Baelor à Brasileira

BaelorAos pés de “Baelor” Arya assiste, atônica, ao destino de sua família. Seria essa a reação da famosa Classe C?

 

A arte imita a vida. É essa a frase correta?

Tentar expressar a confluência de momentos, fatos e fatores, personagens e histórias que levaram a esse fatídico 31 de agosto de 2016 não é uma tarefa fácil. Tal qual um romance policial os últimos dois anos da sociedade brasileira foram marcados por reviravoltas, inflexões, surpresas e atos até então impensáveis pelos melhores roteiristas da ficção. Para um jovem que está por volta de seus 20 anos, e para aqueles com idade ainda menor, talvez seja ainda mais difícil entender o que se passa, afinal são essas as únicas gerações de brasileiros e brasileiras que nasceram e cresceram em uma democracia. Democracia essa que só tem força em sua imagem, pois na realidade reproduz os mesmos interesses de oligarquias tão antigas quanto essa própria nação chamada Brasil.

Para aqueles que acompanham o Blog não é surpresa que sou fã de séries, em especial de Game of Thrones, e tal qual no final da sua primeira temporada chegamos ao clímax de um processo que se iniciou em 2014, ou mesmo antes. O episódio Baelor chegou para a história brasileira, e com ele o choque de uma realidade que já era esperada.

Vale lembrar que em 2002 foi eleito o primeiro presidente que tenha sido trabalhador metalúrgico do país, que teve sua carreira política fortemente ligada ao sindicalismo, um típico brasileiro que vive do seu trabalho e apenas dele. O ideário de que uma figura do povo, Luiz Inácio Lula da Silva, estabelecido na Presidência da República trouxe os trabalhadores ao poder do País demonstra hoje, cerca de 13 anos depois, ser um grande equívoco.

Durante os últimos 13 anos o Brasil, beneficiado por uma bonança mundial e por um boom de commodities, tornou possível o que era impossível. Lula, o conciliador, conseguiu agradar a gregos e troianos, ou melhor, manteve a estrutura do País sem enfrentar o desgaste de tentar mudá-la. Lula ficou de mãos dadas a forças de grupos antagônicos, ao mesmo tempo em que favorecia os ricos, bancos e ao grande capital, conseguiu implantar políticas sociais nunca antes vistas. Expansão de programas como o Bolsa Família e investimentos públicos não eram inviabilizados pela geração de superávits primários gigantescos. Um Brasil paz e amor parecia possível, mesmo com escândalos como o Mensalão, iniciando uma aliança com o PMDB.

Com a crise financeira global de 2008 o conciliador Lula e sua equipe não hesitaram em responder com aumento dos investimentos públicos que resultou em uma rápida recuperação. “Comprem de forma moderada” foi o conselho de Lula à população brasileira em 2009, remetendo a uma clara política anticíclica, supostamente inspirada em ideais do economista Keynes. O Brasil ganhava o direito de ser sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas, os maiores eventos esportivos do mundo, e a década de 2010 já se anunciava como a década brasileira. Aliás quando no anuncio da vitória do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas Lula emocionado dizia, ao lado do então desconhecido Michel Temer, que agora o Brasil era um país de “primeira classe” e que poderia assumir o espaço que lhe é de direito. Enfrentar reformas tributária, previdenciária, agrária, urbana, do controle da mídia, dos juros e câmbio pareciam desgastes que poderiam aguardar.

Em 2010 é eleita a primeira mulher presidente do país, Dilma Rousseff, aquela que era a “mão” de Lula, o conciliador. Preocupada com o desaquecimento da economia Dilma e sua equipe adotam uma série de desonerações, estimulam a queda do juros e políticas para redução do spread bancário, concessões e tentativas de entregar o crescimento econômico aliado à políticas de redução das desigualdades, como o aumento real do salário mínimo. Entretanto, dessa vez não havia um cenário externo favorável, em 2014 o preço das commodities despencam, o marasmo europeu e dos EUA e o freio da China não deixa o cenário nada propicio. Internamente acontece 2013, o grito das ruas deixa claro que a harmonia não é mais uma opção, o modelo conciliatório de Lula se esgota aqui.

Ainda em 2014 as urnas escolhem Dilma e seu projeto de continuidade, a despeito de não ser mais possível conciliar interesses difusos. Entretanto, dessa vez a corrida eleitoral dividiu o país deixando claro de vez que a conciliação não é mais possível. Dilma opta por um ajuste radical, virando as costas a seus apoiadores da esquerda.  A Operação Lava-Jato da Polícia Federal desmonta uma gigantesca estrutura de corrupção na Petrobras, a crise econômica chega e os erros de Dilma I se tornam aparentes. Essa era a oportunidade perfeita. Com a “mão” de Lula perdida a direita entende que essa é a hora. Se as urnas não deram essa oportunidade que seja feita a oportunidade.

Internamente acontece 2013, o grito das ruas deixa claro que a harmonia não é mais uma opção, o modelo conciliatório de Lula se esgota aqui.

Bem, pelo menos essa é a história clássica, exceto por detalhes que fazem toda a diferença.  Detalhes que mesmo Lula, a representação dos trabalhadores, e o PT pareciam não ter identificado.  Lula e Dilma ocuparam a presidência da república. Mas os trabalhadores nunca chegaram de fato a ter poder. Não foi o PT que dividiu o Brasil, pelo contrário sua estratégia de conciliação passou a falsa ideia de que todos brasileiros e brasileiras poderíamos consumir e frequentar o mesmo espaço em paz, que éramos todos iguais. Mas não somos. Nós sempre fomos divididos e agora fica claro quem é quem.

