O desmanche do espírito público

Imagine uma sociedade primitiva onde cada indivíduo sabe uma gama enorme de coisas: pescar, caçar e fazer previsões pelo céu, recebendo e transmitindo essas habilidades de geração em geração. Apesar de cada indivíduo ser capaz de fazer coisas muito distintas, seus semelhantes da comunidade fazem coisas parecidas entre si.

Em sociedades modernas cada indivíduo faz uma parte muito reduzida de cada processo. Você pode ser um contador que não sabe nada de Direito, e por isso precisaria contratar um advogado para resolver um litígio. Você pode ser um advogado que não entende nada de Contabilidade, e por isso precisaria contratar um contador para resolver seu imposto de renda. Apesar dessa interdependência, tudo é feito de forma extremamente produtiva. Há um alto grau de especialização. O alimento que chega à nossa mesa passa pelos fazendeiros; por indústrias de processamento; pela vigilância; pela comercialização; a previsão do tempo é feita apenas por poucos indivíduos, mas com um grau de precisão muito maior, que com os meios de comunicação atuais chegam em todos os cantos. Assim, como já dizia Adam Smith, a especialização e a divisão do trabalho são a causa das riquezas das nações.

Sociedades ricas do ponto de vista material são sociedades complexas. Ou seja, sociedades em que diversas coisas são produzidas com alto grau de precisão o tempo todo. A divisão do trabalho e a especialização são marcas do sistema capitalista, que se baseia no ímpeto da concorrência para gerar cada vez mais produtos mais atrativos com baixos preços.

O empresário buscará sempre maiores lucros. Para tanto, ele tem dois instrumentos: ou aumenta seu preço ou diminui seus custos de produção. Pensemos em um mercado altamente concorrencial com muitas empresas produzindo aquele produto, maquininhas de cartão, por exemplo. O empresário pode aumentar muito o preço da maquininha, no entanto, com muitas outras empresas no mercado com preços menores, ele venderá muito pouco ou quase nada. Agora, se ele tentar a outra estratégia, de diminuir seus custos de produção, operação etc., o empresário poderá manter o mesmo preço de mercado, obtendo a mesma receita, mas com um custo menor, isto é, um lucro maior. Num primeiro momento ele conseguirá esse lucro fora do comum, que é o que Schumpeter chama de lucro extraordinário. Mas como estamos em um mercado altamente concorrencial, os outros empresários buscarão imitar seu processo de produção e operação para terem mais participação de mercado, aumentarão sua produtividade e, como consequência, diminuirão os preços. Pense nesse processo ad ifinitum, até tudo se normalizar nesse mercado.

Contudo, esse espírito de especialização e concorrência que proporciona altos ganhos de produtividade levaram a outras consequências que não apenas a prosperidade material nunca antes vista na história da humanidade. Ela leva à incrustação de uma nova maneira de relacionamento e cria, nas palavras de Dardot e Laval (2016), uma nova racionalidade.

Segundo estes autores, com o aprofundamento da lógica da concorrência, o modus operandi de se pensar questões mercantis se estende a todos os campos de nossa vida privada. O cálculo econômico se incrusta em coisas sutis. Um exemplo é a habitação: há pouco tempo não se mensurava custo-benefício de uma casa própria e via racionalidade econômica em viver de aluguel por opção. Ter uma casa era uma coisa boa em si, coisa de primeira necessidade e o raciocínio de custo de oportunidade era utilizado apenas para os bens que tinham a finalidade econômica. Assim “a nova razão do mundo” tem traços competitivos e empresariais e cria um novo sujeito, com nova subjetividade: o denominado sujeito-empresa.

A lógica competitiva, então, entra em todas as esferas da nossa vida, empregando um estilo de vida totalizante, que exige tudo do sujeito-empresa para a eficiência e este é completamente responsabilizado por suas escolhas e resultados. Esse grau de individualismo e necessidade de alta performance alcança então todas as dimensões humanas e cria nichos de mercado para proporcionar novas formas de desempenho, que se incrustam na mente dos indivíduos: os grandes heróis são atletas de alta performance como Bolt e Cristiano Ronaldo, e não banqueiros.

Alastram-se coaches e técnicas que vão de palestras motivacionais à meditação ou programação neurolinguística que visam levar a autossuficiência e autoconfiança, com maior grau de eficiência em todos os seguimentos da vida – a profissional, física, amorosa, espiritual etc. Contudo, essa forma de sociabilidade hiperindividualizada, em vez de tornar o indivíduo resiliente, amplia o estresse, a frustração, os assédios, a depressão, a ansiedade e a solidão. E a resposta a essas crises está sempre na medicalização da vida. Os grandes heróis continuam sendo atletas de alta performance e os padrões continuam sendo os mais altos visualizados pelo filtro do Instagram (mesmo sem o contador de likes).

Essa forma exacerbada de individualismo remonta a contradições próprias do pensamento liberal. Dentre elas estão  a corrente utilitarista de Stuart Mill e a concorrencialista de Spencer.

Para a primeira,  a finalidade das ações públicas deve a felicidade do maior número possível de pessoas, levando, portanto, a possibilidade de questionar propriedade e justificar a atuação estatal, por exemplo.

Ao passo que para a corrente concorrencialista, inspirada em Darwin (e, por isso, conhecida como darwinismo social) fazer justiça social consiste exatamente em recompensar os méritos dos habilidosos e punir os mais fracos. Assim, o combate à desigualdade é considerado anti-natural e uma grande inversão de valores que favorece os piores em detrimento do esforço dos melhores e destrói a liberdade.

Segundo Nietzsche essa inversão de valores com a substituição das “virtudes afirmativas da vida” pelas virtudes “negadoras da vida” são produtos de religiões monoteístas. Na antiguidade, as qualidades do leão (ou da aristocracia) – força, vitalidade e poder – eram as virtudes celebradas. Na modernidade, as características do cordeiro (ou do escravo) – humildade e indefesa – tornaram-se mais vistas como virtude.

Assim como no reino animal, em Esparta o natural era que apenas os fortes sobrevivessem, e que qualquer indivíduo mais fraco fosse condenado a viver de acordo com a própria sorte. Com o desenvolvimento das sociedades e fortalecimento de religiões monoteístas, cria-se uma cultura de valorização das virtudes “negadoras da vida”, com a manutenção e proteção dentro da sociedade de indivíduos fragilizados. Cria-se uma série de mecanismos morais dentro de um corpo mais complexo que parte de grandes marcos civilizatórios com outro espírito de virtude. Com a sensação de pertencimento, criamos a ideia de uma civilização baseada em princípios como o da solidariedade, da coletividade e da cooperação e, portanto, do espírito púbico.

