O poder da ignorância

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Mais uma vez o candidato à presidência Jair Bolsonaro foi entrevistado em rede nacional, desta vez no programa Roda Vida, da TV Cultura, exibido na segunda-feira (30/07/2018). Novamente vimos o candidato repetindo as besteiras e bordões que o caracterizam e que a ele tanto atribui popularidade e fãs cegamente apaixonados.

É constrangedor ver a falta de preparo do candidato que está na vida pública há quase 30 anos, e pelo sétimo mandato seguido como deputado, mas como um postulante ao cargo mais importante da política de um país, não consegue se aprofundar em diversos assuntos básicos, e ainda se orgulha de sua ignorância. Entretanto, os apoiadores de Bolsonaro, e até mesmo indecisos, podem ter achado que o candidato tenha se dado bem na sabatina na TV Cultura.

O Roda Viva, a algum tempo vem se notabilizando por promover entrevistas de questionável qualidade, principalmente com os candidatos à presidência este ano, tratando alguns de maneira muito raivosa e desrespeitosa, e outros de forma gentil e acolhedora. Com o candidato Bolsonaro, o tiro saiu pela culatra em diversas oportunidades, principalmente ao insistir nas mesmas perguntas que o candidato vem respondendo há alguns anos, e que já consegue tirar de letra, as vezes suavizando o que disse outrora ou acrescentando mais polêmicas que fazem seus apoiadores gozarem com tamanha “lacração”.

É notório o crescimento do candidato que vem fazendo campanha presidencial não oficial há alguns anos, utilizando principalmente das redes sociais para propagar suas ideias. Hoje ele tem um mar de seguidores que estão convictos que ele é a única solução para o país que chegou ao fundo do poço, atolado em tanta corrupção.

Bolsonaro é um ignorante teimoso, que não tem a capacidade de se colocar no lugar do próximo, não tem a humildade de ouvir quem o critica e não vai mudar seu pensamento primário, independente de quantos ataques ele sofra, pois é isso que dá a legitimidade que seus seguidores tanto idolatram.

Na maior parte das entrevistas, principalmente nas de tema livre, as mesmas perguntas são feitas, sempre rememorando as inúmeras polêmicas em que ele já se meteu, os constrangimentos e revoltas que causou, mas ele sabe que é nesse campo podre que ele vem crescendo ao longo de sua carreira política. E para seus apoiadores, ele pode falar o que quiser, já que ele é o bastião da honestidade, o único candidato à presidência ilibado, patriota e defensor da família brasileira.

Bolsonaro desperta muitas paixões e ódios, mas o mais preocupante é o ódio que ele propaga por minorias que são discriminadas há tempos. Felizmente, ainda hoje, ele desperta mais ódio contra suas próprias atitudes, principalmente não reconhecendo, até mesmo tripudiando da guerra diária que movimentos sociais enfrentam por mais direitos.

É absurda a falta de empatia que esse candidato tem por quem é diferente dele, e isso é reflexo de boa parte da sociedade brasileira e mundial. Um exemplo disso é a luta dos movimentos pelas causas LGBTQ+, hostilizada das maneiras mais violentas possíveis, e um exemplo disso é quando candidatos a cargos públicos e seus apoiadores ainda tratam homossexualidade como uma opção, não como uma orientação, reforçando a ideia de que homem nasce homem e mulher nasce mulher, configurando uma clara ideologia de gênero, excluindo e discriminando todas as outras possibilidades de orientação sexual e gênero.

Não vou aqui rememorar as diversas declarações e atitudes desse candidato, pois isso não tem efeito algum sobre alguém que vota nele, visto que mesmo se ele chegar a lavar dinheiro algum dia na vida, ainda vão defendê-lo, reforçando o que ele poderá dizer, insistindo que ele terá agido na legalidade, esquecendo o véu moral que a atitude dele pudesse vir a ter. Até mesmo defendendo os – apesar de legais – amorais privilégios dos quais ele goza, como auxílio moradia. Coisas que são extremamente repudiadas em outros candidatos, mas que para seus seguidores, não desvia um milímetro de sua conduta irrefutavelmente ética.

Se não queremos um sujeito como este na presidência do Brasil, a melhor forma de tratá-lo hoje é como um real candidato, e que devemos conhecer as suas propostas para além dos absurdos que ele diz todos os dias, pois nas polêmicas ele já está muito bem treinado. Devemos indagá-lo sobre o que queremos, de fato, melhorar em nosso país, como: educação, saúde, segurança, emprego, lazer, cultura e etc.

O nosso papel agora é de eleitores e eleitoras que buscam candidatos por suas propostas, já sabendo o que não queremos, e Bolsonaro, no meu caso, é o primeiro que eu não quero. Mas se eu quero influenciar outros indecisos que mesmo diante dos absurdos que ele diz, ainda consideram votar nele, devo mostrar o quão despreparado ele é para o cargo de presidente, até mesmo, para o cargo de deputado que ele ocupa a quase três décadas.

Acredito que Bolsonaro e Ciro Gomes são os candidatos que estão a mais tempo em campanha presidencial, pelo menos se declarando pré-candidatos e agora confirmados. Mas uma diferença simples entre eles, é que ao menos o Ciro tem propostas efetivas para diversas áreas, mostrando que pelo menos se preocupou para além das polêmicas que ele também entra. Nesse caso, concordar ou não com suas propostas, vai de acordo com o que cada um acredita. Já Bolsonaro, quando indagado sobre temas básicos recorre à sua humilde ignorância (as vezes nem tão humilde assim), dizendo que quem deve saber de saúde por exemplo, será seu ministro, e acaba por ilustrar a discussão com algum caso particular que, nada tem de relevante para um tema tão abrangente e importante.

