Corrupção, a nossa pior inimiga?

Todos nós somos influenciáveis e influenciados por algo ou alguém, a diferença é qual influência “escolhemos”. Se alguma notícia/informação é martelada na sua cabeça o dia todo, por qualquer que seja o meio de comunicação, aquela será o centro de gravitação dos nossos pensamentos naquele momento no tempo. Veja à proporção que toma algumas discussões hoje nas redes sociais, como se os pontos discutidos fossem os únicos problemas do nosso país ou do mundo. Não estou menosprezando as discussões ou os assuntos em pauta, pois acho realmente interessante o aprofundamento destes, em que por mais desqualificados que alguns sejam, o debate é melhor que o não-debate. O ponto que quero chegar é o seguinte: será que o foco da discussão de algum problema, em que este problema é realmente algo sério, não nos desconecta do que realmente importa?

Desconectei-me de problemas concretos neste primeiro parágrafo para que o exercício proposto não fosse afetado por pré-julgamentos. O que pretendo demonstrar neste texto é que o nosso país avançou sim nos anos 2000, ainda que não tenhamos resolvido nosso problema central (subdesenvolvimento) e vários outros, mas que este avanço ocorreu a despeito de toda corrupção, ladroagem e safadeza vistos nestes últimos anos.

A corrupção é um mal em si. É um dos piores crimes praticados nessa sociedade. Ela afeta os preceitos morais de toda a comunidade, ela dá mal exemplo, e nem se compara a quaisquer outros “jeitinhos brasileiros” ou Lei de Gérson que venham a ser praticados. No entanto, a corrupção não é o problema central da economia, não é ela que nos impede de ser uma economia desenvolvida, na verdade, o combate à corrupção da forma que está sendo feita (não estou dizendo que não deva ser feito, longe disso) é mais prejudicial para a economia hoje (não para sempre) do que a própria corrupção. Dessa forma, para tentarmos perceber estes fatos, analisemos alguns indicadores macroeconômicos no período proposto, lembrando que a corrupção não começou em 2014 e que não só o PT está atrelado a ela. Imagino que alguns de vocês devam estar comparando a proporção da corrupção no governo deste partido aos demais governos, e sim, vocês podem estar certos (não esquecendo que a mensuração e comparação da corrupção é algo extremamente complicado), mas vejam só, os avanços sociais e econômicos ocorreram mesmo assim. Então vamos lá!

A primeira variável que me chama a atenção ao analisar um país é o crescimento da sua produção, ou seja, a taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). Numa comparação mundial, vemos que só em três anos crescemos menos que os países avançados, 2003, 2014 e 2015, e que na maior parte do tempo crescemos pelo menos igual ao mundo. Os sinais de piora dos nossos indicadores a partir de 2014 são claros para quase todas as estatísticas, mas isso, no entanto, não invalida nosso raciocínio. Entretanto, a análise dos problemas que levaram a esta piora a partir deste ano, além dos 7×1, está aquém deste texto.

    Taxa de Crescimento do PIB – Brasil e grupos selecionadoscrescimento.pngFonte: Elaboração própria a partir de dados do FMI.

Já se observarmos o crescimento dos componentes do PIB nesses anos, vemos que diferente de como a maioria propaga, a matriz econômica não esteve somente vinculada ao consumo, mas que foram os investimentos que mais avançaram neste ínterim. Este indicador é de extrema relevância, pois indica a sustentabilidade do crescimento neste período, que não ocorreu de forma “artificial”, mas com o avanço da estrutura produtiva (máquinas e equipamentos), do emprego, dos salários e redução das desigualdades. Os próximos gráficos e tabelas revelam estes fatos. A exposição destes foge de uma análise mais profunda, mas pretende apenas demonstrar de forma superficial, mas não enganosa, que estes avanços aconteceram de fato e são inquestionáveis.     

Taxas anuais de crescimento dos índices de volume do PIB e seus componentes – Brasil, 2002 – 2012 (em %)componentes pib.pngFonte: Livro – Padrão de acumulação e desenvolvimento brasileiro.

A evolução do PIB per capita demonstra o aumento da produção, a despeito do aumento populacional, ou seja, o valor da produção realmente se elevou e não apenas por ter mais pessoas contribuindo para esta. Já a queda do índice de Gini representa uma redução da desigualdade de renda no nosso país. Ainda que haja uma discrepante diferença entre a desigualdade no rural e urbano, e que a desigualdade no país como um todo seja perversa (posição 120 num ranking de 127 países) vemos que o caminho adotado nos últimos anos insinuava uma trajetória de melhorias.

PIB per capita (em US$ milhões) e a desigualdade da renda pessoal (índice Gini) – Brasil (1995-2012)gini.pngFonte: Livro – Padrão de acumulação e desenvolvimento brasileiro.

