Crise à esquerda

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O avanço da direita nacionalista na Europa coloca em risco o projeto de unificação do velho continente

 

Em 2013 dezenas de milhares de brasileiros foram às ruas, o estopim foi reação ao aumento do preço de passagens de transporte público, e que posteriormente se convergiu em direção a demandas mais genéricas, como melhorias na saúde, educação e reforma política. Cabe dizer que serviços públicos e gratuitos de educação e saúde, bem como transporte público com tarifas subsidiadas, são típicas bandeiras de um Estado de Bem-Estar social fundado pela social-democracia europeia, movimento situado à esquerda do espectro político. Apesar desse movimento de reafirmação de raízes à esquerda, como a necessidade de serviços públicos, três anos depois, o que se vê no Brasil é a maior guinada a direita desde o Golpe de 1964.

Mas como pode ser explicada uma mudança de atitude tão rápida, teria a sociedade brasileira mudado de preferências e agora serviços públicos, gratuitos de educação e saúde já não são mais prioridade? Dado que esse consenso existe pelo menos desde a Constituição Federal de 1988, a resposta para esse questionamento certamente é negativa. O que de fato pode ter acontecido, e não apenas nesses últimos três anos, é a perda da capacidade da esquerda de trazer soluções e, mais que isso, de fazer com que os trabalhadores e os pobres sejam representadas por ela.

Parte importante desse diagnóstico foi apresentada nos resultados das eleições municipais de 2016. O avanço do PSDB e a manutenção do PMDB mostram a preferência dos eleitores por partidos que têm adotado, no governo e na situação, medidas menos favoráveis ao desenvolvimento do Estado de Bem-Estar social brasileiro, como fica explícito no texto da PEC 241, e mais favoráveis à tese do Estado mínimo. Do outro lado da balança, representantes da esquerda se mantêm ou diminuem sua participação, como o PT que sofreu grande queda de participação no número de prefeituras brasileiras. A explicação disso talvez seja mais complexa do que a insatisfação e os resultados dos últimos anos da esquerda no poder executivo central, na figura do PT. Na realidade, isso pode demonstrar como a esquerda não tem conseguido se identificar com as demandas populares.

Dentre as milhares de prefeituras, o caso da cidade do Rio de Janeiro, por sua importância e visibilidade, serve de exemplo desse processo como nenhum outro. A derrota do deputado estadual, Marcelo Freixo do PSOL e a vitória do bispo da Igreja Universal, Marcelo Crivella do PRB, mostrou que o povo carioca parece ter mais medo da esquerda do que da Igreja Universal. Marcelo Freixo, Professor de História e Deputado Estadual, tem uma trajetória como militante político e teve papel fundamental ao combate de milícias que atuavam na cidade. Marcelo Crivella, Senador Federal e Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), iniciou sua vida pública nos anos 2000 e atuou por anos junto a IURD, sendo sua principal representação política na atualidade. De um lado forças progressistas e do outro conservadoras, um antagonismo que poderia levar a uma previsão de vitória do PSOL nas periferias, entretanto o que ocorreu foi o inverso.

Talvez o desgaste da imagem do PT, e, consequentemente da esquerda, possam ter favorecido a derrota de Freixo, mas não explicam porque nas zonas mais carentes da cidade, em regiões que estão as pessoas pelas quais Freixo e o PSOL supostamente lutam, a rejeição ao candidato da esquerda tenha sido tão grande. Parte dessa explicação pode ser dada pela falta de identificação que o eleitor médio dessas regiões tem com o PSOL, uma esquerda formada por militantes determinados e apaixonados, mas por vezes presos aos muros das universidades e aos clichês da esquerda: os artistas e a figura do intelectual, ambos brancos e de renda elevada.  Já Crivella, sabe que os votos das periferias não têm essa fisionomia. Sua proximidade com a IURD o ajudou a conquistar uma parcela crescente de brasileiros cariocas: os fiéis evangélicos, da Universal e de outras igrejas, com os quais têm identificação com as ideias conservadoras do PRB e de Crivella. Sua penetração, portanto, tornou-se maior que a do adversário, e os resultados se manifestaram na sua vitória.

