O desmanche do espírito público

Imagine uma sociedade primitiva onde cada indivíduo sabe uma gama enorme de coisas: pescar, caçar e fazer previsões pelo céu, recebendo e transmitindo essas habilidades de geração em geração. Apesar de cada indivíduo ser capaz de fazer coisas muito distintas, seus semelhantes da comunidade fazem coisas parecidas entre si.

Em sociedades modernas cada indivíduo faz uma parte muito reduzida de cada processo. Você pode ser um contador que não sabe nada de Direito, e por isso precisaria contratar um advogado para resolver um litígio. Você pode ser um advogado que não entende nada de Contabilidade, e por isso precisaria contratar um contador para resolver seu imposto de renda. Apesar dessa interdependência, tudo é feito de forma extremamente produtiva. Há um alto grau de especialização. O alimento que chega à nossa mesa passa pelos fazendeiros; por indústrias de processamento; pela vigilância; pela comercialização; a previsão do tempo é feita apenas por poucos indivíduos, mas com um grau de precisão muito maior, que com os meios de comunicação atuais chegam em todos os cantos. Assim, como já dizia Adam Smith, a especialização e a divisão do trabalho são a causa das riquezas das nações.

Sociedades ricas do ponto de vista material são sociedades complexas. Ou seja, sociedades em que diversas coisas são produzidas com alto grau de precisão o tempo todo. A divisão do trabalho e a especialização são marcas do sistema capitalista, que se baseia no ímpeto da concorrência para gerar cada vez mais produtos mais atrativos com baixos preços.

O empresário buscará sempre maiores lucros. Para tanto, ele tem dois instrumentos: ou aumenta seu preço ou diminui seus custos de produção. Pensemos em um mercado altamente concorrencial com muitas empresas produzindo aquele produto, maquininhas de cartão, por exemplo. O empresário pode aumentar muito o preço da maquininha, no entanto, com muitas outras empresas no mercado com preços menores, ele venderá muito pouco ou quase nada. Agora, se ele tentar a outra estratégia, de diminuir seus custos de produção, operação etc., o empresário poderá manter o mesmo preço de mercado, obtendo a mesma receita, mas com um custo menor, isto é, um lucro maior. Num primeiro momento ele conseguirá esse lucro fora do comum, que é o que Schumpeter chama de lucro extraordinário. Mas como estamos em um mercado altamente concorrencial, os outros empresários buscarão imitar seu processo de produção e operação para terem mais participação de mercado, aumentarão sua produtividade e, como consequência, diminuirão os preços. Pense nesse processo ad ifinitum, até tudo se normalizar nesse mercado.

Contudo, esse espírito de especialização e concorrência que proporciona altos ganhos de produtividade levaram a outras consequências que não apenas a prosperidade material nunca antes vista na história da humanidade. Ela leva à incrustação de uma nova maneira de relacionamento e cria, nas palavras de Dardot e Laval (2016), uma nova racionalidade.

Segundo estes autores, com o aprofundamento da lógica da concorrência, o modus operandi de se pensar questões mercantis se estende a todos os campos de nossa vida privada. O cálculo econômico se incrusta em coisas sutis. Um exemplo é a habitação: há pouco tempo não se mensurava custo-benefício de uma casa própria e via racionalidade econômica em viver de aluguel por opção. Ter uma casa era uma coisa boa em si, coisa de primeira necessidade e o raciocínio de custo de oportunidade era utilizado apenas para os bens que tinham a finalidade econômica. Assim “a nova razão do mundo” tem traços competitivos e empresariais e cria um novo sujeito, com nova subjetividade: o denominado sujeito-empresa.

A lógica competitiva, então, entra em todas as esferas da nossa vida, empregando um estilo de vida totalizante, que exige tudo do sujeito-empresa para a eficiência e este é completamente responsabilizado por suas escolhas e resultados. Esse grau de individualismo e necessidade de alta performance alcança então todas as dimensões humanas e cria nichos de mercado para proporcionar novas formas de desempenho, que se incrustam na mente dos indivíduos: os grandes heróis são atletas de alta performance como Bolt e Cristiano Ronaldo, e não banqueiros.

