O Brasil está próximo de uma crise cambial? Alguns elementos podem nos ajudar a entender o cenário atual

Nas últimas semanas temos visto a crescente pressão sobre o real, num movimento de desvalorização da taxa de câmbio brasileira, frente a elevação da taxa de juros dos Estados Unidos. Assim, o presente texto tem como pretensão, apresentar um panorama geral desse movimento e, a situação das contas externas brasileiras, com vista a pensarmos uma possível situação que o nosso país enfrentará.

A primeira questão envolve o movimento de depreciação da nossa taxa de câmbio, ou seja, envolve a desvalorização do real frente ao dólar, e porque isso ocorre.

O câmbio é determinado (temos um texto sobre isso), basicamente, através da oferta e demanda por dólares (ou reais). Assim, se há uma maior demanda por dólares no mercado cambial (no Brasil), o dólar se valoriza frente ao real e temos uma depreciação da taxa de câmbio.

Vários são os motivos que levam à demanda e à oferta de dólares. Por exemplo, quando desejamos aumentar nossas importações, primeiro demandamos mais dólares, para posteriormente realizarmos a transação. Assim, se há um aumento das importações, essa tende a pressionar à valorização do dólar. No entanto, as operações de exportações e importações apresentam um volume menor de negociações que as financeiras, e bem menor também são estas frentes as operações no mercado futuro (de câmbio). Dessa forma, é importante frisarmos que o mercado futuro é o principal determinante da taxa de câmbio no Brasil, dado a sua elevada liquidez (maior volume de negociações que os demais mercados). Com isto, podemos observar que há um movimento de desvalorização da taxa de câmbio brasileira desde 2012, sem a efetiva saída de dólares, em que apenas em alguns períodos temos déficit no Balanço de Pagamentos (conta em que são registradas todas as transações entre residentes e não residentes).

Através do gráfico abaixo, que apresenta os fluxos de recursos das grandes contas do Balanço de Pagamentos (BP) brasileiro, é visto que, no período recente, apenas no final de 2013 e início de 2014 e, alguns meses de 2015 e 2016, apresentamos um resultado negativo do BP, ou seja, apenas em alguns períodos tivemos uma maior saída de dólares que entrada. Da mesma forma, vemos o persistente déficit em Transações Correntes (que engloba a balança comercial, de serviços, rendas e transações unilaterais) a partir de 2008 e, a recorrente necessidade da entrada líquida de recursos pela Conta Financeira (Investimentos em Carteira, Investimentos Diretos, Derivativos e Outros Investimentos), para compensar aquela saída.

Balanço de Pagamentos brasileiro (valores em US$ acumulados em doze meses)

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Com isto, mesmo que não haja uma efetiva saída de dólares no período recente, a taxa de câmbio brasileira apresenta tendência de desvalorização desde 2012, a despeito da manutenção das reservas internacionais.

Taxa de câmbio – Brasil (R$/US$)

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Reservas Internacionais brasileiras (US$ milhões)

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O movimento de estabilização das reservas cambiais, redução dos fluxos líquidos entrantes via Conta Financeira e desvalorização da taxa de cambio (R$/US$) fazem parte de um mesmo movimento, um movimento predominantemente externo, que é aquele que caracteriza o fim do ciclo de liquidez internacional.

Os ciclos de liquidez são movimentos monetários e financeiros, caracterizados pela variação periódica das transações financeiras internacionais, com períodos de ascendência e descendência dos ciclos, determinados, predominantemente pela política monetária dos países centrais (principalmente EUA) e preferência pela liquidez dos agentes (“vontade” de manter em carteira ativos mais ou menos líquidos; ativos de maior ou menor facilidade de negociação). Assim, quando os bancos centrais dos países do centro propõem políticas monetárias expansionistas, e/ou há uma redução da preferência pela liquidez dos agentes, os capitais deixam os centros e “descem” para a periferia (Brasil, por exemplo).

Assim foi o movimento iniciado em 2006, com ruptura no período da crise de subprime em 2008, e reavivado através das políticas de relaxamento monetário (quantitative easing), principalmente as norte-americanas, ocorridas de 2008 a 2012. Para se ter ideia, estima-se que essas injetaram cerca de US$ 3,6 trilhões na economia americana nesse período.

Acontece que, a partir de então (2012), o período é de elevação da volatilidade nos mercados internacionais e de problematização das economias periféricas, que passam a apresentar um movimento de desvalorização das suas moedas, caracterizando o movimento de retração da liquidez internacional.

Acirrando a queda da liquidez internacional, a partir de 2016, principalmente, a autoridade monetária norte-americana passa a sinalizar uma tendência de elevação da sua taxa de juros, com movimentos de elevação mais fortes e constantes a partir de 2017. É importante frisar que este movimento não leva apenas à troca de ativos brasileiros por ativos nos EUA, por exemplo, mas resulta num movimento baixista, de redução dos preços dos ativos (dos estoques de riqueza), e acirra as transações especulativas, que buscam aproveitar das variações de preços.

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Com isto, o período mais recente é de preocupação com as contas externas brasileiras, em que a entrada líquida de recursos via BP se reduz cada vez (redução dos fluxos líquidos entrantes via Conta Financeira), e que ainda que tenhamos, em contrapartida, uma redução dos déficits em Transações Correntes e uma elevada quantidade de reservas internacionais, o estoque de investimentos que “ingressaram” no país (passivo externo – que em grande parte são investimentos em carteira, mais líquidos), é bem superior aos nossos ativos externos (que são, basicamente, reservas e Investimentos brasileiros no Exterior). Ou seja, caso haja um movimento acirrado de saída de capitais, não conseguimos ofertar moeda estrangeira para todos. As intervenções no mercado futuro podem ser importantes também, mas insuficientes para um movimento “mais forte” de saída.

Posição de investimento internacional – Brasil (Estoque – US$ milhões)

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Assim, com o texto, queríamos chamar a atenção para alguns fatos:

  1. o movimento de desvalorização da taxa de câmbio não é um fenômeno recente e, não envolve, necessariamente, saída de recursos (dólares);
  2. o cenário externo (ciclos de liquidez) é o principal determinante das contas externas brasileiras (e do câmbio), ainda que o cenário interno também seja relevante;
  3. no período recente há uma problematização das contas externas brasileiras, e o cenário pode piorar, principalmente por estarmos próximos de uma eleição presidencial, que normalmente provoca maior instabilidade nos mercados financeiros, dada a maior insegurança dos agentes quanto ao futuro do país e;
  4. que o movimento recente não é uma exceção, mas a expressão de uma economia que é estruturalmente vulnerável e dependente dos acontecimentos externos

Henrique

Doutorando em Desenvolvimento Econômico pela UFU

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*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo.

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