O poder da ignorância

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Mais uma vez o candidato à presidência Jair Bolsonaro foi entrevistado em rede nacional, desta vez no programa Roda Vida, da TV Cultura, exibido na segunda-feira (30/07/2018). Novamente vimos o candidato repetindo as besteiras e bordões que o caracterizam e que a ele tanto atribui popularidade e fãs cegamente apaixonados.

É constrangedor ver a falta de preparo do candidato que está na vida pública há quase 30 anos, e pelo sétimo mandato seguido como deputado, mas como um postulante ao cargo mais importante da política de um país, não consegue se aprofundar em diversos assuntos básicos, e ainda se orgulha de sua ignorância. Entretanto, os apoiadores de Bolsonaro, e até mesmo indecisos, podem ter achado que o candidato tenha se dado bem na sabatina na TV Cultura.

O Roda Viva, a algum tempo vem se notabilizando por promover entrevistas de questionável qualidade, principalmente com os candidatos à presidência este ano, tratando alguns de maneira muito raivosa e desrespeitosa, e outros de forma gentil e acolhedora. Com o candidato Bolsonaro, o tiro saiu pela culatra em diversas oportunidades, principalmente ao insistir nas mesmas perguntas que o candidato vem respondendo há alguns anos, e que já consegue tirar de letra, as vezes suavizando o que disse outrora ou acrescentando mais polêmicas que fazem seus apoiadores gozarem com tamanha “lacração”.

É notório o crescimento do candidato que vem fazendo campanha presidencial não oficial há alguns anos, utilizando principalmente das redes sociais para propagar suas ideias. Hoje ele tem um mar de seguidores que estão convictos que ele é a única solução para o país que chegou ao fundo do poço, atolado em tanta corrupção.

Bolsonaro é um ignorante teimoso, que não tem a capacidade de se colocar no lugar do próximo, não tem a humildade de ouvir quem o critica e não vai mudar seu pensamento primário, independente de quantos ataques ele sofra, pois é isso que dá a legitimidade que seus seguidores tanto idolatram.

Na maior parte das entrevistas, principalmente nas de tema livre, as mesmas perguntas são feitas, sempre rememorando as inúmeras polêmicas em que ele já se meteu, os constrangimentos e revoltas que causou, mas ele sabe que é nesse campo podre que ele vem crescendo ao longo de sua carreira política. E para seus apoiadores, ele pode falar o que quiser, já que ele é o bastião da honestidade, o único candidato à presidência ilibado, patriota e defensor da família brasileira.

Bolsonaro desperta muitas paixões e ódios, mas o mais preocupante é o ódio que ele propaga por minorias que são discriminadas há tempos. Felizmente, ainda hoje, ele desperta mais ódio contra suas próprias atitudes, principalmente não reconhecendo, até mesmo tripudiando da guerra diária que movimentos sociais enfrentam por mais direitos.

É absurda a falta de empatia que esse candidato tem por quem é diferente dele, e isso é reflexo de boa parte da sociedade brasileira e mundial. Um exemplo disso é a luta dos movimentos pelas causas LGBTQ+, hostilizada das maneiras mais violentas possíveis, e um exemplo disso é quando candidatos a cargos públicos e seus apoiadores ainda tratam homossexualidade como uma opção, não como uma orientação, reforçando a ideia de que homem nasce homem e mulher nasce mulher, configurando uma clara ideologia de gênero, excluindo e discriminando todas as outras possibilidades de orientação sexual e gênero.

Não vou aqui rememorar as diversas declarações e atitudes desse candidato, pois isso não tem efeito algum sobre alguém que vota nele, visto que mesmo se ele chegar a lavar dinheiro algum dia na vida, ainda vão defendê-lo, reforçando o que ele poderá dizer, insistindo que ele terá agido na legalidade, esquecendo o véu moral que a atitude dele pudesse vir a ter. Até mesmo defendendo os – apesar de legais – amorais privilégios dos quais ele goza, como auxílio moradia. Coisas que são extremamente repudiadas em outros candidatos, mas que para seus seguidores, não desvia um milímetro de sua conduta irrefutavelmente ética.

Se não queremos um sujeito como este na presidência do Brasil, a melhor forma de tratá-lo hoje é como um real candidato, e que devemos conhecer as suas propostas para além dos absurdos que ele diz todos os dias, pois nas polêmicas ele já está muito bem treinado. Devemos indagá-lo sobre o que queremos, de fato, melhorar em nosso país, como: educação, saúde, segurança, emprego, lazer, cultura e etc.

O nosso papel agora é de eleitores e eleitoras que buscam candidatos por suas propostas, já sabendo o que não queremos, e Bolsonaro, no meu caso, é o primeiro que eu não quero. Mas se eu quero influenciar outros indecisos que mesmo diante dos absurdos que ele diz, ainda consideram votar nele, devo mostrar o quão despreparado ele é para o cargo de presidente, até mesmo, para o cargo de deputado que ele ocupa a quase três décadas.

Acredito que Bolsonaro e Ciro Gomes são os candidatos que estão a mais tempo em campanha presidencial, pelo menos se declarando pré-candidatos e agora confirmados. Mas uma diferença simples entre eles, é que ao menos o Ciro tem propostas efetivas para diversas áreas, mostrando que pelo menos se preocupou para além das polêmicas que ele também entra. Nesse caso, concordar ou não com suas propostas, vai de acordo com o que cada um acredita. Já Bolsonaro, quando indagado sobre temas básicos recorre à sua humilde ignorância (as vezes nem tão humilde assim), dizendo que quem deve saber de saúde por exemplo, será seu ministro, e acaba por ilustrar a discussão com algum caso particular que, nada tem de relevante para um tema tão abrangente e importante.

Com isso, quero ilustrar como acredito que continuará sendo de baixo nível as entrevistas e debates com o candidato Jair Bolsonaro, e é nesse mar que ele quer continuar nadando, pois foi assim que ele se forjou até hoje, e seus seguidores continuarão o apoiando a cada declaração preconceituosa que ele der, pois é disso que eles se alimentam. Se buscarmos um debate de alta qualidade, que seja propositivo dentro do que queremos de melhor para o país, acredito que conseguiremos eliminar pelo menos algumas figuras indesejáveis da nossa política.

Não acho que em 2018 será um ponto de virada e renovação em nossa política, ainda mais porque os rumos do país não se dão apenas pelo poder executivo, o legislativo é de fundamental nesse cenário. Mas, contrariando o ex-deputado e talentoso palhaço Tiririca: pior que está, pode ficar muito mais.

Sílvio Alberto.

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**As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo.

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