Seria a poupança o limitante do investimento?

Uma das características que é comum na teoria tradicional econômica, e de parte da abordagem alternativa também, é o foco na poupança para explicar o nível de investimento e desenvolvimento de uma economia. A ideia primordial advém da necessidade de alguns abrirem mão do consumo presente (poupança) para que haja recursos disponíveis para o investimento.

Diferente destas, na visão keynesiana a economia é fundamentalmente movida pelos investimentos, por ser o fator gerador de renda e capacidade produtiva nova e, por ser o vetor independente (exógeno) dos componentes da renda. Nesta visão, não é o mercado de trabalho que determina a quantidade de trabalhadores contratados ou o salário real, mas é a quantidade de investimento que vai determinar a quantidade de trabalho empregado. Assim, não são os condicionantes de oferta que determinaram o nível de renda, mas sim os de demanda, sendo o investimento seu principal componente.

O consumo nessa economia é predominantemente determinado pelo nível de renda*** e, sendo a poupança a parte não gasta da renda em consumo, esta é apenas um resíduo. As decisões de investimento, no entanto, tem caráter altamente instáveis, uma vez que os empresários precisam antever acontecimentos futuros, realizando cálculos baseados em expectativas, ao relacionar os gastos presentes com as expectativas futuros da produção e taxa de retorno de seus investimentos (eficiência marginal do capital), comparando esta ainda, com o retorno que eles teriam caso aplicassem no mercado financeiro (taxa de juros). Explicita-se que esta instabilidade não advém da falta de racionalidade, mas simplesmente da impossibilidade de conhecer previamente as variáveis no futuro.

A taxa de juros, no entanto, não será aquela determinada pela interação entre poupança e investimento, como postula a visão tradicional, mas puramente dependente da preferência pela liquidez (e da oferta de moeda). Assim, a taxa de juros é o preço pago aos indivíduos que renunciam a posse de moeda no presente, ou seja, abre mão das vantagens que traz a posse do dinheiro no presente em troca de um prêmio (juros).

A taxa de juros então, “é aquela segundo a qual a demanda e a oferta de recursos líquidos se equilibram. A poupança de maneira alguma faz parte do quadro”** .De forma que “[…] não é a taxa de juros, mas sim o nível de renda que (em conjunto com certos outros fatores) assegura essa igualdade [poupança = investimento]”*. Nessas circunstancias, o investimento tem papel central e antecederá a poupança, sendo ele o determinante do nível de renda, emprego, consumo e poupança. A poupança na economia é apenas um resíduo da renda, seu papel é consolidar, e não financiar o processo de acumulação, sendo sua igualdade ex post com o investimento fator puramente contábil. Em determinado momento, os agentes podem poupar “ex ante, ex post, até ficarem azuis”, e mesmo assim os bancos podem decidir não emprestar se eles estiverem mais avessos ao risco (maior preferência pela liquidez). Assim, entender como os investimentos são financiados é fator primordial dada sua importância, e desmistificar que a poupança não é seu limitante, fato ainda mais relevante.

Dentre os motivos relacionados a demanda por moeda, preferência pela liquidez, temos: motivo transação (pagamentos, compromissos diários), motivo precaução (recurso para enfrentar situações inesperadas) e especulação (recursos estratégicos para serem utilizados em negócios rentáveis), Keynes, após a Teoria Geral, apresenta um quarto motivo para a demanda por moeda: o motivo finance para investimento, que é o crédito destinado a aquisição de máquinas e equipamentos.

Com o desenvolvimento do sistema bancário e da generalização das trocas, torna-se possível a negociação de excedentes numa economia e, particularmente para os bancos, a possibilidade de realizar empréstimos. Com o avanço da quantidade de depósitos à vista, os bancos percebem que sempre há um montante fixo que permanece em seus cofres (fluxo de caixa histórico), ainda que as atividades normais dos bancos estejam ocorrendo. É através desse montante “fixo” que os bancos veem a possibilidade de emprestar para outros agentes e, com isso, a capacidade dos bancos de criar moeda.  O finance está relacionado a este “fundo rotativo”.

