realização  social  é  relacionada  com  a  necessidade  de  alcançar  o  “bem  para  o  homem”, tendo  em  vista  que  é  melhor  ainda  atingir  esse  objetivo para  toda  uma  nação ou para cidades-Estados, do que para apenas um homem.

A engenharia, a outra origem da  economia,  ocupa-se  de  questões  essencialmente  logísticas,  e  não  de  questões como  “bem  para  o  homem” ou  “como devemos viver”,  muitas vezes relacionando estudos econômicos a  análises  técnicas   da   estatística.   Apesar  de   as   origens   da   economia divergirem,  são  bastante importantes  e  nenhum  gênero  se  faz  totalmente  puro. Contudo, mesmo essa mistura ainda sendo presente, houve um empobrecimento da economia moderna devido ao distanciamento crescente entre Economia e Ética, muito influenciados pela “economia positiva”, que além de se distanciar de análises normativas, deixou de  lado  considerações  éticas  que  comprometem  o  comportamento humano real.

O ponto não é minimizar a importância e a relevância das grandes contribuições que ocorreram com a origem da engenharia da ciência, mas sim lembrar o que de fato são instrumentos e quais são os fins de uma nação desenvolvida. A Ética é justamente isso, a ciência que discute o que é certo e o que é errado. A ética cristã, por exemplo, é bastante divergente da que predominou na Grécia Antiga (coisas que eram consideradas boas e aceitáveis em uma sociedade, são consideradas negativas e altamente condenáveis em outras). A ética kantiana valoriza a intenção do indivíduo, enquanto a maquiavélica, os resultados, a utilitarista, a utilidade, e assim por diante.

A questão, então, é não se perder  – na busca incessante por resultados – a capacidade de reflexão sobre o que é certo, o que é errado, e que tipo de sociedade queremos e se, de fato, o que tanto buscamos nos leva a isso.

Atualmente temos uma sociedade com mobilização de classes e participação popular, embora de forma limitada e deficiente, muito melhor do que as sociedades anteriores em que havia completa rigidez de classes (ou de castas, a lembrar da origem indiana do autor). Convivemos no início da revolução industrial com a exaustão humana num ambiente de superexploração, ao longo do século passado com regimes totalitários, tanto da extrema esquerda, quanto da extrema direita.

Aqui no Brasil, tivemos, em um período denominado “Milagre Econômico”, altas taxas de crescimento convivendo com aumento da desigualdade e um ambiente antidemocrático, período marcado pelos “anos de chumbo” da ditadura militar. Sabemos o que não queremos e isso já é um passo. E queremos a liberdade, que é outro passo. Liberdade no seu sentido mais amplo, que contemple a diversidade cultural, outros valores e conceitos de felicidade, não uma que nos escravize num sistema com sinais crônicos de doença, que levam as pessoas ao estresse, a depressão, que convive com miséria e fome num mundo marcado por superprodução, que não da conta de responder de forma estrutural e coerente às novas demandas, como as ambientais, por exemplo.

Só faço uma ressalva: a busca pela liberdade não deve ser ahistórica e muito menos argumento para que se trate desiguais de forma igual. Liberdade não significa não reconhecer que por n fatores (culturais, políticos, geográficos, históricos, etc), algumas pessoas e territórios se encontram num total mundo de privação de liberdades.

A liberdade está em considerar minorias e tirá-las de um mundo de possibilidades restritas. Passa por reconhecer, como sociedade (e pagar), a dívida que temos com os negros; com as mulheres; a dívida que o desenvolvimento de São Paulo tem com o Nordeste (que foi construído não apenas por paulistas, mas com mão de obra e suor de toda uma nação); a dívida que os colonizadores têm com as colônias (principalmente quando se trata de exploração), que as nações centrais têm com as que sofreram e sofrem de imperialismo.