A redução do índice de desemprego reflete o fato de que o número de pessoas trabalhando, ou seja, o fato de uma pessoa ter um emprego, nem sempre está relacionada as suas capacidades cognitivas, ou qualquer outra qualidade que seja. Mas que a contratação de trabalhadores está muito mais relacionada a perspectivas dos empresários sobre o crescimento de suas firmas, que também está atrelado ao crescimento da economia, do que às qualificações pessoais e ao valor dos salários. É claro que a qualificação dos profissionais é relevante para qualidade dos empregos e nível de salário, mas que esta possui uma importância menor do que aqueles fatos. Não desconsidero também o efeito do aumento do emprego sobre o aumento dos salários e dos custos das empresas, mas coloco que o crescimento econômico ocorreu neste período a despeito e a favor destes.

Índice de desemprego metropolitano (Brasil – 2002-2013 – em % PEA)desemprego.pngFonte: Livro – Padrão de acumulação e desenvolvimento brasileiro.

Salário-mínimo real – Brasil, 1999 – 2013 (em R$)sal.pngFonte: Livro – Padrão de acumulação e desenvolvimento brasileiro.

Se observarmos a trajetória do endividamento público nestes anos, ficamos ainda mais confusos. Uma vez que, ainda que os nossos políticos tenham deitado e rolado na usurpação dos recursos públicos como é noticiado, a dívida brasileira não só reduziu até 2013, em termos brutos ou líquidos, como seguiu na contramão de uma tendência mundial de elevação do endividamento, em que entre as nove maiores economias (em relação ao PIB de 2016), apenas Brasil e Índia tiveram uma redução das suas dívidas brutas (em relação ao PIB) neste período. Além disso, é visto em 2015 que apenas a China teria um nível de endividamento menor que o Brasil (dívida bruta em relação ao PIB). No mais, ainda que o Brasil tenha apresentado sinais de piora do endividamento nos últimos dois anos (2014-2015), esta piora não está somente ligada ao endividamento em si, mas na sua capacidade de pagamento. Uma vez que o PIB apresentou queda significativa nesses anos, e como ele é o denominador dos indicadores de dívida expostos, sua redução equivale a um aumento dos indicadores demonstrados, para tudo o mais constante. Outro fator relevante e positivo em relação ao nosso endividamento é a redução de passivos atrelados à moeda estrangeira, uma vez que ativos lastreados em reais reduz nossa vulnerabilidade à variação do dólar, ainda que também reduza os riscos associados à nossa dívida, já que em última instância, podemos arcar com nossos compromissos através de novo endividamento, reduzindo o risco de calote.

[P]raticamente todo o déficit é financiado com recursos domésticos, tal que a dívida externa pública é bem pequena (apenas 6,7% da dívida bruta do setor público). E terceiro, a proporção da dívida interna indexada à moeda estrangeira é também muito baixa (apenas 0,5% da dívida total) (RIBEIRO, 2016).

Dívida – total – Gov. federal e Banco Central – líquida – (% PIB)div.pngFonte: Elaboração própria a partir do IPEA.

Dívida Pública % PIB – Brasildiv2.pngFonte: Elaboração própria a partir do Bacen.

Dívida Pública % PIB – Países selecionados (nove maiores economias – 2016) – dados anuaisdiv3.pngFonte: Elaboração própria a partir da plataforma Trading Economics.

Vemos também que o controle do endividamento não acontece por meio do aumento da carga tributária, mas que essa se mantém relativamente estável desde 2005. A elevação da carga tributária ocorre com maior intensidade na transição da década de 1990 para os anos 2000, e sua redução nos anos de 2009 e 2010 ocorre devido as desonerações fiscais e os efeitos da crise internacional.

Carga tributária % do PIBcarga.pngFonte: MPOG.

Em relação a inflação, por mais que haja debates a respeito das suas causas e suas reais problematizações, ela apresentou valores relativamente satisfatórios neste recorte, no sentido de não indicar problemas sobre o seu controle. Por mais que nos digam que os preços estão subindo exorbitantemente, quando analisamos este movimento numa cesta de consumo, ou seja, a evolução do preço de um conjunto de bens consumidos pela maioria da população, o aumento dos preços não é tão grande assim. É relevante também lembramos que as variações de preço são diferentes de região para região, mas que este índice (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) consegue ser um bom indicador para uma análise mais ampla.

Inflação – IPCA – (% a.a.)inf.pngFonte: Elaboração própria a partir de dados do IPEA.

Eu poderia ainda indicar os avanços deste país nos últimos 16 anos por n gráficos, tabelas, ou outras metodologias, ainda que também poderia demonstrar nossas várias limitações e retrocessos neste mesmo período, pois eles existiram e existem. O fato é que a corrupção não é o limitante econômico para desenvolvimento do nosso país, nem mesmo para o mero crescimento. Ela é um mal em si, um problema moral, mas não é o nosso tendão de Aquiles. A aparência dos fatos, dos nossos problemas, é importante, pois ela nos revela algo, ela é real.  No entanto ela é perigosa, pois ao mesmo tempo que revela ela omite, ela esconde a essência da nossa condição de país subdesenvolvido, que nunca vai conseguir superar esta posição com o mero combate a corrupção.

Henrique

* As ideias contidas nos textos traduzem as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

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