A necessidade de qualificação de um novo motivo para demanda de liquidez advém das características distintas do investimento. Primeiro, é preciso considerar que a decisão de investimento por si só já é geradora de renda. Sendo a aquisição de máquinas e equipamentos feita por encomenda, quando esta se verifica, um fluxo de renda na forma de salários e lucros já é iniciado, e graças ao multiplicador keynesiano, este fluxo se expande para outros setores. O segundo ponto é que o investimento é criador de capacidade produtiva nova. Assim, após sua implementação e com o início das atividades – possivelmente – novo fluxo de renda será gerado, já que investimentos são implementados com expectativas de sobrepor seus custos em algum momento.

No exemplo abaixo, em que temos o multiplicador keynesiano simples, vemos que para cada “rodada” de gasto, esta gera um novo fluxo de renda e de gasto. Assim, para um investimento (I) inicial de 100 unidades, numa economia que tem uma propensão a consumir (c) de 0,8 e propensão a poupar (s) de 0,2, o resultado final é de uma renda (Y) de 500 e poupança (S) de 100.

Multiplicador Keynesianom k

Fonte: elaboração própria

O finance então, não prescindirá de poupança, uma vez que é o próprio investimento que será responsável pela geração de poupança, em que no ato da decisão de investir, junto com os fluxos de renda gerados, temos uma parte dessa renda que não será consumida e retornará para os bancos, de forma a restaurar a liquidez dos mesmos.

“É que o “financiamento” [finance] constitui, essencialmente, um fundo rotativo. Não emprega poupança. É, para a comunidade como um todo, apenas uma transação contábil. Logo que é “usado”, no sentido de ser gasto, a falta de liquidez é automaticamente compensada e a disposição temporária está de novo pronta a ser usada mais uma vez”**

Neste sentido, considerando a capacidade dos bancos de criar moeda (ou ainda que estes não tivessem esta capacidade) e de que todos os investimentos não acontecem num mesmo momento, a poupança não é limitante do nível de investimento em uma economia, mas pelo contrário, é o próprio investimento que determinará ex post o nível de poupança. O que limitará o nível de investimento então, não será a poupança, mas a decisão do sistema bancário de liberar crédito, “o mercado de investimentos pode tornar-se congestionado por causa de falta de dinheiro, mas nunca se congestionará por falta de poupança” **.

Henrique

* KEYNES, J. M. (2010a). “Teoria alternativas da taxa de Juros” in Clássicos da Literatura Econômica. Brasília, IPEA.

** KEYNES, J. M. (2010b). “A teoria ex-ante da taxa de Juros” in Clássicos da Literatura Econômica. Brasília, IPEA.

*** O consumo também depende de características psicológicas, históricas e culturais de cada economia.

**** As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

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Ajuste fiscal e os vetores da dívida pública

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Ao se propor a necessidade de um ajuste fiscal no Brasil, a fim de inverter a trajetória da dívida bruta como proporção do PIB, há de se analisar cuidadosamente os vetores diretos que impactam nesta trajetória. A economia convencional postula que o ideal é elaborar uma combinação de aumento de tributos e de corte de gastos públicos. Esse cenário está em vigência no país há um ano e meio, mas a relação dívida bruta/PIB segue em ascensão.

Primeiramente, há uma subestimação muito grande acerca do déficit público nominal (resultado primário somado ao pagamento dos juros), fazendo-se um excessivo frenesi em torno do resultado primário (A OCDE adota o déficit no conceito nominal como indicador de saúde fiscal). Vamos tomar como exemplo o exercício fiscal de 2015: neste período, verificou-se um déficit primário de 1,88% do PIB (o que inegavelmente é um resultado não desejável em um país onde o investimento público soma menos de 1%/PIB). No entanto, não somos o pior país do mundo nesse indicador: China, Rússia e até mesmo Chile, por exemplo, lograram obter a relação déficit primário/PIB abaixo do que se verificou no Brasil. O fator realmente agravante das finanças públicas são os pagamentos de juros à dívida pública, que se analisados por esse aspecto, expuseram o país a um déficit nominal de mais de 10,34% do PIB, o equivalente a R$ 613 bi destinados a honraria dos títulos do governo. Nesse aspecto, sim, somos os piores do mundo.