Tudo isso passa por um exame de consciência de toda uma sociedade pós-moderna, que entende sua liberdade individual cada vez mais como superior a todas as demais, sob uma ótica privatista, egoísta, que não leva em consideração os mais vulneráveis, muito menos se preocupa com as gerações futuras. Portanto, voltemos à ética e analisemos com calma e cautela os nossos valores, o que é desenvolvimento, o que é felicidade, qual é nossa finalidade.

Até a próxima,

Ludmila

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

**Amartya Sen é atualmente professor de Economia e Filosofia de Havard. O IDH (índice de desenvolvimento humano) foi criado pelo paquistanês Mahbub ul Haq com base nos conceitos de liberdade e capacidade de Sen, como uma alternativa para auferir o desenvolvimento de uma nação de forma mais humana, para além do PIB per capta.

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O assustador sucesso de Game of Thrones

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Em Game of Thrones as personagens demonstram ter mil faces e mais uma

 

Imagine um mundo dominado pela política, intrigas, mentiras, traições, dramas familiares, quebra de promessas, vingança, injustiça, guerras, confrontos, poder, tradições, conspirações, medo, horror, morte. Bem, isso tudo não parece ser muito promissor, e é claro que só podemos estar falando do mundo criado por George R.R. Martin e da série da HBO Game Of Thrones. Mas estamos falando deste universo?

Já faz décadas que a televisão e o cinema fazem parte da vida urbana, disseminando cultura e trazendo reflexões e, principalmente a partir dos anos 1970, criando verdadeiros fenômenos, que por óbvio, se transmitem em tendências de consumo, comportamento e atitudes. Mas é válido ressaltar que essa não é uma via de mão única. Tais fenômenos não apenas criam demandas para se atender as mudanças de uma sociedade, mas também buscam refletir aquilo com que a própria sociedade se identifica ou vive naquele momento. Eles não se criam do nada, ocorrem porque as pessoas daquela época se identificam, se reconhecem e se veem naquela determinada narrativa.

Grande parte da recente qualidade adquirida na TV se deve as séries que cada vez mais utilizam de roteiros bem elaborados e técnicas de produção em nível de cinema. E parte do sucesso das séries de televisão vem da capacidade de criar um forte vínculo com o público, uma identificação entre os personagens e o que o público vive, capaz de criar a verossimilhança e empatia necessárias ao estabelecimento de reflexões e questionamentos. É nesse ponto que alguns desses shows conseguem ultrapassar a fronteira das telinhas e se tornarem verdadeiros fenômenos culturais.

Mas o que histórias como as de um professor de química com câncer, um casal em busca do maior cargo da nação, um emaranhado de famílias em um jogo mortal de poder, uma aristocracia decadente e sobreviventes de um apocalipse têm em comum? Talvez a capacidade de demonstrar que o mundo em que vivemos não está dando tão certo, ou ainda, que a humanidade apresenta tantas facetas e tons de cinza que histórias tradicionais de vilões e mocinhos unidimensionais são incapazes de explorar.

As histórias citadas são parte fundamento do enredo de algumas das maiores expressões do gênero na atualidade: Breaking Bad, House of Cards, Game of Thrones, Downtown Abbey e The Walking Dead (embora essa última não apresente a sofisticação das primeiras). Não é de inteira coincidência que todas apresentem características em comum. Muito além da qualidade do roteiro, essas séries apresentam a decadência da moral, onde as personagens vivem no limite do que é ético ou não, e a humanidade em seu sentido mais benevolente não parece ser uma opção a ser seguida.

Em uma realidade onde os direitos fundamentais dos cidadãos são negados e liberdades são ultrapassadas pela vontade do Estado, a existência deste passa a ser questionada, e em grande medida o sucesso de The Walking Dead deriva disso. É importante notar que em The Walking Dead o próprio desenvolvimento da história demonstra que a falta do Estado pode conduzir a sociedade ao caos e violência. Em Breaking Bad a luta contra o câncer enfrentada por Walter White resulta em trazer à tona sua face mais obscura, ainda que sob o pretexto de deixar um legado para sua família. O desenvolvimento de sua personalidade, de um pai e professor a algo completamente inesperado conquistou milhões de fãs, a despeito de suas decisões e atitudes erradicas e desumanas.

