Entenda como funciona a Política Fiscal

Frequentemente, temos ouvido falar, na mídia e nos discursos políticos, sobre o ajuste fiscal que o governo federal tem tentado (ressalvadas suas contradições) implementar no Brasil, mas muitos de nós não sabemos bem o que isso significa e qual o real impacto da Política Fiscal na economia do País e nas nossas vidas.

Nesse sentido, meu principal objetivo com esse texto é apresentar, da forma menos complicada possível, o conceito de Política Fiscal e explicar de que forma ela pode ser operacionalizada. Aviso de antemão que simplificações serão feitas, e elas se fazem necessárias para a compreensão da leitora e do leitor que não é economista, para os quais eu me dirijo em especial nesse post.

Elaborei 3 perguntas para facilitar nossa compreensão. Vamos a elas:

1. O que é Política Fiscal?

É o conjunto de ações e medidas do Governo (tanto na esfera federal, quanto estadual e municipal) relacionadas à manipulação de suas receitas e despesas, a fim de cumprir três funções, segundo o Tesouro Nacional:

  1. Alocação de recursos: alocar os recursos arrecadados de forma eficiente, a fim de oferecer bens e serviços públicos de forma eficiente;
  2. Redistribuição de renda: diminuição das desigualdades de renda entre a população do país;
  3. Estabilização macroeconômica: garantia do crescimento econômico, com estabilidade de preços (baixa inflação) e menor nível de desemprego possível.

Assim, de maneira bem simplista, pode-se dizer que a Política Fiscal se trata da política de arrecadação e gastos do governo, de modo a alocar os recursos do país de forma eficiente e garantir um crescimento econômico sustentável.

2. De que forma ela é operacionalizada?

A Política Fiscal, tal como a Monetária, pode ser realizada sob duas formas:

Contracionista: é realizada quando o Governo entende que é necessário reduzir seus gastos e/ou aumentar a arrecadação. Isso ocorre à medida que ele considera que a dívida pública está em um patamar muito elevado, por exemplo.

Além disso, a diminuição dos gastos públicos ou elevação de impostos, ao reduzirem a renda disponível na economia, diminui a demanda por bens e serviços, o que pode ser utilizado quando o governo entende que a inflação está acima de um nível aceitável, decorrente do excesso de demanda, ou seja, um patamar excessivo de procura por bens e serviços, o que estaria os tornando mais caros.

É importante ressaltar brevemente que a inflação não é um fenômeno somente de demanda, tendo outras causas, a exemplo de custos de produção, transporte e etc.

Pois bem, vamos à Política Fiscal expansionista:

Expansionista: é realizada por meio da ampliação dos gastos do Governo e/ou redução da carga tributária. Isso ocorre, quando se objetiva impulsionar a atividade econômica e, como consequência, ampliar a oferta de empregos, sobretudo em momentos de crise, como colocam as teorias de inspiração keynesiana.

Suponhamos que o Governo de MG resolva construir uma nova estrada. Para isso, ele contratará uma empreiteira, que, por sua vez, contratará funcionários (pagando salários, que serão gastos na economia) e adquirirá materiais para a construção. Veja que a decisão de gastos do governo gera ampliação de emprego e renda, num efeito multiplicador.

Outra forma de atingir o objetivo de impulsionar a atividade econômica é via carga tributária. A redução de impostos sobre produtos alimentícios, por exemplo, pode estimular a demanda por eles, beneficiando a indústria, ao mesmo tempo em que tem grande impacto sobre a vida da população mais baixa renda.

Essa política foi utilizada na época da crise de 2008, quando o Governo Federal reduziu alíquotas de impostos sobre vários produtos de indústrias consideradas estratégicas devido ao seu alto poder de encadeamento, ou seja, alta capacidade de influenciar a economia como um todo. Exemplo disso foi a redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre máquinas e equipamentos, além de carros e eletrodomésticos.

É importante ressaltar também que os resultados da política fiscal expansionista não são unânimes na ciência econômica. Há teóricos que discordam do potencial dinamizador da ampliação dos gastos públicos em períodos de crise. Para eles, a elevação dos gastos públicos, a não leva a maior crescimento econômico no longo prazo, uma vez que os agentes econômicos (consumidores, empresários, etc.) não são estimulados a demandarem e produzirem mais, já que enxergam o aumento dos gastos públicos de hoje como elevação de impostos no futuro, para suprir o endividamento público, assumindo, portanto, que a Política Fiscal expansionista sempre gera déficits.

