O trabalho dignifica

sem-titulo

A icônica foto dos trabalhadores almoçando sentados em uma viga de aço do Empire State Building a centenas de metros de altura sem nenhum tipo de material de segurança é uma das mais famosas da história, que de tão impressionante parece ser mentira. Mas não é bem assim. Na verdade, a foto não foi tirada de maneira espontânea, mas sim durante a construção do edifício RCA no Rockefeller Center, como parte de uma propaganda de marketing promoção do edifício, em Nova Iorque, em 1932. Apesar disso, eram os mesmos trabalhadores da construção do prédio, e sim, eles estavam a centenas de metros de altura.

A fotografia acima é linda e mostra a grandiosidade das construções que o homem é capaz de fazer, mas olhando mais atentamente a foto, o que sempre impacta as pessoas é o fato de a uma altura daquelas os trabalhadores estarem sem equipamentos de segurança. Não tenho detalhes sobre como eram as construções dos edifícios naquela época, mas mesmo assim, o risco ao qual foram colocados os operários para que a foto fosse tirada, nos faz refletir sobre até que tipo de condições de trabalho os empregados são submetidos e como era desigual a relação empregado patrão.

O documentário Net Café Refugees, mostra no Japão as pessoas que optam por morar em um cyber café (http://www.arkade.com.br/tribuna-arkade-documentario-conta-historia-trabalhadores/), em cômodos de aproximadamente dois metros quadrados, onde possuem internet 24 horas por dia, sendo essa praticamente sua única “companheira”. Há diferentes razões para que japoneses vivam nessa situação, seja por não conseguirem pagar o aluguel de uma moradia melhor, seja pela necessidade de morar perto do trabalho.

O país é ainda famoso por seus hotéis cápsula, que no Brasil até achamos graça ao ver as reportagens a respeito do assunto, mas que mostra uma dura realidade em uma nação que é uma das mais desenvolvidos do mundo, possuindo uma das maiores expectativas de vida e altas taxas de produtividade por trabalhador, mas que possui um problema muito grande pela falta de espaço nas grandes cidades, refletindo em aluguéis muito caros. Essa mesma produtividade subjuga parte de sua população à essas condições de moradia que está ligada diretamente às condições de trabalho e remuneração que lhes são oferecidas.

Esses exemplos dados possuem um simples objetivo: mostrar que é importante antes do combate ao desemprego, entender que fazê-lo piorando a qualidade do trabalho não é satisfatório para a população no geral. Não se pode tratar os direitos trabalhistas como um simples custo a mais aos empresários que ficam “reféns” dessa legislação, como é visto hoje pelo governo brasileiro, que trabalha para passar suas propostas de reformas de uma maneira tão simplória quanto é discutido o assunto entre a maior parte da sociedade civil, caminhando para uma precarização das relações de trabalho.

Pode até parecer que diminuindo os encargos com os empregados o empresário terá a possibilidade de investir mais, mas esse empresário não irá investir mais se a estrutura de incentivos se mantiver antieconômica, como precária infraestrutura, mercado interno e externo desaquecido, dentre outros condicionantes, como pôde ser observado pelos diversos incentivos concedidos pelo governo brasileiro nos últimos anos conhecidos como bolsa empresário*, que não tiveram o efeito esperado e ainda agravaram a crise político-econômica. Não vejo como a situação pode melhorar reduzindo o desemprego juntamente com a perda de qualidade de vida da população, como se uma só seria proporcionada em detrimento da outra.  Mesmo sendo medidas que ferem os princípios da seguridade social, elas se tornam atrativas, pois a demanda imediata da população – e a mais divulgada pelo governo e mídia – é a necessidade da criação de mais postos de trabalho.

Se engana quem acha que a flexibilização das leis trabalhistas, como a ampliação da terceirização, o prevalecimento de acordos entre patrão e trabalhador em detrimento da legislação trabalhista, aumento da jornada de trabalho, dentre outras propostas, por si só irá aquecer novamente o mercado de trabalho e trará benefícios para os empregados. Não podemos deixar que propostas que simplifiquem tanto um problema tão complexo sejam aprovadas sem o devido debate e cuidado, visto os altos custos de reversão e o grau de vulnerabilidade e desproteção da massa trabalhadora.

Diferentemente de países que adotam uma política trabalhista mais flexível, as relações de poder no Brasil se mostram muito mais heterogêneas, e o poder de barganha do trabalhador é cada vez menor, pois não temos uma estrutura de seguridade social bem estabelecida e que proteja realmente quem mais necessita. É como negar as migalhas a quem passa fome.

A facilidade com que legislações têm sido aprovadas sem uma maior discussão reflete jargões comuns como: “o trabalho dignifica” ou “quem trabalha duro vence, eu comecei a trabalhar aos 10 anos de idade”. Mas quantas e quantas pessoas trabalham duro desde os 10 anos de idade e com 65 ainda estão trabalhando duro para se aposentar com um salário mínimo? A ideia da meritocracia é muito bonita e funciona muito quando damos exemplo de alguém pobre que soube empreender e conquistar riqueza, mas esses casos são exceções. Tratar exceção como regra só funciona para incentivar a ambição de alguém que pode atingir os seus objetivos, mas não necessariamente irá alcançá-los. No mundo real, no entanto, sabemos que o buraco é um pouco mais embaixo, e que normalmente o trabalhador vai acabar conseguindo só alugar um quartinho de dois metros quadrados.

Silvio Alberto

* Uma série de subsídios e desonerações que o governo concede às indústrias, que, segundo estimativas, irá custar ao governo R$217 bilhões em 2017.

**As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo.

 

Referências:

http://exame.abril.com.br/brasil/bolsa-empresario-deve-custar-r-224-bi-em-2017-diz-jornal/

http://www.arkade.com.br/tribuna-arkade-documentario-conta-historia-trabalhadores/

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s