Percebe-se, então, que tem-se aqui dois vetores que influenciam o montante da dívida pública: o resultado primário e o pagamento de juros. Para fins de simplificação, vamos arredondar o déficit primário em 2%/PIB e o pagamento de juros em 8%/PIB, o que gera um resultado nominal deficitário de 10%/PIB. Aqui fica visível que zerar o déficit primário solucionaria apenas uma quinta parte do problema como um todo, ao passo que negligenciar o montante a pagar de juros significa, em última análise, negligenciar o problema. Olhando com mais cuidado para o foco do problema, fica claro que a causa principal do elevado montante de juros pagos é a elevada taxa SELIC (que indexa a maioria dos títulos emitidos), desde julho de 2015 no patamar de 14,25% a.a. Não caberá aqui explicar o quão ineficiente é fazer o uso da taxa de juros para combater uma inflação com perfil de custos como é o caso do Brasil. O que parece razoável é que tão menor for a taxa SELIC, menor será a carga de juros a serem pagos. Aqui tem-se o primeiro indício de como pode-se diminuir o déficit total, uma vez que a redução da taxa teria baixo impacto inflacionário dado o quadro recessivo.

Por outra perspectiva, cabe lembrar que com um custo de capital tão alto, o investimento produtivo se torna uma prática quase proibitiva, com impacto negativo, inclusive, na arrecadação tributária. O quadro internacional desfavorável, a crise política, as políticas de juros altos e austeridade fiscal custaram ao Brasil, em 2015, uma queda de 3,8% do PIB. Ora, se o PIB é o denominador do indicador que mede o ajuste fiscal, algebricamente temos que a relação dívida/PIB aumenta quanto tem-se queda da atividade. Simplificando: mesmo que não houvesse nenhum déficit (nem primário, nem nominal) e ainda assim houvesse retração do PIB, a relação dívida/PIB aumentaria. O contrário também é válido: se não houvesse déficit público, mas houvesse crescimento do PIB, a relação dívida/PIB diminuiria. Portanto, a elevada taxa básica de juros implica tanto na elevação do serviço da dívida quanto na queda do PIB, dois vetores da trajetória da dívida pública. Segundo as projeções do World Economic Outlook (FMI), China, Índia, Chile e Rússia devem ter déficits primários maiores que o Brasil como proporção do PIB em 2016, bem como vêm performando abaixo dos nossos indicadores nos últimos anos.

Como último vetor a ser analisado, tem-se o resultado primário, que é a diferença entre a arrecadação do setor público e o total de gastos primários, isto é, sem contar os juros da dívida. Apesar dos cortes no orçamento e o aumento nas alíquotas tributárias, o resultado primário piorou de 2015 em relação a 2014. Isso ocorreu devido à queda da atividade econômica, agravada pela própria austeridade fiscal e pela alta dos juros, que desencadeou em uma queda violenta da arrecadação tributária. Evidentemente que se o cenário é de déficit, algumas mudanças devem ser feitas, mas a saída convencional não tem se mostrado exitosa para a reversão do cenário. Pontua-se que se a arrecadação depende do nível de atividade e o nível de atividade carrega uma relação inversa com as taxas de juros, tem-se que os juros altos afetam indiretamente, também, a dinâmica de arrecadação tributária, consagrando os juros como o grande impeditivo da reversão do quadro fiscal.

Para melhores entendimentos algébricos, abaixo segue uma equação modelada para medir a trajetória da relação dívida/PIB:

Dt = Dt-1 + (G – T)t + Jt – ΔPIBt                                                             (1)

Onde  Dt é a dívida bruta como proporção do PIB no ano t; Dt-1 é a dívida bruta como proporção do PIB no ano t-1;  (G-T)t é o gasto primário como proporção do PIB subtraído a arrecadação tributária como proporção do PIB, i.e., o déficit primário no tempo t;  Jt é o montante de juros como proporção do PIB; ΔPIBt é a variação real do PIB em relação ao ano anterior. Extraindo as variáveis (tanto passadas como as projetadas pelo Boletim Focus do Banco Central), é possível compreender a dinâmica da dívida e ter alguma perspectiva futura:

D2015 = D2014 + (G-T)2015 + J2015 -ΔPIB2015                                          (2)

A partir da Equação (2) e pelos números arredondados para fins de simplificação* mencionados acima, será exposto o resumo da nota do Banco Central:

“No ano de 2015, a Dívida Bruta do Governo Geral (Governo Federal, INSS, governos estaduais e governos municipais) elevou-se 9 p.p. em relação a dezembro de 2014 (66,2% do PIB), influenciada pela incorporação de juros (+8,5 p.p.), pelo deficit primário (+1,9 p.p.), pelo impacto da desvalorização cambial acumulada de 47% no período (-6,5 p.p.), […] e pelo efeito do crescimento do PIB (+3,8 p.p.).”