Em House Of Cards os planos elaborados pelo casal Underwood apresentam uma Casa Branca que na formalidade cumpre todos os requisitos éticos, mas que esconde sótãos sujos de cinzas de charutos. Não é surpresa que os confrontos dos bastidores políticos geraram comparações com o cenário político brasileiro recente. E muito além de apresentar como aqueles que ocupam elevados cargos públicos podem esconder um caráter questionável (assim como de qualquer pessoa que nos cerca) House of Cards demonstra que a busca pelo poder pode gerar um débito elevado que pode ser empurrado para qualquer um pagar.

“Em Game Of Thrones assim como em Breaking Bad e House of Cards o protagonismo de anti-heróis ou até mesmo vilões passa a ser o novo paradigma narrativo”

E claro, a premiada Game Of Thrones que recentemente chega a sua sexta temporada. Baseada no romance de George R. R. Martin a série explora um universo de personagens cinza, que acumulam feitos de honra e justiça, mas que ao mesmo tempo podem ser tão mesquinhos e imorais. A série é famosa não apenas por matar personagens fundamentais, deixando claro que ninguém está a salvo, mas também por chamar a atenção pelo realismo de seus conflitos, deixando de lado o preconceito do público adulto por histórias do gênero de fantasia.

Em conjunto com a presença de dragões há o desenvolvimento de dramas humanos capazes de trazer a história mais próxima a sua audiência. As reviravoltas políticas, os dramas familiares, a busca por respeito e libertação daqueles que sempre são deixados de lado e claro os desastres causados por guerras e batalhas reforçam a ideia de que atitudes e caráter podem ser bons ou ruins a depender do ponto de vista. Alguém pode ser culpado por quebrar uma promessa em nome de outra? Matar o Rei que você prometeu proteger para salvar milhares de inocentes é correto? Nas entrelinhas ainda é perceptível comparações com a realidade, como o foco no conflito de interesses dos grandes Lordes de Westeros a despeito de uma constante ameaça que vem de uma região ao norte do continente juntamente com o inverno que pode trazer guerra e morte. Nesse ponto, é imediata a comparação com as mudanças climáticas em vigor, enquanto que nossos líderes apenas realizam convenções sem fim, em quase nunca chegam a um acordo que possa de fato reverter esse quadro, demonstrando ignorância e um sentimento de descaso.

Em Game Of Thrones assim como em Breaking Bad e House of Cards o protagonismo de anti-heróis ou até mesmo vilões passa a ser o novo paradigma narrativo. Fazer o público temer um traficante de metanfetamina, sentir ódio de um jovem Rei ou Lord ao mesmo tempo em que apresenta explicações sobre suas atitudes e comportamentos imorais, é mais do que uma escolha dos produtores de contar a história. O sucesso dessa estratégia demonstra que talvez as pessoas não tenham tanta esperança de um mundo moral, onde a justiça seja de fato exercida, e na realidade enxergamos que é da natureza humana misturar sentimentos bons e ruins.

A violência de Game Of Thrones exposta em estupros, decapitações e mortes impensáveis nem sempre resultam no esperado, ocasionando ainda mais violência. Tamanha violência pode ainda abrir espaço para que personagens ditos “de bom caráter” cometam atrocidades em nome do “bem”, e assim o público se vê obrigado a refletir sobre até onde atos de humanidade podem surtir efeitos frente à tamanha degradação humana. E dessa reflexão nos perguntamos, estamos mais distantes ou mais próximos dessas histórias cruéis e cheias de camadas? Em Game Of Thrones noite é escura e cheia de terrores, e na nossa realidade o mundo também é obscuro? Um fenômeno cultural pode dizer muito mais sobre nós mesmos, sobre o momento em que vivemos e o que pensamos. E bem, espero que estejamos prontos quando o inverno chegar.

