Suicídio – fatos sociais e fatos econômicos

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A série “13 Reasons Why” e as assustadoras notícias sobre o estilo e a amplitude que ganhou o jogo “Baleia Azul” coloram em voga um assunto importante e ainda pouco debatido na sociedade: a questão do suicídio. A verdade é que, diferentemente do que pensamos, o suicídio está ligado a um complexo de fatores sociais, e não apenas a aspectos individuais, em que o econômico também importa. Como materialidade disso, temos que as últimas pesquisas da OMS (Organização Mundial de Saúde) constatam que os países mais pobres são aqueles que apresentam maiores taxas de suicídio.

De acordo com estatísticas da ONU (Organização das Nações Unidas) e da OMS, o alto número de suicídio nos apresenta como grave problema de saúde pública, responsável por 800 mil mortes todos os anos, ou seja, uma morte a cada 40 segundos no mundo, em que para cada caso há outras 20 tentativas fracassadas. Assim, a taxa mundial de suicídio é de 11,4 por 100 mil habitantes (15,0 para homens e 8,0 para mulheres). Mais que isso, o suicídio representa a segunda principal causa de morte entre os jovens, com idade entre 15 e 29 anos (ainda que estatisticamente, os idosos sejam mais propensos a cometer suicídio), em que 75% dos suicídios ocorrem em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento (baixa e média renda). Tendo estas estatísticas aumentado nos últimos anos, a OMS tem se esforçado, junto aos governos locais, a estabelecer estratégias contra esta tendência.

Segundo Durkheim, uma das maiores referências no assunto, o suicídio é um fato social e, está extremamente ligado à força/fragilidade dos laços sociais das vítimas, não tendo nenhuma ligação com a pobreza. No entanto, em uma sociedade globalizada, em que impera as regras/normas capitalistas, a própria pobreza é também uma forma de exclusão social, visto que, como ressaltado por Wacquant, na medida que as relações humanas são pautadas pela lógica de mercado, gera-se exclusão do contato social daqueles que não produzem e nem consomem -podendo também ser um forte indutor do suicídio.

Os motivos e formas de suicídio são complexos e multideterminados. Ainda que os motivos ligados a depressão, e próximos a este, sejam mais fortes nos países de alta renda, como o Japão e os Estados Unidos, crises econômicas, problemas financeiros ou dores crônicas e doenças, também são fortes fatores que estimulam o suicídio. Temos também que, a taxa de suicídio é mais alta em grupos vulneráveis, que sofrem discriminação, como refugiados e migrantes, indígenas, LGBTI e pessoas privadas de liberdade.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o suicídio não está apenas relacionado ao “colapso pessoal, mas também de uma deterioração do contexto social em que um indivíduo vive. O suicídio pode ser o ponto final de um número de diferentes fatores contribuintes. É mais provável de ocorrer durante os períodos de crise associadas a perturbações de relações pessoais, por meio de abuso de álcool e drogas, desemprego, depressão clínica e outras formas de doença mental.”

Numa visão global das taxas de suicídio é visto que as maiores taxas são encontradas no Leste Europeu e em grande parte da Ásia e África (ainda que os dados deste último não são muito confiáveis). No caso das menores taxas a América Latina apresenta os menores valores, nos levando a interpretação de que não somente os fatores econômicos são responsáveis pelo suicídio, uma vez que os países da América Latina são, normalmente, de baixa e média renda.

Taxas de suicídio por 100 000 habitantes – em 2012

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No entanto, em contraposição ao argumento anterior vemos que entre os 10 países que apresentam maiores taxas de suicídio há um predomínio dos países mais pobres. Vemos também que há um elevado número de suicídios em países como a Índia e a China, mas que proporcionalmente, (em relação a sua população total) estes países não apresentam altas taxas de suicídio (lembrando que as taxas de suicídio referem-se ao número de suicídios ocorrido em algum país ou região, por ano, a cada 100 mil habitantes, e são mais importantes que os valores brutos por ponderar o número de suicídios pela quantidade da população total).

Um exemplo de que os fatores econômicos são também relevantes para a questão abordada é o aumento desta estatística na Grécia, que com a crise econômica, teve sua taxa de suicídio passando de 3,4 para 3,8, de 2000 para 2010, ou seja, um aumento significativo de 10,5%.

Países com mais óbitos por suicídio e maiores taxas de suicídio em 2012. (OMS, 2014)

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Outro fator interessante em relação a temática é que as taxas de suicídio podem ser fixas (variarem pouco) ou não no tempo em relação a cada sociedade, demonstrando que este não é um fator intrínseco ao indivíduo, mas fortemente relacionado ao contexto social e econômico. Esta estatística é relevante para que tomemos mais cuidado ao culpar a vítima pelo ocorrido. Aliás (parêntese), se observarmos as notícias e opiniões em geral, quando a vítima é indicada culpada, cuidado! Este é um forte indício de alguma coisa não está certa. Assim, estas diferenças nas taxas sinalizam para a complexidade do fenômeno, em que fatores econômicos, políticos e culturais podem influenciar o suicídio.

Variação nas taxas de suicídio entre 1990 e 2010, em alguns países selecionados (OCDE, 2014)

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No caso do Brasil, a taxa de suicídio por 100 mil habitantes é de 5,8 (2,5 para mulheres e 9,4 para homens, para o ano de 2014), em que para os jovens entre 15 e 29 anos esta estatística sobe para 6,9 casos para cada 100 mil habitantes. Comparativamente, os números do Brasil são baixos, em que os países que têm maiores taxas, apresentam mais de 30 casos a cada mil habitantes. Na lista de países latino-americanos o Brasil é o 12º, em relação a taxa de suicídio.

Ainda assim o tema deve ser tratado com atenção no nosso país, uma vez que de 2000 para 2012 tivemos um aumento de 10,4% na taxa de suicídio e, em algumas regiões, como o extremo norte e sul, as taxas são tão elevadas como as do Leste Europeu.

A expectativa do texto era demonstrar as nuances da questão do suicídio através das estatísticas para o Brasil e o Mundo, em um momento em que este ganhou lugar de destaque no debate, com a rápida ascendência dos casos envolvendo as vítimas do jogo “Baleia Azul”. A tentativa foi reafirmar a complexidade da temática, mas também, quebrar o tabu de que o “suicídio é apenas coisa de rico” e é intrínseco ao indivíduo, demonstrando que ele está fortemente atrelado a um complexo de fatores sociais, em que os econômicos não escapam.

Henrique

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