Contudo, como vimos, principalmente ao longo do último século, ao passo em que a sociedade se desenvolvia do ponto de vista econômico, a lógica da concorrência, a criação da nova racionalidade e a constituição do sujeito-empresa levam a um individualismo extremado que busca resgatar as “virtudes afirmativas da vida”.

É a difusão da ideia de que só se constrói o bom com valorização das virtudes realmente boas, que parte da ideia de conservar o status quo, que adota como inimigo pautas “politicamente corretas” de defesa de minorias. Contraditoriamente é com um discurso conservador judaico-cristão, que em parte levou a inversão e valorizou moralmente “fracos e oprimidos”, que isso ocorre.

Essa contradição é evidenciada pela análise do historiador Paulo Pachá da UFF. Pachá analisa a extrema-direita mundial e seu fascínio pela Idade Média, que é baseado em uma visão historicamente equivocada e moralmente problemática do período. De acordo com o historiador, a caracterização das Cruzadas como um acontecimento no qual homens viris e brancos impuseram belicamente o cristianismo na Europa é completamente errônea, e infelizmente é justamente essa branquitude europeia sexista, cristã e armamentícia que seduz as mentes reacionárias. É exatamente o resgate desses princípios que são ameaçados mundialmente por uma onda progressista que leva o resgate do discurso das virtudes aristocráticas (do leão). – saúde, força e riqueza – em detrimento das virtudes do escravo (do cordeiro) – doença, fraqueza e pobreza – nos termos de Nietzsche. É assim que o cristianismo reacionário e conservador coloca o punitivismo e a moralidade imposta no lugar do perdão e da caridade.

Assim, o individualismo intenso compromete o espírito público e a manutenção de valores que pareciam irretroagíveis em sociedades com marcos civilizatórios como o da solidariedade, fraternidade e da cooperação. E os retrocessos não param apenas no desmanche do corpo estatal de proteção social, a própria sociedade civil organizada passa a estar sob ataque no mundo todo. E a medida que a crise se estende, mais parece se aprofundar a racionalidade geradora: mais o sujeito-empresa é preso na ideia de concorrência em todos os campos da vida, em detrimento do sentido de liberdade dos liberais utilitários: a felicidade para o maior número possível de pessoas.

Ludmila Azevedo

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**As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo.

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A propaganda organiza

Momentos de crises econômicas são frutíferos para a proliferação de ideias autoritárias: “Antes vem a comida, depois a moral”. Hannah Arendt, fez, em 1951, na sua obra “As origens do totalitarismo”, uma análise sobre os movimentos totalitários do início do século XX, tanto à esquerda, com o Stalinismo da URSS, como à direita, com o Nazismo de Hitler.

É certo que agora existem organismos multilaterais, um enraizamento do ideal democrático, existência de instituições mais sólidas, globalização e o fortalecimento das redes de comunicação. No entanto, guardadas as proporções, a dinâmica e as características elencadas pela autora são elucidativas. Assim, sua análise de movimentos totalitários, apesar das grandes mudanças do mundo atual comparado àquele, pode ser útil.

Para descrever esses movimentos, ela divide a população em grupos necessários para garantir sua existência e reprodução. Para corporificar o movimento, existe a “massa”, caracterizada por homens de família, trabalhadores e apolitizados. Por outro lado, os líderes dos movimentos saem de uma classe denominada “ralé” e se caracterizam por serem desajustados socialmente, fracassados e representados politicamente. Essa “ralé” é a força motriz da “massa” e é responsável pela proliferação e consolidação do movimento, conduzindo à adequação da “massa” às características do movimento: a organização e a uniformidade.

A organização pressupõe que a “massa” seja abstraída de suas individualidades e desigualdades: deve existir uma sensação de igualdade dentro do grupo – graças à sua uniformidade – mas de superioridade em relação aos que não são membros do movimento. Essa uniformidade está ligada tanto ao discurso como a símbolos que podem ser desde roupas a bandeiras, entre outros.

Nesse sentido, a propaganda tem função fundamental. Não para promover o movimento, pois, para isso, existe o terror. A propaganda serve para promover a organização dessa massa. Isso ocorre porque o movimento conta com os membros, que são uma minoria em contato, de fato, com as decisões e problemas da liderança, e por uma grande massa de simpatizantes, que por meio da propaganda, aderem ao movimento de maneira alienada, por uma causa que desconhecem, em virtude do mundo fictício criado pela propaganda.

A existência desses simpatizantes cria uma noção de normalidade, dissimulando a realidade do mundo exterior e do mundo totalitário para o não-totalitário. No mesmo sentido, a existência dessa barreira de proteção criada pelos simpatizantes torna possível com que os que permanecem fora do regime sejam impactados diretamente por sua verdadeira essência autocrática e violenta. Por isso, pela existência dessa barreira, dificilmente membros e não-membros terão a mesma visão sobre um fato histórico: eles viveram realmente, mundos diferentes. Nesse sentido, sempre gosto de lembrar da frase de Elio Gaspari em sua obra A ditadura escancarada:

“O Milagre Brasileiro e os Anos de Chumbo foram simultâneos. Ambos reais, coexistiam negando-se. Passados mais de trinta anos, continuam negando-se. Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve o outro”

A propaganda cria um mundo fictício com leituras paralelas da realidade, com criação de fatos e inimigos, e fornece aos membros a noção de identidade e unidade: todos contra o que é o mundo criado pela propaganda para organizar as massas. Nesse sentido, todos que não pertencem a esse grupo, unificados por essas lutas, ou seja, os não-membros, são piores, inimigos a serem combatidos.

Esse é um ponto crucial: a criação das barreiras, da segregação ao que é diferente. Sempre existiram e existirão conflitos e diferenças, mas com a criação de muros, que já foram e são reais (Berlim, Palestina) e que hoje podem ser nossas bolhas digitais, as contradições e os problemas não se resolvem: é exatamente na negação do diferente que reside a causa dos conflitos.

É justamente na rotulação e na dicotomia que criamos entre o bem e o mal, que construímos nossos muros e nos alimentamos com leituras paralelas de uma realidade em discursos inconciliáveis. É assim que organizamos e criamos uma massa capaz de proporcionar, cada dia mais, um ambiente totalitário, por mais que tenhamos a crença que com a participação de mais pessoas no debate político estejamos caminhando para mais democracia.