Com isso, quero ilustrar como acredito que continuará sendo de baixo nível as entrevistas e debates com o candidato Jair Bolsonaro, e é nesse mar que ele quer continuar nadando, pois foi assim que ele se forjou até hoje, e seus seguidores continuarão o apoiando a cada declaração preconceituosa que ele der, pois é disso que eles se alimentam. Se buscarmos um debate de alta qualidade, que seja propositivo dentro do que queremos de melhor para o país, acredito que conseguiremos eliminar pelo menos algumas figuras indesejáveis da nossa política.

Não acho que em 2018 será um ponto de virada e renovação em nossa política, ainda mais porque os rumos do país não se dão apenas pelo poder executivo, o legislativo é de fundamental nesse cenário. Mas, contrariando o ex-deputado e talentoso palhaço Tiririca: pior que está, pode ficar muito mais.

Sílvio Alberto.

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**As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo.

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Soluções erradas para velhos problemas

O estado do Rio de Janeiro dobrou os gastos com segurança nos últimos 10 anos, mas só viu a violência piorar nesse tempo, como isso é possível? Repare que eu disse gastos, não investimentos. Digo isso, pois os investimentos em inteligência foram tão negligenciados nesse período, chegando ao ponto de serem zerados em 2016, e em 2017 foram gastos R$ 2.469,50 na área. Como medida de comparação, particularmente, isto foi menos que meus gastos com cerveja no mesmo período. Não que eu seja muito correto e racional com meus gastos, mas sei que o Rio de Janeiro está completamente errado.

Segundo matéria de Paula Bianchi no site UOL do dia 05/03/2018, O orçamento da segurança do Rio, segundo dados do Portal da Transparência do governo do Estado, vai quase inteiro para o pagamento de servidores e salários. No ano passado, 89% foi destinado à rubrica “pessoal e encargos sociais” (vencimentos de servidores ativos, inativos e pensionistas), enquanto 9% foram para o custeio e menos de 1% para investimentos”. Como ainda é possível que alguém ache que reforçando essa política de enfrentamento o problema da violência no Rio será resolvido?

Hoje temos várias ferramentas que podem nos auxiliar a entender melhor a atual situação que se encontra o Rio de Janeiro, onde nos primeiros 30 dias de Intervenção Federal, houve um aumento na ordem de 19% no número de assassinatos. Os aplicativos “Onde tem tiroteio” e “Fogo Cruzado” evidenciam isso, eles alertam em tempo real os locais onde estão ocorrendo confrontos, assaltos e arrastões, mostrando como a política de maior enfrentamento entre forças de segurança e criminosos tem resultado em números crescentes de conflitos e mortes.

Fogo Cruzado

É extremamente perigoso tratar um problema tão complexo com a simplicidade do confronto como via principal, ainda mais achar que o exército teria maior capacidade que a polícia militar de resolver uma situação para a qual aquele não foi treinado. A intervenção que ocorre no Rio só aprofunda a política que vem sendo aplicada há muitos anos, e que resultou no crescimento das milícias, que funcionam como um Estado dentro do Estado.

O crescimento das milícias evidencia um problema que é o mais grave de todos: a omissão do Estado com as populações mais pobres. E onde o Estado não atua, alguém vai dominar, como é a história da formação das maiores facções criminosas do Brasil, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital. Essas organizações criminosas cresceram dentro dos presídios como forma de garantir a mínima proteção de direitos aos detentos, e é isso o que acontece nas favelas, é a negação do Estado Democrático de Direito, onde o Estado normalmente aparece nos momentos de repressão, causando choques entre a polícia e a população local, aproximando esta da faceta do Estado que lhes é oferecido, que nesse caso, não é o Estado oficial.

Um dos lados mais importantes na luta contra o crime organizado é o que luta contra as milícias, e nesse caso, posso citar dois nomes que estiveram em evidência nas manchetes policiais nos últimos dias, que são o deputado Marcelo Freixo (presidiu a CPI das Milícias na Alerj – Asembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e da vereadora Marielle Franco (era relatora da Comissão de Representação de Acompanhamento da Intervenção Federal na Segurança Pública do Rio), assassinada no dia 14 de março de 2018, e que a principal linha de investigação aponta para a participação de milícias nessa execução. Mas para muitos, infelizmente, o combate desses dois brasileiros é na verdade defender bandidos.

É nesse contexto tão complexo, com essa política de enfrentamento ostensivo à criminalidade, que devemos nos atentar para o que pode realmente estar na retaguarda, e que vem dando as caras sem o menor remorso, que é o militarismo. E esta estratégia também tem claramente o objetivo eleitoreiro, pois é forma mais direta de se mostrar que o governo brasileiro não vai deixar que a violência continue como está no seu principal cartão postal, e tem apoio de grande parte da população.

Há de se observar com muita calma o avanço do militarismo no Brasil, e o que está por trás disso, pois não é aceitável que tenham ocorrido ameaças do Comandante do Exército Brasileiro, o General Villas Boas ao STF (Supremo Tribunal Federal), caso a votação do pedido de habeas corpus do ex-presidente Lula não tivesse o resultado que o general achasse mais plausível. Além disso, é mais assustador ainda ver como houve um grande número de apoiadores aos twittes do comandante, muitos por quererem Lula preso a qualquer custo. Mas não é a qualquer custo que as coisas devem acontecer.

