Muito dinheiro, pouco PIB

Uma das propostas deste blog é trazer a discussão de economia para o público de não-economistas, tentando trazer uma linguagem menos técnica pari passu mantendo o objetivo de transmitir informação relevante ao debate econômico. Proposta essa, não inédita, mas que nos últimos anos se tornou pauta nos mais importantes centros de economia mundo afora. Eis que a maior parte dos economistas julga seu objeto de estudo e métodos de análise complexos demais para o debate com o público em geral. Contudo, é válido e necessário o esforço daqueles que tentam expandir a discussão com aqueles que, afinal, recebem as consequências das decisões econômicas.

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Este breve texto objetiva, então, trazer a exposição de um problema que surge em decorrência da crise financeira de 2008 e tem afetado o mundo todo, bem como alterado fundamentalmente como economistas entendem e fazem economia. Não por coincidência, não existe consenso nem entre os próprios economistas sobre uma resposta a ele. Esse problema se chama Zero Lower Bound, ou, como posto por John Maynard Keynes, estamos em uma armadilha da liquidez (proveu-se tanta liquidez para a economia se aquecer, sem que ela se aquecesse o suficiente, que mais crédito na economia não está resolvendo nada).

Esse problema afeta grande parte do mundo, principalmente os países desenvolvidos. Apesar de seus sintomas (taxa de juros baixa e inflação baixa, ou mesmo negativas) serem diferentes dos problemas no Brasil (elevados juros e inflação), recebemos seus efeitos indiretos, afinal, não estamos isolados no mundo. Se as outras economias vão mal, sofreremos o impacto disso. Ademais, ele está no cerne da operacionalização da condução da política econômica, influenciando, assim, como fazemos e entendemos economia.

Vamos ao início. A taxa de juros é nada menos que o preço do dinheiro, ou seja, quanto custa para usar um dinheiro que não é seu. Assim sendo, o que acontece com o preço de uma coisa quando a oferta dessa coisa aumenta? O preço cai. Por seu turno, efeito oposto decorre de um aumento na procura (demanda) por essa coisa, o preço sobe. Logo, quando a oferta de moeda aumenta ou sua demanda cai, seu preço cai e vice e versa.

Quando o Banco Central de um país deseja estimular a economia, ele aumenta a quantidade de dinheiro disponível no sistema financeiro*, o que leva a queda do seu preço, os juros. Este sistema financeiro, então, irá oferecer esse novo dinheiro disponível aos tomadores de empréstimos. Empresários e consumidores irão, por sua vez, decidir investir e consumir pois ficou mais barato pegar emprestado. Ao investir e consumir, renda é gerada na economia e o PIB cresce. Além disso, maior demanda faz os preços dos produtos subirem (até que os ofertantes percebam isso e aumentem sua produção). Preços subindo estimulam mais empresas a investir e vender, estimulando ainda mais o PIB. Logo, o juro guarda relação inversa com consumo e investimento, PIB e preço dos produtos (inflação).

Bom, isso em condições normais. Contudo, por vários motivos, essa racionalidade pode falhar. E a falha pode se dar em dois pontos 1) os bancos podem simplesmente não querer emprestar mais barato (se por exemplo, acharem que pessoas e empresários não terão condições de repagar a dívida no futuro); e 2) se esses empresários e consumidores não quiserem pegar emprestado mesmo com juros menores, respectivamente, por não verem oportunidade de retorno (expectativa de poucas vendas ou preço baixo de sues produtos) ou evitar se endividar por receio do futuro. Ambas as causas se dão devido à expectativa ruim sobre um futuro incerto. E, nos dois casos, grande parte do dinheiro que o Banco Central colocou na economia – por meio dos bancos comerciais – não é transferida para a economia real (salvo caso dos imóveis) ficando lá estancada no mercado financeiro, por exemplo indo para ações, índices, títulos.

Quando a crise de 2008 se alastra, os principais Bancos Centrais do mundo aumentam essa oferta de moeda (por meio do que ficou conhecido como Quantitative Easing) e jogam os juros lá para baixo. O juros foi baixando, baixando e isso foi segurando a queda da economia, evitando uma recessão maior (em economês, foi uma política acomodatícia). Apesar de evitar maior queda, esses juros baixos não conseguem fazer a economia prosperar novamente. Cenário que perdura até hoje na maior parte do mundo, sobretudo nos países desenvolvidos.

Para estimular a economia a crescer mais, os Bancos Centrais precisariam abaixar ainda mais os juros, o problema é que eles chegaram perto de zero (Dolar 0,25%; Euro 0,0%, Libra 0,73%, Yen -0,1%, Dólar Australia 1,5% e Nova Zelândia 2,0% – taxas básicas, 12 meses)*. Isso quer dizer que não se pode baixar mais a taxa de juros. Bom, de fato, os Bancos Centrais podem cobrar taxas negativas das reservas bancárias (dinheiro que os bancos depositam no Banco Central… o Japão já está lá 5). Em última instância, cobram-se taxas negativas nas nossas contas correntes. Mas isso levaria a grande parte das pessoas a retirarem o dinheiro dos bancos, o que já é um problemão por si só, e não há meios até então de se cobrar juros negativos sobre o dinheiro que as pessoas e empresas carregam.