Esse clima, entretanto, é fortalecido pela nossa “ralé”, nossos dirigentes políticos, nossa militância: acirra-se o clima de guerra, com rótulos como “esquerdista”, “fascista” ou qualquer outro termo que sirva ao mesmo tempo para separar e unificar os que pensam diferente em algo a ser combatido. Soma-se ainda, a defesa indiscriminada do seu grupo, porque há um clima de guerra. Nesse sentido, apela-se para erros alheios para justificar os próprios, e todos perdem.

A “guerra psicológica” que Arendt cita, é, da maneira mais escancarada possível, o modus operandi deste governo, que mesmo após as eleições continua a criar um mundo fictício, com propagação de mentiras e ódio ao diferente. Nesse sentido, a racionalidade econômica que deveria existir em nossa elite tecnocrata dá lugar às táticas mais antigas que podem existir, que são a desmoralização e deslegitimação. Não há intenção de agregar diferenças, apaziguar conflitos, mas sua reprodução se dá exatamente na manutenção e reprodução destes.

Isso não quer dizer, entretanto, que caminhamos para um modelo totalitário, até porque este governo não possui condições para tal, dadas as limitações elencadas no início do texto, bem como a fragilidade do líder e a falta de unidade ideológica do governo, com liberais, religiosos, militares, armamentistas e olavetes disputando entre si. Entretanto, evidencia seu caráter autoritário, com discursos incompatíveis com o respeito básico aos pilares democráticos mais sólidos: o respeito aos três poderes, à mídia e à participação popular. Em relação à participação popular, fica claro com o combate em massa aos conselhos participativos, que eram a ferramenta mais direta para concretizar a participação da população em políticas públicas. Em relação ao congresso, ao STF e a mídia, observamos ataques diretos como uma carta que ataca os poderes estabelecidos e convocação de manifestação de seus apoiadores.

Quanto à “guerra psicológica”, vemos na educação um exemplo concreto: cortar dinheiro da educação sempre será antipopular. Mas caso, antes de realizar cortes que seriam necessários em qualquer governo que aí estivesse, dada a situação fiscal do país e a existência de amarras institucionais como o Teto dos Gastos e a Lei de Responsabilidade Fiscal, trabalha-se um discurso de desmoralização: a “ralé” consegue organizar e dominar a massa. O que seria naturalmente impopular ganha adeptos e desvia-se o foco da real discussão para um problema e um inimigo criado e propagado. Isso é reforçado pela postura do presidente em chamar manifestantes de “idiotas úteis” e pelo ministro da educação se recusar a sequer ouvir os representantes da União Nacional dos Estudantes.

Essa, ao que nos parece, será a tática em todas as áreas: a criação da barreira de proteção se dá pelas massas e as massas precisam dos membros as organizando. Assim, cortinas de fumaça são criadas e desvia-se o foco dos tão urgentes e antigos problemas brasileiros.

Ludmila Azevedo
Doutoranda em Economia pela UnB

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ARENDT, Hannah (1989). As Origens do Totalitarismo. Parte III – Totalitarismo.
FILME: A Onda (Die Welle). Direção: Dennis Gansel

Fogo na Filosofia e na Sociologia!

A passos largos ele avançou em meio a um enxame de vaga-lumes. Como na velha brincadeira, o que ele mais desejava era levar à fornalha um marshmallow na ponta de uma vareta, enquanto os livros morriam num estertor de pombos na varanda e no gramado da casa. Enquanto os livros se consumiam em redemoinhos de fagulhas e se dissolviam no vento escurecido pela fuligem[i].

O parágrafo acima foi extraído da obra Fahrenheit 451, do autor estadunidense Ray Bradbury. O livro, publicado em 1953, narra a distopia de uma sociedade futura – mas não muito distante – na qual a informação é totalmente controlada e o acesso a livros é proibido.

A palavra distopia remete-se a uma situação intolerável, geralmente autoritária, sendo o contrário da utopia (que representa sistemas sociais ideais). Pode ser uma situação na qual “as contradições dos discursos ideológicos são levadas para as suas consequências mais extremas”[ii], resultando, geralmente, em sistemas totalitários.

Nesse sentido, a distopia é usada na literatura, bem como nos filmes, para criar sociedades organizadas com base em extremos ideológicos, refletindo, por vezes, sobre ideologias existentes na atualidade e, consequentemente, sobre os potenciais riscos da completa ascensão delas.

Utilizando-se desse método, a narrativa construída por Ray Bradbury se passa em uma cidade futurista dos EUA, na qual as casas são a prova de combustão. Por isso, os bombeiros (um deles é o personagem principal, Mr. Montag) ao invés de apagar fogo, são responsáveis por incendiar os livros que encontram, ou seja, são os soldados na guerra contra o conhecimento. O próprio título Fahrenheit 451 refere-se à temperatura de combustão do papel.

Nessa sociedade, a ideia aceita por todos (ou quase todos) é a de que o ato de refletir, bem como o de questionar a realidade é algo que perturba a ordem estabelecida e atrapalha o funcionamento adequado da vida e rotina daquelas pessoas.

Todo homem capaz de desmontar um telão de tevê e montá-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário (p. 53).

Na cidade de Fahrenheit 451, a única fonte de lazer são as novelas que passam ininterruptamente nas casas dos moradores, as quais são munidas de murais televisivos, configurando-se, assim, uma crítica por parte do autor à indústria cultural, além de um alerta do que pode vir a acontecer, qual seja, o abandono total da filosofia e da arte.

É importante dizer que essa crítica está sobretudo no caráter massificador dessa indústria, que acaba por transformar todas as pessoas em espectadores passivos e idênticos no modo de pensar e agir, de modo que não existam – ou que sejam exterminados – os críticos ao status quo:

Com a escola formando mais corredores, saltadores, fundistas, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra “intelectual”, é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente “brilhante”, era quem sempre recitava e dava as respostas enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretinos, odiando-o. E não era esse sabichão que vocês pegavam para cristo depois da aula? Claro que era. Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o   (p. 51).

Apesar de escrita há mais de 6 décadas, a distopia de Ray Bradbury não poderia ser mais atual em um cenário de avanço conservador a nível mundial, com perseguição de minorias (ou seja, os que ousam sem diferentes). Essa perseguição ocorre sob o pretexto de se acabar com privilégios, uma vez que o ideal difundido por alguns governantes é o de “somos todos iguais”.

E nessa toada desconsideram-se as diferenças social e historicamente construídas entre os diversos grupos sociais. É dessa forma que o atual governo brasileiro ameaça as pequenas conquistas, tais como as ações afirmativas e as relativas aos direitos da população LGBT, por exemplo.