Alastram-se coaches e técnicas que vão de palestras motivacionais à meditação ou programação neurolinguística que visam levar a autossuficiência e autoconfiança, com maior grau de eficiência em todos os seguimentos da vida – a profissional, física, amorosa, espiritual etc. Contudo, essa forma de sociabilidade hiperindividualizada, em vez de tornar o indivíduo resiliente, amplia o estresse, a frustração, os assédios, a depressão, a ansiedade e a solidão. E a resposta a essas crises está sempre na medicalização da vida. Os grandes heróis continuam sendo atletas de alta performance e os padrões continuam sendo os mais altos visualizados pelo filtro do Instagram (mesmo sem o contador de likes).

Essa forma exacerbada de individualismo remonta a contradições próprias do pensamento liberal. Dentre elas estão  a corrente utilitarista de Stuart Mill e a concorrencialista de Spencer.

Para a primeira,  a finalidade das ações públicas deve a felicidade do maior número possível de pessoas, levando, portanto, a possibilidade de questionar propriedade e justificar a atuação estatal, por exemplo.

Ao passo que para a corrente concorrencialista, inspirada em Darwin (e, por isso, conhecida como darwinismo social) fazer justiça social consiste exatamente em recompensar os méritos dos habilidosos e punir os mais fracos. Assim, o combate à desigualdade é considerado anti-natural e uma grande inversão de valores que favorece os piores em detrimento do esforço dos melhores e destrói a liberdade.

Segundo Nietzsche essa inversão de valores com a substituição das “virtudes afirmativas da vida” pelas virtudes “negadoras da vida” são produtos de religiões monoteístas. Na antiguidade, as qualidades do leão (ou da aristocracia) – força, vitalidade e poder – eram as virtudes celebradas. Na modernidade, as características do cordeiro (ou do escravo) – humildade e indefesa – tornaram-se mais vistas como virtude.

Assim como no reino animal, em Esparta o natural era que apenas os fortes sobrevivessem, e que qualquer indivíduo mais fraco fosse condenado a viver de acordo com a própria sorte. Com o desenvolvimento das sociedades e fortalecimento de religiões monoteístas, cria-se uma cultura de valorização das virtudes “negadoras da vida”, com a manutenção e proteção dentro da sociedade de indivíduos fragilizados. Cria-se uma série de mecanismos morais dentro de um corpo mais complexo que parte de grandes marcos civilizatórios com outro espírito de virtude. Com a sensação de pertencimento, criamos a ideia de uma civilização baseada em princípios como o da solidariedade, da coletividade e da cooperação e, portanto, do espírito púbico.

Contudo, como vimos, principalmente ao longo do último século, ao passo em que a sociedade se desenvolvia do ponto de vista econômico, a lógica da concorrência, a criação da nova racionalidade e a constituição do sujeito-empresa levam a um individualismo extremado que busca resgatar as “virtudes afirmativas da vida”.

É a difusão da ideia de que só se constrói o bom com valorização das virtudes realmente boas, que parte da ideia de conservar o status quo, que adota como inimigo pautas “politicamente corretas” de defesa de minorias. Contraditoriamente é com um discurso conservador judaico-cristão, que em parte levou a inversão e valorizou moralmente “fracos e oprimidos”, que isso ocorre.

Essa contradição é evidenciada pela análise do historiador Paulo Pachá da UFF. Pachá analisa a extrema-direita mundial e seu fascínio pela Idade Média, que é baseado em uma visão historicamente equivocada e moralmente problemática do período. De acordo com o historiador, a caracterização das Cruzadas como um acontecimento no qual homens viris e brancos impuseram belicamente o cristianismo na Europa é completamente errônea, e infelizmente é justamente essa branquitude europeia sexista, cristã e armamentícia que seduz as mentes reacionárias. É exatamente o resgate desses princípios que são ameaçados mundialmente por uma onda progressista que leva o resgate do discurso das virtudes aristocráticas (do leão). – saúde, força e riqueza – em detrimento das virtudes do escravo (do cordeiro) – doença, fraqueza e pobreza – nos termos de Nietzsche. É assim que o cristianismo reacionário e conservador coloca o punitivismo e a moralidade imposta no lugar do perdão e da caridade.

Assim, o individualismo intenso compromete o espírito público e a manutenção de valores que pareciam irretroagíveis em sociedades com marcos civilizatórios como o da solidariedade, fraternidade e da cooperação. E os retrocessos não param apenas no desmanche do corpo estatal de proteção social, a própria sociedade civil organizada passa a estar sob ataque no mundo todo. E a medida que a crise se estende, mais parece se aprofundar a racionalidade geradora: mais o sujeito-empresa é preso na ideia de concorrência em todos os campos da vida, em detrimento do sentido de liberdade dos liberais utilitários: a felicidade para o maior número possível de pessoas.

