A crise da “classe média” e a Educação Pública

A cada 10 estudantes brasileiros de ensino fundamental e médio, 8 estudam em escola pública, segundo dados do último Censo Escolar da Educação Básica. Esse dado, por si só, já justifica a importância de falarmos sobre a escola pública.

No entanto, surge um fato novo, como mais um combustível para essa discussão: Diante da crise econômica que vivemos no Brasil nos últimos anos e, consequente queda da renda, muitas famílias de classe média precisaram retirar seus filhos das escolas particulares e transferi-los para a rede pública, o que foi motivo de frustração e desespero para muitos, diante da descrença generalizada.

A descrença ocorre devido, em parte, a problemas encontrados na rede pública, como estrutura física, falta de professores, dentre outros, mas também se deve ao ideal difundido por setores da sociedade que buscam desqualificar a instância pública, operando com base em generalizações, esquecendo que há escolas públicas melhores e piores, assim como há particulares boas, e outras nem tanto.

Como aponta a Comissão Organizadora do Congresso Internacional ESCOLA PÚBLICA: tempos difíceis, mas não impossíveis, que ocorreu no ano passado na Faculdade de Educação da Unicamp:

Sob o domínio de um discurso político do fracasso do Estado na condução de políticas sociais e econômicas, com forte poder de convencimento, e de uma produção de conhecimento dominada pelo economicismo que se autolegitima na ideologia da meritocracia, o Estado tem sido acusado de ser o responsável por todos os ‘males’ da sociedade atual”.

Não é o meu propósito negar a existência de problemas na prestação de serviços públicos, sobretudo no âmbito da educação. Ao contrário, quero chamar atenção para a responsabilidade pela resolução deles que certamente não é somente do Estado. A sociedade como um todo tem a obrigação de discutir e participar das estratégias de melhoria.

Nesse sentido, a chegada dos novos estudantes de “classe média” à rede pública ao invés de ser vista como uma consequência negativa da crise econômica deve ser encarada como uma oportunidade de fortalecimento da escola pública, já que os pais desses alunos, alguns deles habituados a exigir uma educação de qualidade das instituições privadas, podem e devem fazer o mesmo nas públicas. Para tanto, é importante que fique claro que a educação não é um favor, mas sim um DIREITO.

Além de exigir, deve-se fazer algo para melhorar, como a participação nos conselhos e projetos da escola. Na verdade, a rede pública oferece maiores oportunidades de participação da comunidade do que a rede privada, a qual opera com estratégias próprias, e de certa forma vende o “pacote fechado”, abrindo pouca margem para a construção de uma educação coletiva.

Por falar em construção coletiva, um ponto importante é que os estudantes precisam ser ouvidos nesse processo de busca pela melhoria da educação pública. Isso ocorre porque, tal como proclama nosso patrono Paulo Freire (até esse título do mestre tentaram tirar, recentemente!), os profissionais da educação e a escola em geral devem estar sempre refletindo e reinventando sua ação pedagógica, com o intuito de se aproximar cada vez mais da realidade social e dos anseios de seus educandos.

A política também não pode ficar de fora, uma vez que é principalmente por meio dela que se darão as bases do projeto de mudança. É preciso se ater aos projetos que os políticos têm para a educação pública, sobretudo na hora de dedicarmos nosso voto. Além disso, é preciso incentivar os próprios estudantes a engajar-se nos processos de mudança e isso se faz por meio de uma educação realmente libertadora.

Nos termos de Paulo Freire em A importância do ato de Ler (1995): não é possível negar a natureza política do processo educativo, uma vez que ele reproduz a ideologia dominante. No entanto, ela não faz apenas isso, nem mesmo em sociedades altamente modernizadas, com classes dominantes conscientes do papel da educação. Isso ocorre porque as contradições que caracterizam a sociedade como está sendo penetram a intimidade das instituições pedagógicas em que a educação sistemática se está dando e alteram o seu papel ou seu esforço reprodutor da ideologia dominante (p. 24).

Em outras palavras, a mudança ocorre quando há a negação da ideologia dominante, o que se dá pelo confronto entre essa ideologia pregada e a realidade observada/vivida pelos estudantes e educadores. Nesse sentido, o estímulo ao “pensar político” (contrariando projetos como “Escola sem Partido”) e o estudo da sociologia, filosofia, política, dentre outros, é essencial.

Em suma, deve-se dar voz aos principais atores do processo ensino-aprendizagem, que são os estudantes. Algumas ações caminham nesse sentido, como o projeto “Quero na Escola”, que visa aproximar escola pública e a sociedade. Por meio de uma plataforma virtual, o projeto faz a intermediação entre estudantes de escola pública e voluntários, os quais desejam compartilhar suas habilidades e conhecimentos.

Assim, os estudantes fazem pedidos de conteúdos, esportes, artes, palestras, etc., que gostariam de ter na sua escola. Os pedidos, necessariamente devem ser de coisas que não fazem parte do currículo da escola. Dessa forma, facilita-se a “abertura” do espaço escolar para a comunidade, além de dar espaço aos desejos, sonhos e curiosidade advindos dos próprios estudantes.

Quero na escola 2

Quero na Escola

Fonte: http://www.queronaescola.com.br

Como é possível perceber na imagem, os pedidos são os mais variados, o que significa que os estudantes têm carência de muitas coisas e que a sociedade, em toda sua diversidade, tem muito a contribuir.

Digo isso não somente para quem estudou, estuda ou tem filhos matriculados na rede pública. Digo a todas as pessoas, principalmente as que vivem dizendo “a educação é o futuro do Brasil, que só a educação salva e etc”. Se isso realmente é verdade e considerando que a maioria esmagadora dos estudantes são da rede pública, então, é da educação pública que depende o futuro do Brasil.

Acredito que não tenha falado nada que vocês leitoras e leitores não saibam, mas sempre cabe mais uma reflexão, pois ainda há muito que fazer e apenas lamentar e correr para os muros dos colégios privados não é a solução. Fica aqui o meu convite a nos engajarmos mais nessa luta.

Não quero e nem posso retirar a responsabilidade do Estado na condução da educação pública. Apenas ressalto que não podemos cruzar os braços e esperar o milagre acontecer. Precisamos construir uma educação mais democrática, participativa. Retomando Freire: O Brasil foi “inventado” de cima para baixo, autoritariamente. Precisamos reinventá-lo em outros termos (p. 35).

Douglas Xavier

Fontes:

FREIRE, Paulo. A importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. 31ª ed. São Paulo: Cortez, 1995.

www.queronaescola.com.br

https://www.fe.unicamp.br/eventos/escolapublica/

 

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