Em que pese a desvalorização do câmbio, que garantiu uma suavização do quadro, a carga de juros segue sendo o fator preponderante (+8,5 p.p.), seguido da queda do produto (+3,8 p.p.). Se replicada a equação (2) para 2016, teremos o seguinte:

D2016 = D2015 + (G-T)2016 + J2016 -ΔPIB2016                                         (3)

D2015 = 66,2%/PIB; (G-T)2016 = 2,5%/PIB**; ΔPIB2016 = -3.2% (perspectiva Boletim Focus de 15/08) ; J2016= 7,4%**. Substituindo os dados na Equação (3), têm-se:

D2016 = 66,2% + 2,5% + 7,45% – (-3,2%) = 79,35%

Apesar de tratar-se de uma simplificação da realidade, este simples modelo se aproxima dela. Cabe lembrar que, ao contrário de 2015, em 2016 estamos passando por um processo de apreciação da taxa de câmbio, que também deve incorporar com um fator perverso na dinâmica da dívida pública. A partir desta análise, percebe-se que a austeridade empregada de nada adiantará se o Banco Central persistir na taxa SELIC no patamar de 14,25%, atingindo a injustificável maior taxa de juro real do mundo.  Com um cenário de recessão, um alto grau de capacidade ociosa da indústria, o gasto com juros da dívida superando meio trilhão de reais, o câmbio apreciando a um nível que mina a competitividade das exportações, torna-se um luxo indevido manter a taxa básica de juros nesse nível. Em tempos de tsunamis monetários pelo mundo, vivemos a versão tupiniquim da rentier revenge. Não bastasse o erro de interpretação do passado ao subir os juros para combater uma inflação de custos, agora se mostra mais sério o erro da manutenção deste patamar.

Martin Kirsten

 *As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo

**Outros fatores também oferecem menor impacto na trajetória do indicador, e.g., variação cambial, reconhecimento de passivos, ajuste do passivo externo, etc. Não serão considerados estes valores pois representam menor significância no resultado. Como em 2015, houve uma desvalorização cambial na magnitude de 47%, houve um favorecimento de mais 6p.p. no indicador dívida/PIB

***Mediana das projeções do Boletim Focus em 15/ago

****Não há projeção para tal indicador. Nesse modelo simplificado, se optará pelo resultado de incorporações de juros/PIB verificado nos últimos 12 meses

REFERÊNCIAS

BANCO CENTRAL DO BRASIL, Boletim Focus.

BANCO CENTRAL DO BRASIL, Notas Econômico-financeiras para imprensa.

BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.

IMF, World Economic Outlook. Jun/16.

PASINETTI, Luigi. The social burden of high interest rates. 1997.

Lugar de Preto: a construção da identidade negra e o papel da mídia

O que inspirou esse texto foi a polêmica gerada em torno da nova temporada de Malhação, intitulada “Pro dia Nascer Feliz”, em substituição à anterior “Seu Lugar no Mundo”. A nova temporada terá sua primeira protagonista negra, após 21 anos (é isso mesmo!) de exibição do folhetim. A atriz Aline Dias, 23 anos, viverá Joana, uma garota cearense e pobre que sairá do seu estado natal para tentar a vida no Rio de Janeiro. Lá trabalhará como faxineira em uma academia e se apaixonará pelo jogador de vôlei Gabriel, branco e de melhor condição socioeconômica.

Esse fato gerou críticas, sobretudo na internet, uma vez que a trama estaria reforçando um estereótipo que vem sido apresentado há muito tempo na mídia, principalmente nas telenovelas, que é o da personagem negra, pobre, que se apaixona pelo rapaz branco e rico, sofre toda sorte de humilhações das personagens brancas até, no final, ficar com o rapaz rico e “subir na vida”, ao invés de situar a personagem enquanto estudante comum, como todas as outras protagonistas até então.

Nos anos recentes, observamos a ampliação da presença de negros na mídia brasileira. Recordemos a trama “Da cor do pecado” de 2004, na qual a atriz Taís Araújo vive a protagonista Preta, o que se torna um marco dos avanços recentes. No entanto, a euforia causada por esse fato acaba obscurecendo a visão estereotipada do negro trazida na novela e que o próprio nome da trama demonstra, ou seja, qual é a cor do pecado.

