Investimento deve ser a resposta para a crise

O ditado diz que depois da tempestade vem a bonança, no entanto, a calmaria dos ventos pode não ser capaz de mover a naus Tupiniquim. Após um período de dez anos de expansão, cortado ao meio por uma breve crise, a economia brasileira apresentou um resultado negativo no crescimento do PIB no segundo trimestre de 2014. Ainda que 2014 tenha registrado uma estagnação, com expansão de apenas 0,1%, foi ali que teve início aquela que seria a maior crise econômica enfrentada pelo Brasil, segundo dados do IBGE.

O boom de commodities tinha acabado e a fome do dragão Chinês pelos nossos produtos arrefeceu, afinal, ele agora tem maiores problemas, como queimar a gordura causada pela impensável e gigantesca expansão dos anos 2000. A expansão do crédito também se esgotou, resultando em um cenário com empresas e consumidores endividados, pagando pelas contas feitas no ciclo de crescimento. Os investimentos, que foram sim motor de crescimento no entre 2005 e 2010, já não eram sustentáveis do ponto de vista financeiro, muito embora as rodovias e ferrovias, saneamento básico, escolas e hospitais brasileiros continuem, em grande medida, abandonados e vivendo com o mínimo. Os bons tempos do PAC ficaram para trás.

Três anos após o início da crise, o esperado era que, em 2017, o país já teria solucionado seus problemas, feito reformas necessárias para emergir maior e mais forte que antes da crise. Não foi bem isso que aconteceu. Houve uma sucessão e crises políticas, fruto do impeachment e de um sistema político tóxico que promoveu um verdadeiro mercado eleitoral, onde estavam à venda deputados, governadores, legislações e ao que tudo indica juízes e até mesmo o Presidente da República, e, claro, houve a escolha de um modelo econômico que não tem entregado um bom resultado.

Ao ser eleita presidente, Dilma Roussef escolheu um nome do “mercado” para liderar sua equipe econômica. Era o retorno daqueles que nunca se foram. Meses mais tarde, o então Presidente interino Michel Temer escolhe para ser Ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que também faz parte do PMDB e foi ex-presidente do Banco Central no governo Lula (seria estranho um presidente do autônomo Banco Central ter posicionamento político? Não no Brasil). A política é a mesma apresentada na Europa em crise de 2011, ortodoxia econômica e austeridade fiscal.

Segundo a corrente ortodoxa, a manutenção da inflação dentro das bandas do regime de metas e a estabilização da relação dívida/PIB quase que são os únicos fatores para retomada da “confiança” dos agentes. Com a “confiança” estabelecida os consumidores podem gastar e as empresas investir, e então temos como resultado o crescimento econômico sustentável.

Veja bem, não há metas de crescimento. Não há metas para aumento das exportações ou criação de empregos. Não há metas para quantidade de quilômetros de rodovias e ferrovias que devem ser construídas. Não há metas de quantas universidades brasileiras devem estar entre as melhores do mundo em vinte anos. Há metas de gasto, de inflação, de resultado primário. Não se pensa no futuro.

O problema é que a relação dívida/PIB estável, e condizente com a capacidade de pagamento do governo brasileiro, e as metas de inflação sendo respeitadas não são condições suficientes para que haja crescimento econômico inclusivo e sustentado. Há muito mais trabalho para ser feito. Caso isso fosse suficiente, os PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) estariam, hoje, tendo crescimento sustentável com taxas consideravelmente elevadas. Não é isso que tem sido observado. A parte sul do velho continente rasteja em fracos resultados econômicos, e o PIB per capita está estagnado.

Mesmo que a estabilização da dívida/PIB fosse condição suficiente para retomada, o modo em alcança-la também não está sendo efetivo. As via de redução de gastos, representadas principalmente pela PEC 241, além de não propor maior eficiência nos gastos, não vão gerar superávits imediatos. Sem crescimento da arrecadação dificilmente haverá melhora no cenário fiscal. Como foi noticiado recentemente, as expectativas apontam melhora no superávit primário apenas em 2020, isso caso as já tímidas projeções de crescimento ocorram de fato.

