Lugar de Preto: a construção da identidade negra e o papel da mídia

O que inspirou esse texto foi a polêmica gerada em torno da nova temporada de Malhação, intitulada “Pro dia Nascer Feliz”, em substituição à anterior “Seu Lugar no Mundo”. A nova temporada terá sua primeira protagonista negra, após 21 anos (é isso mesmo!) de exibição do folhetim. A atriz Aline Dias, 23 anos, viverá Joana, uma garota cearense e pobre que sairá do seu estado natal para tentar a vida no Rio de Janeiro. Lá trabalhará como faxineira em uma academia e se apaixonará pelo jogador de vôlei Gabriel, branco e de melhor condição socioeconômica.

Esse fato gerou críticas, sobretudo na internet, uma vez que a trama estaria reforçando um estereótipo que vem sido apresentado há muito tempo na mídia, principalmente nas telenovelas, que é o da personagem negra, pobre, que se apaixona pelo rapaz branco e rico, sofre toda sorte de humilhações das personagens brancas até, no final, ficar com o rapaz rico e “subir na vida”, ao invés de situar a personagem enquanto estudante comum, como todas as outras protagonistas até então.

Nos anos recentes, observamos a ampliação da presença de negros na mídia brasileira. Recordemos a trama “Da cor do pecado” de 2004, na qual a atriz Taís Araújo vive a protagonista Preta, o que se torna um marco dos avanços recentes. No entanto, a euforia causada por esse fato acaba obscurecendo a visão estereotipada do negro trazida na novela e que o próprio nome da trama demonstra, ou seja, qual é a cor do pecado.

Observamos também outras situações que demonstram avanços em relação à representação do negro nos veículos de comunicação, mas infelizmente, a presença desse segmento da população brasileira nesses espaços ainda possui caráter secundário e uma posição de destaque é exceção. O caráter de exceção é tanto que quando uma jornalista negra aparece no jornal de maior visibilidade do País, com seu cabelo crespo, é atacada por internautas racistas. Quem não se lembra do caso Maju?

O ataque à jornalista veio pra confirmar o que já sabíamos: o Brasil ainda é um país racista, no qual o “lugar de preto” está bem definido no imaginário de muita gente e, com certeza, não é no horário nobre e muito menos sem alisar o cabelo. Ah, mas o tempo é mesmo o senhor de tudo. Não é mesmo, Ali Kamel?

Há 10 anos, o diretor de jornalismo da TV Globo, publicava o livro “Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor”. No livro publicado em 2006, o sociólogo e jornalista, argumenta contra a adoção de cotas raciais nas universidades públicas, pois, segundo ele, tal política, ao “dividir” o País entre negros e brancos,  ao contrário de combater o racismo,  poderia incitar o ódio racial.

Um grande equívoco da análise do autor, como apontado pelo Professor da UFRRJ Aristóteles de Paula Berino, é associar ao racismo principalmente uma ação odiosa, o que o faz afirmar que isso, definitivamente, não estaria presente na nossa sociedade. Afirmação que se perde diante das ações de ódio dirigidas, poucos anos depois, aos próprios funcionários da emissora em que o autor trabalha, a exemplo de Maju, Taís Araújo, Cris Vianna e Sheron Menezzes.

Observa-se com os exemplos citados que os ataques se dirigiram em grande magnitude às mulheres negras, as quais sofrem – nas palavras de Sueli Carneiro – “da conjugação perversa do racismo e do sexismo, que resulta em uma espécie de asfixia social com desdobramentos negativos em todas as dimensões da vida. Esses se manifestam em sequelas emocionais com danos à saúde mental e rebaixamento da autoestima”.

Chegamos ao ponto principal do texto: a autoestima. O que quero enfatizar nesse texto não é o aspecto quantitativo da presença do negro na mídia (o que têm melhorado, sobretudo a partir da década de 1990), mas sim a forma como estamos inseridos. Diante disso, a questão que se coloca é: Que papel que nós negros temos nessa mídia? Quais personagens recebemos nas telenovelas? Quantos de nós estamos nos cargos de direção dos veículos de comunicação? Quantos roteiristas somos?

Sabemos que a realidade brasileira é marcada por uma perversa desigualdade racial e que a população pobre é majoritariamente negra (o que inclui pretos e pardos). Nesse sentido, podemos dizer que o que as novelas, filmes, seriados, etc, fazem nada mais é que tentar retratar essa realidade. No entanto, o que não recebe atenção é o fato de que a TV enquanto principal veículo de comunicação consumido pelos brasileiros possui o poder de influenciar a construção da identidade das pessoas, bem como sua autoestima e imaginário. Nesse sentido, mais do que uma representação do real, a TV precisa ser pensada como elemento influenciador da própria construção do real, como aponta a professora da UNB, Renísia Garcia.

