A propaganda organiza

Momentos de crises econômicas são frutíferos para a proliferação de ideias autoritárias: “Antes vem a comida, depois a moral”. Hannah Arendt, fez, em 1951, na sua obra “As origens do totalitarismo”, uma análise sobre os movimentos totalitários do início do século XX, tanto à esquerda, com o Stalinismo da URSS, como à direita, com o Nazismo de Hitler.

É certo que agora existem organismos multilaterais, um enraizamento do ideal democrático, existência de instituições mais sólidas, globalização e o fortalecimento das redes de comunicação. No entanto, guardadas as proporções, a dinâmica e as características elencadas pela autora são elucidativas. Assim, sua análise de movimentos totalitários, apesar das grandes mudanças do mundo atual comparado àquele, pode ser útil.

Para descrever esses movimentos, ela divide a população em grupos necessários para garantir sua existência e reprodução. Para corporificar o movimento, existe a “massa”, caracterizada por homens de família, trabalhadores e apolitizados. Por outro lado, os líderes dos movimentos saem de uma classe denominada “ralé” e se caracterizam por serem desajustados socialmente, fracassados e representados politicamente. Essa “ralé” é a força motriz da “massa” e é responsável pela proliferação e consolidação do movimento, conduzindo à adequação da “massa” às características do movimento: a organização e a uniformidade.

A organização pressupõe que a “massa” seja abstraída de suas individualidades e desigualdades: deve existir uma sensação de igualdade dentro do grupo – graças à sua uniformidade – mas de superioridade em relação aos que não são membros do movimento. Essa uniformidade está ligada tanto ao discurso como a símbolos que podem ser desde roupas a bandeiras, entre outros.

Nesse sentido, a propaganda tem função fundamental. Não para promover o movimento, pois, para isso, existe o terror. A propaganda serve para promover a organização dessa massa. Isso ocorre porque o movimento conta com os membros, que são uma minoria em contato, de fato, com as decisões e problemas da liderança, e por uma grande massa de simpatizantes, que por meio da propaganda, aderem ao movimento de maneira alienada, por uma causa que desconhecem, em virtude do mundo fictício criado pela propaganda.

A existência desses simpatizantes cria uma noção de normalidade, dissimulando a realidade do mundo exterior e do mundo totalitário para o não-totalitário. No mesmo sentido, a existência dessa barreira de proteção criada pelos simpatizantes torna possível com que os que permanecem fora do regime sejam impactados diretamente por sua verdadeira essência autocrática e violenta. Por isso, pela existência dessa barreira, dificilmente membros e não-membros terão a mesma visão sobre um fato histórico: eles viveram realmente, mundos diferentes. Nesse sentido, sempre gosto de lembrar da frase de Elio Gaspari em sua obra A ditadura escancarada:

“O Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultâneos. Ambos reais, coexistiam negando-se. Passados mais de trinta anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve o outro”

A propaganda cria um mundo fictício com leituras paralelas da realidade, com criação de fatos e inimigos, e fornece aos membros a noção de identidade e unidade: todos contra o que é o mundo criado pela propaganda para organizar as massas. Nesse sentido, todos que não pertencem a esse grupo, unificados por essas lutas, ou seja, os não-membros, são piores, inimigos a serem combatidos.

Esse é um ponto crucial: a criação das barreiras, da segregação ao que é diferente. Sempre existiram e existirão conflitos e diferenças, mas com a criação de muros, que já foram e são reais (Berlim, Palestina) e que hoje podem ser nossas bolhas digitais, as contradições e os problemas não se resolvem: é exatamente na negação do diferente que reside a causa dos conflitos.

É justamente na rotulação e na dicotomia que criamos entre o bem e o mal, que construímos nossos muros e nos alimentamos com leituras paralelas de uma realidade em discursos inconciliáveis. É assim que organizamos e criamos uma massa capaz de proporcionar, cada dia mais, um ambiente totalitário, por mais que tenhamos a crença que com a participação de mais pessoas no debate político estejamos caminhando para mais democracia.

Esse clima, entretanto, é fortalecido pela nossa “ralé”, nossos dirigentes políticos, nossa militância: acirra-se o clima de guerra, com rótulos como “esquerdista”, “fascista” ou qualquer outro termo que sirva ao mesmo tempo para separar e unificar os que pensam diferente em algo a ser combatido. Soma-se ainda, a defesa indiscriminada do seu grupo, porque há um clima de guerra. Nesse sentido, apela-se para erros alheios para justificar os próprios, e todos perdem.

