Crise moral e falsas analogias

Falácias (1)

Em fevereiro do ano passado, quando escrevi o segundo texto deste blog, disse que a crise que passávamos não era apenas econômica e política, mas também moral. Hoje, passados quase um ano e meio, percebo como essa análise continua verdadeira.

O sentimento é de que não há mais tolerância nenhuma a nada, exceto ao velho. Parece que o “politicamente correto”, que tanto cresceu nos últimos anos, chegou a um limite em que parte da população ficou tão saturada, que começamos a ver retrocessos cívicos na opinião pública, e em virtude disso, fragilização de instituições e liberdades em nome de uma histeria coletiva.

Direitos humanos, que são uma grande conquista depois da barbárie vivida nas guerras mundiais, começam a ser vistos como “direitos dos manos”, “coisa de esquerda”. É importante frisar que essa fração dos problemas nacionais é, na verdade, um problema global.

Assim, quando pautas que dizem respeito a direitos humanos são contestadas por parte da população, percebemos que avanços que pareciam ter deixado para trás velhas práticas, não foram capazes de enterrar de vez certos problemas sociais.

Uma coisa que chama atenção nesse contexto é o uso recorrente de argumentos falaciosos para ancorar certezas incertas. Em vez das pessoas analisarem o que dá certo e o que dá errado, e partir daí modificar a forma como pensam o mundo, há na verdade uma tentativa de mudança dos parâmetros do que deu certo e errado para reafirmar o mesmo pensamento. Poucos são os capazes de assumir que erraram. Dos dois lados.

A atual esquerda erra em não se adiantar na autocrítica e em sua reconstrução, com ideias novas, percebendo o que fez de errado. A direita, tanto liberal, como conservadora, utiliza-se da nossa atual incapacidade de reconhecer que uma coisa está errada sem acreditar que para assumir isso precisemos concordar que seu oposto é o certo.

Nessa briga de extremos e da inserção dos “não-políticos”, que tende a dominar o país no próximo ano nas eleições presidenciais, incorremos em vários argumentos falaciosos para sustentar nossas falsas verdades.

Assim, para entender o que significa argumento falacioso, comecemos definindo silogismo. Silogismo é uma forma de raciocino dedutivo, composto de uma premissa maior, uma menor e uma conclusão.

“Todos os homens são mortais ← premissa maior
Sócrates é homem ← premissa menor
Logo, Sócrates é mortal” ← conclusão

Contudo, enquanto o silogismo é uma forma de raciocínio que parte do geral para o concreto, podendo ser condicional ou hipotético, disjuntivo, um dilema ou entinema, uma falácia é um erro de raciocínio.

Esse erro pode ocorrer porque houve generalização excessiva do argumento, uso de falsas analogias ou deduções, argumento autoritário, falso axioma ou de um círculo vicioso.

Quero chamar atenção para uma falácia presente no discurso liberal, que se apoia no fracasso da esquerda em responder certas demandas sociais para se engrandecer.

A primeira delas, e acho que a mais fácil de desconstruir, pode ser ilustrada na seguinte frase:

“Se socialismo fosse bom, os americanos estariam se jogando no mar para ir para Cuba, não o contrário”.

Nesse argumento, o erro é uma falsa analogia. Os Estados Unidos são sim um país muito rico e onde muitos desejam morar, os Estados Unidos são um país capitalista, mas não é verdade que se um país for capitalista será os Estados Unidos.

O capitalismo deve ser entendido de maneira global. Existem mais de 200 países no mundo, mas apenas os Estados Unidos possuem a riqueza dos Estados Unidos, e apenas outros 50 e poucos são considerados desenvolvidos. Se Cuba fosse capitalista ela não seria como os Estados Unidos, ela possivelmente seria mais próxima de suas nações vizinhas, como o Haiti, Honduras, Costa Rica, etc.