Entretanto, o ocorrido no Rio de Janeiro está longe de ser pontual. Como dito anteriormente, esse episódio demonstra o desgaste do projeto da esquerda e sua crise de representatividade que vem ocorrendo não apenas no Brasil, como internacionalmente. Na Grã-Bretanha, forças conservadoras, na figura de Boris Johnson, obtiveram sucesso em sua estratégia de dizer sim ao plebiscito da saída do país da União Europeia. Em outros países europeus, como na Hungria, partidos de direita e extrema direita têm chegado ao poder com bandeiras anti-imigração e na França o nacionalismo e conservadorismo têm crescido constantemente, tornando Marine Le Pen uma das mais fortes candidatas a presidência nas próximas eleições.

Essa onda conservadora, legitimada pelas urnas em grande maioria, se deve à insatisfação em relação às crises sucessivas que ocorreram após 2009, como a crise financeira e econômica, a crise de migração e até mesmo o próprio processo de globalização. Correntes mais liberais responsáveis por impulsionar a globalização e torna-la um processo quase irreversível, têm se tornando cada vez menos populares, talvez reflexo de um processo que beneficiou a poucos, mesmo em países desenvolvidos, ficando mais restritos aos grandes centros urbanos e as elites econômicas. O que chama a atenção é a adesão ao pensando mais conservador, e na esteira desse fenômeno, a escalada da direta ao poder, muitas vezes com um discurso nacionalista que promete colocar seus respectivos países na rota do crescimento, mas que por vezes não passa de uma alegoria populista sobre glórias passadas.

Voltar a tempos de maior protecionismo e criação de barreiras comerciais e humanitárias, é a resposta de grande parcela da direita que tem ganhado força, uma resposta que não tem nada de nova, mas que ganha novos rostos como o do empresário de sucesso Donald Trump, nos EUA, que disputa ponto a ponto as eleições com a centrista Hillary Clinton. Esse aliás, é mais um episódio que demonstra a queda de popularidade da esquerda, visto que enquanto no lado Republicano os dois últimos candidatos nas prévias se identificam com ideias ultra conversadoras e de extrema direita, enquanto que para os Democratas a escolha foi clara entre o centro de Clinton e a esquerda progressista de Bernie Sanders. Incapaz de apresentar propostas que soassem factíveis pelas grandes camadas da população, as “minorias” negras e latinas dos EUA viabilizaram a candidatura de Hillary, enquanto o socialismo de Sanders se manteve restrito à jovens em sua maioria brancos que frequentam Escolas de Ensino Superior, um eleitorado parecido com aquele da Zona Sul do Rio de Janeiro que apoiou o PSOL.

Sendo assim, o problema de representatividade da esquerda é muito mais profundo que o da direita. A sensação, por parte da população, de que há radicalismos na esquerda é maior que na direita e isso se deve à falta de propostas capazes de transmitir credibilidade aos eleitores. Os sonhos revolucionários da esquerda tradicional, e do socialismo do século XX, já não cabem mais ao século XXI, e aparentemente parcelas significativas das esquerda ainda não entenderam isso. O processo de globalização financeira e produtiva parece irreversível e, apesar dos discursos populistas da crescente direta conservadora tentar apresentar um modelo capaz de aliar isso às demandas sociais tem sido um desafio difícil de superar pela esquerda. A incapacidade de propor um modelo que ao mesmo tempo garanta maior inclusão social, desenvolvimento humano em um ambiente cada vez menos propício demonstra que ideias passadas não serão a saída da esquerda.

Esse confronto mostra que seja nos EUA, no Brasil ou na Europa o retrato é o mesmo. A esquerda deixa se isolar e se fragmentar, incapaz de propor soluções possíveis, deixando que uma temida direita populista ocupe os espaços em aberto. Para o Brasil em específico, a participação popular e a união de frentes progressistas, sejam trabalhadores, empresários ou movimentos sociais, pode ser uma saída, ainda que difícil de se forjar tal aliança, para romper com a onda da direita neoliberal. Encarar esse desafio irá requerer paciência e pragmatismo, que não vemos em parcelas consideráveis da esquerda, e enquanto isso não acontecer a direita fará a festa com o enfraquecimento das forças produtivas no Brasil e com um discurso isolacionista e dos antigos tempos dourados nos EUA e Europa.

Marcelo

*As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo

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