Marcelo Duarte

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

Cada dia é um 7 a 1 diferente

 

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Qualquer semelhança do governo com a seleção brasileira de futebol não é mera coincidência. Nos últimos anos acompanhamos o Brasil nas Copas do Mundo, assistindo eliminações vexatórias, culminando no famoso 7 a 1, que inclusive se tornou uma expressão popular brasileira. E sempre após esses vexames ouvimos o famoso “está na hora de reformular o nosso futebol”.

A ideia de reformular é muito boa, mas não é isso que acontece, até porque as mudanças que são feitas ocorrem somente no âmbito da seleção, deixando o futebol brasileiro como está, sendo gerido pelos mesmos caciques de sempre. E dessa vez o boi de piranha da CBF é o técnico Dunga, atraindo todos os olhares e críticas, deixando a direção da confederação longe dos holofotes dos críticos, mantendo as mesmas práticas escusas de sempre, que tanto penaliza o futebol brasileiro.

Assim como no futebol, a política brasileira tem seus momentos de “mudança”, e as duas últimas foram a eleição do presidente Lula em 2002 e agora o processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff. No caso do Lula, com todos os méritos já conhecidos, principalmente na área social, apesar de ter um nível altíssimo de aprovação, não fez as reformas de base que tanto eram necessárias ao país, e o preço da continuidade de certas políticas hoje está caindo no colo de sua sucessora.

Agora, com o afastamento da presidenta e a ocupação da cadeira de presidente do Brasil por Michel Temer, trazendo consigo a tão falada Ponte Para o Futuro, percebemos que estamos indo para um caminho político mais conservador ainda. É claro, em um primeiro momento acredito que a nossa economia tenha uma certa recuperação com todas as medidas a serem tomadas e que agradam o mercado financeiro.

O problema que percebemos é que as mudanças que o novo governo anuncia, na verdade serão “mudanças”, assim como as da CBF. Mudanças no curto prazo, que tornarão a nossa política e economia cada vez mais conservadora e concentradora de poderes, já que o PMDB sempre esteve do lado da situação nos governos democraticamente eleitos após o golpe de 64, nunca na oposição, e quando fez oposição, foi da maneira mais suja possível, com um vice-presidente dando um golpe em quem deveria apoiar, e digo isso, pois ele não está articulando a sua entrada na presidência neste último mês, há tempos ele já vinha preparando a cama de gato.

Agora já conhecemos a maior parte da composição ministerial formada por Temer, inclusive com uma redução de 32 para 23 ministérios, esse que é um grande faniquito dos opositores ao governo Dilma, alegando que todos esses ministérios geram um custo altíssimo na administração pública. A redução de ministérios terá um impacto ínfimo nas contas públicas, e o Temer sabe disso, essa decisão é tomada para ganhar apoio político de parte da população.

A diminuição do número de ministérios, tirando poderes de diversas pastas que são verdadeiras conquistas para o povo e de suma importância para o desenvolvimento do nosso país como uma nação mais igualitária, acho que se ancora na ideia equivocada de que, o que deve prevalecer é a meritocracia e esforço individual de cada um. O problema é que na prática estamos muito longe de alcançar essa posição e, nesse caso, como previsto em nossa constituição, os iguais devem ser tratados de maneira igual e os desiguais, de maneira desigual, na medida de suas desigualdades.

Quanto aos ministros que assumem agora, de acordo com matéria do site O Globo, há ao menos dois investigados e sete citados na Operação Lava Jato, mostrando que a ideia de combater a corrupção não chega a ser uma questão que deva ser perseguida, pois como todos lembram, quando alguém se torna ministro, passa a ter foro privilegiado, assim como aconteceria com o ex-presidente Lula, que foi impedido de assumir, mas aí já são outros quinhentos.