Nesse contexto cresce a figura política do Deputado Federal pelo Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro, apoiado por seguidores que o idolatram como um mito e única alternativa para acabar com os problemas do Brasil. Muitos dos apoiadores desse deputado tiveram a capacidade de relativizar e tentar tornar a morte da vereadora Marielle Franco menos importante, comparando com inúmeros casos de assassinatos das mais variadas motivações, e que ninguém se importava com essas vítimas, sem falar da covardia da utilização de fake news tentando ligar a vereadora ao crime organizado.

Pois bem, o Deputado Bolsonaro é pré-candidato à presidência do Brasil, não consegue responder uma pergunta sobre economia; resume a solução para a educação através da militarização das escolas; pretende colocar vários ministros militares; diz que a especialidade dele é matar, pois é Capitão de Artilharia, mas nunca matou ninguém; defende o armamento da população para que esta possa se defender dos bandidos, mas ele mesmo tendo treinamento militar, teve sua motocicleta e arma roubadas em um assalto sofrido em 1995, lembrando que ele é um homem treinado para matar, tipo um Rambo brasileiro. Essas são algumas das ideias de governabilidade de um cidadão que está na vida pública desde 1989, sem falar das declarações preconceituosas que ele não cansa de vomitar.

Tenho certeza que não posso confiar em alguém assim para ser o candidato da Segurança Pública, pois ele é deputado pelo estado do Rio de Janeiro há quase três décadas, se elegendo sempre com um discurso de duro enfrentamento à bandidagem, mas o Estado que ele representa hoje necessita de Intervenção Federal pra controlar a violência. Isso é tipo o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) apoiar tanto o Lula, mesmo que este não tenha realizado a tão necessária reforma agrária.

Mesmo sendo um deputado inócuo a tanto tempo, e que ele tenha ficado conhecido pelo grande público após suas declarações polêmicas e bizarras, ele incrivelmente ganhou apoio de alguns setores da sociedade, e ele como ex-militar, idolatra a ditadura e seus torturadores. Até o momento, o que pude constatar é a especialidade dele de eleger seus filhos para cargos públicos.

O Brasil está novamente flertando muito com um período triste de sua história, espero que não estejamos indo no caminho que imagino, pois gosto muito de poder expressar minhas opiniões como faço agora. Mas a capacidade que muitos têm de simplificar situações complexas, vide o problema de segurança no Rio de Janeiro, está intimamente atrelado ao fascínio que Bolsonaro desperta em vários eleitores. Fiquemos de olho.

Sílvio Alberto.

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo.

Intervenção militar traz segurança pública?

“Você se assusta com o barulho da bala?
Eu aprendi desde moleque a adivinhar qual é a arma
Isso não é novidade nessa parte da cidade
A violência é comum e a paz é raridade.”

O trecho acima é tirado da música Estilo do Gueto, de Black Alien, e diz muito sobre uma realidade que milhões de brasileiros vivem cotidianamente. Apesar disso, grande parte da população e dos políticos brasileiros dão as costas para essa questão que deveria ter sido remediada há muitos anos, entretanto as soluções apresentadas são sempre no sentido do choque de forças, com consequências mais violentas ainda.

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Na sexta-feira (16/02/2018), o presidente Michel Temer assinou o decreto de intervenção federal na segurança pública no estado do Rio de Janeiro, prevendo que as Forças Armadas assumam a responsabilidade pelo comando das polícias Civil e Militar no estado até o dia 31 de dezembro de 2018.

Na prática, os governantes do Rio de Janeiro terminaram por declarar sua incompetência administrativa, que ficou escancarada após tantos anos de desgovernos. A violência que presenciamos nos jornais nos últimos meses é o que se repete diariamente nas regiões periféricas, tanto da capital, como nas outras cidades do estado.

Quando os governantes conseguiam manter a criminalidade fora dos cenários turísticos, a violência não era um problema tão alarmante, pois quem era atingido por ela nunca teve voz pra reclamar, só deviam continuar acreditando nas promessas de campanha que a cada dois anos ouviam, como se importantes fossem.

Fechar os olhos para um problema tão grave por tanto tempo é que é o problema. O que está acontecendo agora não é nenhuma surpresa. É como cortar os investimentos para a prevenção da Dengue, e depois ser “pego de surpresa” com um surto da doença.

O mais absurdo disso tudo é que essa maneira de empurrar o problema com a barriga, além de completamente ineficiente, gera custos muito maiores para os cofres públicos. A convocação do exército não resolve o problema, eles não são treinados para o tipo de trabalho que deve ser feito na zona urbana. Apesar de parecer que nem as polícias sabem como executar esta tarefa, elas ainda são as mais indicadas para ajudar no combate à violência urbana. Apesar de diversas vezes a polícia agir de maneira precipitada e desastrada, ela é apenas a ponta de lança de um conjunto de medidas que tratam a violência com mais violência, deixando de lado as causas, e nesse caso, os fins não justificam os meios.

Depois que as Forças Armadas forem embora, o problema terá sido resolvido? Pelo o que o estado do Rio de Janeiro viu de anos pra cá, tenho certeza que não. Será a mesma coisa de sempre, alguns bandidos “pé-de-chinelo” serão presos e mortos, alguns policiais morrerão, outros tantos civis perderão sua liberdade e serão mortos, mas o problema continuará, até o momento que voltar a incomodar a “sociedade de bem”, que só se importa com a violência quando ela bate à sua porta.