Cuba tem os problemas que por si só a condenam, como a falta de liberdade e oportunidades individuais. Não é necessário usar argumentos falaciosos para provar este ponto. Cuba ainda seria  um país pobre, assim como seus vizinhos, se capitalista fosse. Provavelmente com maiores índices de liberdade, com menos saúde e educação, mas pobre. É preciso ser claro para que as pessoas façam as escolhas sociais.

O mesmo erro se encontra em analisar os indicadores de liberdade econômica de maneira isolada e ao tratar da reforma trabalhista.

De outro lado, na direita conservadora, vejo defensores do regime militar dizendo que o regime no país matou poucas pessoas, se comparado ao regime que evitaram que se instaurasse no Brasil (supostamente, o comunismo). Aqui, o problema do argumento exige não apenas que o leitor perceba a falsa analogia, como no caso anterior. É necessário que ele conheça um pouco de história para constatar que o argumento parte de premissas falsas.

Os que se debruçam a estudar a história brasileira sabem que o partido comunista não era a ameaça que a ditadura militar buscava combater. Para Ianni (1977), três correntes importantes dividiram o pensamento econômico governamental de 1930-1970 (lembrando que o regime militar se estabeleceu em 1964):

  • O desenvolvimento nacionalista, que vigorou de 1930-45, 1951-54 e 1961-64 (primeiro e segundo governo de Getúlio Vargas e João Goulart, respectivamente);
  • A estratégia de desenvolvimento dependente, que prevaleceu nos anos de 1946-50, 1955-60 e 1964-70 (governos de Dutra, de Juscelino Kubitschek e da ditadura militar);
  • E a estratégia de desenvolvimento socialista, que nunca chegou a ter controle sobre centros de decisões do país.

O projeto trabalhista de João Goulart não tinha nada de comunista, como nos mostram os historiadores. O economista Celso Furtado, que elaborou o plano econômico do governo de Goulart era capitalista, mas entendia as restrições e necessidades de planejamento estatal para uma nação com origens monocultoras, oligárquicas e escravocratas tinha para que se instaurasse no país um capitalismo que propiciasse desenvolvimento econômico. Aliás, as nações centrais, incluindo os Estados Unidos, apostaram em grande expansão do gasto social e intervencionismo estatal no período, afim de consolidar sua hegemonia e propiciar desenvolvimento econômico sustentado.

Esse entendimento parte da visão de como o capitalismo deve ser visualizado: um sistema global, que apresenta como produto os países desenvolvidos e industrializados, e como subproduto, as nações periféricas e dependentes.

Quando se fala que o capitalismo venceu por mostrar os casos de nações desenvolvidas como exemplo, esquecem da quantidade de países capitalistas que falham todos os dias em garantir condições mínimas de vida a seus habitantes. Eu diria que na verdade, países periféricos que não conseguem avançar e se tornarem de fato capitalistas. Afinal, para ser capitalista, a nação precisa, necessariamente, de capital, da figura do empresário e de mão de obra assalariada. O que se vê em muitos países, por diversas questões, é pobreza, elites oligárquicas mantidas no poder econômico não por mérito, mas por privilégios hereditários, e um exército de mão de obra de subsistência, que não consegue se integrar ao sistema e virar também mercado consumidor.

Assim, de fato algo deu errado no mundo. As tensões sociais se elevam, podemos customizar verdades e dialogar apenas com aqueles que concordam conosco. Ir contra ideias velhas, que decididamente fracassaram, de um lado e de outro, não é o caminho. As relações sociais, econômicas e a mídia, tudo tem mudado depressa com os avanços tecnológicos.

Deixemos, portanto, o novo e a criatividade entrar também no debate político do país: não há salvadores da pátria. Não é a figura de um presidente que muda o Brasil ou acaba com a corrupção, muito menos a ideia generalizada de que os políticos são todos corruptos e, portanto, negar a política. O que muda um país são as atitudes de seu povo, sobretudo no que diz respeito à própria política.

Ludmila Azevedo
Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

*As ideias/opiniões expressas no texto são parte do ponto de vista do autor e não necessariamente de todos os membros do Bloco Jota.

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