De Geni ao Cálice

Geni, de 16 anos, foi violentada por 33 homens na semana passada no Rio de Janeiro. Muito se falou a respeito dela nos últimos dias. Nas redes sociais, muitas postagens, textos de desabafo, pedidos de conscientização, campanhas de solidariedade, chamadas para protestos,  muito auê, de todo tipo, devo dizer – porque alguns também diziam “joga pedra na Geni, ela é boa de apanhar, ela é boa de cuspir”. Em uma das postagens que eu li uma pessoa dizia: “Se Geni fosse menina de família, de respeito, se estivesse estudando ou na igreja, isso não teria acontecido com ela” e a outra respondia com vários links de reportagens com casos de estupros de meninas a caminho da escola, na igreja, inclusive de estupro de crianças.

Reflito, então:  quantos de nós já fomos Genis na vida? E quantos de nós já fizemos o papel contrário e jogamos pedras em Genis? A Geni do exemplo é a jovem que foi violentada, mas pode ser o negro que sofreu preconceito, o pobre que não foi dada a oportunidade, o reabilitado que não se encontrou mais depois de ter sua liberdade de volta, ou o homossexual que apanhou até morrer, entre outros exemplos que sua imaginação pode te fazer pensar.

Talvez ser Geni seja não se calar, não viver ao modo programado e ser diferente do que a sociedade impõe. E esse modo programado vai muito além da forma de se vestir, do corte de cabelo ou da preferência musical, é algo mais profundo. A maneira de ver o mundo ao seu redor, de tratar e enxergar o próximo é afetada pelo seu modo de viver. Outro dia tive a oportunidade de assistir a um vídeo de um evento do Tedx, em que o palestrante conta sua história de vida falando sobre o que a razão não consegue alcançar. Como o vídeo está relacionado ao que eu falava sobre o modo de viver, é simples – o palestrante mudou drasticamente seu modo de vida e com isso ele também mudou bastante sua forma de perceber e de sentir o todo a sua volta.

Se culturalmente fossemos acostumados a fazer um exame de consciência e se essa consciência fosse bem trabalhada desde a  nossa infância de maneira que a racionalidade e intuição tivessem a mesma importância, talvez temas como a cultura do estupro não existiriam. Sinceramente e infelizmente eu não acredito que protestos de rua sozinhos são  eficientes no sentido de fazer as pessoas realmente pensarem mais sobre esse assunto, dado que aquelas que pensam  que as Genis são boas de apanhar e cuspir (malditas Genis) só possuem essa opinião porque elas percebem o todo ao seu redor de maneira diferente. Não é que os protestos devam se calar – isso nunca, pois são como gritos desumanos como maneira de serem escutados – mas é que tem que existir outra maneira (talvez um tratamento de choque, brincadeira). E aí eu te pergunto: o que você tem feito para encontrar essa maneira? Será que todos os esforços estão indo em direção a uma guerra de ideias ou a uma construção delas?

Isso vale também para a política, economia e outros assuntos. Ideias são como tijolos na construção de uma casa. Se você usar tijolos coloridos ou de apenas uma cor, o resultado final da casa será o mesmo,  porque o tijolo não é o que vai ser exposto, mas sim o que vai dar sustentação, depois deles ainda vem a argamassa e a tinta, mas na maioria das vezes nos esquecemos disso e criamos um bloqueio quando as ideias são contrárias às nossas.

Novamente, eu questiono: o que precisamos fazer para que todos ao nosso redor se tornem mais sensíveis a isso e reavaliem sua percepção de mundo? Algo que me incomoda extremamente é a indifença. Se calar por aceitar que o outro tem uma opinião contrária é muito prejudicial quando essa opinião envolve essa percepção, que pode ser distorcida, de como tudo funciona. Ninguém sabe exatamente como tudo funciona, concordo, mas sabemos como não funciona , certo?  “Esse silêncio todo me atordoa e atordoado eu permaneço atento”.  De que adianta ter boa vontade?

Yas

Referências:

Vídeo:

O que a razão não alcança

https://www.youtube.com/watch?v=Nmob5e4ceJE

Imagem: http://pt.depositphotos.com/106706748/stock-illustration-set-of-different-world-projections.html

Músicas:

Geni e o Zepelim – Composição: Chico Buarque

Cálice – Composição: Chico Buarque e Gilberto Gil

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Um comentário sobre “De Geni ao Cálice

  1. Alguns anos um grande SENHOR falou: “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. Ainda depois dele não apareceu ninguém sem pecados para atirar a pedra. (ELE, poderia atirar a pedra e não o fez). Mais no encanto os pecadores continua a atirar pedras. Mundo hipócrita.

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