Em qualquer sociedade grupos de poder são formados e tentam, por meio do poder do Estado, tornar real projetos para alcançar seus objetivos. E no caso desse conflito brasileiro nós nunca deixamos de ser a velha fazenda cafeeira. A casa grande e a senzala, agora travestidas em uma roupagem moderna, mas facilmente identificada pela classe trabalhadora nas periferias de um lado, e pelos grandes proprietários do capital e a conservadora classe média de outro.

A nova classe média nada mais é do que uma propaganda conciliatória petista, trata-se apenas da classe trabalhadora que conquistou acesso a bens de consumo que até então somente a Casa Grande tinha acesso. Em um país onde consumir iogurte e viagens aéreas é coisa de gente chic, o acesso à educação e saúde de qualidade é um luxo que apenas as castas superiores podem ter direito. Ao não enfrentar as estrutura de poder vigentes, ao se acomodar no seio da velha plutocracia tupiniquim e pensar que era do mesmo nível que eles, o PT se perdeu em seu falso poder, alimentou um ódio difícil de ser defendido, e agora paga caro por isso.

2016 veio e com ele a tempestade perfeita: crise econômica, rejeição ao governo, e o delírio da direita: o impeachment. Apoiado em um fraco suporte jurídico e em um fortíssimo teor político PT foi removido do poder. E com ele uma agenda que mesmo sendo criticada pela esquerda não se voltaria totalmente contra os trabalhadores brasileiros.

Agora os trabalhadores entenderam que o poder nunca lhes pertenceu. Agora fica claro que mesmo o espectro político de um país subdesenvolvido como o Brasil é diferente. A direita aqui não é como a europeia. Aqui ela é representada pela Casa Grande, pela plutocracia, por aqueles que querem a manutenção do status quo, por um conservadorismo que se repele a qualquer progressismo. O apoio da classe média tradicional e mesmo parte dos mesmo trabalhadores beneficiados por políticas do PT, envolto em um falso clamor contra uma corrupção genérica que na realidade se traduz em ódio pelo PT; e da velha grande mídia que alimenta com eficiência tal ódio, representada por literalmente meia dúzia de famílias poderosas, tornaram possível a farsa que foi o processo de impeachment. Processo esse que foi fomentado por motivações puramente políticas, ou já esquecemos do áudio do Senador Jucá sobre o pacto para estancar a sangria, fomentado também pela família brasileira e até por Deus?

O impeachment não se fez por conta de pedaladas fiscais, mas pelo conjunto da obra, pelos erros da economia e principalmente pelo maior erro do PT: a incompetência de impor ao brasileiros a continuidade das reformas neoliberais. Agora fica claro que o famoso “pacote de maldades” previsto no projeto de Temer nada mais é que o conjunto de reformas liberalizantes a fim de atender ao receituário do bom e velho consenso de Washington e aos interesses daqueles que recebem os absurdamente elevados juros da dívida pública. As bandeiras da direita estão agora fincadas em Brasília, com um projeto que dificilmente passaria pelas urnas e que logo já será implementado, afinal a grande mídia já aponta “reformas impopulares mas necessárias”.

A desregulamentação do mercado de trabalho, a busca por superávits primários para pagar juros da dívida pública, o entreguismo na política externa são o centro da política de Temer e sua equipe. A crença de seus economistas de que apenas o ajuste de contas do governo gerará  crescimento econômico, e que este resolverá todos os problemas do Brasil como que num passe de mágica, resulta em uma equação nefasta de redução do tamanho da máquina estatal a qualquer custo. A reforma da previdência será feita sob a ótica da geração de superávits, a PEC 241 propõe o congelamento real dos gastos públicos o que pode inviabilizar o financiamento das universidades públicas e do SUS, na prática rasgando a Constituição Cidadã de 1988 e ignorando o consenso nacional de demanda de serviços de saúde e educação gratuitos.

O desmonte da CLT em privilégio a negociações coletivas e a lei de terceirização, em busca de garantir maior flexibilidade do mercado de trabalho, podem promover o desgaste e maior exploração ao trabalhador. O ministro das Relações Exteriores José Serra já vem demonstrando o fim de políticas de integração regional na América do Sul, forçando mudanças de regras do Mercosul, e o fim das relações Sul-Sul, em prol de se voltar ao Norte novamente. O atual Ministro da Fazenda Henrique Meirelles já anunciou que as privatizações podem ser uma saída para financiar o governo, o que pode entregar não apenas bens e empresas estatais a preço de banana para o capital privado mas também entregar de vez o pré-sal à empresas estrangeiras, fazendo com que o Brasil retorne de vez à condição de mero exportador de produtos primários (que já somos demasiadamente dependentes) e plataforma para valorização financeira, dificultando cada vez mais o estabelecimento de autonomia e soberania nacional. O novo Governo Temer em conjunto com Serra deixa a clara vontade de nos fazer ser, depois do México e da Colômbia, a mais nova colônia dos EUA.

Baelor chegou ao Brasil, e com ele Dilma Rousseff foi deposta. Assim como em Game of Thrones os acontecimentos desse triste episódio da história brasileira, não apenas trouxe injustiça a personagens importantes, mas também irá levar a caminhos obscuros e tempos sombrios. Com a mesma rapidez o novo Rei já foi posto e batalhas ainda mais difíceis virão. A Constituição estará sob ataque constante e cabe aos brasileiros agir. Lutar por aqueles que viraram as costas a quem os elegeu pode ser pedir demais, mas lutar contra outros que tomaram o poder por vias questionáveis a fim de atender interesses perversos pode ser bem mais fácil. Apesar da relutância de alguns em pensar que reformas impossíveis não possam ocorrer, fiquem alerta. Os últimos meses demonstram que no Brasil o improvável pode ser regra.

Marcelo*

* O texto representa a opinião do autor e não necessariamente de todos os colaboradores do Blog.

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