Parece que estamos na cidade de Fahrenheit 451 quando um ministério da educação simplesmente decide cortar parte do orçamento de universidades federais, bem como bolsas de pesquisa, com base nas “convicções” de seus líderes. É assim que se coloca em prática a guerra ao conhecimento, à reflexão, ao pensamento crítico e toda essa balbúrdia que tanto ameaça a manutenção de privilégios dos grupos que sempre os tiveram. Afinal,

não se pode construir uma casa sem pregos e madeira. Se você não quiser que se construa uma casa, esconda os pregos e a madeira. Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso (p. 53).

 A seguir um trecho que parece também ter sido tirado da distopia de Ray Bradbury, mas – infelizmente – foi dito pelo presidente do Brasil:

Queremos uma garotada que comece a não se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas comece a aprender coisas que possam levá-las ao espaço no futuro

(Trecho do discurso de Jair Bolsonaro, na cerimônia de posse do ministro da educação, Abraham Weintraub).

Em outras palavras, o que ele diz é:

Fogo nos livros, na Filosofia, na Sociologia e ao suposto Marxismo Cultural!

Fogo nas conquistas dos movimentos sociais!

Fogo nos LGBT, porque aqui valorizamos as famílias!

Fogo nas humanidades, porque precisamos de mais profissionais práticos! (ou de diplomas de engenheiro/a na gaveta diante da não absorção pelo mercado de trabalho).

Fogo nas universidades e institutos federais produtores de esquerdistas e viva os grandes grupos educacionais privados!

Diante desse cenário, o que nos cabe, para além de postar memes dizendo “eu avisei” é apoiar uma união do campo progressista, trabalhando com as armas que temos disponíveis, que não são tantas num contexto do congresso dominado pelo conservadorismo, falta de preparo, fanatismo, dentre outros aspectos.

Precisamos ter estratégia e entender que o governo atual foi eleito sim e tem poder para causar muita destruição, “botar fogo” em muitas conquistas, caso insistamos na oposição pela oposição. Penso que a estratégia agora deva ser do diálogo no congresso, da busca por uma maioria, em torno das propostas que sabemos que esse governo tem condições de aprovar. Se isso vai acontecer que seja então de modo a prejudicar menos possível os mais vulneráveis.

E o último ponto – não menos importante – é que, apesar da dificuldade, e, por vezes, do nosso cansaço diante da enxurrada de notícias desastrosas que vemos na mídia a respeito da equipe à frente do governo, que possamos entender o alerta trazido na distopia de Ray Bradbury, ou seja, que não percamos o interesse nas discussões políticas, que não desistamos da busca por uma maior compreensão de mundo e da sociedade proporcionada pela filosofia, sociologia e história e que não nos conformemos com os absurdos que, infelizmente, têm virado rotina por aqui.

Douglas Xavier             

Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

 

[i] Fahrenheit451:atemperaturanaqualopapelfogoequeimadolivropegafogoequeima–/RayBradbury;Pinto.–SãoPaulo:traduçãoCidKnipel;prefácioManueldaCostaPinto.–2.ed.–SãoPaulo:Globo,2012.

[ii] https://oquee.com/distopia/

 

Educação é fim, não meio

A educação é apontada por uma grande parcela da população brasileira como um dos maiores gargalos para o desenvolvimento e, recentemente, vem apresentando vários sinais de falência. A falta de estrutura física e de capital humano das escolas é alarmante. Alunos sem preparo seguem saindo das escolas e até mesmo adentrando em cursos superiores. Quando os cursos superiores são de baixa qualidade, temos como resultado profissionais diplomados sem qualificação técnica e cidadãos sem capacidade crítica.

Nesse contexto, uma nova visão de educação começa a ser desenhada pela sociedade: uma educação que qualifica do ponto de vista técnico, com claro viés mercantil. A proposta baseia-se no mesmo ideário que desenha outras políticas do governo recém-eleito: o Estado é por natureza ineficiente e corruptível, dessa forma, deve-se diminuir as funções do Estado, abrindo espaço para que a iniciativa privada, cada vez mais eficiente na medida em que é submetida à concorrência, forneça tais serviços.

Além disso, há um esforço ideológico de esvaziamento de importantes cursos para a formação dos alunos, principalmente cursos de humanas como filosofia e sociologia, dando maior ênfase em cursos mais técnicos como medicina, veterinária e engenharia.

A ideia é de que não é necessário ser estatal para ser público: a parte da população que é excluída desses serviços por limitações financeiras é acomodada pelo Estado, que, em vez de fornecer a educação, entregue um voucher (tiquete que vale um serviço) para que a pessoa busque na iniciativa privada esse serviço.

Leia também – A Pobreza tem história (Clique Aqui!)

Com restrições absolutas de recursos e sabendo que o ato de governar é eleger prioridades e caminhos, não devemos fechar a mente para que soluções desse tipo possam vir a melhorar a vida das pessoas. É necessário ficarmos atentos à literatura especializada, às experiências internacionais e estarmos em constante questionamento das melhores alternativas para conseguirmos os melhores resultados. Tanto é, que este conceito pode ser aplicado as outras esferas da vida pública, onde se desresponsabiliza o Estado diretamente de certos serviços. Por exemplo: o combate à pobreza que foi por muito tempo legado a iniciativas do terceiro setor: incentiva-se ONGs e o dinheiro público é usado para financiá-las.

A própria ideia do Bolsa Família (renda mínima) segue a mesma direção: o Estado fornece a renda para que a população excluída do consumo de bens básicos possa adquiri-los no mecanismo eficiente do mercado. O primeiro exemplo é fonte de controvérsias, já o segundo parece ter uma aceitação de eficácia de maneira quase unânime. Pode-se estender à saúde em que estruturas como o SUS dão espaço a uma rede ampla de planos de saúde. Até mesmo a questão da previdência, que nada mais é que um seguro contra a velhice ou incapacidade de trabalhar, pode ser tratada por esse prisma, que é o caso das propostas de regimes de capitalização puros em detrimento da estrutura da seguridade social.

Cada um desses casos tem debate próprio, resultados diferentes em países com distintas realidades. Dessa forma, o objetivo do texto não é colocar todo o conjunto de ideias no mesmo saco. Aqui nos restringiremos a educação.

Em primeiro lugar, há que se lembrar de que desenvolvimento desde a década de 1960 não pode ser tratado mais apenas como progresso material: questões sociais, culturais e ambientais são relevantes e não melhoram de forma fatalista, dado o crescimento econômico. Este, inclusive, pode se dar por diversas frentes, não ser inclusivo, não ser democrático e ocorrer de maneira a degradar o meio ambiente.

Leia também – O mito do desenvolvimento (Clique Aqui!)