O crime organizado funciona com uma grande empresa. Uma grande empresa pode trabalhar de maneira criminosa por muitos anos, até mesmo em parceria com o Estado, mas é possível que chegue um momento no qual ela será investigada por seus crimes e alguns dos seus diretores sejam presos. Caso isso ocorra, outros diretores serão nomeados para os cargos vagos, e nada garante que os diretores presos não terão influência nas decisões tomadas pela empresa. No crime organizado, se algum chefe for morto, haverá uma fila de substitutos, se for preso, sua influência ainda continuará sendo notada, podendo, inclusive, continuar chefiando dentro dos presídios. A diferença é que os diretores da empresa terão penas mais brandas que as de ladrões de galinhas.

Assistindo a algumas matérias em jornais televisivos, ouvi a expressão “devolver a sensação de segurança à população do Rio”. A ideia da intervenção é nada mais que isso. Resolver de forma paliativa um problema que demanda uma ação planejada e medidas estruturantes. Não acredito que os governos municipal, estadual e federal tenham algum plano que de fato venha a buscar soluções a médio e longo prazo. Devolver a sensação de segurança é um objetivo muito pequeno e nada efetivo para combater um problema que vem ganhando forma há muitas décadas, vide o processo de formação das favelas no Rio, quando a população pobre foi removida do centro e sobrou apenas os morros como opção.

Em reunião com Michel Temer, o general Eduardo Vilas Bôas, comandante do exército, afirmou, segundo dois presentes, que “Os militares precisam ter garantia para não enfrentar daqui a 30 anos uma nova Comissão da Verdade pelo que vamos enfrentar no Rio durante a intervenção.” Essa é uma perigosa afirmação, pois é um pedido de carta branca para o exército agir da maneira que julgar mais adequada, e nesse caso, pode não ser a mais adequada. Não é possível continuar pensando que a vida de quem mora na favela vale menos que a de quem mora no asfalto. Por mais que seja propagado, o Rio de Janeiro não vive um estado de guerra. A população não saiu de suas casas, não há uma zona de guerra delimitada, sequer é a cidade mais violenta do país. Não há como implantar uma política de combate sem investigação sobre as mortes que ocorrerão. Os embates entre forças de segurança e criminosos não vão me afetar daqui, mas nem por isso eu deixarei de ter empatia pelos inocentes que serão afetados por eles.

Tentar resolver o problema da violência, por meio do embate entre criminosos e forças de segurança é uma ilusão desonesta com a população de uma maneira geral, mas muito mais danosa à população de baixa renda, que vê esse problema crescendo nas ruas dos seus bairros, tendo a negligência no Estado como o principal pilar de sustentação para o crescimento do crime organizado, pois, onde o Estado não age, outros agirão.

É mais que necessário o investimento em trabalhos de inteligência e investigação que possam trazer uma melhor compreensão da situação como um todo e combater a raiz do problema, não somente o choque de forças, como é proposto nessa intervenção. Além disso, há todo um conjunto de situações que ajudam a promover a violência, como o baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), levando em consideração a falta de infraestrutura, falta de opções de lazer e cultura, baixos níveis educacionais e de saúde, dentre outras questões que merecem cuidadosa abordagem em um texto complementar a este.

Parece-me que fazer a intervenção desta maneira tem fins muito mais eleitoreiros que de combate ao problema. Colocar o exército na rua traz uma falsa sensação de segurança, pois a população normalmente vai enxergar o que está explícito aos seus olhos, e mostra que o governo está “resolvendo” a questão que por décadas ele deixou de lado. O que nos resta é buscar entender o porquê do governo não combater o problema de fato e o que cada parte está ganhando com esse teatro perigoso e que deve deixar muitas vítimas pelo caminho.

Sílvio Alberto.

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo.

**Links que estão no texto:

https://g1.globo.com/politica/noticia/temer-assina-decreto-de-intervencao-federal-na-seguranca-do-rio-de-janeiro.ghtml

https://oglobo.globo.com/rio/comandante-do-exercito-fala-em-evitar-nova-comissao-da-verdade-22413404

https://exame.abril.com.br/brasil/as-30-cidades-mais-violentas-do-brasil-segundo-o-ipea/

 

Ocupação dos espaços públicos

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A foto acima diz respeito a uma abordagem policial que ocorreu durante a madrugada do dia 4 de junho de 2017, na “Praça da Bicota”, local que fica no coração da cidade de Uberlândia, tendo uma vida noturna agitada por conta de bares e restaurantes no local e proximidades. De acordo com a PM, nada de ilícito foi encontrado.

Até aí, nada demais, uma abordagem, que apesar de grande, não incorreu em maiores problemas. Os jovens não estavam cometendo nenhum crime, e após interpelação, todos voltaram para suas casas tranquilamente e a polícia continuou fazendo o seu trabalho. Mas será que essa abordagem ocorreu sem maiores transtornos tanto para quem assistia, como para quem foi abordado?