Não sou ingênuo, sei como a política é feita, e não acho que esse seja o grande defeito desse governo provisório de Temer, mas lutar contra os corruPTos é diferente de lutar contra os corruptos. Hoje quando leio em algum lugar que o impeachment foi uma vitória do povo, onde está escrito povo, leio Michel Temer e seus aliados, que representam o que há de pior na política do nosso país, que sempre esteve atuando nos bastidores do poder.

Hoje vivemos uma crise política tão grande, juntamente com o desconhecimento e a percepção muito rasa dos fatos, que quem sempre esteve agindo por baixo dos panos consegue a proeza de se tornar presidente do país, tendo seu nome citado diversas vezes na Lava Jato, tendo assinado os mesmos decretos de créditos suplementares, os quais foram o motivo para o afastamento da presidenta, agindo abertamente contra ela. É claro que temos uma diferença muito clara entre Dilma Rousseff e Michel Temer, o poder do qual os dois dispõem.

Nos últimos tempos criou-se um maniqueísmo muito perverso no Brasil, trazendo à tona a balança onde se tem dois pesos e duas medidas. É triste perceber que talvez o que muitas pessoas que foram às ruas reivindicar, mesmo eu não concordando com a maior parte das bandeiras levantadas pelos movimentos que pediam o impeachment da Dilma, também querem um país melhor, mas acho que terá consequências muito onerosas para a sociedade ao longo prazo.

Pode ser que eu esteja errado, não estou livre de fazer análises equivocadas, mas uma coisa eu tenho certeza: a maior parte dos deputados e senadores que votaram a favor do impeachment não tiveram uma crise de consciência e resolveram tornar o nosso país menos corrupto. Acho até que seria engraçado se alguns deles declarassem seus votos da seguinte forma: “Contra a corrupção, a favor do Brasil e dos brasileiros, eu renuncio ao meu mandato”. Mas cada dia é um 7 a 1 diferente por aqui.

Até a próxima,

Sílvio Alberto.

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

A Diferença entre o Título, o Texto e o Contexto

Camara_deputadosAo olhar para os políticos que elegemos, tenho várias perguntas; Como podemos eleger tais políticos? Como pensamos tanto para escolher o melhor presidente, governador ou prefeito e ao mesmo tempo desdenhar dos senadores, deputados e vereadores? Até que ponto o sistema político e o sistema eleitoral pode contribuir pra nossa falta de atenção? Ou ainda, será que somos induzidos à negligência?

A reforma política é um consenso, porem as formas e mecanismos da reforma geram debate. Durante o período eleitoral os candidatos a cargos legislativos possuem de 5 à 10 segundos pra defender suas propostas e convencer o eleitor na televisão, outras fontes de informações sobre o candidato se restringem a panfletos e placas que, de uma forma ou outra, sujam as ruas e não trazem informações relevantes sobre sua biografia ou projetos que pretendem defender no poder legislativo, e são pouquíssimos os candidatos a que possuem uma plataforma online que permite uma maior difusão de suas ideias e perspectivas sobre o Brasil.

Todas estas restrições resumem a eleição legislativa a um grande jogo de bingo e favorece candidatos bizarros e escusos. A restrição à informação impõem aos eleitores atrelarem o candidato a cargos legislativos ao projeto de candidatos a cargos executivos, supondo que todos os candidatos da chapa da base aliada pensem, planejem e executem da mesma forma uma infinidade de assuntos que mudam de acordo com a conjuntura. Quantas vezes votamos em vereadores que apoiam o candidato a prefeito que nós apoiamos simplesmente por ele apoiar nosso candidato a prefeito? É fácil saber podres de candidatos que estão a décadas no poder, mas e os que elegemos a pouco tempo? E os que ainda nem se elegeram? Será que estamos dependendo mais dos vazamentos de informações sobre os podres dos políticos do que do projeto que eles levam ao poder?