A opção por uma educação de amplo alcance que respondesse aos anseios mais imediatos do mercado e da economia, em detrimento de uma formação holística do cidadão, se me permitem extrapolar, foi iniciada em Getúlio, fortalecida por JK, consolidada pelos militares e que começou a ganhar espaços na dimensão humana apenas na redemocratização.

A ideia do financiamento privado, apesar de poder trazer recursos para uma área tão decadente, transforma definitivamente a educação em mercadoria. Agora os interesses econômicos não estão apenas no modelo de educação, mas também nos próprios meios de executá-la. Contudo, assim como apontado em meu texto Economia e Ética deste blog, nesse sentido temos uma enorme confusão entre meios e fins.

Educação, mais do que a formação de mão de obra, é um fim em si mesmo. Cristóvam Buarque defende que educação não pode ser meramente “meio para o crescimento econômico” e sim um “objetivo ético”. “O objetivo é educar. O impacto é consequência”.

Os resultados disso no Brasil podem ser pensados pela experiência do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil): uma grande proliferação de centros privados que ofertam, de maneira desregrada e despreocupada com a qualidade, as vagas em busca desse público-alvo a ser financiado pelo governo.

As mensalidades oficiais se elevam, visto que o governo irá fazer o financiamento a taxas subsidiadas e uma grande massa de alunos que paga suas mensalidades recebem descontos expressivos por razões pouco claras.

Gráfico – Matrículas na educação superior e taxa bruta de participação, Brasil, 2003-2014

Além da clamada eficiência não poder ser claramente percebida, percebemos uma educação precária, que se estende agora por diversos cursos à distância de baixíssima qualidade. E essa experiência quer se estender ao ensino básico, onde nem os países asiáticos e os EUA (que são a referência no que diz respeito ao financiamento de ensino superior) não o fazem. Em todos esses países a educação básica é fornecida pelo Estado, de maneira presencial.

Outro ponto é da necessidade de se reduzir os gastos com o ensino superior público para priorizar o básico. Estuda-se migrar o ensino superior do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCTIC), cortar expressivamente as verbas e passar a cobrar mensalidade dos alunos que estão dentro de uma faixa e renda “superior”.

O modelo, baseado na experiência norte-americana, tem demonstrado sinais de fracasso, com o alto endividamento da população jovem e pouco retorno social. A questão é que o grosso do alto custo das universidades brasileiras não se dá no ensino, mas sim na pesquisa, essencial para desenvolvimento tecnológico e na extensão, tendo os hospitais universitários como principal exemplo.

Além disso, existe a tese de que o aluno rico, que cursou todo o ensino básico em escola particular, é quem aproveita das benesses da estrutura cara da universidade pública e que o pobre precisa pagar mensalidades das instituições privadas: alega-se uma inversão injusta.

Alguns pontos importantes:

1) nem todas as políticas econômicas devem ter como a maior finalidade a eficiência equitativa. Por vezes, o gasto público deve focar na eficiência alocativa ou na estabilizadora como prioritários.

2) como pode ser observado na tabela abaixo, o percentual de mais pobres da população é maior entre os estudantes de universidades públicas do que em instituições privadas, bem como a parcela de estudantes que estão entre os mais ricos encontra-se na iniciativa privada, não na pública.

3) mesmo liberais, como é o caso do Roberto Ellery, professor da UnB, membro do Instituto Liberal e que está cotado para ocupar a equipe econômica de Bolsonaro, considera a estratégia muito cara politicamente e pouco eficiente do ponto de vista econômico.

Tabela – Estudantes matriculados na educação superior, segundo os quintos de rendimento domiciliar per capita, em porcentagem, 2004 e 2014

É caro politicamente porque se retira da classe média, grande pagadora de impostos e também de serviços privados, um dos poucos serviços públicos de qualidade que pode usufruir. É ineficiente porque o custo para manter boa parte dos melhores laboratórios, pesquisadores e estudantes demanda muito dinheiro, tornando a cobrança de mensalidade fonte muito restrita e onerosa do ponto de vista administrativo, sendo mais viável buscar outras fontes, como melhorar parcerias universidade-empresa nos cursos e nas linhas de pesquisa em que isso é possível.

Apesar da educação ser um fim em si mesmo, é importante que uma educação cara tenha transbordamentos positivos para a sociedade que a financia. O investimento privado é bem-vindo, desde que regulado pelas universidades para que não gere distorções e concorrências desonestas entre diferentes áreas. Mais importante ainda, que não substitua o investimento público, dado que pesquisa de base se faz apenas com financiamento estatal. Não podemos, ainda, diminuir as várias dimensões de uma universidade, que é espaço historicamente reservado para o crescimento humano em todas as suas dimensões e em todas as suas frentes.

Ludmila Azevedo
Doutoranda em Economia pela UnB

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Meio Ambiente pra quê?

Entre as diversas teorias econômicas recentes, as preocupações com o Meio Ambiente têm se tornado cada vez mais relevantes. Considera-se, em geral, que as externalidades ambientais ou as capacidades ecossistêmicas não são internalizadas ou consideradas, respectivamente, nas decisões de produção de curto prazo. O conceito de externalidade, da economia Ambiental Neoclássica, diz respeito ao fenômeno de quando custos sociais são diferentes dos custos privados. Dessa forma, existe certa distinção entre a quantidade ambientalmente/socialmente ótima e a quantidade privada ótima. Nesse caso, a “solução” seria internalizar o custo social externo no custo privado e a quantidade privada corresponderia a quantidade “ambientalmente” ótima.

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A Economia Ecológica vai além, considerando que não se trata simplesmente de corrigir as imperfeições de mercado, tratando as externalidades não como acontecimentos isolados, mas sim inerentes ao sistema. De acordo com os economistas ecológicos, é necessário que se tenha em conta os limites ecossistêmicos tanto no que diz respeito à finitude dos recursos naturais quanto à capacidade de absorção dos resíduos provenientes dos processos de transformação produtiva. Em que pese as discordâncias sobre a relação da degradação do meio ambiente com o sistema econômico, há um razoável consenso sobre a tendência de aumento da degradação (SELDEN e SONG, 1994; DINDA 2004), seja para a perpetuação dos padrões de consumo nos países desenvolvidos ou para o desenvolvimento dos países periféricos.

Em termos econômicos, é dado que a degradação ambiental implica em reduções no estoque de capital natural do país (DINDA, 2004), principalmente se tratando de países não desenvolvidos. O que isso quer dizer?

A floresta amazônica tem seu valor. Desde apreciação estética às belezas naturais, o potencial de geração de riqueza com turismo ecológico, regulação do clima e da distribuição de chuvas até a imensa biodiversidade na qual reside o potencial de diferenciação genética que permite a continuação da vida no planeta e o potencial de exploração cientifica. Ou seja, ao reduzir a floresta, seu valor potencial é diminuído. Isso implica em uma menor capacidade potencial de investimento para o desenvolvimento econômico no longo prazo.