Nessa visão, a economia voltaria para o mesmo patamar que o anterior, com equivalente redução da parcela privada da renda (incluindo investimentos privados, que são os únicos considerados capazes de fazer a economia crescer no longo prazo por meio de ganhos de produtividade) e com inflação, e consequentemente juros, mais elevados que antes da expansão do Estado.

3. Qual é a Política Fiscal mais indicada?

Como tudo em Economia, não há um consenso sobre como seria uma eficiente condução da Política Fiscal, variando conforme a vertente teórica que se segue. A visão convencional, por exemplo, recomenda que em tempos de crise e inflação elevada, deva-se realizar corte de gastos, como vêm sendo propagado no Brasil atualmente (o principal exemplo é a PEC dos gastos), para que se estabilize as contas públicas, o que devolveria a capacidade de financiamento do Estado, melhoraria as expectativas do “mercado”, estimulando novos investimentos do setor privado e queda da inflação.

Além disso, espera-se que ocorra a queda gradual da taxa de juros. Explico: acredita-se que o elevado endividamento do Estado faz com que ele precise recorrer em demasia ao setor privado para financiá-lo, o qual por sua vez, cobra caro para emprestar os recursos (alta taxa de juros na economia). Dessa forma, com o corte dos gastos o governo aumentaria sua capacidade de financiamento próprio e não precisaria mais recorrer tanto ao financiamento privado, o que reduziria a taxa de juros.

Já a vertente Keynesiana considera que o investimento público é essencial nos momentos de crise, quando os investimentos privados se reduzem. Nessa visão, o investimento público atua como elemento anticíclico, sendo essencial para estimular a economia e “puxar” os investimentos privados. Assim, com a ampliação da atividade econômica, a arrecadação também se ampliaria, gerando a melhoria das contas públicas.

Com base nessa visão, o corte de gastos não é a melhor medida a ser tomada em períodos de crise, pois atua no aprofundamento dela, reduzindo a demanda e o emprego.

A perspectiva anticíclica do investimento público de Keynes gera diversas discussões entre estudiosos de Economia, levando o autor a ser considerado por muitos como o “teórico do déficit público” – o que é uma visão deturpada da teoria de Keynes, sobre a qual eu discuto em texto anteriormente publicado aqui no Bloco Jota.

O que causa confusão sobre a visão de Keynes é a falta de entendimento sobre sua própria noção de orçamento público. Ele propôs que o orçamento seja composto por duas partes: A primeira seria o orçamento corrente, que corresponderia aos gastos correntes do governo com o funcionamento da máquina pública, além dos juros pagos sobre a dívida pública; Já a segunda seria o orçamento de capital, o qual concentraria os gastos com investimento.

O orçamento corrente deveria, na concepção de Mr. Keynes, estar sempre em equilíbrio ou até mesmo apresentar superávit, que seria transferido para o segundo. Com isso, a parte do orçamento do governo – e apenas essa – que corresponde aos gastos com investimento poderia apresentar déficits transitórios, no curto prazo, porém esse deveria ser financiado pelos superávits no orçamento corrente, de modo que o Orçamento Público considerado em sua totalidade (corrente + de investimento) deve ser superavitário ou equilibrado na concepção de Keynes.

Como é possível perceber, o assunto é bastante complexo e amplamente discutido, motivo pelo qual se opta por encerrar o texto por aqui, uma vez que o objetivo é o de resumir de forma mais simples possível aspectos da Política Fiscal. Assim, a discussão entre as diversas vertentes do pensamento econômico a respeito da operacionalização da Política Fiscal pode ser melhor desenvolvida numa próxima oportunidade.

O que fica de mais importante nessa nossa simples reflexão sobre Política Fiscal é que nenhuma teoria é absoluta, neutra ou livre de influência da visão de mundo de seus formuladores e seguidores e que, portanto, deva ser aceita sem reflexão a respeito de cada caso, momento e país a ser aplicado. Assim, sempre que formos estudar, falar sobre política econômica ou qualquer outro tema, devemos nos lembrar de que tudo pode e deve ser discutido.

  Douglas Xavier                                                                                                                            Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

 

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