Cada dia é um 7 a 1 diferente

 

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Qualquer semelhança do governo com a seleção brasileira de futebol não é mera coincidência. Nos últimos anos acompanhamos o Brasil nas Copas do Mundo, assistindo eliminações vexatórias, culminando no famoso 7 a 1, que inclusive se tornou uma expressão popular brasileira. E sempre após esses vexames ouvimos o famoso “está na hora de reformular o nosso futebol”.

A ideia de reformular é muito boa, mas não é isso que acontece, até porque as mudanças que são feitas ocorrem somente no âmbito da seleção, deixando o futebol brasileiro como está, sendo gerido pelos mesmos caciques de sempre. E dessa vez o boi de piranha da CBF é o técnico Dunga, atraindo todos os olhares e críticas, deixando a direção da confederação longe dos holofotes dos críticos, mantendo as mesmas práticas escusas de sempre, que tanto penaliza o futebol brasileiro.

Assim como no futebol, a política brasileira tem seus momentos de “mudança”, e as duas últimas foram a eleição do presidente Lula em 2002 e agora o processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff. No caso do Lula, com todos os méritos já conhecidos, principalmente na área social, apesar de ter um nível altíssimo de aprovação, não fez as reformas de base que tanto eram necessárias ao país, e o preço da continuidade de certas políticas hoje está caindo no colo de sua sucessora.

Agora, com o afastamento da presidenta e a ocupação da cadeira de presidente do Brasil por Michel Temer, trazendo consigo a tão falada Ponte Para o Futuro, percebemos que estamos indo para um caminho político mais conservador ainda. É claro, em um primeiro momento acredito que a nossa economia tenha uma certa recuperação com todas as medidas a serem tomadas e que agradam o mercado financeiro.

O problema que percebemos é que as mudanças que o novo governo anuncia, na verdade serão “mudanças”, assim como as da CBF. Mudanças no curto prazo, que tornarão a nossa política e economia cada vez mais conservadora e concentradora de poderes, já que o PMDB sempre esteve do lado da situação nos governos democraticamente eleitos após o golpe de 64, nunca na oposição, e quando fez oposição, foi da maneira mais suja possível, com um vice-presidente dando um golpe em quem deveria apoiar, e digo isso, pois ele não está articulando a sua entrada na presidência neste último mês, há tempos ele já vinha preparando a cama de gato.

Agora já conhecemos a maior parte da composição ministerial formada por Temer, inclusive com uma redução de 32 para 23 ministérios, esse que é um grande faniquito dos opositores ao governo Dilma, alegando que todos esses ministérios geram um custo altíssimo na administração pública. A redução de ministérios terá um impacto ínfimo nas contas públicas, e o Temer sabe disso, essa decisão é tomada para ganhar apoio político de parte da população.

A diminuição do número de ministérios, tirando poderes de diversas pastas que são verdadeiras conquistas para o povo e de suma importância para o desenvolvimento do nosso país como uma nação mais igualitária, acho que se ancora na ideia equivocada de que, o que deve prevalecer é a meritocracia e esforço individual de cada um. O problema é que na prática estamos muito longe de alcançar essa posição e, nesse caso, como previsto em nossa constituição, os iguais devem ser tratados de maneira igual e os desiguais, de maneira desigual, na medida de suas desigualdades.

Quanto aos ministros que assumem agora, de acordo com matéria do site O Globo, há ao menos dois investigados e sete citados na Operação Lava Jato, mostrando que a ideia de combater a corrupção não chega a ser uma questão que deva ser perseguida, pois como todos lembram, quando alguém se torna ministro, passa a ter foro privilegiado, assim como aconteceria com o ex-presidente Lula, que foi impedido de assumir, mas aí já são outros quinhentos.

Não sou ingênuo, sei como a política é feita, e não acho que esse seja o grande defeito desse governo provisório de Temer, mas lutar contra os corruPTos é diferente de lutar contra os corruptos. Hoje quando leio em algum lugar que o impeachment foi uma vitória do povo, onde está escrito povo, leio Michel Temer e seus aliados, que representam o que há de pior na política do nosso país, que sempre esteve atuando nos bastidores do poder.

Hoje vivemos uma crise política tão grande, juntamente com o desconhecimento e a percepção muito rasa dos fatos, que quem sempre esteve agindo por baixo dos panos consegue a proeza de se tornar presidente do país, tendo seu nome citado diversas vezes na Lava Jato, tendo assinado os mesmos decretos de créditos suplementares, os quais foram o motivo para o afastamento da presidenta, agindo abertamente contra ela. É claro que temos uma diferença muito clara entre Dilma Rousseff e Michel Temer, o poder do qual os dois dispõem.

Nos últimos tempos criou-se um maniqueísmo muito perverso no Brasil, trazendo à tona a balança onde se tem dois pesos e duas medidas. É triste perceber que talvez o que muitas pessoas que foram às ruas reivindicar, mesmo eu não concordando com a maior parte das bandeiras levantadas pelos movimentos que pediam o impeachment da Dilma, também querem um país melhor, mas acho que terá consequências muito onerosas para a sociedade ao longo prazo.

Pode ser que eu esteja errado, não estou livre de fazer análises equivocadas, mas uma coisa eu tenho certeza: a maior parte dos deputados e senadores que votaram a favor do impeachment não tiveram uma crise de consciência e resolveram tornar o nosso país menos corrupto. Acho até que seria engraçado se alguns deles declarassem seus votos da seguinte forma: “Contra a corrupção, a favor do Brasil e dos brasileiros, eu renuncio ao meu mandato”. Mas cada dia é um 7 a 1 diferente por aqui.

Até a próxima,

Sílvio Alberto.

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

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