Ludmila Azevedo

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O que são Cadeias Globais de Valor? O exemplo do acordo Mercosul/União Europeia

Contrariando as expectativas de que um novo governo “pró-mercado” seria capaz de retirar a incerteza do ambiente econômico, em seis meses de governo Bolsonaro pesquisas apontam que a taxa de crescimento esperada da economia brasileira em 2019 caiu de cerca de 3% para 0,7%, segundo o Boletim Focus, e continua em queda livre. Alguns falam em recessão técnica nos primeiros dois semestres do ano.

Talvez a recessão não aconteça, mas uma coisa é fato, a economia brasileira está estagnada. Essa estagnação ocorre após dois anos de crise (2015 e 2016), que representaram cerca de 8% de queda no PIB per capita. O valor real do PIB em 2018 ainda foi inferior ao apresentado em 2010. Mas para além dessa análise conjuntural, não seria exagero dizer que a economia brasileira está estagnada a quase quatro décadas.

Nos anos 1980 a economia brasileira enfrentou constrangimentos e endividamento com o setor externo e processos de hiperinflação. Nos anos 1990 o Plano Real foi implantado, prometendo estabilidade e crescimento. O primeiro objetivo foi alcançado e mantido, mas o segundo não. Durante os anos 2000, pela primeira vez em décadas, a elevada liquidez internacional e o crescimento das economias centrais e, principalmente, China, impulsionaram nossa economia, em que passamos a exportar cada vez mais commodities em detrimento de produtos industrializados.

Entretanto, toda festa tem seu fim e depois de anos surfando na onda do crescimento global a ressaca veio, primeiro para os países ricos, depois para alguns emergentes, entre eles o Brasil. Ainda que a crise brasileira se explique por uma conjunção de fatores, tais como adoção de políticas econômicas mal sucedidas pelo governo Dilma (como desonerações fiscais seguidas de choque fiscal recessivo), e os choques do cambio, juros e preços administrados, a redução dos preços internacionais de commodities e a restrição externa tiveram papel importante. Mas além dessa crise conjuntural, a economia brasileira tem registrado crescimento reduzido desde os anos 1980.

Em parte, isso se deve a nossa pequena inserção nos fluxos de comércio internacional.  Durante nosso processo de industrialização, priorizamos a exploração de um mercado interno. Como resultado conseguimos internalizar muitos setores industriais, entretanto, estes não alcançaram a mesma competitividade a nível internacional, já que não priorizamos as exportações.

EUA, Japão, Coreia do Sul, México e mais recentemente Sul/Sudeste asiático e, principalmente, China, por outro lado, priorizaram a inserção nas chamadas cadeias globais de produção, ou cadeias globais de valor. Esse conceito está relacionado a capacidade de “fragmentação” do processo produtivo em vários países, viabilizado pelas inovações nos transportes e nas comunicações nas últimas décadas (como cargueiros mais eficientes e a internet).

Um ótimo exemplo é o que acontece com a Apple, empresa norte-americana de software e hardware, e no seu principal produto, o Iphone. Na produção desse smartphone temos várias etapas: o software (IOS), processadores e design do produto desenvolvido nos EUA, telas sensíveis ao toque produzidas na Coreia do Sul. Ambos são exportados para a China onde ocorrerá a montagem e, posteriormente, reexportados para vários outros países, como o Brasil, onde se encontra o produto em qualquer loja de varejo. Esse conceito de cadeia global de valor se enquadra em vários setores, passando por serviços, indústria e agropecuária.

Outro exemplo seria o caso mexicano: empresas montadoras de automóveis se instalaram no país, principalmente após a vigência do Nafta – um acordo comercial entre EUA, México e Canadá. Assim, peças de veículos e design do produto são produzidos na Europa ou EUA,exportadas para o México, onde as empresas montadoras realizam a montagem do automóvel e posteriormente reexportam para os EUA, onde encontra-se a maior parte do mercado consumidor.

