O Gestor não Político

Observando as entrevistas do prefeito eleito de São Paulo, João Agripino da Costa Doria Junior, filho do ex-deputado federal João Doria, percebi (e qualquer outro também perceberia), que ele insistentemente se autodenomina um GESTOR, e um NÃO POLÍTICO (lembremos que não somente ele – João Doria – utiliza-se desse discurso, mas é uma tendência recente). Assim, me veio à cabeça uma dúvida: como alguém pode ser candidato a prefeito, fazer campanha, exercer o cargo de prefeito e não ser político? Como em sã consciência alguém diz que vai fazer política sem ser político? É uma clara contradição. É uma contradição em termos.

O mais incrível é que, primordialmente, compramos esse discurso, nós realmente acreditamos que ele não será um político, mas apenas um gestor. É aí que ficou claro uma coisa: não sabemos nem o que é política, como vamos saber se alguém é político ou não?!

Desta forma, minha pretensão neste texto é duas:  primeiro, tentar demonstrar o que é política e, segundo, verificar se realmente é possível um chefe do poder executivo municipal não ser um político.

Não custa lembrar que não estou aqui entrando no mérito das medidas tomadas pelo prefeito, mas apenas na questão já levantada. Ainda que seja clara a escolha deste tipo de argumento como estratégia, mais do que inteligente, de um legítimo marqueteiro, João Dória Jr. Segundo, que não estou tratando política e político de forma como são entendidos pelo senso comum. Aliás, acredito que se formos definir política nestes termos, não chegaríamos a uma definição. O mais comum, no entanto, é vermos as pessoas atribuírem política à eleição, à voto, ou até num plano mais elaborado, como gestão da coisa pública.

Ficar neste plano é tentador, pois todos concordam, não há questionamento, e o jogo segue livre. No entanto, a política é muito mais do que isto, e ficarmos presos a estas definições (que nem são definições) nos leva a inferências enganosas da realidade, ou no mínimo, passivos de sermos enganados.

 Comecemos então!

Diferente da vida humana, a natureza segue o princípio da necessidade, ou seja, ela respeita uma regra, de forma que ela sempre vai adotar uma configuração específica, ela segue do único jeito que tem que ser. Uma maçã, por exemplo, não escolhe entre cair ou não cair, é algo afora dela, não é uma decisão. Já a nossa vida, a nossa convivência, ela pode ser de qualquer outra forma que não a que ela é. Para nós, há várias coisas que seguem o princípio da necessidade, mas a maior parte da nossa vida poderia, pode e sempre poderá ser diferente, pois nós seguimos o princípio da contingência (aquilo que poderia ser diferente). Os caminhos seguidos por nós são resultados de decisões, e as decisões nos levam a qualquer um dos “infinitos” caminhos a serem percorridos.

A política é justamente a parte em que pensamos sobre a nossa convivência em sociedade, e que não é regida simplesmente pela lei da natureza, mas pelo contrário, ela é contingente da nossa natureza, ela é reflexo de uma decisão. A política tem a ver com a nossa convivência, com a organização da vida em coletivo, a partir da perspectiva de que esta organização não é a priori estabelecida, mas definida por outros aspectos da nossa conduta.

Onde estou tentando chegar é que, levando em conta que obviamente quem faz política é um político, estes, políticos, têm uma quantidade de recursos (dinheiro) específica, finita, para administrar uma cidade, enquanto que as necessidades são ilimitadas. A pergunta é: o que fazer com esse dinheiro? Para onde ele deve ir?

Por trás da atividade política há necessariamente uma escolha. E as escolhas são feitas em detrimento de não escolhas, é claro. As escolhas feitas serão aquelas que os políticos atribuem maior valor, seja qual for este.

Então, como atribuir valor? A resposta mais rápida seria: através de uma comparação, uma referência. O problema é que há infinitos gabaritos e referências, contraditórios e excludentes entre si. Não há uma pauta perfeita, e a comparação entre elas também pode ser impossível. Não estamos aqui tratando de matemática, não é algo exato, não há uma só verdade, mas uma complexidade.

Poderíamos listar algumas pautas “inquestionáveis”: educação, saúde, transporte. A questão é que há inúmeras formas de se resolver as também inúmeras formas do que é pensado ser “educação”, “saúde”…

A política só faz sentido se a pensarmos enquanto possibilidade de deliberação livre, autônoma e soberana, sobre formas de convivência e organização da convivência, que não são inexoravelmente definidos por alguma instância a priori. A política é a gestão de desejos contraditórios, desejos que no espaço público se materializam como interesses. O problema da política é que os desejos esbarram nos recursos escassos.

O ponto que eu quero chegar é que não há a menor chance de um prefeito não ser político, no sentido real da palavra. Todos aqueles que exercem cargo de decisão são políticos, porque toda decisão é política por essência, e envolve a escolha de um infinito espectro de opções que, querendo ou não, beneficiam uns e prejudicam outros. Se você deseja ser um prefeito gestor, assim você será, pois, todos os prefeitos também são gestores, bons ou ruins. Mas estes nunca conseguirão escapar de serem políticos, pois ainda que não tomem decisões, esta também será uma decisão, uma vez que da mesma forma que a última, a não decisão também tem consequências.

Henrique

* A definição de política aqui advém das aulas do professor Clóvis de Barros Filho, disponíveis no endereço eletrônico https://www.youtube.com/watch?v=70CKDI6P1AU&index=1&list=PL1UcfoBkWWQeYYZ3cc4Hpqf5AY_kKz8-83.

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