Não obstante, se a economia vai muito devagar, os preços tendem a começar a cair, pois há pouca demanda para muita capacidade de ofertar. Esse fenômeno chama-se deflação. Com isso, mesmo que eu coloque hoje na minha conta corrente R$100 e daqui um ano terei apenas, por exemplo, R$ 98 nessa conta (juros negativos), eu sei que os preços do que quero comprar ou adquirir para investimento também estarão mais baratos. Logo, espero para comprar no futuro, e a demanda, portanto, será reduzida mais ainda, levando os preços mais para baixo, e forçando o Banco Central a baixar os juros negativos ainda mais. A coisa vira uma espiral. Nos dois casos (impossibilidade de cobrar juros negativos em papel moeda e expectativa de deflação futura) a política monetária tradicional simplesmente perde efeito.

É exatamente essa a circunstância atual nas principais economias do mundo, apesar de não ter chegado na gravidade dos exemplos que usei para ilustrar o funcionamento. Contudo, a coisa vai, sim, nessa direção. A China, por exemplo, que é o atual motor da economia global, está há 4 anos com deflação no índice de preços ao produtor (o índice de inflação de insumos produtivos). O resultado disso tudo é um cenário internacional pacato, como um domingo de ressaca. Apesar de não termos mergulhado em 8 anos de recessão após 2008, a política monetária já foi toda “gasta” (chegando ao nível de juros zero) e não está mais surtindo efeito. Muito discute-se hoje como solver esse problema, e não há consenso ainda do que será feito. Escolhi apresentar três estratégias aqui, uma mais convencional, apesar de pouco utilizada, e outras duas… criativas.

  • Gasto fiscal. Simples e objetivo, já que ninguém quer gastar, chamamos quem pode resolver gastar: o Estado. Constroem-se novas pontes, novas estradas, parques, ferrovias, etc. Além de melhorar a infraestrutura do país, estimula a economia. Claro, com que dinheiro o Estado fará isso? Bom, ele pode pegar emprestado aquele dinheiro parado lá no mercado financeiro como falei ali em cima, e gastar no lugar dos consumidores e investidores. Obviamente, deve-se ater aos níveis de endividamento do Estado e capacidade de sustentar a dívida no longo prazo (e.g. importância de reformas na previdência), mas essa discussão não entra aqui agora.
  • Criar um dinheiro virtual, como já é no sistema bancário. Seria a eliminação do papel moeda e sua substituição por carteiras virtuais (como um “Bitcoin oficial”, ou uma versão do Alipay chinês regulada pelo Banco Central). Isso permitiria ao Banco Central cobrar juros negativos sobre o dinheiro que as pessoas “carregam”, sem precisar esperar que o mecanismo banco central-> mercado financeiro –> consumidores investidores –> gasto, funcione.
  • Imprimir e distribuir dinheiro. Fácil e simples assim. Roda a máquina, faz dinheiro e distribui para quem tem menor renda, como muitas de suas necessidades básicas não são supridas, eles não pensariam em “guardar” o dinheiro. E, afinal, é dado mesmo, não emprestado. Isso não seria duradouro, seria apenas “fazer o carro pegar no tranco”, criar uma faísca. A economia começaria a se recuperar, preços e PIB voltariam a subir, com isso os juros podem ir voltando ao patamar normal e se restabelece a política monetária de antes. Essa discussão é longa e tristemente dominada mais por questões ideológicas do que práticas, afinal, como escreveu outro dia Adair Turner, já imaginou se isso funciona? Quantos governos não se veriam estimulados a imprimir dinheiro (que, se feito irresponsavelmente, gera inflação galopante)? Isso sem entrar na discussão moral, afinal o cerne do sistema capitalista é competição e isso implica – no senso comum – de que assistencialismo gera vagabundo.

Apesar de já termos passado por situações semelhantes antes, dessa vez são muitos fatores(conjunturais e estruturais)  simultâneos, todos contribuindo negativamente para esse cenário. Não há espaço aqui para discuti-los, pois o objetivo foi explicar um pouco sobre esse problema que o mundo passa e chegar às alternativas que economistas influentes têm defendido que, ainda que pareçam improváveis, são cada vez mais viáveis.

Manuel Humberto Netto

*Para ofertar mais dinheiro o banco central compra ativos financeiros dos bancos, ou seja, entrega dinheiro para esses bancos e pega para si um título. Os bancos, então, pegam esse dinheiro e aplicam em outro ativo (pois dinheiro vivo não rende),dentre eles, empréstimos a pessoas e empresas.

 

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