Petróleo e Pobreza: O que está acontecendo com a Venezuela?

Ao longo dos últimos meses estamos sendo informados com grande frequência sobre a precária situação em que os venezuelanos se encontram. Matérias sobre o preço do papel higiênico, a escassez de comida, de remédio e de tudo mostram o desespero de uma população que vive em um país vizinho.

Algumas das últimas notícias:

Mas como realmente isso aconteceu? Quais são as causas que os levaram a essa situação dramática?

Não pretendo responder de maneira completa essas questões, até porque é um problema extremamente complexo e multidimensional. Fatores de ordem política, geográfica e cultural sempre estão presentes e se inter-relacionam o tempo todo. Tentarei aqui chamar atenção apenas para um fator econômico, mas de extrema relevância: a dependência estrutural de petróleo do país. O petróleo, apesar de ser uma commodity, é também um produto estratégico. Apesar do crescimento de outras fontes de energia, ainda hoje aproximadamente 90% da matriz energética mundial vem dos combustíveis fósseis: petróleo, gás e carvão.

A Venezuela possui uma das maiores reservas de petróleo do planeta (quase 300 bilhões de barris) e é um dos membros fundadores da OPEP. Contudo, essa riqueza natural pode tornar-se, quando leva a uma exagerada especialização, um entrave ao desenvolvimento dos países que a possuem. Os ganhos dependem muito dos custos de extração e de como ela é administrada. A dependência venezuelana de petróleo, característica de sua história, se agravou nos anos 2000, no superciclo das commodities, em que o preço do barril se manteve acima de US$ 100/barril.

Aproximadamente 90% da pauta exportadora do país está relacionada ao setor petrolífero. Nesse período de boom o governo vendeu abaixo do preço de mercado para 13 parceiros comerciais do Caribe e manteve o preço interno da gasolina abaixo de 50 centavos de dólar, e ao fazer essa escolha, o país acabou deixando de aproveitar todo o potencial desse momento eufórico do preço do produto.

Além das receitas governamentais dependerem das receitas do petróleo, com a intensificação da dependência da economia pelo produto, o país deixou de investir na economia interna, que é obrigada a importar quase 70% dos produtos que consome, entre eles produtos de primeira necessidade como alimentos, remédio e matérias primas.

A quase inexistência de um parque industrial interno pode ser explicado pela famigerada “Doença Holandesa”, nome dado ao que se convencionou chamar de “maldição dos recursos naturais”. Resumidamente, quando uma economia tem um produto natural para exportar, foca nessa atividade. Ao se tornar uma economia exportadora de produto natural, cresce a entrada de moeda estrangeira no país, que valoriza a moeda nacional e desincentiva a produção interna, visto que é mais barato comprar produtos importados do que produzir internamente. Sem incentivo a produção interna, a indústria nacional não se fortalece, e o país fica dependente das oscilações externas do produto no qual é especializado.

A Arábia Saudita, líder no mercado, com reserva de 750 bilhões barris de petróleo e baixo custo de produção (aproximadamente US$ 5/barril), em meados de 2014 começa uma política de não controle do preço do produto, expandindo consideravelmente a oferta e fazendo o preço cair de US$111,57/barril em junho/14, chegando a US$ 30,80/barril em fevereiro desse ano, fechando em US$ 48,48 em junho, conforme ilustra o gráfico abaixo.

Evolução do preço do barril de petróleo em US$

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Fonte: IndexMundi

Esse movimento gera problemas para todas as nações exportadoras de petróleo, desde o Irã, primeiro alvo da política saudita, aos Estados Unidos, aliado, que têm uma produção nova, e também sofre as consequências dessa mudança. Aqui no Brasil, a extração custa em torno de US$ 9,00/barril, sem considerar a necessidade de cumprir com os relevantes gastos passados com investimentos no pré-sal. A um preço abaixo de US$ 60,00/barril é bastante complicado para mantermos os investimentos em exploração, inovação e produção, inclusive tornando o pré-sal inviável num horizonte de médio prazo.

Para a Venezuela, por essa enorme dependência do produto, os efeitos foram graves: com a queda do preço da commodity, um volume muito menor de moeda estrangeira entrou no país, houve desvalorização da moeda local e grande perda do poder de compra da sua população, que tem que importar quase tudo que consome.

A Venezuela sofre da “Maldição do Petróleo”. Essa expressão é título de um livro recém lançado por Michel L. Ross, em que o autor argumenta, com base em diversos dados os efeitos perniciosos que a presença do mineral pode trazer para os países que o detém. O autor argumenta que a alta receita gerada e a volatilidade de preços do produto contribuem para além de um crescimento econômico vulnerável, dependente e excludente (por não distribuir as imensas riquezas geradas), para a presença de autoritarismo e conflitos civis. Pelo seu caráter estratégico os males que o petróleo pode trazer são maiores que a dependência de outro produto natural.

Ludmila Azevedo

 *As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo

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Um comentário sobre “Petróleo e Pobreza: O que está acontecendo com a Venezuela?

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