Há emprego para todos aqueles que “desejam” trabalhar?

Um dos mitos mais recorrentes na sociedade é o de que há emprego para todos aqueles que “desejam” trabalhar, e mesmo havendo uma taxa de desemprego positiva, ou seja, estatística real de que parte da população economicamente ativa está procurando emprego e não encontra, alguns rebatem dizendo que este pessoal desempregado não estão procurando emprego “direito”, ou simplesmente se negam a aceitar os salários ofertados.

A falta de entendimento das concretudes do fenômeno pode ser entendida a partir da análise simplista dos acontecimentos. Uma vez que fatos isolados são utilizados como regra o caminho para o engano é condição sine qua non. A presença de chamadas de vaga de emprego nos jornais, internet e nas próprias empresas que desejam contratar é, acredito eu, o fator que mais contribui para este tipo de pensamento. A lógica é simples, se eu vejo pessoas desempregadas e vejo vagas de emprego, esse pessoal que diz estar procurando emprego simplesmente não quer trabalhar. Deixando algumas questões do debate para outrora, como: i) falta de instrução dos trabalhadores para alguns dos cargos que estão sendo ofertados ii) falta real de interesse de alguns trabalhadores – que pode não ser apenas falta de interesse mas também falta de perspectiva de crescimento nas empresas ou de salários melhores iii) o assistencialismo promovido por este ou aquele governo ajuda perpetuar essa massa de desempregados, fato que eu não concordo; o ponto que este artigo quer expor, de caráter mais macroeconômico, é de que se todos estes argumentos são válidos, se parte dos trabalhadores desempregados realmente não está a fim de aceitar as propostas de trabalhos existentes, por que o salário médio é tão baixo? De outra forma, se temos uma demanda de emprego maior que a oferta, por que os salários não sobem?

A primeira vista pode-se pensar que um salário mais alto pode não ser viável para muitas das empresas que desejam contratar novos trabalhadores, assim, mesmo que haja uma demanda por mais trabalhadores o valor do salário permanece constante. Este é um argumento talvez válido, principalmente para as pequenas empresas, mas acredito que não seja a regra. No entanto, se no máximo, este seja a regra, como podemos conviver numa sociedade que o salário médio, ou seja, o salário que é “possível” ser pago pelos empresários, seja menor que o mínimo requerido para a manutenção básica e condições mínimas de vivência digna de uma família?

A constituição de 1988 define o salário mínimo, por lei e em todo território nacional, como o rendimento mínimo necessário para atender as necessidades básicas (moradia, saúde, alimentação, lazer, etc.) de uma família, e não apenas de uma pessoa, o que é bom deixar claro. Nessa definição o salário mínimo deveria ser aquele capaz de assegurar o bem estar mínimo de todos os trabalhadores e suas famílias. No entanto, sabemos muito bem que esta não é a realidade que conhecemos, uma vez que nem mesmo o salário médio consegue cobrir as necessidades básicas garantidas na constituição, quiçá o salário mínimo conseguiria.

Na tabela abaixo vemos o salário médio real divulgado pelo IBGE a preços de fevereiro de 2016, o salário mínimo nominal e o salário mínimo necessário*, divulgados pelo DIEESE. Pela simplicidade da tabela fica claro a discrepância da diferença entre os salários mínimo e médio em relação ao salário mínimo necessário para satisfazer as necessidades básicas de uma família. É claro que estes valores variam dependendo da região, estado e município, mas em geral esse aspecto é a tônica da situação da maioria dos trabalhadores brasileiros. Na verdade, as diferentes condições dos mercados de trabalho encontradas nos “vários brasis” que há contribuem para o fortalecimento do mito de que há uma aversão ao trabalho por aqueles que se encontram desempregados, já que a incapacidade de reconhecer a heterogenia e os fatores históricos da constituição de cada região e da economia brasileira me parece ser condição comum entre nós.

12121

Para aqueles que acham que esta discrepância salarial não é tão preocupante por acreditar que poucos trabalhadores recebem apenas um salário mínimo, fiquem sabendo que 28,8% dos ocupados estão nessa faixa de remuneração. Já se observarmos aqueles que ganham até dois salários mínimos chegamos a estatística de 65,7% da população ocupada no Brasil, ou seja, 65,7% da população ocupada recebiam em 2014 menos de R$ 1.448,00, período em que o salário mínimo necessário vigorava em R$ 2.920,00.