Digo isso, enquanto negro que já foi criança e não se via representado na mídia como pessoa que pudesse ter qualquer profissão que quisesse, por exemplo. Digo isso, enquanto estudante de ensino médio que não tinha um professor negro em que se espelhar, o mesmo ocorrendo na graduação e pós-graduação. Não fosse a persistência da minha família em deixar claro que eu poderia ocupar o espaço que eu quisesse, talvez esse texto nem existisse nesse momento.

Eu vos pergunto: como podemos chegar para uma criança pobre negra e dizer que ela pode ser uma professora, um advogado, uma médica, um ator, uma jornalista, se na sua escola ela não tem uma professora que a representa? Se nem na novela pessoas como ela desempenham essas atividades? E aí que está a questão da autoestima.

Como influenciar na construção da identidade e autonomia dessas crianças, se a história eurocêntrica que lhes foi colocada na escola situa o sujeito negro como passivo no processo de colonização e escravidão, negando a essas crianças o conhecimento acerca da luta e resistência dos povos negros.

Esse cenário está em vias de modificação devido a ações como a Lei 10.639 de 2003, que inclui no currículo oficial do ensino fundamental e médio o ensino da “história e cultura afrobrasileira e africana’’, cuja importância é inegável para a construção de um ideal de inserção do negro na história do País, demonstrando sua importância na constituição da nação, que extrapola a escravidão. Com a criação da lei nosso desafio é preparar os nossos professores para o cumprimento desse nobre papel de agentes contra o preconceito, desigualdade e discriminação racial.

Outra ação importante foi a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003, com a função de articular políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial. A secretaria passou a compor o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos em 2008. No entanto, infelizmente, foi extinto em maio deste ano, como parte da reforma ministerial do governo interino de Michel Temer e os temas da pasta passaram a ser discutidos no âmbito do Ministério da Justiça e Cidadania.

O estatuto da igualdade racial de 2010 também se constitui um grande avanço, inclusive na questão da mídia ao instituir que na produção de filmes e programas destinados à veiculação pelas emissoras de televisão e em salas cinematográficas, deva ser adotada a prática de conferir oportunidades de emprego para atores, figurantes e técnicos negros, o que vale também para as peças publicitárias. Além disso, os órgãos entidades e empresas públicas devem incluir cláusulas de participação de artistas negros nos contratos de realização de filmes, programas ou quaisquer outras peças de caráter publicitárias. Essa ação já têm efeitos notáveis, pois já se observa um aumento da participação de negras e negros nas peças publicitárias, filmes, seriados, dentre outros.

A aprovação da lei 12.711 em 2012, que reserva 50% das vagas das instituições federais de ensino superior para estudantes oriundos da rede pública de ensino, abrangendo critérios de cor/raça, se constitui, juntamente com a lei 10.639, uma importante conquista de movimentos sociais no Brasil. Essas conquistas contaram fortemente com a atuação do Movimento Negro, sobretudo após as reivindicações da Marcha de Zumbi dos Palmares contra o Racismo pela Cidadania e a Vida, em 1995, que reuniu aproximadamente 300 mil pessoas. Isso demonstra que a implantação das ações afirmativas não é reflexo apenas da benevolência do Governo Federal, mas sim, de um processo de luta constante que precisa ficar claro no imaginário da população.

Como é possível perceber, houve avanços no âmbito do acesso à educação, ensino da história, dentre outros direitos dos povos negros, embora haja algumas tentativas de cerceamento desses direitos adquiridos, como podemos verificar com a extinção do ministério que tratava da igualdade racial. No entanto, o que quero chamar atenção nesse texto é para os avanços que ainda precisamos fazer no âmbito psicológico, rumo à construção de um ideal de pertencimento da população negra brasileira.

É necessário que consigamos desconstruir o imaginário depreciativo e o estigma que ronda a população negra e, nessa questão, o papel da mídia é de extrema importância, pois quando ela destaca – por exemplo – um padrão que já existe no imaginário da população acerca do que seja um “marginal”, como coloca a professora Renísia Garcia, ela referenda essa imagem e dificulta a desconstrução do preconceito.

É nesse sentido que se colocam as críticas dirigidas a teledramaturgia, retratadas no início desse texto. É papel dela também – mais que retratar a realidade – de contribuir para a construção de uma nova realidade, na qual os pobres, negros, as mulheres, homossexuais, se vejam retratados em sua luta, mas que também se inspirem na superação das dificuldades que a sociedade desigual os impõe, para que alcancem verdadeiramente o Seu Lugar no Mundo, que é exatamente onde quiserem estar.

Douglas

*As ideias contidas nos textos traduzem as opiniões/pensamentos do(a) autor(a), não de todos os membros do grupo

 

 

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