Para muitos que assistiam, a polícia só estava fazendo o papel dela, garantindo a ordem e a segurança no centro da cidade, pois se tratavam de jovens que não se enquadram no perfil dos cidadãos e cidadãs de bem que circulam normalmente pelo local. Assim, é sempre importante saber o que aquelas pessoas estranhas aos olhos de muitos, estavam fazendo justamente naquele local. Eu passei pela praça uma madrugada antes da abordagem policial, e realmente percebi que havia uma concentração maior de pessoas que não via habitualmente pelo centro nas madrugadas dos fins de semana, e era claramente visível a separação que havia entre as pessoas que estavam nos bares da praça, e quem estava sentado nos bancos da praça, como uma espécie de cordão de isolamento. As pessoas abordadas, provavelmente vêm das periferias da cidade, pois apesar de Uberlândia ser uma cidade de mais de 600 mil habitantes, ainda tem raízes bastante conservadoras, e a vida noturna no centro dela é povoada pelas mesmas pessoas basicamente – universitários e moradores com maior poder aquisitivo.

Mas qual é o problema com tudo isso?

O que incomoda não é a polícia fazer o trabalho dela, é a maneira como ela o faz, de forma bastante tendenciosa, tratando o pobre como um potencial bandido, realizando a abordagem, por vezes, extremamente agressiva, que, em poucos minutos fere a dignidade de alguém que não tinha nada a dever à sociedade. A forma como grande parte da população menos privilegiada é tratada, causa insatisfação nela, e é compreensível, já que ela não se sente representada pelos governantes eleitos, além de ser vista como inferiorizada e relegada a ocupar os espaços periféricos da cidade para evitar que incomodem os tão importantes “cidadãos de bem”, sem, contudo, reduzir a violência, tanto no centro, como na periferia.

O que me parece, a partir da abordagem policial tratada no inicia do texto, é que os jovens da periferia devem continuar longe do centro da cidade, curtindo a vida social que lhes é devida, mas longe do incômodo e estranheza que podem causar num lugar que não foi feito para eles.

Recentemente o novo comandante da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) em São Paulo, declarou que a abordagem policial deve ser diferente conforme o bairro em que o agente está. Isto é, a abordagem varia conforme a classe social do respectivo bairro. Segundo o comandante, em entrevista para o portal UOL: “É outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma de ele abordar tem de ser diferente. Se ele for abordar uma pessoa da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins (bairro nobre de São Paulo), ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado”. O policial ainda complementa, tratando sobre a linguagem utilizada em uma abordagem: “Da mesma forma, se eu coloco um da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando. O policial tem de se adaptar àquele meio que ele está naquele momento”.

O que vejo que está em jogo, acima de tudo, é a ocupação dos espaços urbanos. É preciso reduzir a distância entre o centro e a periferia, ou pelo menos, acabar com os obstáculos para que isso ocorra, diminuindo a marginalização da periferia. Para isso, não é preciso tratar as classes mais privilegiadas de maneira pior, é necessário tratar melhor as classes menos privilegiadas, pois ninguém gosta de ser mal tratado. Mas até que ponto, quem acha que a abordagem da polícia foi a mais correta, no primeiro exemplo apresentado no texto, quer que haja mudança em como são tratadas as diferentes “castas” da sociedade?

Sílvio Alberto

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo

**Reportagens consultadas

https://g1.globo.com/minas-gerais/triangulo-mineiro/noticia/dezenas-de-pessoas-sao-abordadas-durante-blitz-da-pm-em-praca-de-uberlandia.ghtml

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,abordagem-nos-jardins-tem-de-ser-diferente-da-periferia-diz-novo-comandante-da-rota,70001948516

A Revolta Domesticada

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Desde as Jornadas de Junho de 2013, a população brasileira percebeu como é importante ir às ruas para brigar por seus direitos e mostrar para os governantes do país que eles devem estar atentos ao o que o povo quer, e não podem mais virar as costas para isso. Pois bem, o poder continua emanando do povo, mas ele está concentrado nas mãos de quem percebeu o quanto uma revolta seletiva pode ser garantidora da continuidade da política da forma mais espúria possível, tendo o aval de grande parte da população.

O movimento que começou com uma luta contra o aumento nas passagens do transporte público, a princípio era mais um movimento de esquerda, encabeçado pelo MPL (Movimento Passe Livre), seria mais uma manifestação reprimida pela polícia e não teria apoio da população, já que, para grande parte da população, protestos até poderiam ocorrer, mas sem atrapalhar a vida de ninguém.

Entretanto, o que começou como um protesto corriqueiro, que seria reprimido pela polícia sem maiores contratempos e com apoio da imprensa e população, se tornou uma bola de neve, justamente pela repercussão da forte repressão policial. A imprensa tradicional fazia o seu papel de sempre, condenando os “arruaceiros” que iam contra a ordem pública, mas nas redes sociais o filtro era diferente, e os manifestantes puderam mostrar o que realmente ocorria. Assim, os protestos começaram a ganhar força com a ideia de que “não é só pelos R$0,20”, e pessoas que nunca haviam se manifestado por nada, foram às ruas.

Por um lado foi importante a maior adesão das pessoas aos protestos em todos os cantos do país, contudo rapidamente a pauta se perdeu, tendo dentro de uma mesma manifestação diversas reivindicações. Era só fazer um cartaz com o que queria e correr pra manifestação.

O MPL começou muito tempo antes de 2013, como um movimento apartidário, mas não antipartidário, pois historicamente pautas de esquerda são apoiadas por partidos de esquerda, e não dá pra dissociar uma coisa da outra, porque, para haver mudanças, a organização é fundamental.