12122Fonte: Nota técnica 153 DIEESE.

De toda forma é importante frisar também que as condições de trabalho e salários ofertados advém de condições históricas estruturais, sociais e culturais, que não dependem exclusivamente dos trabalhadores, nem também somente dos empresários. Assim, por determinadas regiões apresentarem salários diferentes de outras, isto não que dizer que trabalhadores e empresários de uma determinada região serão melhores, ou mais perspicazes, do que os de outras regiões. Mas como já mencionado, condições históricas estruturais, sociais e culturais, mas principalmente as estruturais vão ser importantíssimas na determinação dessa heterogenia.

Bom, o intuito deste artigo era essencialmente tentar abrir os olhos daqueles que ainda não se atentaram para tais questões, sejam elas: a incapacidade do mercado de sempre absorver toda mão de obra excedente e, a incapacidade deste, por si só, de oferecer salários dignos para a manutenção básica das famílias, direito decretado na própria Constituição de 1988. Agora, se estamos organizados “conscientemente” num sistema que não consegue oferecer condições mínimas de existência digna para os mesmos indivíduos que produzem uma quantidade de produtos superior a necessária para a satisfação de toda a população, passo a questionar a definição de consciência.

Henrique

Consciência:

1.sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior.

2.sentido ou percepção que o ser humano possui do que é moralmente certo ou errado em atos e motivos individuais.

“agiu conforme sua c.”

3.sistema de valores morais que funciona, mais ou menos integradamente, na aprovação ou desaprovação das condutas, atos e intenções próprias ou de outrem.

“aquilo lhe feriu a c.”

4.conjunto de ideias, atitudes, crenças de um grupo de indivíduos, relativamente ao que têm em comum ou ao mundo que os cerca.

“c. de classe”

5.conhecimento, convicção, discernimento, compreensão.

“tinha a c. do dever cumprido”

6.entendimento acerca de ou interesse por determinado tema ou ideia, esp. por problemas sociais e políticos.

“o despertar da c. ameríndia”

7.o ser humano, tomado como ser pensante ou espiritual; alma, espírito, mente.

“apelamos às c. deste país”

8.ét faculdade, princípio ou propriedade (inata ou, para a teologia antiga, de implantação divina) acima da qualidade moral dos atos e motivos de uma pessoa, a qual funciona como juízo do certo, associado ao Bem, e do errado, associado ao Mal.

9.fil faculdade por meio da qual o ser humano se apercebe daquilo que se passa dentro dele ou em seu exterior.

fil no cartesianismo, a vida espiritual humana, passível de conhecer a si mesma de modo imediato e integral, estabelecendo dessa maneira uma evidência irrefutável de sua própria existência e, por extensão, da realidade do mundo exterior.

filna reflexão contemporânea calcada em Nietzsche 1844-1900e na psicanálise, faculdade aperceptiva de alcance restrito, já que a dimensão pulsional ou passional do ser humano é refratária a qualquer tentativa de controle ou conhecimento que se pretenda integral e absoluto.

10.med estado do sistema nervoso central que permite a identificação precisa, o pensamento claro e o comportamento organizado.

estado apresentado por um indivíduo de posse de suas faculdades (ver, ouvir, pensar etc.).

“perder a c.”

11.psic nível da vida mental do qual o indivíduo tem percepção (ao contrário dos processos inconscientes).

12.psic fase subjetiva de uma parte dos processos físicos (esp. dos processos perceptivos) que se produzem no sistema nervoso.

13.psicnm.q. CONSCIÊNCIA PSICOLÓGICA.

Fonte: Google

*Para calcular o Salário Mínimo Necessário, o DIEESE considera o preceito constitucional de que o salário mínimo deve atender as necessidades básicas do trabalhador e de sua família e cujo valor é único para todo o país. Usa como base o Decreto lei nº 399, que estabelece que o gasto com alimentação de um trabalhador.adulto não pode ser inferior ao custo da Cesta Básica de Alimentos. A família considerada para o cálculo é composta por 2 adultos e 2 crianças, que por hipótese, consomem como 1 adulto (Fonte:<http://www.dieese.org.br/metodologia/metodologiaCestaBasica2016.pdf&gt;).

**Outras fontes: http://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html e http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/trabalhoerendimento/pme_nova/pme_201602tm_02.shtm.

***As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s