Retornando ao atual governo, o anúncio de um acordo com a União Europeia foi bastante festejado pela mídia e governo. A maioria das análises parte da ótica de que tal acordo seria “melhor para os consumidores”, ao garantir mais concorrência e produtos com melhor qualidade e mais baratos, e de como o Mercosul poderá exportar mais produtos agrícolas e importar mais produtos industrializados, ou mesmo, como a indústria brasileira irá passar por uma modernização frente a possibilidade de importar componentes e tecnologia e se inserir em cadeias globais de valor.

Ainda que não se saiba com detalhes como será efetivado o acordo, já se sabe que haverá cotas máximas para exportação de carnes, etanol e açúcar pelo Brasil. E por outro lado, queda contínua até zero de importação de automóveis europeus, e de exportação de produtos industrializados brasileiros. Nesse sentido, o acordo foi elogiado desde a Confederação Nacional da Indústria até setores ligados ao agronegócio.

Segundo aqueles que elogiaram o acordo, a inserção do Brasil nas cadeias globais será garantida à medida que a indústria nacional terá de se adaptar, importar tecnologias e máquinas mais modernas, bem como peças e componentes, para montagem aqui.

Aqui se encontra um ponto central sobre as cadeias globais de valor: estar inserido nessas cadeias nem sempre quer dizer que o país terá maior dinamismo econômico, e com isso geração de mais emprego, renda e tecnologias nacionais. Isso depende de onde os países se inserem nas cadeias globais de valor. Não é difícil notar que as partes mais “nobres” da produção, ou seja, aquelas que agregam mais valor ao produto final são aquelas ligadas a Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), criação e design de produto e criação de novas tecnologia. São nessas etapas que se empregam engenheiros e mão de obra especializada, ou seja, onde há maior uso de trabalhadores qualificados, que exige mais especialização e anos de estudo.

Nesse caso, quando pensamos nos smartphones ou nos automóveis, é na parte de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) de novas tecnologias e design, como a de carros elétricos ou celulares dobráveis, que se encontra a maior geração de valor. Essas etapas da produção continuam nos países mais ricos, onde está a sede da empresa, e dificilmente são transferidas a outros países.

A China está conseguindo desenvolver tecnologias nacionais nessas etapas de produção, em grande parte por exigência do governo chinês de transferência de tecnologias pelas empresas multinacionais que querem produzir naquele país, e em outra parte devido a investimentos pesados em infraestrutura, educação e pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico fazendo com que a logística do país seja de qualidade e barata e os trabalhadores qualificados e empresas capazes de absorver novas tecnologias.

A pergunta então é: o Brasil irá se inserir nas cadeias globais, mas como e onde?Estaremos aptos em um período tão curto de tempo (cerca de 10 anos), até a integralização do acordo com a União Europeia, de termos desenvolvido tecnologias nacionais para nos inserirmos em etapas que agregam mais valor aos produtos finais? Nossa indústria irá se capacitar em tão pouco tempo?

Aparentemente a resposta é não. Com o teto de gastos, investimentos públicos estão inviabilizados até 2026, o que compromete a melhoria contínua em infraestrutura. Por outro lado, ainda que nossa educação melhore, ainda temos um gargalo importante no ensino médio e educação superior. Nosso setor financeiro privado nacional é incapaz de prover financiamento barato e de longo para empresas, e o BNDES tem encolhido sua participação em estratégia deliberada do atual governo. As maiores construtoras brasileiras que poderiam participar de contratos públicos na União Europeia estão quebradas, na esteira dos acontecimentos da Lava Jato, e normas de transferência de tecnologia e políticas industriais ativas não aparecem, nem de longe, como prioridade de políticas públicas.

Desse modo não há dúvida, o acordo com a União Europeia poderá fazer do Brasil o novo México, inserido nas Cadeias Globais de Valor, mas limitado a montagem de produtos industriais de menor grau tecnológico e produção de commodities agrícolas, importando peças e componentes, adubos e defensivos agrícolas, além claro dos produtos de alta tecnologia para consumo doméstico, como aparelhos médicos-hospitalares, máquinas, equipamentos eletrônicos, e demais produtos de consumo de luxo como vinhos e queijos. Sem estratégia, poderemos nos aprofundar em um processo de completa dependência tecnológica dos países avançados da Europa, particularmente, da Alemanha, o que, com certeza, é o sentido oposto do caminho para o pleno desenvolvimento socioeconômico do nosso país.

Marcelo Duarte

Doutorando em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

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