Seria a poupança o limitante do investimento?

Uma das características que é comum na teoria tradicional econômica, e de parte da abordagem alternativa também, é o foco na poupança para explicar o nível de investimento e desenvolvimento de uma economia. A ideia primordial advém da necessidade de alguns abrirem mão do consumo presente (poupança) para que haja recursos disponíveis para o investimento.

Diferente destas, na visão keynesiana a economia é fundamentalmente movida pelos investimentos, por ser o fator gerador de renda e capacidade produtiva nova e, por ser o vetor independente (exógeno) dos componentes da renda. Nesta visão, não é o mercado de trabalho que determina a quantidade de trabalhadores contratados ou o salário real, mas é a quantidade de investimento que vai determinar a quantidade de trabalho empregado. Assim, não são os condicionantes de oferta que determinaram o nível de renda, mas sim os de demanda, sendo o investimento seu principal componente.

O consumo nessa economia é predominantemente determinado pelo nível de renda*** e, sendo a poupança a parte não gasta da renda em consumo, esta é apenas um resíduo. As decisões de investimento, no entanto, tem caráter altamente instáveis, uma vez que os empresários precisam antever acontecimentos futuros, realizando cálculos baseados em expectativas, ao relacionar os gastos presentes com as expectativas futuros da produção e taxa de retorno de seus investimentos (eficiência marginal do capital), comparando esta ainda, com o retorno que eles teriam caso aplicassem no mercado financeiro (taxa de juros). Explicita-se que esta instabilidade não advém da falta de racionalidade, mas simplesmente da impossibilidade de conhecer previamente as variáveis no futuro.

A taxa de juros, no entanto, não será aquela determinada pela interação entre poupança e investimento, como postula a visão tradicional, mas puramente dependente da preferência pela liquidez (e da oferta de moeda). Assim, a taxa de juros é o preço pago aos indivíduos que renunciam a posse de moeda no presente, ou seja, abre mão das vantagens que traz a posse do dinheiro no presente em troca de um prêmio (juros).

A taxa de juros então, “é aquela segundo a qual a demanda e a oferta de recursos líquidos se equilibram. A poupança de maneira alguma faz parte do quadro”** .De forma que “[…] não é a taxa de juros, mas sim o nível de renda que (em conjunto com certos outros fatores) assegura essa igualdade [poupança = investimento]”*. Nessas circunstancias, o investimento tem papel central e antecederá a poupança, sendo ele o determinante do nível de renda, emprego, consumo e poupança. A poupança na economia é apenas um resíduo da renda, seu papel é consolidar, e não financiar o processo de acumulação, sendo sua igualdade ex post com o investimento fator puramente contábil. Em determinado momento, os agentes podem poupar “ex ante, ex post, até ficarem azuis”, e mesmo assim os bancos podem decidir não emprestar se eles estiverem mais avessos ao risco (maior preferência pela liquidez). Assim, entender como os investimentos são financiados é fator primordial dada sua importância, e desmistificar que a poupança não é seu limitante, fato ainda mais relevante.

Dentre os motivos relacionados a demanda por moeda, preferência pela liquidez, temos: motivo transação (pagamentos, compromissos diários), motivo precaução (recurso para enfrentar situações inesperadas) e especulação (recursos estratégicos para serem utilizados em negócios rentáveis), Keynes, após a Teoria Geral, apresenta um quarto motivo para a demanda por moeda: o motivo finance para investimento, que é o crédito destinado a aquisição de máquinas e equipamentos.

Com o desenvolvimento do sistema bancário e da generalização das trocas, torna-se possível a negociação de excedentes numa economia e, particularmente para os bancos, a possibilidade de realizar empréstimos. Com o avanço da quantidade de depósitos à vista, os bancos percebem que sempre há um montante fixo que permanece em seus cofres (fluxo de caixa histórico), ainda que as atividades normais dos bancos estejam ocorrendo. É através desse montante “fixo” que os bancos veem a possibilidade de emprestar para outros agentes e, com isso, a capacidade dos bancos de criar moeda.  O finance está relacionado a este “fundo rotativo”.

A necessidade de qualificação de um novo motivo para demanda de liquidez advém das características distintas do investimento. Primeiro, é preciso considerar que a decisão de investimento por si só já é geradora de renda. Sendo a aquisição de máquinas e equipamentos feita por encomenda, quando esta se verifica, um fluxo de renda na forma de salários e lucros já é iniciado, e graças ao multiplicador keynesiano, este fluxo se expande para outros setores. O segundo ponto é que o investimento é criador de capacidade produtiva nova. Assim, após sua implementação e com o início das atividades – possivelmente – novo fluxo de renda será gerado, já que investimentos são implementados com expectativas de sobrepor seus custos em algum momento.

No exemplo abaixo, em que temos o multiplicador keynesiano simples, vemos que para cada “rodada” de gasto, esta gera um novo fluxo de renda e de gasto. Assim, para um investimento (I) inicial de 100 unidades, numa economia que tem uma propensão a consumir (c) de 0,8 e propensão a poupar (s) de 0,2, o resultado final é de uma renda (Y) de 500 e poupança (S) de 100.

Multiplicador Keynesianom k

Fonte: elaboração própria

O finance então, não prescindirá de poupança, uma vez que é o próprio investimento que será responsável pela geração de poupança, em que no ato da decisão de investir, junto com os fluxos de renda gerados, temos uma parte dessa renda que não será consumida e retornará para os bancos, de forma a restaurar a liquidez dos mesmos.

“É que o “financiamento” [finance] constitui, essencialmente, um fundo rotativo. Não emprega poupança. É, para a comunidade como um todo, apenas uma transação contábil. Logo que é “usado”, no sentido de ser gasto, a falta de liquidez é automaticamente compensada e a disposição temporária está de novo pronta a ser usada mais uma vez”**

Neste sentido, considerando a capacidade dos bancos de criar moeda (ou ainda que estes não tivessem esta capacidade) e de que todos os investimentos não acontecem num mesmo momento, a poupança não é limitante do nível de investimento em uma economia, mas pelo contrário, é o próprio investimento que determinará ex post o nível de poupança. O que limitará o nível de investimento então, não será a poupança, mas a decisão do sistema bancário de liberar crédito, “o mercado de investimentos pode tornar-se congestionado por causa de falta de dinheiro, mas nunca se congestionará por falta de poupança” **.

Henrique

* KEYNES, J. M. (2010a). “Teoria alternativas da taxa de Juros” in Clássicos da Literatura Econômica. Brasília, IPEA.

** KEYNES, J. M. (2010b). “A teoria ex-ante da taxa de Juros” in Clássicos da Literatura Econômica. Brasília, IPEA.

*** O consumo também depende de características psicológicas, históricas e culturais de cada economia.

**** As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s