Entenda como funciona a Política Monetária

O objetivo deste post é elucidar, da forma mais simplificada possível, a operação da Política Monetária no Brasil, levando em consideração principalmente as leitoras e os leitores que possuem pouco ou nenhum contato com a temática. Assim, são feitas 7 perguntas, cujas respostas são um exercício de compreensão do assunto.

 1) O que é Política Monetária?

A Política monetária vem de moeda! Assim, é uma política macroeconômica que lida com a moeda, mais precisamente com o seu valor.

2) Quem opera a Política Monetária?

A autoridade monetária, que no caso do Brasil é o Banco Central do Brasil, também chamado de Bacen. O Bacen opera a Política Monetária mais precisamente por meio de um dos seus órgãos, o chamado COPOM  (Comitê de Política Monetária). O COPOM é responsável por estabelecer as diretrizes da Política Monetária, principalmente o nível dos juros na economia.

3) Qual é o principal objetivo da Política Monetária?

Controlar a quantidade de moeda disponível no sistema econômico, a fim de preservar o seu valor, visto que a moeda é como qualquer mercadoria, que quando existe em  abundância há redução do valor.

Isso é uma explicação para o fato do Bacen não poder simplesmente imprimir moeda, a fim de resolver problemas financeiros do País.

4) Quais são os tipos de Política Monetária?

Expansionista: é feita por meio de medidas para aumentar a quantidade de moeda. A  maior quantidade de moeda torna os empréstimos bancários mais baratos (o que significa redução das taxas de juros), já que os bancos dispõem de mais recursos para emprestar. As menores taxas de juros tendem a estimular a economia, via demanda. Isso ocorre porque é mais fácil e barato captar empréstimos, o que estimula as pessoas e empresas a demandarem (consumirem) mais bens e serviços. No entanto, a ampliação da produção leva mais tempo, porque precisa de novos investimentos para aumento da capacidade produtiva.  Assim, com a demanda (procura) por esses produtos crescendo mais que a oferta (produção), os preços sobem, ou seja, há inflação.

Então, o Banco Central faz política monetária de acordo com seu entendimento de qual seria um “nível adequado” de moeda, a fim de perseguir o principal objetivo dele: estabilidade de preços.

Observação importante: O Bacen pode priorizar outros objetivos, como manutenção do emprego e do crescimento econômico. No entanto, sob a vigência do Regime de Metas de Inflação, adotado no Brasil e em diversos outros países, o principal objetivo é a estabilidade de preços.

inflacao

Contracionista: é o esforço para diminuir a quantidade de moeda na economia. A menor quantidade de moeda amplia seu valor (lembrando que ela é uma mercadoria, cuja escassez a encarece), tornando mais caro os empréstimos bancários, uma vez que os bancos, ao possuir menos recursos para emprestar, se tornam mais rígidos na hora de conceder empréstimos, inclusive praticando taxas de juros mais altas. Com maior dificuldade de captar recursos, as empresas, por exemplo, tendem a investir menos, o que diminui a atividade econômica.

Isso é feito quando o Bacen entende que a inflação está mais alta que o desejado. Então, ele utiliza a política contracionista, a fim de fazer com que as taxas de juros se elevem e o ritmo da atividade econômica diminua, reduzindo a inflação.

5) Quais são os instrumentos de Política Monetária?

Podemos apresentar 3 principais. São eles:

i) Depósito compulsório: que diz respeito à parcela que o Bacen retém dos depósitos recebidos pelos bancos. Ou seja, os bancos são obrigados a depositar no Bacen determinado percentual dos recursos que captam de seus clientes, e o Bacen pode fazer política monetária por meio dele, exigindo um percentual maior ou menor, a fim de controlar a quantidade de moeda na economia.

ii) Redesconto: o Bacen empresta dinheiro para os bancos quando eles precisam de recursos, o que pode ocorrer quando eles fazem transações além da disponibilidade de recursos (ficando deficitários em determinado dia, por exemplo). Com isso, o Bacen pode cobrar taxas altas ou estabelecer prazos curtos, a fim de punir os bancos que recorram a essa modalidade de ajuda. A punição advém do fato da utilização recorrente desse recurso poder colocar o sistema bancário todo em risco.

