O mito do desenvolvimento

A população em geral, ao perceber o descompasso entre os altos impostos que pagamos e os serviços de baixa qualidade prestados pelo Estado, tende a achar, não sem razão, que a causa de todas as nossas mazelas se traduz em corrupção. Parece-nos que, no imaginário popular, caso um país como o Brasil não tivesse corruptos, seria desenvolvido e a população poderia viver como vive a população de um país desenvolvido.

Contudo, no meio acadêmico surge na década de 1950 as Teorias do Desenvolvimento. Naquele contexto, buscava-se explicação do porquê alguns países terem se desenvolvido e outros não. No período da Guerra Fria, desenvolvimento era visto como progresso e o parâmetro eram as nações desenvolvidas dentro do modo de produção capitalista, especialmente os Estados Unidos, que assumiam a hegemonia do mundo.

Entendia-se que o subdesenvolvimento tratava-se de uma etapa a ser superada em um processo em que o (1) o país deixaria a posição de economia agrária, aumentaria a taxa de acumulação de capital físico e humano e a produtividade agrícola, com grandes investimentos em infraestrutura, (2) aumentaria sua taxa de investimento e progresso técnico, (3) difundiria sua tecnologia, (4) e passaria para uma fase de consumo em massa em uma sociedade capaz de produzir produtos de alta tecnologia. Dessa forma, o etapismo sugeria que o desenvolvimento alcançaria qualquer país que adotasse o capitalismo como modo de produção e implementasse políticas de desenvolvimento adequadas, o que incluiria abertura ao comércio internacional.

Dentro desse entendimento, a desigualdade econômica internacional seria apenas um resultado das diferentes nações se encontrarem em diferentes estágios do processo de desenvolvimento. Contudo, em sua análise, Celso Furtado (considerado um dos mais relevantes economistas que o Brasil já teve), adota uma visão contrária a ideia etapista e toma de Raúl Prebsich o conceito de centro-periferia.

Ali nascia uma tradição que passou a ser chamada de cepalina (por ter nascido no órgão da ONU para o desenvolvimento da América Latina e Caribe – CEPAL) e estruturalista. Segundo essa visão, o subdesenvolvimento não era uma fase do desenvolvimento: os dois eram na verdade resultado de um mesmo processo histórico. Nesse contexto, nada levaria a supor que as condições estruturais da divisão internacional do trabalho levaria os países subdesenvolvidos a deixarem essa condição naturalmente.

Dessa forma, mesmo percebendo que, em determinadas situações, países romperam essas barreiras e se desenvolveram, e que há possibilidade de desenvolvimento humano dentro dessa lógica para os indivíduos de países subdesenvolvidos, há que se entender que naturalmente o subdesenvolvimento é uma situação que tende a se reproduzir, não a ser superada. O dualismo centro-periferia elaborado por Prebish afirma que essa é a configuração do capitalismo instaurado no pós-Guerra: enquanto alguns poucos países, já adiantados no modo de produção capitalista, formaram o centro, os demais formaram a periferia do sistema, com a dinâmica dos países periféricos girando em torno das economias do centro.

Dessa forma, enquanto no centro há produção com alto valor agregado e repasse de ganhos de produtividade para os salários, que torna o mercado interno pujante; na periferia há uma tendência à concentração produtiva em produtos com pouco valor agregado (agrícolas), voltados à exportação. Por essas características, há uma tendência à concentração de renda e terra e absorção do progresso técnico pelo grande capital, e não há o repasse dos ganhos de produtividade para os salários.

Dentro de tal lógica, políticas de cunho industrializante foram perseguidas durante grande período de tempo, sem resultar, contudo, desenvolvimento. Mesmo com diversos progressos na estrutura produtiva, a rápida urbanização traduziu-se em favelização e pobreza urbana, com elevação de desigualdade social (considerada até necessária para que a fase de acumulação de capital se desse).

Importante ressaltar a substancial diferença entre industrialização (fator considerado necessário no processo de desenvolvimento capitalista) e modernização, que foi o que ocorreu em diversos países periféricos, como o Brasil. Na tentativa de industrializar o País, bastante forte entre as décadas de 1930-1970, buscou-se substituir importações de produtos prontos e acabados pelos meios de produção para fazê-los: em vez da importação de sapatos, por exemplo, importava-se a máquina para fabricá-los. Contudo, nesse processo, o Brasil não chegou ao ponto em que ele mesmo poderia fabricar a máquina ou ter a tecnologia capaz de gerar a máquina para fazer sapatos. Com isso, o ciclo de industrialização não se completou e, nesse processo, a incorporação técnica esteve dominantemente relacionada à elevação de padrões de consumo (dos estratos mais elevados de renda), e não à melhoria da capacidade produtiva.

Dado esses elementos, apesar da forte ampliação do mercado interno, nossa economia perdeu diversificação produtiva e passa por uma desindustrialização precoce. Dentro dessa dinâmica, há dificuldade de elevação nos níveis de produtividade e salários de forma consistente na economia e, portanto, de desenvolvimento econômico.

Além disso, é dado desde a década de 1960 o limite físico (recursos naturais) para que todos os países atingissem os níveis de consumo alcançados pelos países desenvolvidos. Mesmo entendendo que a economia não é um jogo de soma zero (para um ganhar não necessariamente outro deve perder), visto a capacidade da riqueza gerar riqueza, há limites claros e estabelecidos. Ainda, mesmo partindo do ponto de que não há um problema intrínseco na existência da desigualdade em si (não há problema os ricos ficarem cada vez mais ricos se os pobres ficarem cada vez menos pobres), é sabido que parte explicativa considerável da reprodução da pobreza na América Latina é a desigualdade, que muito vem da história desses países (colônias de exploração, monocultoras e com elevada concentração de renda e terra).

Esse limite se explica quando a produção encontra dificuldade de alcançar mercado consumidor, devido aos baixos salários, represando novos investimentos, empregos e mais geração de emprego e renda.

Dito isto, o desenvolvimento das nações subdesenvolvidas encontra limites não apenas externos, mas essa dinâmica, voltada para as restrições externas, causa e aprofunda os já existentes limites internos. Se o capitalismo aqui não surgiu como surgiu nos países centrais, as formas como ele se reproduz também são diferentes. Portanto, as formas de conduzir os países periféricos a fornecer melhores condições de vida à população também o serão.

Ludmila Azevedo

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

** O Mito do Desenvolvimento é o título de uma das obras do  economista Celso Furtado.

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6 comentários sobre “O mito do desenvolvimento

  1. Excelente texto. Muito elucidativo e apresenta uma interpretação, (do meu ponto de vista) correta acerca do processo de industrialização e tentativa de desenvolvimento da economia brasileira.

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  2. Parabéns! Leitura correta da nossa realidade atual. Enquanto ficarmos na periferia, o Brasil continuará a sofrer o impacto de políticas contrárias ao seu efetivo desenvolvimento econômico e social.

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