O Reino Unido Escolheu Ser o Exemplo

brexit-2

Com o advento das redes sociais e do apetite da população em se informar, divulgar e opinar sobre política e economia uma série de argumentos estão circulando na internet à respeito de cada governo, argumentos que possuem uma construção técnica e/ou teórica que a população não é instruída a analisar, apesar de ser induzida a compartilhar. Há ainda argumentos extremistas que buscam manipular os fatos, e provocar um medo na população em momentos de decisão social, como em um plebiscito. A ideia é que quando uma população precisa tomar decisões importantes num plebiscito, mas não tem a especialidade técnica no assunto, o melhor é espalhar o medo. Esta estratégia foi usada nas eleições brasileiras e agora no plebiscito do Reino Unido (RU), por isso a frase de um britânico anônimo se tornou símbolo desse plebiscito “Os britânicos estão cansados de ouvir especialistas”. O medo foi explorado em diversas áreas como na economia, no emprego, na cultura, na democracia e na soberania nacional. Para compreender a decisão e a coragem britânica de sair da união europeia é preciso buscar no contrapeso entre economia/democracia/soberania/cultura o que é mais palpável à maioria da população britânica, assim como a estrutura e opinião britânica pré-discussão sobre a saída da União Europeia (UE).

A UE é composta por 28 países, incluído o RU. O parlamento da UE é eleito por votação direta e simultânea nos 28 estados-membro, com uma proporcionalidade de cadeiras maior para a Alemanha, França e respectivamente. O poder executivo é exercido na Comissão Europeia com 28 comissários eleitos pelo voto indireto, pois são indicados pelo líder de cada país. As demais autarquias também são eleitas de forma indireta, sem a participação da população. A proporcionalidade predominante da Alemanha e França na UE, assim como as eleições indiretas para cargos importantes desestimula o eleitorado britânico à votação do parlamento europeu, e promove uma sensação ainda maior de falta de representatividade política e legitimidade democrática que sempre foi criticada por partidos britânicos de esquerda, como o Partido  Trabalhista (Labour Party) e o de extrema direita UKIP.

Além da falta de transparência e democracia, havia a percepção de que a UE se intromete demais na legislação britânica, impondo diversas leis, regras e regulamento para o povo britânico. Com a globalização, e a consequente quebra de barreiras econômicas e comerciais, surgiram novas barreiras no comercio internacional, barreiras de origem regimental e uma série de regras para isolar os demandantes internos dos ofertantes externos da UE., Legislações como qual é a curvatura ideal para armazenar bananas e pepinos, ou rótulos obrigatórios alertando que em pacotes de salmão congelado contem peixe. Esse conjunto de regras não faz sentido para os britânicos, principalmente para pequenas empresas que não exportam para a UE, e a percepção é de que tais regras servem para proteger determinados privilégios corporativos, em detrimento da população.

O único benefício palpável para os britânicos é o de viajar para qualquer país da EU sem passaporte e poder morar em qualquer país com os mesmos direitos da população local. Este é um grande beneficio da EU, pois permite livre circulação da população para estudar e trabalhar, promovendo grande mobilidade migratória e interação cultural. Porém segundo o britânico Philip Oltermann seus compatriotas  não utilizam muito este benefício, se sentem mais próximos da América do que da Europa e frequentemente veem a UE como uma violação da soberania britânica.

Sobre a imigração é importante dizer que a imigração a que se referem os britânicos é a respeito dos trabalhadores vindos do Leste Europeu, e não da crise humanitária com imigrantes de origem síria. A percepção britânica é que o desemprego está elevado e as facilidades da imigração estão absorvendo parte relevante dos empregos gerados no RU Esta percepção está parcialmente correta, uma vez que se baseia apenas em problemas migratórios mas esquece dos problemas econômicos do próprio UK. Segundo os britânicos a imigração em massa esta modificando alguns locais no RU, transformando a cultura urbana e desconectando os britânicos de sua cultura e de seu país, além disso, há certa dificuldade em matricular os filhos nas escolas por falta de vagas, bem como as filas em hospitais tem aumentado significativamente. Porém também há fatores econômicos que explicam a redução da qualidade dos serviços públicos. A política de austeridade do governo reduziu em cerca de 40% os repasses do governo federal para os municípios, em comparação com ano de 2010. Tais repasses são fundamentais para financiar a saúde e a educação.

