O Brasil será sempre uma Fazenda?

Celso Furtado foi um dos maiores economistas brasileiros de todos os tempos. Uma das maiores contribuições de sua obra, que investiga a formação econômica do Brasil e alternativas para o desenvolvimento brasileiro, é a conclusão de que a economia brasileira passa, de fato, a ser uma economia quando a dinâmica de reprodução passa a ser interna, e não reflexa a acontecimentos externos. É a passagem do deslocamento do centro dinâmico da economia “de dentro para fora”.

Dito de outra forma, até o início do século XX a economia brasileira era baseada em exportação de commodities. Essa exportação se dava em ciclos de expansão e contração, seja por esgotamento dos recursos (no caso do ouro), seja por oscilações no preço internacional das mercadorias (cana de açúcar, café). A ideia é que, como commodities não são produtos diferenciados e seu preço é dado no mercado internacional, a expansão do valor exportado varia de acordo com a cotação internacional. Mais que isso, superávits na balança comercial e o próprio balanço de pagamentos do país pode ter sustentação fragilizada, uma vez que o país não tem controle sobre o preço de exportação de suas principais mercadorias.

O deslocamento do centro dinâmico para o mercado interno do Brasil na primeira metade do século XX foi possível graças à modernização, que criou mercado interno capaz de consumir produtos manufaturados produzidos internamente. Na esteira de planos de desenvolvimento e da expansão industrial, nos anos 1980 os produtos industrializados passaram a ter destaque na pauta de exportação brasileira, ainda que fossem concentrados em poucos setores de baixa ou média tecnologia.

Exportações do Brasil em 1977.

1977

Fonte: UN COMTRADE.

Exportações do Brasil em 1987.

1987

Fonte: UN COMTRADE.

Como é possível ver nos gráficos acima, em 1977 o maior produto de exportação brasileira continuava a ser o café, seguido de minérios e outros produtos agrícolas. Apenas 10 anos depois, em 1987 a concentração em café e produtos agrícolas diminui, mas ainda é forte. Nesse período há forte crescimento na exportação de insumos como alumínio e produtos siderúrgicos, carros e alguns tipos de máquinas.

Com a paralisação da industrialização e a abertura comercial promovida nos anos 1990, a expansão da exportação de produtos industriais cessou. O boom econômico da Ásia, predominantemente da China, impulsionou a exportações de produtos agrícolas, minérios e petróleo, aumentando o peso desses produtos na pauta de exportação brasileira, e reduzindo o peso de produtos industrializados. Commodities como petróleo, soja e minério de ferro, que não passam por quase nenhum processo de manufatura, voltaram a ser os principais produtos de exportação do Brasil, enquanto que outros produtos como calçados e vestuário reduziram sua participação enormemente devido à concorrência com produtos asiáticos. Soja, minério de ferro e petróleo passaram a ser produtos com maior peso na pauta exportadora no final da década de 2000 até o momento.

Exportações do Brasil em 2016

2016

Fonte: UN COMTRADE.

Apesar de ter ajudado o país a gerar grandes superávits comerciais, a queda nos preços das commodities foram um dos principais responsáveis pelo desaquecimento da economia nos primeiros anos da década de 2010, o que junto a outros fatores culminou em uma das maiores crises econômicas que o país já enfrentou. O Brasil está novamente se tornando mais vulnerável a variáveis externas? Alguns economistas pensam que o país está em pleno processo de desindustrialização, uma das mais rápidas já registradas.

Produtos industrializados são diferenciados, e por isso não sofrem tanto com oscilações nos preços. Além disso precisam de uma cadeia produtiva capaz de gerar mais empregos e empregos mais diversos, com diferentes níveis de escolaridade. Produzir bens de alta ou média tecnologia por empresas nacionais não apenas é capaz de gerar mais renda no país, mas o torna mais independente.

Essa deve ser uma das discussões que os brasileiros devem demandar em 2018, a abertura comercial é necessária, mas não apenas para importar produtos manufaturados com mais facilidade e mais baratos, e sim para impulsionar a produção nacional e geração de conhecimento e tecnologias brasileiras.

Marcelo Duarte – Economista e Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

**As ideias/opiniões expressas no texto são parte do ponto de vista do autor e não necessariamente de todos os membros do Bloco Jota.

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