Porém, juntamente com diversificação das pautas, ao longo da adesão de mais pessoas aos protestos de junho de 2013, começou a difusão do antipartidarismo travestido de apartidarismo, como forma de protestar contra a corrupção, principalmente nos gastos exorbitantes incorridos para a organização da Copa do Mundo. E foi aí que se percebeu que grande parte das pessoas que carregavam cartazes com os famosos bordões: “Não vai ter copa” ou “Queremos hospitais padrão FIFA”, eram os mesmos que lotavam os estádios na Copa das Confederações e na Copa do Mundo.

Os partidos políticos de esquerda, historicamente nos protestos, passaram a ser vistos como oportunistas por tentarem aproveitar de manifestações que ocorreram de forma “espontânea” pela população, e esse apartidarismo que se tornou um antipartidarismo, virou um partidarismo anti PT, já que esse era o partido da principal figura de poder no Brasil desde 2003. O PT sempre atraiu amor e ódio, dificilmente a indiferença, que é um privilégio de maioria absoluta dos partidos no Brasil.

O anti PTismo chegou ao ápice após as eleições de 2014 com a reeleição de Dilma Rousseff, sob várias desconfianças de que a eleição tivesse sido fraudada, que as urnas eletrônicas até então extremamente seguras, já não eram mais de confiança, pois não era possível que o PT, com toda a rejeição que tinha, ter ganhado mais uma eleição. E nesse contexto, surgiram os principais movimentos da, como gosto de dizer, Revolta Domesticada.

Considero os principais movimentos da Revolta Domesticada, o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL), convocando a população a ir para as ruas pedir o impeachment da presidente pelas mais diversas razões, convocando manifestações ordeiras para as “pessoas de bem”. As pautas, além do “Fora PT”, eram das mais genéricas, como: “pelo fim da corrupção”, “fim da violência”, “mais saúde”, além de total apoio ao juiz Sérgio Moro e a Operação Lava Jato.

Vendo isso, os partidos de oposição à Dilma aproveitaram e apoiaram as pautas que iam de encontro com as desses movimentos, unindo o útil ao agradável, já que, o anti PTismo valia a pena por ser apoiado por grande parte da população, cansada de tantos escândalos de corrupção, que se personificavam no PT. Além disso, esses partidos cooptaram lideranças desses movimentos, que se diziam apartidários, mas não titubeavam em se unir a quem ou a qual partido fosse para acabar com o PT, consequentemente, a corrupção, mas ressaltavam que, como a luta era contra a corrupção, derrubar a Dilma seria apenas o primeiro passo, depois eles derrubariam o resto.

Pois bem, o Golpe já foi dado, a sangria foi estancada, o PT foi o partido que mais perdeu poder nas eleições de 2016, Lula foi condenado a nove anos e meio de prisão. E o resto? O resto não importa mais, agora o que importa é continuar aprovando as pautas mais conservadoras possíveis e reformas propostas pelos setores mais ricos da sociedade, em nome do crescimento econômico e a hipócrita meritocracia que não enxerga as desigualdades sociais, pois quem trabalha calado tem a chance de prosperar, quem diz o contrário é comunista, PTista e vagabundo.

A Revolta Domesticada é linda, tem manifestações aos domingos, em locais de fácil acesso, sem violência e cheia do patriotismo vestido de verde amarelo. Parece muito mais uma ida ao estádio assistir jogo da seleção brasileira, seleção esta, que depois que voltou a jogar bem, fez desaparecer os inúmeros escândalos de corrupção na CBF. A esses movimentos agora resta exigir a prisão de Lula o mais rápido possível, já o Aécio continua sendo Senador, a Comissão de Constituição e Justiça rejeitou a continuidade das investigações contra o Temer e a Lava Jato já teve redução de equipe, seu orçamento cortado em pelo menos 1/3 esse ano em Curitiba e, não há mais grupo de trabalho exclusivo para ela… Será que só eu sou chato, ou a revolta foi domesticada?

Sílvio Alberto.

**As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo.

Referências: Continuar lendo

“O MIMIMI ESQUERDALHA”

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O Brasil é um país conhecido dentre vários fatores, pela beleza de suas mulheres. Mas nos últimos tempos nem se pode mais cantar uma mina que ela logo reclama e corre pra fazer “textão” no Facebook, e a razão disso é:

“Culpa dessas feministas mal amadas”

“Pois mulher que é vaidosa adora receber uma cantada pra elevar sua autoestima”

“Até por que, essas feministas são tudo feia, peluda, sapata, pois se fossem bonitas não seriam assim”

“Porque mulher que é mulher, gosta de homem que tome a iniciativa e que tenha pegada”

“A fulana agora deu pra virar lésbica. Deve ser só uma fase”

“Por mim, ela até pode ser sapatão, mas poderia vestir umas roupinhas mais femininas, pelo menos”

“O que falta pra essas lésbicas é tomar um bom chá de ro…”

E é até engraçado que em um país com tantas mulheres bonitas, o número de gays não para de aumentar, não é criticando quem é gay, mas não dá pra entender o que passa na cabeça deles, até por que:

“Eu não sou homofóbico, mas também, eles precisam se beijar em público?”

“Eu não sou homofóbico, mas se vier com viadagem, eu desço a porrada”

“Eu não sou homofóbico, mas eles poderiam ser mais discretos”

“E se eles vão se casar, então quem entrará de terno em quem entrará de vestido de noiva?”