Um exemplo claro é o de que entre 1996 e 2006 o crescimento da produção agropecuária do Brasil foi mais intenso na expansão das áreas cultivadas e pastagens do que através dos aumentos de produtividade (GIRARDI, 2016). Isso significa que o aumento do valor da produção esteve mais relacionado a uma expansão da escala de exploração do que ao crescimento do valor agregado do produto.

Em outras palavras, durante esse período, o Brasil reduziu seu estoque de capital natural de longo prazo ao mesmo tempo em que não foram observados acréscimos relevantes no valor final individual da produção.

Dessa forma, além de abrir mão de uma pauta exportadora com produtos de maior valor agregado no presente, o país diminui sua capacidade de investimento de longo prazo para aumentar o valor agregado no futuro. Sendo importante lembrar que, de acordo com o Observatório do Clima, “a produção agropecuária brasileira ainda passa por um processo de expansão para novas fronteiras, e é responsável por ou beneficiária direta da maior parte do desmatamento que ocorre no país” (OC, 2017, p. 4).

A referida expansão nas áreas de produção agropecuária entre 1996 e 2006 ocorreu, sobretudo, na região da Amazônia Legal. Tal crescimento se relaciona diretamente ao crescimento nas taxas anuais de desmatamento para Amazônia entre 1997 e 2004 (gráfico 1).

No mesmo gráfico fica evidente o papel do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia (PPCDAm) do Ministério do Meio Ambiente para a efetiva redução nas taxas de desmatamento na Amazônia brasileira.

Gráfico 1 – Taxa de desmatamento da Amazônia Legal brasileira (km²/ano)

taxa de desmatamento da amazonia legal brasileira

Fonte: Vieira Filho (2016).

Apesar dos resultados animadores no período em geral, Fearnside (2017) alerta para um enfraquecimento na política ambiental brasileira que resultou em um crescimento de 29% do desmatamento entre 2012 e 2016. Não existe, nesse sentido, justificativa para a incorporação do Ministério do Meio Ambiente ao Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A regulação ou controle da ação sobre o meio ambiente necessita, incondicionalmente, de ser realizada por órgãos e institutos externos àqueles inseridos nas decisões de produção.

Por fim, ainda que o exemplo utilizado faça menção à floresta amazônica, posto seu imenso valor para o Brasil, pode-se ainda citar outras atuações do MA, como a Agência Nacional das Águas (ANA). A gestão dos recursos hídricos realizada pela Agência é de suma importância, não só para a agricultura, como para a indústria e o setor de energia.

A preservação da biodiversidade, a cargo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) além de garantir a diferenciação genética necessária a continuidade da vida no planeta, mantem as potencialidades de desenvolvimento econômico e estudos científicos das mais diversas áreas, dentre as quais se destaca a área da saúde.

Ao subjugar, portanto, o MMA a qualquer outro ministério, como propõe o presidente eleito Jair M. Bolsonaro, a redução do poder político e de verba implica, invariavelmente, em um contexto no qual teremos nossos recursos naturais utilizados da forma menos econômica possível. Em outras palavras, representa o explícito aprofundamento da depleção dos ativos ambientais para a perpetuação do modelo primário exportador. Permitiremos, assim, o esvaziamento do nosso estoque de capital natural para atender a interesses que não dizem respeito ao desenvolvimento do nosso país e ao bem-estar da nossa população.

*Se, de alguma forma, você concorda que o Ministério do Meio Ambiente não deve ser anexado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, assine essa petição e se junte a centenas de milhares de brasileiros que são contra essa medida catastrófica! Clique Aqui!

Luiz Gustavo Fernandes Sereno

Mestrando em Economia (PPGE/UFU)

*As ideias/opiniões expressas no texto são parte do ponto de vista do autor e não necessariamente de todos os membros do Bloco Jota.

DINDA, S. Environmental Kuznets Curve hypothesis: A survey, 2004

FEARNSIDE, P. Business as Usual: A resurgence of deforestation in the Brazilian Amazon. Yale Environment 360, [s. l.], p. 6, 2017. Disponível em: <https://e360.yale.edu/features/business-as-usual-a-resurgence-of-deforestation-in-the-brazilian-amazon&gt;

GIRARDI, E. P. Mato Grosso: expressão aguda da questão agrária brasileira. Confins, [s. l.], v. 27, 2016

OC – OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Sistema de Estimativas de Gases de Efeito Estufa (SEEG), 2017

SELDEN, T. M.; SONG, D. Environmental quality and development: Is there a kuznets curve for air pollution emissions? Journal of Environmental Economics and Management, [s. l.], 1994

VIERA FILHO, J. E. R. A fronteira agropecuária brasileira: redistribuição produtiva, efeito poupa-terra e desafios estruturais logísticos. In: Agricultura, transformação produtiva e sustentabilidade. brasília: IPEA, 2016. p. 89–108.

É pau, é pedra, é o fim do caminho? Cenários para 2019

O 2º turno das eleições se aproxima e as incertezas e os medos se intensificam. Algumas pessoas temem pelo que se diz novo (ainda que esteja evidente sua inspiração num passado que nem todos querem reviver), enquanto outras desejam se livrar do que entende por velha e suja política.

O fato é que nós decidimos nos sabotar, nos colocando numa polarização bem mais angustiante que o costumeiro Azul x Vermelho. Dessa vez, estamos diante de uma decisão que pode significar muito mais do que nas eleições anteriores.

 Acredito que o que foi dito até agora não é novidade, considerando a inteligência das leitoras e leitores do Bloco Jota e o fato dessa análise já ter sido feita largamente por alguns setores da mídia e o próprio blog que vos escreve. No entanto, sempre é preciso uma introdução, não é mesmo?

Dito isso, vamos ao ponto principal dessa conversa: Dada a situação que nos colocamos nesse 2º turno, o que podemos esperar do governo do vencedor?

Supondo que Bolsonaro vença:

Diante de uma economia ainda respirando por aparelhos, não é necessário adentrar na discussão de seu plano econômico para saber que o candidato (assim como qualquer outro), terá muitas dificuldades para recuperar uma trajetória estável de crescimento e, como consequência o emprego e a renda.