A “guerra psicológica” que Arendt cita, é, da maneira mais escancarada possível, o modus operandi deste governo, que mesmo após as eleições continua a criar um mundo fictício, com propagação de mentiras e ódio ao diferente. Nesse sentido, a racionalidade econômica que deveria existir em nossa elite tecnocrata dá lugar às táticas mais antigas que podem existir, que são a desmoralização e deslegitimação. Não há intenção de agregar diferenças, apaziguar conflitos, mas sua reprodução se dá exatamente na manutenção e reprodução destes.

Isso não quer dizer, entretanto, que caminhamos para um modelo totalitário, até porque este governo não possui condições para tal, dadas as limitações elencadas no início do texto, bem como a fragilidade do líder e a falta de unidade ideológica do governo, com liberais, religiosos, militares, armamentistas e olavetes disputando entre si. Entretanto, evidencia seu caráter autoritário, com discursos incompatíveis com o respeito básico aos pilares democráticos mais sólidos: o respeito aos três poderes, à mídia e à participação popular. Em relação à participação popular, fica claro com o combate em massa aos conselhos participativos, que eram a ferramenta mais direta para concretizar a participação da população em políticas públicas. Em relação ao congresso, ao STF e a mídia, observamos ataques diretos como uma carta que ataca os poderes estabelecidos e convocação de manifestação de seus apoiadores.

Quanto à “guerra psicológica”, vemos na educação um exemplo concreto: cortar dinheiro da educação sempre será antipopular. Mas caso, antes de realizar cortes que seriam necessários em qualquer governo que aí estivesse, dada a situação fiscal do país e a existência de amarras institucionais como o Teto dos Gastos e a Lei de Responsabilidade Fiscal, trabalha-se um discurso de desmoralização: a “ralé” consegue organizar e dominar a massa. O que seria naturalmente impopular ganha adeptos e desvia-se o foco da real discussão para um problema e um inimigo criado e propagado. Isso é reforçado pela postura do presidente em chamar manifestantes de “idiotas úteis” e pelo ministro da educação se recusar a sequer ouvir os representantes da União Nacional dos Estudantes.

Essa, ao que nos parece, será a tática em todas as áreas: a criação da barreira de proteção se dá pelas massas e as massas precisam dos membros as organizando. Assim, cortinas de fumaça são criadas e desvia-se o foco dos tão urgentes e antigos problemas brasileiros.

Ludmila Azevedo
Doutoranda em Economia pela UnB

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**As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo.

ARENDT, Hannah (1989). As Origens do Totalitarismo. Parte III – Totalitarismo.
FILME: A Onda (Die Welle). Direção: Dennis Gansel

Fogo na Filosofia e na Sociologia!

A passos largos ele avançou em meio a um enxame de vaga-lumes. Como na velha brincadeira, o que ele mais desejava era levar à fornalha um marshmallow na ponta de uma vareta, enquanto os livros morriam num estertor de pombos na varanda e no gramado da casa. Enquanto os livros se consumiam em redemoinhos de fagulhas e se dissolviam no vento escurecido pela fuligem[i].

O parágrafo acima foi extraído da obra Fahrenheit 451, do autor estadunidense Ray Bradbury. O livro, publicado em 1953, narra a distopia de uma sociedade futura – mas não muito distante – na qual a informação é totalmente controlada e o acesso a livros é proibido.

A palavra distopia remete-se a uma situação intolerável, geralmente autoritária, sendo o contrário da utopia (que representa sistemas sociais ideais). Pode ser uma situação na qual “as contradições dos discursos ideológicos são levadas para as suas consequências mais extremas”[ii], resultando, geralmente, em sistemas totalitários.

Nesse sentido, a distopia é usada na literatura, bem como nos filmes, para criar sociedades organizadas com base em extremos ideológicos, refletindo, por vezes, sobre ideologias existentes na atualidade e, consequentemente, sobre os potenciais riscos da completa ascensão delas.

Utilizando-se desse método, a narrativa construída por Ray Bradbury se passa em uma cidade futurista dos EUA, na qual as casas são a prova de combustão. Por isso, os bombeiros (um deles é o personagem principal, Mr. Montag) ao invés de apagar fogo, são responsáveis por incendiar os livros que encontram, ou seja, são os soldados na guerra contra o conhecimento. O próprio título Fahrenheit 451 refere-se à temperatura de combustão do papel.

Nessa sociedade, a ideia aceita por todos (ou quase todos) é a de que o ato de refletir, bem como o de questionar a realidade é algo que perturba a ordem estabelecida e atrapalha o funcionamento adequado da vida e rotina daquelas pessoas.

Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário (p. 53).

Na cidade de Fahrenheit 451, a única fonte de lazer são as novelas que passam ininterruptamente nas casas dos moradores, as quais são munidas de murais televisivos, configurando-se, assim, uma crítica por parte do autor à indústria cultural, além de um alerta do que pode vir a acontecer, qual seja, o abandono total da filosofia e da arte.

É importante dizer que essa crítica está sobretudo no caráter massificador dessa indústria, que acaba por transformar todas as pessoas em espectadores passivos e idênticos no modo de pensar e agir, de modo que não existam – ou que sejam exterminados – os críticos ao status quo:

Com a escola formando mais corredores, saltadores, fundistas, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra “intelectual”, é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente “brilhante”, era quem sempre recitava e dava as respostas enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretinos, odiando-o. E não era esse sabichão que vocês pegavam para cristo depois da aula? Claro que era. Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o   (p. 51).

Apesar de escrita há mais de 6 décadas, a distopia de Ray Bradbury não poderia ser mais atual em um cenário de avanço conservador a nível mundial, com perseguição de minorias (ou seja, os que ousam sem diferentes). Essa perseguição ocorre sob o pretexto de se acabar com privilégios, uma vez que o ideal difundido por alguns governantes é o de “somos todos iguais”.

E nessa toada desconsideram-se as diferenças social e historicamente construídas entre os diversos grupos sociais. É dessa forma que o atual governo brasileiro ameaça as pequenas conquistas, tais como as ações afirmativas e as relativas aos direitos da população LGBT, por exemplo.

Parece que estamos na cidade de Fahrenheit 451 quando um ministério da educação simplesmente decide cortar parte do orçamento de universidades federais, bem como bolsas de pesquisa, com base nas “convicções” de seus líderes. É assim que se coloca em prática a guerra ao conhecimento, à reflexão, ao pensamento crítico e toda essa balbúrdia que tanto ameaça a manutenção de privilégios dos grupos que sempre os tiveram. Afinal,

não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso (p. 53).

 A seguir um trecho que parece também ter sido tirado da distopia de Ray Bradbury, mas – infelizmente – foi dito pelo presidente do Brasil:

Queremos uma garotada que comece a não se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas comece a aprender coisas que possam levá-las ao espaço no futuro

(Trecho do discurso de Jair Bolsonaro, na cerimônia de posse do ministro da educação, Abraham Weintraub).

Em outras palavras, o que ele diz é:

Fogo nos livros, na Filosofia, na Sociologia e ao suposto Marxismo Cultural!

Fogo nas conquistas dos movimentos sociais!

Fogo nos LGBT, porque aqui valorizamos as famílias!

Fogo nas humanidades, porque precisamos de mais profissionais práticos! (ou de diplomas de engenheiro/a na gaveta diante da não absorção pelo mercado de trabalho).

Fogo nas universidades e institutos federais produtores de esquerdistas e viva os grandes grupos educacionais privados!

Diante desse cenário, o que nos cabe, para além de postar memes dizendo “eu avisei” é apoiar uma união do campo progressista, trabalhando com as armas que temos disponíveis, que não são tantas num contexto do congresso dominado pelo conservadorismo, falta de preparo, fanatismo, dentre outros aspectos.

Precisamos ter estratégia e entender que o governo atual foi eleito sim e tem poder para causar muita destruição, “botar fogo” em muitas conquistas, caso insistamos na oposição pela oposição. Penso que a estratégia agora deva ser do diálogo no congresso, da busca por uma maioria, em torno das propostas que sabemos que esse governo tem condições de aprovar. Se isso vai acontecer que seja então de modo a prejudicar menos possível os mais vulneráveis.

E o último ponto – não menos importante – é que, apesar da dificuldade, e, por vezes, do nosso cansaço diante da enxurrada de notícias desastrosas que vemos na mídia a respeito da equipe à frente do governo, que possamos entender o alerta trazido na distopia de Ray Bradbury, ou seja, que não percamos o interesse nas discussões políticas, que não desistamos da busca por uma maior compreensão de mundo e da sociedade proporcionada pela filosofia, sociologia e história e que não nos conformemos com os absurdos que, infelizmente, têm virado rotina por aqui.

Douglas Xavier             

Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

 

[i] Fahrenheit451:atemperaturanaqualopapelfogoequeimadolivropegafogoequeima–/RayBradbury;Pinto.–SãoPaulo:traduçãoCidKnipel;prefácioManueldaCostaPinto.–2.ed.–SãoPaulo:Globo,2012.

[ii] https://oquee.com/distopia/