Mas sempre tem alguém que reclama quando nós cidadãos de bem exercemos nossa liberdade de expressão como gostaríamos, só porque alguns se sentem ofendidos. Mas é muito relativo isso, por exemplo, eu conheço vários negros, inclusive tenho amigos negros, e sempre faço brincadeiras e piadas com eles, mas tem gente que quer falar que eu sou racista, mas o fato é que:

“Os mais racistas são os próprios negros”

“Os negros que defendem as cotas, por exemplo, são os mais racistas”

“Qual é o problema em ser chamado de macaco? Eu quando era criança sempre fui chamado de girafa, macaco pelo menos é mais um animal mais esperto”

“A escravidão foi a tanto tempo atrás e ainda tem negro que hoje se faz de vítima.”

Assim como se fazem de vítima os bandidos, que fazem a população de bem refém em suas próprias casas, pois sabem que os direitos humanos vão proteger eles, pois é sempre assim:

“Os direitos humanos deveriam ser feitos para a população de bem”,

“Mas os direitos humanos na verdade são os direitos dos manos”.

E depois ainda me criticam quando eu digo que:

“Nós, os cidadãos de bem, temos que começar a fazer justiça com as próprias mãos”

“Pois bandido bom é bandido morto”

“Morreu na cadeia? Que maravilha”

“Se está com dó? Leva pra casa.”

Mas espere um momento…

“Espancada ao reagir a assédio morre após 4 meses de internação no RJ” [25/07/2016 17h09 – Atualizado em 26/07/2016 15h10] <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/07/espancada-ao-reagir-cantada-morre-apos-4-meses-de-internacao-no-rj.html>

“Assédio sexual é motivo de preocupação para mulheres durante o Carnaval” [21/02/2017 – 06h00 – Atualizado 08h18] <http://hojeemdia.com.br/horizontes/ass%C3%A9dio-sexual-%C3%A9-motivo-de-preocupa%C3%A7%C3%A3o-para-mulheres-durante-o-carnaval-1.447356>

“Assédio de mulheres? Isso é um ‘elogio’ nos países do sul, diz comissária europeia” [3/2/2017 – 15h02] <http://observador.pt/2017/02/03/assedio-de-mulheres-isso-e-um-elogio-nos-paises-do-sul-diz-comissaria-europeia/>

“Em post, jovem disse antes de morrer que foi agredido pela mãe por ser gay” [16/01/2017 15h51 – Atualizado em 16/01/2017 18h01] <http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2017/01/em-post-jovem-disse-antes-de-morrer-que-foi-agredido-pela-mae-por-ser-gay.html>

“Jair Bolsonaro: ‘Sou preconceituoso, com muito orgulho’” [02/07/2011 – 08h50 – Atualizado ‘em 02/07/2011 – 16h39] <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI245890-15223,00.html>

“Jogador brasileiro sofre racismo de torcedores e jogadores e vai às lágrimas na sérvia” [20/02/2017 – 19:54 – Editado em: 20/02/2017 – 20h19] <http://www.1news.com.br/noticia/6958/rodrigo-da-silva-monteiro/esportes/jogador-brasileiro-sofre-racismo-de-torcedores-e-jogadores-e-vai-as-lagrimas-na-servia>

“Bruno Gagliasso registra queixa por ofensas racistas contra a sua filha” [16/11/2016 10h19 – Atualizado em 16/11/2016 16h26] <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/11/bruno-gagliasso-chega-delegacia-para-registrar-queixa-por-racismo.html>

“PM de Campinas determina abordagem de suspeitos de ‘cor parda e negra’” [23/01/2013 | 19h13] <http://www.estadao.com.br/noticias/geral,pm-de-campinas-determina-abordagem-de-suspeitos-de-cor-parda-e-negra,987908>

“Homem negro desarmado é morto por policial em estrada dos EUA” [20/09/2016 04h27 – Atualizado em 20/09/2016 04h27] <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/09/homem-negro-desarmado-e-morto-por-policial-em-estrada-dos-eua.html>

Adolescente é absolvido 70 anos depois de ser executado por homicídio nos EUA” 18/12/2014 – 17h44] <https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2014/12/18/jovem-negro-e-absolvido-70-anos-depois-de-ser-executado-por-homicidio-nos-eua.htm>

“Adolescente suspeito de roubo é espancado e amarrado nu em poste na zona sul do Rio”  [3/2/2014 – 11h28 – Atualizado em 3/2/2014 – 12h10] <http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/adolescente-suspeito-de-roubo-e-espancado-e-amarrado-nu-em-poste-na-zona-sul-do-rio-03022014>

“Morre mulher linchada no Guarujá (SP) por suspeita de realizar magia negra” [05/05/2014 – 11h18] <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/05/05/morre-mulher-linchada-pela-populacao-no-guaruja.htm>

“CNJ aponta que 30% dos presos no Brasil não foram julgados” [23/02/2017 22h24 – Atualização – 22h47] <http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/Policia/2017/02/611052/CNJ-aponta-que-30-dos-presos-no-Brasil-nao-foram-julgados>

“Pelo 5º ano, Brasil é líder em mortes em conflitos de terra; Rondônia é Estado mais violento no campo” [20 junho 2016] <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36580912>

Mas é claro, isso é só mais um mimimi esquerdalha.

Sílvio Alberto.

**As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo.

O trabalho dignifica

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A icônica foto dos trabalhadores almoçando sentados em uma viga de aço do Empire State Building a centenas de metros de altura sem nenhum tipo de material de segurança é uma das mais famosas da história, que de tão impressionante parece ser mentira. Mas não é bem assim. Na verdade, a foto não foi tirada de maneira espontânea, mas sim durante a construção do edifício RCA no Rockefeller Center, como parte de uma propaganda de marketing promoção do edifício, em Nova Iorque, em 1932. Apesar disso, eram os mesmos trabalhadores da construção do prédio, e sim, eles estavam a centenas de metros de altura.