Na minha opinião, os votos que geraram a abertura do processo do impeachment na Câmara são títulos muito semelhantes aos usados pelos candidatos pra se elegerem, o mesmo discurso encontrados nos horários eleitorais expostos na televisão. Quem nunca viu um candidato a deputado em época de eleição dizer “pela família; pelo município de …; pela região de …; por Deus vote no pastor …”. Humor à parte na hora de se expressar, este pode ser o único contato que teremos com os candidatos antes de se elegerem e a única coisa que sabemos deles é que são comediantes.

Chamo a atenção para o pouco contato que temos com os candidatos ao poder legislativo porque tudo o que eles nos expressam são títulos e temas, que no fundo, não significam nenhum compromisso concreto, mas pode significar muito sobre o comportamento ideológico dos mesmos. O que significa um candidato dizer “em defesa da família” nas eleições? Pra você leitor a sua família precisa ser defendida do que? Do homossexualismo? Do desemprego? Do abandono do estado no caso de pessoas que moram em áreas de risco e/ou sem acesso aos serviços básicos que o Estado precisa prestar como água potável, saneamento básico, saúde e educação de qualidade? Percebe como estes títulos podem ser interpretados de várias formas dependendo de quem os interpreta?

Outra questão é o texto, mais confiável porque passa a conter mais informações sobre o histórico dos políticos, o texto, portanto, seria uma referência à biografia dos políticos a respeito de seu comportamento como homem público e sua tomada de decisão exercendo um cargo público em temas de interesse público que revelam se sua atuação é ou não é próxima ao discurso que o elegeu. Estes são muito explorados pelos candidatos a cargos do executivo nas eleições (prefeitos, governadores e presidente) tanto por aliados quanto por adversários políticos que buscam confrontar o discurso eleitoral com sua atuação efetiva em algum cargo público.

Já o contexto testa a atuação do político em situações e momentos específicos, será que ele terá uma ação populista em momentos de crise? Será que ele honrará seus eleitores, mesmo que a situação exigir políticas impopulares, como agora? Bem diferenciar o texto do contexto é uma tarefa complexa na política, mesmo para profissionais experientes porque deve levar uma série de aspectos qualitativos que confunde o analista e o povo. Acredito que acusar a presidenta Dilma de estelionato eleitoral é uma acusação grave e exige uma analise histórica, algo para os futuros analistas porque os atuais estão embebidos num debate político/econômico/ideológico que pretende alterar/manter uma série de políticas no país. Não se trata de um debate isento de opiniões e neutro, com intuito de avaliar a presidenta porque estamos numa fase de decisão sobre o futuro do Brasil, e não da pra cobrar isenção e imparcialidade agora.

No entanto, a cada noticia verídica ou não, feita por delatores ou instituições oficiais, estamos sendo testados. Me sinto constantemente confrontado. Minha capacidade de julgamento está sendo testada pelos conhecimentos que adquiri na academia, meus valores estão sendo testado ao ter que criticar duramente o lado que defendo e minha hipocrisia está sendo testada por um bom senso de justiça verdadeira. Me sinto num intensivo de democracia, como aquelas ultimas semanas antes do ENEM, em que precisamos estudar intensamente diversos assuntos, que talvez não tenha uma relação direta com o cotidiano do nosso trabalho e preparação profissional.

Agora estamos tomando ciência do quanto os assuntos jurídicos, econômicos e políticos influenciam diretamente nossas vidas e somos cobrados o tempo todo pra tomarmos uma posição sobre isso, para decidir o futuro do país. E o grande problema é que temos péssimos professores. Jornalistas nos ensinam economia, políticos nos ensinam política e advogados nos ensinam jurisdição. Acontece que jornalistas não sabem economia e todas as pessoas que eles pedem auxílio têm um lado, uma posição que defendem e que nos influência com ela, até mesmo de forma desonesta porque nos ensinam o que querem e não o que precisamos aprender para tomarmos nossas próprias decisões, assim como ocorre com os políticos e advogados, são pessoas parciais que estão nos ensinando a ter visões laterais, ora direita, ora esquerda.

Abraços

Att,  Kelmaisteis