Entretanto, gerar aumento das receitas públicas requer dois caminhos: aumentar ou criar impostos, ou propor uma agenda de crescimento puxada por algum componente da demanda agregada. Nesse sentido, a ampliação do investimento deveria fazer parte da agenda. Países desenvolvidos tiveram elevadas taxas de investimento no passado, e países que crescem atualmente tem taxas muito elevadas. O investimento (ou a formação bruta de capital fixo) tem maior participação no PIB quando é construída infraestrutura física, na forma de pontes, rodovias, aeroportos, quando empresas ampliam sua produção, adquirem novas máquinas, contratam mais, e para conquistar mais mercados são forçadas a inovar, aumentando a demanda de serviços e trabalhadores qualificados. É assim que se gera crescimento sustentável.

Formação Bruta de Capital Fixo, em porcentagem do PIB

Por enquanto, a taxa de investimento brasileira, após o ciclo expansivo do PIB de 2003/2013, sofreu queda considerável em 2015, e espera-se que caia mais ainda em 2016, fruto da crise econômica. A retomada dos investimentos precisa ser central no desenvolvimento da política econômica, e isso pode ser feito pelo investimento público e privado, por meio de queda efetiva nas taxas reais de juro (taxa de juros descontada a inflação), e reforma tributária, capaz de promover simplificação tributária, principalmente para quem produz, e maior equidade na arrecadação de tributos, movendo a maior parte da arrecadação do consumo em direção às rendas, heranças e capital. Isso não só promoveria melhora no consumo, como também no ambiente de negócios. A adoção de um imposto de valor agregado, aos moldes do caso australiano, parece ser uma alternativa interessante.

Entretanto, o que tem sido verificado é o corte abrupto nos investimentos públicos e a hesitação do Banco Central em promover uma queda mais rápida nas taxas de juros, sob a justificativa do cenário econômico imprevisível, ou mesmo de retomada da inflação. A manutenção de taxas reais de juros elevadas, fruto da forte queda da inflação e do tardar em reduzir os juros, não é convidativa ao investimento. Mais do que isso, ela promove crescimento das despesas financeiras do Governo, dificultando também o alcance da estabilidade da relação dívida/PIB. Por outro lado, com reformas focadas nos gastos, pouco se discute a forma com que se arrecada.

A adoção de um modelo econômico que já mostra marasmo na Europa e EUA, estabelecendo um novo padrão de crescimento muito menor que o da década anterior, o que já é problemático nas economias centrais que têm grande estoque de capital, infraestrutura e recursos humanos desenvolvidos, é ainda pior em países como o Brasil, que não contam com esse nível de desenvolvimento. Taxas de crescimento econômico por volta dos dois pontos percentuais anuais nos próximos anos, como projetado em recente relatório publicado pelo Banco Mundial, podem inviabilizar o desenvolvimento humano no País. E os brasileiros não vão mais suportar um país incapaz de entregar suas ambições de desenvolvimento pessoal.

Não há indícios de mudança na condução da política econômica, uma vez que dificilmente Meirelles será removido de sua cadeira, mesmo com uma possível queda de Temer. Resta esperar as eleições para que o povo brasileiro escolha um novo modelo econômico capaz de entregar o tão sonhado desenvolvimento inclusivo e sustentável.

Marcelo

*As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo.

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Um comentário sobre “Investimento deve ser a resposta para a crise

  1. Primeiro, nao é só no Brasil que presidentes do BC possuem posicionamento politico;isso é no mundo todo. E se voces acham mesmo que voltar as politicas q foram exatamente as q nos levaram a nossa situaçao atual ou é exemplo d ingenuidade ou burrice mesmo.

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