A Revolta Domesticada

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Desde as Jornadas de Junho de 2013, a população brasileira percebeu como é importante ir às ruas para brigar por seus direitos e mostrar para os governantes do país que eles devem estar atentos ao o que o povo quer, e não podem mais virar as costas para isso. Pois bem, o poder continua emanando do povo, mas ele está concentrado nas mãos de quem percebeu o quanto uma revolta seletiva pode ser garantidora da continuidade da política da forma mais espúria possível, tendo o aval de grande parte da população.

O movimento que começou com uma luta contra o aumento nas passagens do transporte público, a princípio era mais um movimento de esquerda, encabeçado pelo MPL (Movimento Passe Livre), seria mais uma manifestação reprimida pela polícia e não teria apoio da população, já que, para grande parte da população, protestos até poderiam ocorrer, mas sem atrapalhar a vida de ninguém.

Entretanto, o que começou como um protesto corriqueiro, que seria reprimido pela polícia sem maiores contratempos e com apoio da imprensa e população, se tornou uma bola de neve, justamente pela repercussão da forte repressão policial. A imprensa tradicional fazia o seu papel de sempre, condenando os “arruaceiros” que iam contra a ordem pública, mas nas redes sociais o filtro era diferente, e os manifestantes puderam mostrar o que realmente ocorria. Assim, os protestos começaram a ganhar força com a ideia de que “não é só pelos R$0,20”, e pessoas que nunca haviam se manifestado por nada, foram às ruas.

Por um lado foi importante a maior adesão das pessoas aos protestos em todos os cantos do país, contudo rapidamente a pauta se perdeu, tendo dentro de uma mesma manifestação diversas reivindicações. Era só fazer um cartaz com o que queria e correr pra manifestação.

O MPL começou muito tempo antes de 2013, como um movimento apartidário, mas não antipartidário, pois historicamente pautas de esquerda são apoiadas por partidos de esquerda, e não dá pra dissociar uma coisa da outra, porque, para haver mudanças, a organização é fundamental.

Porém, juntamente com diversificação das pautas, ao longo da adesão de mais pessoas aos protestos de junho de 2013, começou a difusão do antipartidarismo travestido de apartidarismo, como forma de protestar contra a corrupção, principalmente nos gastos exorbitantes incorridos para a organização da Copa do Mundo. E foi aí que se percebeu que grande parte das pessoas que carregavam cartazes com os famosos bordões: “Não vai ter copa” ou “Queremos hospitais padrão FIFA”, eram os mesmos que lotavam os estádios na Copa das Confederações e na Copa do Mundo.

Os partidos políticos de esquerda, historicamente nos protestos, passaram a ser vistos como oportunistas por tentarem aproveitar de manifestações que ocorreram de forma “espontânea” pela população, e esse apartidarismo que se tornou um antipartidarismo, virou um partidarismo anti PT, já que esse era o partido da principal figura de poder no Brasil desde 2003. O PT sempre atraiu amor e ódio, dificilmente a indiferença, que é um privilégio de maioria absoluta dos partidos no Brasil.

O anti PTismo chegou ao ápice após as eleições de 2014 com a reeleição de Dilma Rousseff, sob várias desconfianças de que a eleição tivesse sido fraudada, que as urnas eletrônicas até então extremamente seguras, já não eram mais de confiança, pois não era possível que o PT, com toda a rejeição que tinha, ter ganhado mais uma eleição. E nesse contexto, surgiram os principais movimentos da, como gosto de dizer, Revolta Domesticada.

Considero os principais movimentos da Revolta Domesticada, o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL), convocando a população a ir para as ruas pedir o impeachment da presidente pelas mais diversas razões, convocando manifestações ordeiras para as “pessoas de bem”. As pautas, além do “Fora PT”, eram das mais genéricas, como: “pelo fim da corrupção”, “fim da violência”, “mais saúde”, além de total apoio ao juiz Sérgio Moro e a Operação Lava Jato.

Vendo isso, os partidos de oposição à Dilma aproveitaram e apoiaram as pautas que iam de encontro com as desses movimentos, unindo o útil ao agradável, já que, o anti PTismo valia a pena por ser apoiado por grande parte da população, cansada de tantos escândalos de corrupção, que se personificavam no PT. Além disso, esses partidos cooptaram lideranças desses movimentos, que se diziam apartidários, mas não titubeavam em se unir a quem ou a qual partido fosse para acabar com o PT, consequentemente, a corrupção, mas ressaltavam que, como a luta era contra a corrupção, derrubar a Dilma seria apenas o primeiro passo, depois eles derrubariam o resto.

Pois bem, o Golpe já foi dado, a sangria foi estancada, o PT foi o partido que mais perdeu poder nas eleições de 2016, Lula foi condenado a nove anos e meio de prisão. E o resto? O resto não importa mais, agora o que importa é continuar aprovando as pautas mais conservadoras possíveis e reformas propostas pelos setores mais ricos da sociedade, em nome do crescimento econômico e a hipócrita meritocracia que não enxerga as desigualdades sociais, pois quem trabalha calado tem a chance de prosperar, quem diz o contrário é comunista, PTista e vagabundo.

A Revolta Domesticada é linda, tem manifestações aos domingos, em locais de fácil acesso, sem violência e cheia do patriotismo vestido de verde amarelo. Parece muito mais uma ida ao estádio assistir jogo da seleção brasileira, seleção esta, que depois que voltou a jogar bem, fez desaparecer os inúmeros escândalos de corrupção na CBF. A esses movimentos agora resta exigir a prisão de Lula o mais rápido possível, já o Aécio continua sendo Senador, a Comissão de Constituição e Justiça rejeitou a continuidade das investigações contra o Temer e a Lava Jato já teve redução de equipe, seu orçamento cortado em pelo menos 1/3 esse ano em Curitiba e, não há mais grupo de trabalho exclusivo para ela… Será que só eu sou chato, ou a revolta foi domesticada?

Sílvio Alberto.

**As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo.

Referências:

http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/governo-reduz-equipe-da-lava-jato-e-corta-verba-da-pf/

http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/forca-tarefa-da-lava-jato-em-curitiba-perde-13-das-verbas/

 

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