Observamos também outras situações que demonstram avanços em relação à representação do negro nos veículos de comunicação, mas infelizmente, a presença desse segmento da população brasileira nesses espaços ainda possui caráter secundário e uma posição de destaque é exceção. O caráter de exceção é tanto que quando uma jornalista negra aparece no jornal de maior visibilidade do País, com seu cabelo crespo, é atacada por internautas racistas. Quem não se lembra do caso Maju?

O ataque à jornalista veio pra confirmar o que já sabíamos: o Brasil ainda é um país racista, no qual o “lugar de preto” está bem definido no imaginário de muita gente e, com certeza, não é no horário nobre e muito menos sem alisar o cabelo. Ah, mas o tempo é mesmo o senhor de tudo. Não é mesmo, Ali Kamel?

Há 10 anos, o diretor de jornalismo da TV Globo, publicava o livro “Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor”. No livro publicado em 2006, o sociólogo e jornalista, argumenta contra a adoção de cotas raciais nas universidades públicas, pois, segundo ele, tal política, ao “dividir” o País entre negros e brancos,  ao contrário de combater o racismo,  poderia incitar o ódio racial.

Um grande equívoco da análise do autor, como apontado pelo Professor da UFRRJ Aristóteles de Paula Berino, é associar ao racismo principalmente uma ação odiosa, o que o faz afirmar que isso, definitivamente, não estaria presente na nossa sociedade. Afirmação que se perde diante das ações de ódio dirigidas, poucos anos depois, aos próprios funcionários da emissora em que o autor trabalha, a exemplo de Maju, Taís Araújo, Cris Vianna e Sheron Menezzes.

Observa-se com os exemplos citados que os ataques se dirigiram em grande magnitude às mulheres negras, as quais sofrem – nas palavras de Sueli Carneiro – “da conjugação perversa do racismo e do sexismo, que resulta em uma espécie de asfixia social com desdobramentos negativos em todas as dimensões da vida. Esses se manifestam em sequelas emocionais com danos à saúde mental e rebaixamento da autoestima”.

Chegamos ao ponto principal do texto: a autoestima. O que quero enfatizar nesse texto não é o aspecto quantitativo da presença do negro na mídia (o que têm melhorado, sobretudo a partir da década de 1990), mas sim a forma como estamos inseridos. Diante disso, a questão que se coloca é: Que papel que nós negros temos nessa mídia? Quais personagens recebemos nas telenovelas? Quantos de nós estamos nos cargos de direção dos veículos de comunicação? Quantos roteiristas somos?

Sabemos que a realidade brasileira é marcada por uma perversa desigualdade racial e que a população pobre é majoritariamente negra (o que inclui pretos e pardos). Nesse sentido, podemos dizer que o que as novelas, filmes, seriados, etc, fazem nada mais é que tentar retratar essa realidade. No entanto, o que não recebe atenção é o fato de que a TV enquanto principal veículo de comunicação consumido pelos brasileiros possui o poder de influenciar a construção da identidade das pessoas, bem como sua autoestima e imaginário. Nesse sentido, mais do que uma representação do real, a TV precisa ser pensada como elemento influenciador da própria construção do real, como aponta a professora da UNB, Renísia Garcia.

Digo isso, enquanto negro que já foi criança e não se via representado na mídia como pessoa que pudesse ter qualquer profissão que quisesse, por exemplo. Digo isso, enquanto estudante de ensino médio que não tinha um professor negro em que se espelhar, o mesmo ocorrendo na graduação e pós-graduação. Não fosse a persistência da minha família em deixar claro que eu poderia ocupar o espaço que eu quisesse, talvez esse texto nem existisse nesse momento.

Eu vos pergunto: como podemos chegar para uma criança pobre negra e dizer que ela pode ser uma professora, um advogado, uma médica, um ator, uma jornalista, se na sua escola ela não tem uma professora que a representa? Se nem na novela pessoas como ela desempenham essas atividades? E aí que está a questão da autoestima.

Como influenciar na construção da identidade e autonomia dessas crianças, se a história eurocêntrica que lhes foi colocada na escola situa o sujeito negro como passivo no processo de colonização e escravidão, negando a essas crianças o conhecimento acerca da luta e resistência dos povos negros.

