Por que a deflação é um mal sintoma da economia?

Em junho deste ano o Brasil apresentou o “incrível” resultado de “inflação negativa”, ou seja, deflação, queda generalizada dos preços (-0,23% IPCA e -0,3% INPC), fato que não ocorria nos últimos 11 anos. É verdade que um dado mensal isolado não deve ser motivo de alarde, e a intensão do texto não é ir por este caminho. A pretensão aqui é trazer elementos que nos façam compreender por que a deflação é ruim, ainda que produtos mais baratos sejam, primeiramente, uma vantagem para as famílias.

A deflação nada mais é que a queda do nível de preço de uma determinada cesta de bens em relação a dois períodos, ou seja, quando a “média” dos preços dos produtos fica menor num período em comparação ao outro. Isso não necessariamente quer dizer que todos os produtos estejam mais baratos, ou em todos os lugares, mas como eu disse, quer dizer que uma cesta de bens está mais barata, mais especificamente, a cesta utilizada pelo indicador de preços analisado (para entender o que é o INPC). Vejamos os valores do IPCA para junho de 2017, de acordo com a região e com o grupo.

deflação 1Fonte: IBGE.

Lembremos também que a deflação de um mês não indica que estamos num processo deflacionário, já que nos outros meses podemos ter inflação. No acumulado em 12 meses, ou seja, de julho de 2016 a junho de 2017, a inflação foi de 3,00% (IPCA), ainda que tenhamos que ficar em alerta para a tendência de queda que esta vem apresentando (mesmo que uma inflação baixa não seja ruim).

IPCA acumulado em 12 meses

deflação 5.jpgFonte: IBGE.

Entendido o que é a deflação, a nossa próxima questão seria entender por que ela é ruim, já que com ela é possível comprar produtos mais baratos.

Bem, num primeiro momento a deflação parece sim ser um bom resultado, dado o aumento na nossa capacidade de compra. No entanto, o mais difícil para nós é compreender que na economia tudo está interligado e que a nossa performance individual depende e influencia a sociedade como um todo.

A inflação/deflação pode ser definida em três tipos: a) inflação de custos; b) inflação de demanda e; c) inflação inercial, ainda que uma não exclua a existência da outra. A inflação de custo ocorre quando a demanda permanece estável e um dos custos de produção (salário, energia, matéria-prima, etc.), ou vários, se elevam, fazendo com que os empresários repassem este aumento de custos para os preços (exceto nos casos em que há uma redução da margem de lucro, ao invés do aumento de preços). Já a inflação de demanda ocorre quando há um aumento de consumo e a oferta se mantém a mesma. Assim, com a maior disputa pelas mercadorias existentes os empresários venderão para quem pagar mais, elevando os preços das mercadorias. A inflação inercial, a mais complexa das três, acontece por conta de a sociedade acreditar que a inflação continuará a subir, fazendo com que a previsão se materialize, graças, principalmente, a presença de contratos indexados, em que a inflação passada é base para os ajustes futuros.

Tendo por base os tipos de inflação, podemos entender que a deflação ocorre justamente pelo oposto. Descartando a opção inercial num primeiro momento, por nossa economia ter um histórico inflacionário, a deflação pode ocorre por dois motivos: queda dos custos ou queda da demanda (obs.: a queda dos custos pode advir de um fator positivo, que é quando há um aumento de produtividade com aumento da atividade econômica, o que claramente não é o nosso caso. No entanto, a deflação de junho também está ligada a uma supersafra).

Aí podemos voltar a ficar preocupados, principalmente se analisarmos o consumo das famílias e o nível de emprego no Brasil, que apresentam queda significativa desde 2015, principalmente. Ou seja, queda da demanda e dos custos, lembrando que a mão de obra é um dos fatores mais caros para a produção, e que o aumento do desemprego leva a queda da massa e do nível dos salários.

deflação 2Fonte: Nota do Cecon, n.1, Abril de 2017.

Assim, o que podemos observar é que a deflação ocorrente é um pequeno sintoma de um problema bem maior, ela é resultado da queda do consumo, ela é resultado do desemprego, ela é resultado da depressão econômica.

Fora isto, o que quero chamar a atenção é para o fato de que vivemos num modelo de economia em que as ações de uns interferem diretamente das ações dos outros, que estamos num sistema que as nossas condições não são somente determinadas pelas nossas ações. O que adianta o padeiro fazer o melhor pão da cidade se não há emprego para as demais pessoas terem renda e comprar o seu pão. Adam Smith propôs que a mão invisível (do mercado) por si só resolveria este problema, de forma que o mercado coordenasse todos os fatores de produção a serem utilizados. No entanto, a realidade, infelizmente, não é essa, e o mercado por si só não consegue incorporar todas as pessoas que desejam trabalhar.

A deflação, efetivamente em períodos prolongados, cria a expectativa de que os preços estarão menores no período posterior, fazendo com que os agentes adiem o consumo e os investimentos. O consumo é adiado na espera de que os preços fiquem mais baixos. Já para o investimento o problema é duplo, em que além deste problema, adiamento de compras, os investidores não terão incentivos a investir e produzir, uma vez que quando seus produtos estiverem prontos para venda a expectativa é que seus preços estejam menores que no início da produção. Assim, no limite, o preço do produto final pode chegar a ser menor que o dos custos para sua produção. Se o consumo e o investimento reduzem, consequentemente temos uma redução do emprego, que realimenta este ciclo de maneira cada vez pior. Desta forma, a deflação prolongada é péssima para a sociedade como um todo, pois ainda que a inflação seja ruim, por deixar a nossa renda real menor a cada período, é melhor ter-se uma renda menor do que nenhuma.

Assim, o que parece ser inicialmente uma coisa boa, preços mais baratos, pode posteriormente ser uma coisa ruim. Uma vez que se essa redução de preços advém de uma queda na atividade econômica, posteriormente será necessário um menor número de trabalhadores para realizar aquela produção que foi reduzida (a partir do mesmo nível tecnológico), o que no próximo período novamente reduz a demanda, por conta da queda de pessoas com condições para consumir, levando a nova redução de preços, queda da produção e redução do número de trabalho empregado, num fluxo de causação circular.

Vejam que as economias, normalmente, não entram em colapso por este fato, uma vez que exportações ou outros tipos de estratégias podem ser saídas viáveis deste fluxo perverso. Mas o que eu quero frisar é que vivemos num sistema, em que uns afetam os outros, e que os problemas alheios indiretamente são “nossos problemas”, querendo ou não.

Nunca é demais lembrar que vivemos numa economia capitalista, que por condições intrínsecas nos leva a momentos de superprodução, de insuficiência de demanda, que são manifestações de uma contradição máxima, em que a produção da riqueza é social e a apropriação é privada.

Henrique

Doutorando em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia.

*As ideias/opiniões expressas no texto são parte do ponto de vista do autor e não necessariamente de todos os membros do Bloco Jota.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s