A fotografia acima é linda e mostra a grandiosidade das construções que o homem é capaz de fazer, mas olhando mais atentamente a foto, o que sempre impacta as pessoas é o fato de a uma altura daquelas os trabalhadores estarem sem equipamentos de segurança. Não tenho detalhes sobre como eram as construções dos edifícios naquela época, mas mesmo assim, o risco ao qual foram colocados os operários para que a foto fosse tirada, nos faz refletir sobre até que tipo de condições de trabalho os empregados são submetidos e como era desigual a relação empregado patrão.

O documentário Net Café Refugees, mostra no Japão as pessoas que optam por morar em um cyber café (http://www.arkade.com.br/tribuna-arkade-documentario-conta-historia-trabalhadores/), em cômodos de aproximadamente dois metros quadrados, onde possuem internet 24 horas por dia, sendo essa praticamente sua única “companheira”. Há diferentes razões para que japoneses vivam nessa situação, seja por não conseguirem pagar o aluguel de uma moradia melhor, seja pela necessidade de morar perto do trabalho.

O país é ainda famoso por seus hotéis cápsula, que no Brasil até achamos graça ao ver as reportagens a respeito do assunto, mas que mostra uma dura realidade em uma nação que é uma das mais desenvolvidos do mundo, possuindo uma das maiores expectativas de vida e altas taxas de produtividade por trabalhador, mas que possui um problema muito grande pela falta de espaço nas grandes cidades, refletindo em aluguéis muito caros. Essa mesma produtividade subjuga parte de sua população à essas condições de moradia que está ligada diretamente às condições de trabalho e remuneração que lhes são oferecidas.

Esses exemplos dados possuem um simples objetivo: mostrar que é importante antes do combate ao desemprego, entender que fazê-lo piorando a qualidade do trabalho não é satisfatório para a população no geral. Não se pode tratar os direitos trabalhistas como um simples custo a mais aos empresários que ficam “reféns” dessa legislação, como é visto hoje pelo governo brasileiro, que trabalha para passar suas propostas de reformas de uma maneira tão simplória quanto é discutido o assunto entre a maior parte da sociedade civil, caminhando para uma precarização das relações de trabalho.

Pode até parecer que diminuindo os encargos com os empregados o empresário terá a possibilidade de investir mais, mas esse empresário não irá investir mais se a estrutura de incentivos se mantiver antieconômica, como precária infraestrutura, mercado interno e externo desaquecido, dentre outros condicionantes, como pôde ser observado pelos diversos incentivos concedidos pelo governo brasileiro nos últimos anos conhecidos como bolsa empresário*, que não tiveram o efeito esperado e ainda agravaram a crise político-econômica. Não vejo como a situação pode melhorar reduzindo o desemprego juntamente com a perda de qualidade de vida da população, como se uma só seria proporcionada em detrimento da outra.  Mesmo sendo medidas que ferem os princípios da seguridade social, elas se tornam atrativas, pois a demanda imediata da população – e a mais divulgada pelo governo e mídia – é a necessidade da criação de mais postos de trabalho.

Se engana quem acha que a flexibilização das leis trabalhistas, como a ampliação da terceirização, o prevalecimento de acordos entre patrão e trabalhador em detrimento da legislação trabalhista, aumento da jornada de trabalho, dentre outras propostas, por si só irá aquecer novamente o mercado de trabalho e trará benefícios para os empregados. Não podemos deixar que propostas que simplifiquem tanto um problema tão complexo sejam aprovadas sem o devido debate e cuidado, visto os altos custos de reversão e o grau de vulnerabilidade e desproteção da massa trabalhadora.

Diferentemente de países que adotam uma política trabalhista mais flexível, as relações de poder no Brasil se mostram muito mais heterogêneas, e o poder de barganha do trabalhador é cada vez menor, pois não temos uma estrutura de seguridade social bem estabelecida e que proteja realmente quem mais necessita. É como negar as migalhas a quem passa fome.

A facilidade com que legislações têm sido aprovadas sem uma maior discussão reflete jargões comuns como: “o trabalho dignifica” ou “quem trabalha duro vence, eu comecei a trabalhar aos 10 anos de idade”. Mas quantas e quantas pessoas trabalham duro desde os 10 anos de idade e com 65 ainda estão trabalhando duro para se aposentar com um salário mínimo? A ideia da meritocracia é muito bonita e funciona muito quando damos exemplo de alguém pobre que soube empreender e conquistar riqueza, mas esses casos são exceções. Tratar exceção como regra só funciona para incentivar a ambição de alguém que pode atingir os seus objetivos, mas não necessariamente irá alcançá-los. No mundo real, no entanto, sabemos que o buraco é um pouco mais embaixo, e que normalmente o trabalhador vai acabar conseguindo só alugar um quartinho de dois metros quadrados.

Silvio Alberto

* Uma série de subsídios e desonerações que o governo concede às indústrias, que, segundo estimativas, irá custar ao governo R$217 bilhões em 2017.

**As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo.

 

Referências:

http://exame.abril.com.br/brasil/bolsa-empresario-deve-custar-r-224-bi-em-2017-diz-jornal/

http://www.arkade.com.br/tribuna-arkade-documentario-conta-historia-trabalhadores/