Observação importante: Essa modalidade não é muito utilizada, pois os bancos, geralmente, quando necessitam de recursos para equilibrar seus balanços, recorrem aos próprios bancos comerciais, no chamado mercado interbancário, o qual pratica, muitas vezes, taxas de juros inferiores às que o Bacen cobraria nos empréstimos de redesconto.

iii) Operações com títulos públicos (o chamado Open Market): consiste na compra e venda de títulos públicos (papéis que geram juros a quem os detém), a fim de retirar ou injetar moeda na economia. Vejamos como isso se dá:

– Venda de títulos: Vamos supor que o Bacen deseja retirar R$ 100 do sistema econômico, para reduzir a atividade econômica e, portanto, a inflação. Assim, ele venderá R$ 100 em títulos (geralmente para os bancos, que são os maiores proprietários de títulos públicos) retirando, dessa forma, R$ 100 da economia, já que o comprador entregará esse valor ao Bacen, que o reterá em seu caixa. Assim, com menor quantidade de moeda, a taxa de juros irá se elevar, reduzindo a atividade econômica, a demanda por bens e serviços e a inflação.

– Compra de títulos: É o contrário da operação anterior. Nessa transação, o Bacen compra R$ 100 em títulos, o que impõe o pagamento desse valor ao vendedor e, com isso, a colocação de R$ 100 na economia. Isso significa uma ampliação da quantidade de moeda na economia, ao contrário da operação de venda, a qual retira moeda.
moeda

Pois bem, como vimos até agora, a política monetária é operada pelo Bacen, que controla o nível de moeda na economia. No entanto, outro elemento importante é a atuação dos bancos (já que concedem empréstimos e são os principais detentores de títulos), pois é por meio deles que o Bacen expande ou restringe a oferta de moeda e, portanto, estabelece a taxa de juros e o nível de inflação desejada.

Assim, é importante entendermos como isso ocorre. A primeira coisa que devemos saber é que os bancos têm o poder de multiplicar moeda. Isso mesmo! É o milagre da multiplicação monetária, ou melhor, o Multiplicador Monetário. Assim, a próxima pergunta do nosso exercício é:

6) Como funciona o Multiplicador Monetário?

Vamos supor que o Bacen deseje expandir R$ 100 no nível de moeda na economia. Para isso, ele comprará R$ 100 em títulos, injetando esse valor na economia, ao pagar para o vendedor. Vamos imaginar também que o vendedor deposite os R$ 100 que recebeu do Bacen no Banco A.

Suponhamos que a taxa de depósito compulsório estabelecida pelo Bacen seja de 10%. Assim, o Banco A terá que depositar R$ 10 no Bacen e poderá emprestar R$ 90 para os clientes.

Para simplificar, vamos supor que o cliente que pegou os R$ 90 (cliente 1) deposite todo o valor no Banco B, que novamente reservará 10% de compulsório, emprestando 81 para outro cliente, o cliente 2.

Na sequência, o cliente 2 depositará os R$ 81 no Banco C, o qual reservará R$ 8 (arredondando) e emprestará R$ 73.

Como é possível perceber, a partir de uma expansão de R$ 100, temos o valor de R$ 244 circulando na economia. Esse é o efeito do Multiplicador Monetário. Esse dinheiro existe, na verdade? Não, mas é como se existisse, pois permite que diversas transações sejam realizadas, sem que o tenhamos todo em mãos. Tal “milagre” ocorre pelo simples fato de que todos os clientes não recorrem aos bancos para sacar seus recursos ao mesmo tempo e nem sempre os sacam em sua totalidade. Observando isso, os bancos perceberam que sempre havia um estoque de recursos que permanecia nos seus “cofres”, o que abria a possibilidade de destinar estes recursos àqueles que os desejam. E é justamente isto que eles fizeram, e ainda fazem, no processo de multiplicação de dinheiro.

multiplicador

A resposta envolve o fato de que os instrumentos de Política Monetária são empregados de modo a controlar a atuação do Multiplicador Monetário, pois ele influencia muito o alcance dos objetivos do Bacen.