Esse cenário está em vias de modificação devido a ações como a Lei 10.639 de 2003, que inclui no currículo oficial do ensino fundamental e médio o ensino da “história e cultura afrobrasileira e africana’’, cuja importância é inegável para a construção de um ideal de inserção do negro na história do País, demonstrando sua importância na constituição da nação, que extrapola a escravidão. Com a criação da lei nosso desafio é preparar os nossos professores para o cumprimento desse nobre papel de agentes contra o preconceito, desigualdade e discriminação racial.

Outra ação importante foi a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003, com a função de articular políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial. A secretaria passou a compor o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos em 2008. No entanto, infelizmente, foi extinto em maio deste ano, como parte da reforma ministerial do governo interino de Michel Temer e os temas da pasta passaram a ser discutidos no âmbito do Ministério da Justiça e Cidadania.

O estatuto da igualdade racial de 2010 também se constitui um grande avanço, inclusive na questão da mídia ao instituir que na produção de filmes e programas destinados à veiculação pelas emissoras de televisão e em salas cinematográficas, deva ser adotada a prática de conferir oportunidades de emprego para atores, figurantes e técnicos negros, o que vale também para as peças publicitárias. Além disso, os órgãos entidades e empresas públicas devem incluir cláusulas de participação de artistas negros nos contratos de realização de filmes, programas ou quaisquer outras peças de caráter publicitárias. Essa ação já têm efeitos notáveis, pois já se observa um aumento da participação de negras e negros nas peças publicitárias, filmes, seriados, dentre outros.

A aprovação da lei 12.711 em 2012, que reserva 50% das vagas das instituições federais de ensino superior para estudantes oriundos da rede pública de ensino, abrangendo critérios de cor/raça, se constitui, juntamente com a lei 10.639, uma importante conquista de movimentos sociais no Brasil. Essas conquistas contaram fortemente com a atuação do Movimento Negro, sobretudo após as reivindicações da Marcha de Zumbi dos Palmares contra o Racismo pela Cidadania e a Vida, em 1995, que reuniu aproximadamente 300 mil pessoas. Isso demonstra que a implantação das ações afirmativas não é reflexo apenas da benevolência do Governo Federal, mas sim, de um processo de luta constante que precisa ficar claro no imaginário da população.

Como é possível perceber, houve avanços no âmbito do acesso à educação, ensino da história, dentre outros direitos dos povos negros, embora haja algumas tentativas de cerceamento desses direitos adquiridos, como podemos verificar com a extinção do ministério que tratava da igualdade racial. No entanto, o que quero chamar atenção nesse texto é para os avanços que ainda precisamos fazer no âmbito psicológico, rumo à construção de um ideal de pertencimento da população negra brasileira.

É necessário que consigamos desconstruir o imaginário depreciativo e o estigma que ronda a população negra e, nessa questão, o papel da mídia é de extrema importância, pois quando ela destaca – por exemplo – um padrão que já existe no imaginário da população acerca do que seja um “marginal”, como coloca a professora Renísia Garcia, ela referenda essa imagem e dificulta a desconstrução do preconceito.

É nesse sentido que se colocam as críticas dirigidas a teledramaturgia, retratadas no início desse texto. É papel dela também – mais que retratar a realidade – de contribuir para a construção de uma nova realidade, na qual os pobres, negros, as mulheres, homossexuais, se vejam retratados em sua luta, mas que também se inspirem na superação das dificuldades que a sociedade desigual os impõe, para que alcancem verdadeiramente o Seu Lugar no Mundo, que é exatamente onde quiserem estar.

Douglas

*As ideias contidas nos textos traduzem as opiniões/pensamentos do(a) autor(a), não de todos os membros do grupo

 

 

Petróleo e Pobreza: O que está acontecendo com a Venezuela?

Ao longo dos últimos meses estamos sendo informados com grande frequência sobre a precária situação em que os venezuelanos se encontram. Matérias sobre o preço do papel higiênico, a escassez de comida, de remédio e de tudo mostram o desespero de uma população que vive em um país vizinho.

Algumas das últimas notícias:

Mas como realmente isso aconteceu? Quais são as causas que os levaram a essa situação dramática?