Para o alemão Khuê Pham a crise econômica europeia e a dificuldade de se compartilhar os recursos em tempos de escassez promove a xenofobia no RU, “Se alguém sair do mundo paralelo do debate sobre o referendo britânico e se junta ao mundo real por um momento, é possível ver que os verdadeiros problemas não estão em seu país, mas no continente: a ascensão da direita, o drama grego, a crise dos refugiados sem fim. Agora é a idade da crise econômica e da depressão cultural na Inglaterra. Tenho a sensação de que todo mundo está apenas tentando descobrir como fazer face às despesas. E eu sinto que este tornou-se o leitmotiv – motivo condutor – da política britânica e, especialmente, a campanha Brexit: o estado da nossa saúde, das nossas universidades, das nossas empresas seria melhor se nós não tivéssemos que compartilhar tanto com os europeus que no momento estão sangrando”.

Os partidos de esquerda sempre denunciavam a centralização do poder decisório sobre uma elite tecnocrática não eleita diretamente pela população e indiferente à soberania de cada país membro, adotando uma política neoliberal, pró mercado, pró privatização dos serviços públicos em favor das multinacionais. Discurso semelhante ao da extrema direita, como o partido UKIP, que além da insatisfação com o modo corporativo que se tem guiado a UE, agrega a questão da imigração e o nacionalismo em seu discurso.

No que diz respeito ao plebiscito, o partido trabalhista mudou de lado e defendeu a permanência do RU na UE. Segundo o partido a saída para democratizar a UE deve ser discutida junto à UE, promovendo transformações, e portanto, o apoio a não deixar o bloco pois isto poderia causar grandes perdas econômicas, mergulhar o RU numa grave crise e ampliar o desemprego. Por outro lado, o partido de extrema direita UKIP defendeu a saída da UE. Já o Partido Conservador (Conservative and Unionist Party) de David Cameron estava dividido. Seus dirigentes apoiavam ambas as decisões do povo britânico, segundo o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson do partido conservador: “o que eles dizem é que vale à pena sacrificar a democracia em troca de ganhos econômicos”, portanto até mesmo quem defende a saída do RU sabe que economicamente essa alternativa não é um bom negocio.

De acordo com Oltermann “A maioria da nossa população acredita que se juntou um espaço econômico comum , em 1973, e não uma união política. A Europa tem um déficit democrático que precisa ser tratado. O referendo britânico é talvez uma forma caótica de equilibrar esse déficit, isso mostra que o tema está em discussão”. Ainda segundo Oltermann a crise econômica mundial, iniciada em 2008, de origem financeira com grandes fraudes bancárias, contribuiu para formar a opinião popular na Europa de que “os maus britânicos estão arruinando tudo com os seus bancos, os gregos maus estão arruinando tudo com sua dívida e só a Alemanha saberia o que é certo para todo o continente” e este raxa está distanciando ainda mais os britânicos da Europa. Nos últimos anos a política internacional do RU tem perdido relevância e o governo tem se voltado para resolver os crescentes problemas internos,. Essa falta de moral internacional tem irritado parte dos britânicos, se tornando mais um motivo pela saída da UE, porque para o crescente sentimento nacionalista, uma maior autonomia da RU poderá recuperar parte de seu prestígio e relevância internacional, que datam do antigo império Britânico