Nesse sentido, o governo de Bolsonaro certamente buscará a aprovação de leis ou o cancelamento de políticas a fim de legitimar seu governo diante dos eleitores “sedentos por mudança”, se assemelhando, nesse ponto, ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que anunciou, por exemplo, no ano passado o relaxamento de controles ambientais junto à indústria petrolífera, em um movimento de reversão da regulamentação de segurança de perfuração offshore. É importante salientar que os controles haviam sido impostos após o derramamento de petróleo do Golfo do México em 2010, que deixou 11 mortos.

 Em relação ao meio ambiente, o candidato do PSL já sinalizou que não possui tanta preocupação, inclusive reafirmando dias atrás a proposta de fusão dos ministérios do meio ambiente e da agricultura, mesmo diante do apontamento por parte de sua equipe e até mesmo de representantes do agronegócio acerca da inviabilidade dessa ação, evidenciando novamente o autoritarismo e a desconexão do candidato com sua própria equipe. Além disso, já evidenciou que não pretende respeitar a demarcação de terras indígenas e quilombolas, entre outras questões.

Outro exemplo, de políticas de Trump, que certamente serão influência para um eventual governo de Bolsonaro, foi o anuncio feito em julho de 2017 a respeito da não aceitação de transgêneros nas Forças Armadas (desfazendo políticas de Obama), decisão anunciada após pressão dos republicanos cristãos conservadores. Questionada sobre o caráter de tal ação, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, declarou simplesmente que a política anterior transgênero era “perturbadora”. Pouco tempo depois, o presidente voltou atrás da proibição total deixando ao secretário da Defesa, a tarefa de avaliar caso a caso.

Assim, para se legitimar no governo, Bolsonaro entrará numa corrida para aprovar leis como a redução da Maioridade Penal, fim da Lei de Cotas, modificação do Estatuto do Desarmamento, além de barrar avanços nos direitos da população LGBT e de mulheres, sob o argumento já falado pelo candidato de que “as minorias devem se curvar a maioria”, até porque seu programa de governo simplesmente ignora políticas para pessoas com deficiência, mulheres, dentre outros grupos em condição de vulnerabilidade social.

Apesar dessas questões, assim como Trump, o governo do Bolsonaro pode encontrar resistência de uma frente democrática que fará oposição e tentará barrar a adoção de políticas extremistas, mantendo os retrocessos dentro dos limites constitucionais. Ou então, o seu autoritarismo encontrando respaldo na agora grande bancada do PSL no congresso (além de outros partidos que irão compor sua base governista), mandará as instituições catar coquinhos – relembrando o dito popular – se aproximando mais do estilo Putin e Maduro de ser. Peço perdão pelo frio na espinha que vos causo.

Supondo que Haddad vença:

De antemão, alguns analistas de mercado apontam para uma crise de confiança no mercado financeiro, no início de um eventual governo petista, uma vez que o partido sinaliza para a revogação de reformas do governo Temer, como o Teto de Gastos e a Reforma Trabalhista, o que significaria uma guinada à esquerda na política econômica do País.

No entanto, existem evidências de que Haddad (considerado um dos mais tucanos entre os petistas) e outros líderes do PT têm se reunido com representantes de instituições financeiras e adotado um tom mais amigável, o que nos aponta que um eventual governo de Haddad será feito à lá Lula 2002, o que significa um ajuste ainda que modesto.

O mais provável é que o PT encontre um meio termo para a proposição de uma reforma da Previdência, além de tentar acalmar os ânimos do mercado e recuperar os níveis de confiança na economia brasileira utilizando-se de nomes bem aceitos para colocar a frente do Banco Central e do Ministério da Fazenda (quem sabe um Meirelles?), por exemplo.

Apesar desse esforço, não há evidências claras de que a economia brasileira entrará rapidamente em uma trajetória ascendente (nem com Haddad, nem com Bolsonaro), até porque o novo regime fiscal não permite a expansão dos gastos no curto prazo. É justamente esse engessamento que um eventual governo petista tentará derrubar, pois a legitimação de seu governo só será mais provável diante da revogação do Teto de Gastos e a consequente ampliação de políticas sociais e dos investimentos em educação, por exemplo, o que não parece ser o foco de um possível governo do candidato do PSL.

O fato é que, seja qual for a equipe vencedora, irá enfrentar grandes problemas no campo econômico, situação que acentua as diferenças entre os candidatos em outros campos.  Já no campo político, deve-se reconhecer que há grandes chances de uma vitória do PT incitar um aprofundamento da instabilidade, uma vez que eleitores de Bolsonaro, lideranças do partido, inclusive o seu candidato a vice já sinalizaram que não aceitarão um resultado contrário à vitória deles, o que se traduzirá em ameaças sob a teoria da “fraude nas urnas eletrônicas”.

Assim, diante do estrangulamento do orçamento no novo Regime Fiscal e da impossibilidade de resolver os problemas econômicos no curto prazo, Bolsonaro tentará legitimar seu governo por meio do sufocamento das pautas progressistas, o sucateamento da educação pública superior, dentre outros elementos que são contrários a sua ideologia.

Ao passo que Haddad passará todo o tempo tentando recuperar a confiança da população e do mercado no governo petista, buscando repetir o 1º governo Lula, o que não parece que logrará êxito nesse momento. No entanto, sem a busca pela legitimação sufocamento de minorias e contenção do avanço de pautas progressistas representada pelo outro candidato, embora seja preciso uma formação de uma força democrática capaz de passar pelo freio conservador do PSL e da bancada que estará ao seu redor. Diante desses cenários, cabe a nós decidir o que nos ameaça menos.

Por fim, cabe uma reflexão: independente de quem vença, será preciso que busquemos contribuir da melhor maneira possível com o governo, para que não caiamos mais no ciclo que entramos quando da derrota de Aécio em 2014 e a posterior inviabilização do governo eleito, na pegada do “quanto pior, melhor”.

 

Douglas Xavier

Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

Eleições 2018: sentando o Brasil no Divã

Compreender o que as eleições 2018 estão marcando na história do Brasil levará tempo. Mas, neste texto, cujo convite para escrevê-lo agradeço ao grupo do blog Bloco Jota, especularei sobre algumas destas marcas. Meu objetivo, portanto, é tentar dar algum sentido a fatos que parecem tão desordenados. Obviamente o percurso do tempo pode mostrar que estou completamente errado, porém ainda assim me permitirei à elucubração.

De antemão, acho que um dos fatos menos surpreendentes desta eleição é o desempenho (e a extremamente provável eleição) de Jair Bolsonaro no pleito. As razões para isto deixei claras em um texto publicado em novembro de 2017, na Revista Carta Capital, que pode ser lido neste link Bolsonaro não é zebra. Então, o que pretendo refletir aqui, ainda que de forma breve, são três outros elementos marcantes nas eleições de 2018: o conservadorismo ascendente, a reforma política forçada e o papel das redes sociais.

