Seria a Economia uma Religião?

Em nome da Escola de Chicago, do Regime de Metas de Inflação e do Espírito de Friedman, Amém.

Desde o século XIX a igreja católica, e outras religiões, tem perdido cada vez mais espaço na vida da população da maioria das nações. Esse fato é de grande importância, afinal seguir dogmas de uma religião ajudou a humanidade a se guiar, identificar objetivos propostos por Deus, capazes não apenas de motivar uma sociedade, mas de influenciar seus valores morais. Já no século XXI a religião parece ter reduzido sua presença no cotidiano de parcela significativa da população, principalmente no Ocidente e na China, mas isso não impediu que as pessoas continuassem a seguir novos dogmas aparentemente inquestionáveis em algo que faz parte da vida de todos: economia.

Diariamente somos bombardeados com notícias e informações sobre economia. Em qualquer jornal no Brasil pode ser encontrado informações que geram as mais variadas reações: um aumento no Investimento Direito no País seria algo bom pois significaria novos investimentos produtivos; reservas internacionais em grande monta nos diz que o País pode ser capaz de cumprir seus compromisso externos; se o real está valorizado isso é bom, pois os importados ficam mais baratos e a economia vai bem; se um governo está com déficit nas contas (fechando no vermelho) ele deve estar “gastando demais” e, portanto, deve fazer um ajuste para economizar; a taxa de juros baixa é bom para o investimento, mas se a inflação estiver alta essa mesma taxa deve se elevar para reduzir a inflação.

Todas essas hipóteses são verdades absolutas onipresentes nos jornais, na televisão, na internet. Não há discussão sobre quem disse isso, ou quê. Apenas são dadas como óbvias, irrefutáveis, incontestáveis, assim como diversos dogmas religiosos. Mas o que acontece quando alguém tenta questionar esses dogmas, ou fazer perguntas que não são fáceis de responder por essas regras?

No Brasil dos anos 1990, foi implementado o Plano Real, um plano econômico que previa reforma monetária por um mecanismo pouco ortodoxo, aliado a maior abertura da economia e manutenção de moeda doméstica muito valorizada com câmbio de bandas, o que auxiliaria o controle da inflação. Após cerca de cinco anos, esse modelo produziu um rápido crescimento da dívida pública e se esgotou. Em 1999 foi adotado o atual modelo macroeconômico, popularmente conhecido por tripé econômico: Regime de metas de inflação, câmbio flutuante e geração de superávits primários.

Esse modelo, o tripé, é apoiado em correntes de pensamento mainstream, ou a ortodoxia econômica. O câmbio flutuante responderia a oscilações do mercado, a geração de superávits primários garantiria uma trajetória sustentável da dívida pública e a taxa de juros oscilaria de acordo com o comportamento da inflação. Nos dezoito anos de vigência do modelo, a geração de superávits foi cumprida em quinze (1999-2013)[1], porém a taxa de juros brasileira sempre esteve em patamares muito superiores à média de países desenvolvidos ou emergentes.

Após cerca de duas décadas de um modelo que não conseguiu entregar crescimento sustentável à economia brasileira, nem taxas de juros compatíveis com investimentos de longo prazo, surgiram alguns questionamentos. Recentemente um dos economistas responsáveis pela elaboração do mesmo Plano Real, André Lara Resende, publicou um artigo no jornal Valor Econômico expondo algumas ideias que ele mesmo já desenvolveu em um paper científico, também já publicado, e em seu novo livro: “Juros, moedas e ortodoxia”.

Nesse artigo Resende questiona a eficácia e a eficiência do atual modelo macroeconômico, e argumenta que talvez, ele esteja custando caro demais para a sociedade brasileira. É sabido que o atual modelo macroeconômico utiliza apenas a taxa de juros como instrumento de controle da inflação por meio de uma regra: se a inflação cresce, o Banco Central do Brasil deve aumentar a taxa de juros de maneira mais que proporcional. Essa regra é conhecida entre os economistas como regra de Taylor e entre o público geral como uma verdade absoluta, expressa nos jornais e televisão. Mas e se a relação for a inversa, argumenta Resende, e se o aumento da taxa de juros levar a aumento da inflação no longo prazo?

André Resende sempre esteve ligado à economistas de pensamento mais liberal, ou a ortodoxia econômica, mas antes de tudo, sempre esteve mais interessado em resolver problemas reais do que seguir cegamente algum manual de economia. Foi assim que, com soluções inovadoras, conseguiu ajudar a resolver o problema da hiperinflação com o Plano Real.