7) Agora que compreendemos o fenômeno do Multiplicador Monetário, a pergunta é: o que isso interfere na Política Monetária?

Assim, alguns exemplos de atuação sobre o multiplicador monetário são:

– Alteração nos percentuais de reserva compulsória:

No exemplo anterior, caso a taxa de compulsório fosse maior, por exemplo, 20%, os bancos teriam menos recursos para fazer empréstimos e, com isso, o efeito multiplicador teria sido menor e o valor encontrado (R$ 244) teria sido inferior.

– Compra e venda de títulos:

Caso o Bacen desejasse reduzir a disponibilidade de moeda na economia, para elevar as taxas de juros, reduzir a demanda por bens e serviços e, como consequência, a inflação, ele poderia vender títulos públicos. Com essa política, o Bacen retiraria moeda da economia (ao recolher os recursos do comprador dos títulos) e diminuiria a quantidade de recursos que os bancos teriam para emprestar – e multiplicar.

_______

Respondidas as 7 perguntas relacionadas a Política Monetária, é necessário deixar claro que esse raciocínio é feito considerando que a inflação seja um fenômeno de demanda, como é colocado pela teoria econômica convencional. Assim, um aumento no nível de preços seria resultado de um excesso de demanda por bens e serviços. No entanto, é importante salientar que existem outras interpretações das principais causas da inflação.

Outro elemento apontado como causa de inflação, além de choques provenientes do aumento da demanda, seriam os custos das empresas. Assim, aumento nos custos com aquisição de matéria-prima (incluindo as importadas) pagamento de salários, transporte de mercadorias (devido à infraestrutura insuficiente do país) poderiam, também, causar inflação, uma vez que esses custos são repassados para os preços dos produtos que serão adquiridos pelos consumidores. Assim, a manipulação da taxa de juros (via instrumentos de Política Monetária que controlam a quantidade de moeda na economia), como único instrumento de controle da inflação, seria insuficiente, sendo imprescindíveis políticas que atuem diretamente sobre os custos das empresas.

No caso do Brasil, há fortes indícios de que a inflação tenha outras causas – custos, câmbio, por exemplo e não só pressões de demanda. E assim, o aumento de taxas de juros, sozinho, não parece ser adequadamente eficaz no controle do nível de preços. Além disso, a elevação dos juros tem efeitos negativos para a atividade econômica que podem – em alguns casos – ser mais prejudiciais que a própria inflação, por reduzir o número de empregos, por exemplo.

Não obstante essas ressalvas, esse texto considerou a inflação como um fenômeno tipicamente de demanda por ser essa a ideia que serve de base para a operação da Política Monetária sob a vigência do Regime de Metas de Inflação, implantado no Brasil em 1999. Entretanto, é de extrema importância que sejam investigadas as causas da inflação para cada país, individualmente.

É importante entendermos como é realizada a Política Monetária no nosso país, para que sejamos capazes de tecer comentários e críticas consistentes em relação a ela. Assim, feito esse exercício de compreensão do que está posto atualmente, faremos o contraponto em uma próxima oportunidade. Até lá!

Douglas Xavier                                                                                                                                      Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

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4 comentários sobre “Entenda como funciona a Política Monetária

  1. Pingback: Política Industrial: Para que e para quem

  2. Pingback: Entenda como funciona a Política Fiscal

  3. parabéns Douglas! Excelente publicação, ótima didática, me ajudou bastante nos conceitos elementares.

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigado, Josue. Ficamos felizes em poder contribuir com seu aprendizado. Qualquer dúvida, comentário ou sugestão, estamos à disposição.

      Um abraço.

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