O que explicaria o conservadorismo ascendente? Concordo neste ponto com o filósofo Pablo Ortellado, da USP: o conservadorismo decorre de as classes média e alta hoje se entenderem como minoria. Explico, embora elas sejam a maioria da população e tenham a melhor posição relativa de renda, com as políticas de afirmação social, como as cotas em geral, bolsa família, garantia de direitos de minorias (como Quilombolas e LGBTI+), estas classes passam a se entender como não beneficiárias de políticas públicas ao mesmo tempo em que se enxergam como as grandes pagadoras de impostos.

Neste sentido, o sentimento delas é a de que o Estado protegeria vários segmentos sociais, mas não a elas. Assim, elas se enxergam duplamente oneradas: pagam impostos e, por não receberem serviços públicos de qualidade, precisam pagar seguro saúde, seguro de carro, escolas particulares. O conservadorismo decorre, então, de um movimento de estas classes reafirmarem seu lugar no posicionamento social. Nos casos mais extremos e minoritários, este conservar a posição significou uma vontade por se retomar um lugar social relativo, mesmo que tais classes não o tenham perdido: daí os atos de racismo, homofobia, misoginia observados; daí também o fascismo, ou seja, a eliminação do outro, do diferente, dos que supostamente representam uma ameaça neste reposicionar-se.

Acrescente-se também a busca conservadora por se enfrentar a liquidez, no sentido filosófico de Zygmunt Bauman, do mundo e das relações contemporâneas. De forma brincalhona, posso resumir este último ponto como ‘deu medo da liberdade’ construída pela sociedade nas últimas décadas, com relações mais fluidas, migrações, desconstrução de dogmas, paradigmas e identidades, surgimento da pós-verdade, etc… No mundo este movimento já fez, dentre vários outros, a Liga na Itália, a Reunião Nacional na França, Donald Trump, Brexit, movimentos de direita e extrema direita, representando, segundo o free market think thank sueco Timbro, quase 20% dos políticos eleitos no mundo ocidental. Para um mundo muito líquido, o conservadorismo pede ordem, família, tradição, religião.

No mundo, e muito mais no Brasil, isso se soma, ainda, a uma profunda e generalizada descrença da população com relação à política e aos políticos tradicionais, que não conseguiram resolver os problemas sociais que se arrastam faz tanto tempo, mas que continuamente se envolvem em casos de corrupção. Os resultados do primeiro turno da eleição mostram que, se os políticos não solucionam o que precisa, os eleitores decidiram os eliminar e resolver os problemas por eles: mais de 50% de renovação no Congresso Nacional e, ademais, os partidos tradicionais, PT, MDB, PSDB, PTB, viram suas bancadas se reduzirem bastante.

A população claramente associou o que ela entende como o mal da classe política, a corrupção, com os partidos que sempre estiveram no noticiário e nas eleições, e a eles deu um basta, não (re)elegendo o conjunto de candidatos/políticos “velha guarda”. O PT, que esteve no poder por 4 mandatos, se envolveu no Mensalão, Petrolão, teve Dilma Rousseff e a crise econômica atual (e crise significa a frustração de um sonho prometido) e tem Lula preso, é um dos que mais sofre o movimento antissistema (o antipetismo), embora ainda tenha conseguido eleger a maior bancada da Câmara por conta de sua forte base social.

Aqui cabe um ponto: mas por que escolher Bolsonaro, se ele é “velha guarda”? Sensação de identificação, de reconhecimento, de minoria: uma característica dele é sempre se identificar como alguém do baixo clero da Câmara, insignificante, que defendeu os interesses de seus eleitores sem maiores aspirações. Num tempo em que a maioria se acha minoria e em que reconhece a maioria dos políticos, sobretudo os “velha guarda”, como corruptos, Bolsonaro caiu como uma luva na escolha do eleitor conservador e antissistema. Some-se à escolha por ele, com importância fundamental, o voto evangélico com seus pedidos de ordem, família, tradição, e, sobretudo, o antipetismo e a real possibilidade de ele derrotar o candidato do PT: o resultado é a votação expressiva de Bolsonaro nesta eleição.

Mas, como todos estes pontos se associam em torno de um partido tão pequeno, com oito segundos de tempo de TV e desconhecido? Redes sociais. O brasileiro passa em média quatro horas por dia em redes sociais e a sociabilidade moderna ocorre nelas, não mais nas escolas, igrejas, clubes, bairros. As redes sociais, ademais, permitem algo inédito nas relações sociais: os likes, que no fundo significam aceitação social. Assim, se consegue identificar o que os outros gostam e se forma uma sensação circular de reconhecimento e pertencimento.

É por isso que o fenômeno fake news, que não é desta eleição, ganhou corpo decisivo nela: é a narrativa de grupo, um discurso que os membros produzem e reproduzem como forma essencial de se sentirem parte de uma comunidade; uma escolha que automaticamente reconhece um lado bom, o escolhido, e um lado mal, aquele não escolhido, o outro. É por isso que coisas tão distantes como venezuelização ou cubanização do Brasil são tão reproduzidas, elas reforçam um pertencimento a algo (e automaticamente a negação de outra coisa) e criam um slogan que sintetiza uma escolha (como um Amém).

O Brasil está de frente para o espelho de uma forma muito complicada e em um momento histórico pouco favorável, pois a internet e as redes sociais retiraram a mediação de terceiros (partidos, associações de classe, sindicatos, uniões estudantis, etc…) sobre as manifestações individuais – como a greve dos caminhoneiros deixou claro, quem eram os líderes dela? Com que negociar?

Não creio que este processo seja de agora, o estopim de sua efervescência foi junho de 2013. Estamos em nossa guerra civil, talvez a maior delas, pois hoje somos urbanizados, um país de classe média, com acesso ativo à comunicação (falamos por meio dela, como estou falando neste texto), diferente de 1889, 1930 e 1964. A resolução de nossos problemas ainda levará tempo, não chegará com paixão, nem com palavras de ordem e muito menos com mitos (no plural, entendedores entenderão). No fundo, são estes que precisam ser enfrentados, embora seja isso duro, pois como ensinava Sartre, isso nos colocará na solidão de o bem e o mal não ser um dos lados da disputa, mas apenas uma escolha de nossa consciência, algo difícil de suportar pois nos tornamos responsáveis únicos pelos nossos atos numa existência que já é por demais solitária. Mas, mesmo assim, é preciso que saiamos das trincheiras, se não o Brasil permanecerá no fundo do poço delas.

Fábio Bittes Terra
Professor da UFABC e do PPGE-UFU