Segundo Ingo Ploger a sensação de piora da qualidade de vida da população britânica promove um resgate às políticas de gerações passadas: “Existe um divisão de gerações, entre a geração mais velha, conservadora, que querem tomar as rédeas do país novamente e as gerações mais novas com uma concepção de integração internacional que reconhece as mudanças mundiais e que as complexas estruturas causam uma grande ruptura estrutural que pode ter sérias consequências econômicas. Os perdedores da globalização votam contra a globalização, ou seja, aqueles países ou segmentos sociais que se veem prejudicados pelo aumento da concorrência externa preferem uma retórica nacionalista e isolacionista que protege o mercado interno, o que fortalece o racismo e a aversão à progressiva da união que leva à perda de competitividade de parte da indústria no processo de abertura econômica e consequente desindustrialização, concentração de renda gerada pela globalização e a comunicação que não consegue qualificar de maneira adequada o balanço dos benefícios e custos da integração econômica, legal e política. Que com mobilização social pelas redes sociais se estruturam para dizer não à globalização. Houve perda de soberania, pois tiveram que equalizar diversos regulamentos e interesses nacionais distintos que criaram barreiras excessivas em certos setores da economia, como a agricultura, que irrita pequenos agricultores de países como Inglaterra que não querem exportar para a Europa e precisam seguir todas as determinações da UE”.

Segundo o The Economist o voto pela separação só se explica pela nostalgia do período imperial inglês. Segundo Samantha Pearson os britânicos olham muito pra trás, existe um racismo contra os imigrantes, contra a entrada da Turquia por acreditarem que sua entrada pode significar uma nova onda migratória para o RU. Uma campanha popular pela saída da UE dizia: “Se você quiser ficar na União Europeia, ligue para sua avó e ela irá explicar porque nós devemos sair”. Os gastos do RU com a estrutura da EU, em contrapartida dos baixos investimentos na saúde, também incomoda o povo.

Se analisarmos quem apoio a permanência do RU na UE, como as grandes empresas, o governo, sindicatos, intelectuais, artistas e compararmos com quem apoiou a saída do RU como os trabalhadores e a oposição ao governo, chego à conclusão de que o voto pela saída foi mais um ato de desespero pela mudança de política, do que uma visão estratégica sobre como deve ser o RU no futuro. Reino que talvez não seja unido por muito mais tempo, dada a eminência da saída da Escócia, província que no ultimo referendo pela independência teve o apoio para saída do RU por 45% da população. Os especialistas acreditam que a independência da Escócia deve ganhar força já que parte significativa da população votou pela permanência do RU no bloco. Ironicamente o RU fez forte campanha contra a independência escocesa na época do referendo.

A onda nacionalista é um contrassenso mundial, não apenas socialmente mas também economicamente. Nas ultimas décadas os países passaram por grandes transformações no sistema produtivo, passando de um sistema autônomo e isolado para a adoção de Cadeias Globais de Produção, utilizando recursos produtivos de diversos países num só produto. Justamente no campo econômico, onde o RU faz parte da UE desde 1973, e que desde então a economia inglesa foi se desenvolvendo, conectando-se à economia da Europa continental, e atraindo empresas transnacionais para produzir produtos e serviços para atender a demanda de todo o mercado europeu. Por isso uma mudança brusca nesse arranjo, pode ter impactos na estrutura produtiva que se desenvolveu por décadas de sistemática integração econômica, financeira, legislativa e institucional, e deverá gerar fortes complicações econômicas, principalmente para o RU, já que Alemanha e França se candidatam para que uma de suas cidades se tornar a capital financeira do bloco, em substituição a City Londrina, uma vez que de imediato cerca de 220 empresas podem deixar o RU e se mudar para o continente. Do ponto de vista político o resultado do referendo britânico está alimentando a realização de outros referendos na França, Holanda, Suécia, Polônia e Dinamarca. Novas propostas de saída deverão ocorrer, e serão estimuladas ou desestimuladas a depender do desempenho inglês, que para o bem da UE, o RU deverá fracassar quanto mais rápido melhor. RU escolheu sair da UE e ao mesmo tempo, ser o exemplo para toda Europa.

Kelmaisteis.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s