Segundo Resende, a recente experiência dos bancos centrais dos países desenvolvidos mostra que a regra de Taylor pode estar errada. Em resposta a crise de 2008 os bancos centrais desses países, em especial dos EUA, realizaram o chamado Quantitative Easing, que nada mais é do que uma expansão monetária, ou um aumento da oferta de moeda, mantendo taxa de juros muito baixa.

De acordo com o arcabouço teórico do atual modelo macroeconômico adotado no Brasil, o Quantitative Easing teria resultado em uma explosão da inflação, entretanto não foi isso o registrado. A inflação desses países se manteve estável, e em alguns casos com constante ameaça de deflação. Para Resende, a inflação não aumentou com a queda dos juros porque, ao observar o que poderia acontecer no futuro, os agentes daquelas economias não identificaram motivo para aumento dos preços.

De fato, no curto prazo, os juros mais altos reduzem a inflação, mas no longo prazo não. A inflação de longo prazo pode ser afetada pela percepção que se tem da sustentabilidade da dívida que é impactada pelo aumento dos juros. Por exemplo, se há algum aumento da inflação, o Banco Central pode elevar os juros, entretanto essa manobra poderá fazer com que a dívida pública também se eleve, fazendo que com os agentes identifiquem uma futura necessidade de aumento de gastos para quitar essa dívida, e portanto, mais aumento na inflação.

“Isso pode sugerir que a separação entre políticas monetárias e fiscal é mais artificial do que se acreditava”, diz Resende. “No Brasil o Quantitative Easing mostrou que o financiamento monetário por expansão de reservas no Banco Central não é inflacionário, logo a maior necessidade de financiamento público não exige, necessariamente, juro alto. Na verdade, o juro alto sinaliza inflação alta. Ou seja, o juro alto não apenas agrava o desequilíbrio fiscal, como no longo prazo mantém a inflação alta.”

Dessa forma, o aumento da taxa de juros dos últimos anos e a demorada redução, tão festeja pelo governo Temer, podem, na verdade, causar mais inflação no longo prazo. Seria algo parecido com um efeito “bola de neve”: Os juros mais altos tornam a dívida mais cara, o que gera dúvidas quanto a seu pagamento no futuro, apontando para mais despesas no futuro o que poderá gerar mais necessidade de financiamento. Isso indicaria elevação nas despesas do governo, e portanto, inflação maior.

Assim como em qualquer ciência, era de se esperar que provocações tão relevantes ao pensamento, como essas de André Lara Resende, fossem amplamente discutidas. Bem, isso não foi observado com tanta veemência. Os Economistas Marcos Lisboa e Samuel Pêssoa responderam que “não há nada de novo no debate de política monetária”[2]. Armínio Fraga, em resposta a Resende disse “O Brasil, que adora um atalho, não parece ter aprendido com lições do passado”[3].

Não houve, por parte dos economistas mais ortodoxos, respostas mais convincentes que estas. Apenas reforçam os pressupostos da teoria em que acreditam, mesmo que sejam insuficientes para explicar a realidade.

Ao contrário de outras ciências que avançam sobre novos pressupostos, como a Física que acolhe a relatividade, as probabilidades e inconstâncias (presentes nas ideias de Einstein e na “Teoria de Tudo” de Stephen Hawking), a dita Ciência Econômica reforça cada vez mais a certeza, os determinismos e o equilíbrio. Sim, pois a formalização de modelos matemáticos mais elaborados pode, na verdade, mascarar problemas de identificação estatísticos, como sugere André Lara Resende.

Várias explicações são ensaiadas para explicar o juro alto no Brasil: fatores psicológicos, distorções legislativas e institucionais, inadimplência, patamar da dívida pública, a inflação crônica de mais de duas décadas atrás, baixa poupança e elevada propensão ao consumo. Porém nenhuma delas parece considerar que a taxa de juros do Brasil, e mesmo a manutenção do intocável modelo macroeconômico, seja também uma decisão política.

Enquanto a fronteira do pensamento da ciência econômica aponta para avanços fora do Brasil, aqui as velhas conclusões se reforçam. Enquanto a religião perde força no dia a dia, ela parece ganhar no congresso e na economia. E assim como na antiga Santa Inquisição, aqueles que ousam questionar algum de seus fundamentos estão fadados ao escracho.

*Marcelo

Texto de André Lara Resende:

http://www.valor.com.br/cultura/4834784/juros-e-conservadorismo-intelectual

[1] De acordo com  IPEADATA.

[2] http://www.valor.com.br/cultura/4842254/nada-de-novo-no-debate-monetario-no-brasil

[3] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/02/1855937-o-brasil-adora-um-atalho-diz-arminio-fraga.shtml

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s