Não pretendo responder de maneira completa essas questões, até porque é um problema extremamente complexo e multidimensional. Fatores de ordem política, geográfica e cultural sempre estão presentes e se inter-relacionam o tempo todo. Tentarei aqui chamar atenção apenas para um fator econômico, mas de extrema relevância: a dependência estrutural de petróleo do país. O petróleo, apesar de ser uma commodity, é também um produto estratégico. Apesar do crescimento de outras fontes de energia, ainda hoje aproximadamente 90% da matriz energética mundial vem dos combustíveis fósseis: petróleo, gás e carvão.

A Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do planeta (quase 300 bilhões de barris) e é um dos membros fundadores da OPEP. Contudo, essa riqueza natural pode tornar-se, quando leva a uma exagerada especialização, um entrave ao desenvolvimento dos países que a possuem. Os ganhos dependem muito dos custos de extração e de como ela é administrada. A dependência venezuelana de petróleo, característica de sua história, se agravou nos anos 2000, no superciclo das commodities, em que o preço do barril se manteve acima de US$ 100/barril.

Aproximadamente 90% da pauta exportadora do país está relacionada ao setor petrolífero. Nesse período de boom o governo vendeu abaixo do preço de mercado para 13 parceiros comerciais do Caribe e manteve o preço interno da gasolina abaixo de 50 centavos de dólar, e ao fazer essa escolha, o país acabou deixando de aproveitar todo o potencial desse momento eufórico do preço do produto.

Além das receitas governamentais dependerem das receitas do petróleo, com a intensificação da dependência da economia pelo produto, o país deixou de investir na economia interna, que é obrigada a importar quase 70% dos produtos que consome, entre eles produtos de primeira necessidade como alimentos, remédio e matérias primas.

A quase inexistência de um parque industrial interno pode ser explicado pela famigerada “Doença Holandesa”, nome dado ao que se convencionou chamar de “maldição dos recursos naturais”. Resumidamente, quando uma economia tem um produto natural para exportar, foca nessa atividade. Ao se tornar uma economia exportadora de produto natural, cresce a entrada de moeda estrangeira no país, que valoriza a moeda nacional e desincentiva a produção interna, visto que é mais barato comprar produtos importados do que produzir internamente. Sem incentivo a produção interna, a indústria nacional não se fortalece, e o país fica dependente das oscilações externas do produto no qual é especializado.

A Arábia Saudita, líder no mercado, com reserva de 750 bilhões barris de petróleo e baixo custo de produção (aproximadamente US$ 5/barril), em meados de 2014 começa uma política de não controle do preço do produto, expandindo consideravelmente a oferta e fazendo o preço cair de US$111,57/barril em junho/14, chegando a US$ 30,80/barril em fevereiro desse ano, fechando em US$ 48,48 em junho, conforme ilustra o gráfico abaixo.

Evolução do preço do barril de petróleo em US$

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Fonte: IndexMundi

Esse movimento gera problemas para todas as nações exportadoras de petróleo, desde o Irã, primeiro alvo da política saudita, aos Estados Unidos, aliado, que têm uma produção nova, e também sofre as consequências dessa mudança. Aqui no Brasil, a extração custa em torno de US$ 9,00/barril, sem considerar a necessidade de cumprir com os relevantes gastos passados com investimentos no pré-sal. A um preço abaixo de US$ 60,00/barril é bastante complicado para mantermos os investimentos em exploração, inovação e produção, inclusive tornando o pré-sal inviável num horizonte de médio prazo.

Para a Venezuela, por essa enorme dependência do produto, os efeitos foram graves: com a queda do preço da commodity, um volume muito menor de moeda estrangeira entrou no país, houve desvalorização da moeda local e grande perda do poder de compra da sua população, que tem que importar quase tudo que consome.

A Venezuela sofre da “Maldição do Petróleo”. Essa expressão é título de um livro recém lançado por Michel L. Ross, em que o autor argumenta, com base em diversos dados os efeitos perniciosos que a presença do mineral pode trazer para os países que o detém. O autor argumenta que a alta receita gerada e a volatilidade de preços do produto contribuem para além de um crescimento econômico vulnerável, dependente e excludente (por não distribuir as imensas riquezas geradas), para a presença de autoritarismo e conflitos civis. Pelo seu caráter estratégico os males que o petróleo pode trazer são maiores que a dependência de outro produto natural.

Ludmila Azevedo

 *As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo