O Brasil gosta de puxadinho

Sem título

 

“[A] primazia acentuada da vida rural concorda bem com o espírito da dominação portuguesa, que renunciou a trazer normas imperativas e absolutas, que cedeu todas as vezes em que as conveniências imediatas aconselharam a ceder, que cuidou menos em construir, planejar ou plantar alicerces, do que em feitorizar uma riqueza fácil e quase ao alcance da mão”.

Essa é uma das várias passagens em que Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, dá importante peso para a influência portuguesa na formação do Brasil. O caráter português curto-prazista, não-planejador e a dificuldade em enxergar o futuro, segundo o autor, seriam as raízes do Brasil de 1936 (ano em que foi publicada a primeira edição da obra), mas que poderíamos facilmente transpor para o primitivo ano de 2017.

O puxadinho reflete essa forte característica lusitana do brasileiro. Faz-se um outro cômodo na casa, que destoa da arquitetura inicial (se existe um plano arquitetônico) e o imóvel vai crescendo ao sabor do momento: sem planejamento, sem pensar no futuro. A vida imita o Estado e o Estado imita a vida.

Diferentemente do contexto norte-americano e britânico, em que fora proposto o ideário neoliberal de Reagan e Thatcher no final da década de 1980 (um menor gasto social devido ao fim da Era de ouro da economia mundial), o Brasil vivia um processo esquizofrênico: acabara de promulgar a constituição cidadã de 88, que, de modo geral, garantia direitos sociais ao cidadão brasileiro, mas, em sentido oposto, executava a agenda liberal: de privatizações, liberalização da conta de capital e abertura comercial.

O ano é 2017, mas se parece com os da década de 1990. Uma nova rodada de privatizações é imposta pelo governo no bojo de mais um novo avanço de ideias neoliberais, na contramão nacionalista e protecionista que vive o centro do mundo, diga-se de passagem. O anúncio da privatização de pelo menos 57 ativos por parte do governo vem em meio ao debate do aumento da meta fiscal de 2017 de R$139 bi para R$159 bi de déficit e a de 2018 de R$129 bi para R$159 bi. Nas palavras de Meirelles “(…) houve uma substancial queda de receita recebida até agora no ano de 2017 e a mudança consequente para a previsão de 2017”. Para o ministro da Fazenda essa tendência de queda da arrecadação também será mantida para 2018. Não foi estimado o quanto o governo pode arrecadar com essas vendas, mas fala-se em torno de R$44 bi.

Dentre os ativos que serão passados para a inciativa privada está a Eletrobras. Segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) a mudança de capitais majoritários, de público para privado, pode elevar em 10% a tarifa para os consumidores residenciais.

A discussão de privatização é tema recorrente nos debates entre economistas e, como não poderia ser diferente, divide opiniões. Existe o grupo que imagina um Estado pequeno, cuidando apenas do necessário para que a economia não saia totalmente do controle. Para esses, algumas empresas estatais são dispensáveis e seriam mais eficientes, do ponto de vista econômico, se fossem administradas pelo setor privado. A Vale é normalmente utilizada como exemplo por esse grupo, por representar o ganho de eficiência que o setor privado pode impor à uma firma.

Por outro lado, os que contrapõem esse argumento, ressaltam a necessidade de o Estado estar à frente de algumas empresas que têm papel estratégico no desenvolvimento econômico. A Petrobras é constantemente usada como exemplo, por representar grande parte do investimento total no Brasil, dinamizando setores importantes para o desenvolvimento econômico.

Pois bem, longe de ser consenso, o assunto é espinhoso e envolve ideologias diferentes acerca do papel do Estado na economia. O que o atual governo faz é, assim como em todas as reformas propostas e aprovadas, passar por cima da discussão e impor o próprio projeto (sem um voto nas urnas, diga-se de passagem). Além disso, transforma as privatizações em salvadoras do problema fiscal.

A tabela seguinte apresenta os fatores condicionantes da dívida líquida do governo federal. Ela é composta por três elementos: o gasto primário (o que o governo gasta na administração pública e investimentos públicos), o gasto com juros nominais e o gasto com ajustes cambiais. O que vemos é que a grande parte da dívida está direcionada para o pagamento de juros e, em 2014 e 2015, devido às desvalorizações cambiais, a manutenção das reservas internacionais gerou receitas para o governo, ao contrário de 2016. Assim, se o governo quer enfrentar de fato o problema de sua dívida deve necessariamente olhar para esses fatores.

TABELA 1 – CONDICIONANTES DA DÍVIDA LÍQUIDA DO GOVERNO FEDERAL (em milhões de R$)

tabela 1

Fonte: Banco Central

O tema das privatizações como mera venda de ativos para fechar as contas do gasto primário não deve ser discutido nesse momento conturbado, e sim num contexto de amplo debate, sobretudo estratégico e pensando no futuro. Inclusive porque a receita imediata com as vendas no curto prazo podem ser neutralizadas com perda de receita futura, dependendo da característica da produção e condições de venda. Ou seja, cada setor a ser elencado carece de muito mais estudos, e pelo seu caráter irreversível, não podem de qualquer maneira serem feitas a toque de caixa.

A tabela 2 também é interessante, porque podemos analisar outra possível fonte de receita do governo e que atualmente é simplesmente ignorada, a renúncia fiscal de bilhões de reais.

TABELA 2 – DESONERAÇÕES TRIBUTÁRIAS DO GOVERNO FEDERAL

tabela 2

Fonte: Banco Central

As desonerações fiscais feitas ainda pelo governo Dilma como política de incentivo à industrial nacional, e que não gerou frutos a não ser o seu próprio impeachment, continuam no governo Temer com um volume muito grande, que dariam mais de 6 vezes a atual venda de ativos.

As privatizações e a reforma política parecem materializar, na forma de reformas, as ideias já dissertadas por Buarque de Hollanda. Depois de tempos sem as reformas necessárias para a adequação da economia e sociedade brasileiras, elas vêm de forma insuficiente, capenga, sem grandes mudanças estruturais e sem planejamento de longo prazo. As privatizações, nesse momento, representam mais um puxadinho, que não orna com o design da casa. Prefere-se fazer um puxadinho a uma verdadeira reforma.

Iago L Silva

Mestrando em Economia o Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

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Desigualdade racial nas empresas: vamos falar sobre isso?

Embora os negros representem mais da metade da população brasileira, apenas 4,9% ocupam os cargos mais altos das 500 maiores empresas do Brasil.

No dia 04 de julho, o conselho universitário da USP aprovou a reserva de vagas para alunos oriundos de escola pública, além de pretos, pardos e indígenas (PPIs). No entanto, o recorte racial não foi feito sem resistência, pois o conselho havia aprovado, na semana anterior, a reserva de vagas para estudantes de escolas públicas sem o critério racial. A pressão pela inclusão do recorte racial dentro da reserva de vagas para candidatos oriundos de escolas públicas foi feita pelos estudantes, além de um manifesto assinado por 300 professores. A atitude dos estudantes e professores é fundada na ideia de que o recorte que não leve em conta o perfil étnico-racial (em conjugação com o social) não é suficiente para garantir o alcance da meta que estabelece que a universidade deve obter uma composição étnico-racial que expresse de forma mais fiel a composição da própria população.

Há quem seja contra a inclusão do critério racial nas reservas de vagas, por diversas razões. Uma delas – a que eu considero mais infundada – é que cotas para negros (nesse texto consideramos negros como sendo a soma de pretos e pardos, tal como o IBGE) dividem a população em “raças”. Não aceito esse argumento em um país que possuía expresso em lei (Lei nº 1 de 1837) a proibição de que “escravos e pretos africanos, ainda que livres e libertos”, frequentassem a escola. Não me digam que a divisão em raças surgiu depois das cotas, em um país no qual o “fim” da escravidão ocorreu quando já era inevitável e foi feito totalmente sem planejamento, já que nossos antepassados passaram e a ser escravos da miséria e do abandono, sem casa, sem terra e sem perspectiva, situação bastante diferente dos imigrantes europeus, muitos dos quais tinham acesso a terras brasileiras, ainda que fossem pobres – não se esqueçam que a pobreza e a exclusão social são fatores transmissíveis de uma geração para a outra.

Entendo o raciocínio de quem argumenta que as cotas sociais resolvem o problema, uma vez que acolhem tanto os negros pobres, quanto brancos. Não nego que os brancos pobres também sofram a falta de oportunidades advindas do fator econômico, mas para isso já são atingidos com as ações afirmativas, principalmente as de ingresso nas universidades destinadas a estudantes oriundos da rede pública.  No entanto, a questão da desigualdade racial é ainda mais severa e precisa de ações mais específicas.

Atualmente, a política de Ações afirmativas no Brasil, em âmbito federal, estabelece que 50% das vagas nas instituições federais de ensino sejam destinadas a estudantes oriundos da rede pública (ou seja, brancos e negros) e que, nessa reserva, seja feito um recorde racial, cujo percentual varia de acordo com a proporção de negros existentes em cada região. Dessa forma, alia-se o critério social com o racial, embora se atue mais fortemente sobre os negros pobres, que sofrem com a exclusão advinda da conjugação perversa da pobreza e racismo, o último se manifestando, sobretudo no mercado de trabalho.

É importante salientar que o que muitas pessoas não entendem – ou não querem entender – é que as cotas não são somente uma política de redução das desigualdades econômicas. Elas são uma medida para tornar mais negro o funcionalismo público, a universidade e, com isso, as empresas e seus cargos de chefia, a TV, o cinema, enfim, todos os espaços que outrora nos foram negados.  Quando houver tantos juízes, médicas, engenheiros, funcionários públicos, gerentes e empresárias negras, quanto forem as brancas, pararemos, então, com essa discussão.

Pois bem, passados mais de 10 anos da implantação das ações afirmativas nas universidades, observa-se a crescente inserção da população negra nesses espaços. No entanto, uma questão pouco debatida e que quero discutir é a desigualdade de raça/cor e gênero (insiro aqui a temática de gênero, que é igualmente importante) que existe no ambiente corporativo e qual o papel das empresas para reversão desse cenário, visto que não basta garantirmos o acesso à educação de qualidade, precisamos criar mecanismos que assegurem a inserção adequada no mercado de trabalho. Recente pesquisa do Instituto Ethos apontou que a desigualdade de raça/cor ainda está longe de ser superada, já que embora os negros representem mais da metade da população brasileira (cerca de 54%), apenas 6,3% estão, por exemplo, nos cargos de gerência das 500 maiores empresas do Brasil.

Distribuição do pessoal por cor/raça (%) nas 500 maiores empresas (em faturamento) do Brasil, no ano de 2016.
cargos

Fonte: elaboração própria com dados do Instituto Ethos.

Os dados sobre a distribuição por sexo também são impactantes. Por exemplo, as mulheres ocupam apenas 11% dos postos em conselho de administração dessas empresas, apesar de serem maioria entre os aprendizes e estagiários, evidenciando o afunilamento hierárquico ao qual estão submetidas, fenômeno que também ocorre quando se observa o aspecto cor/raça, visto que negros e negras ocupam 57,4% dos cargos de aprendizes, o que pode ser reflexo da maior facilidade de ingressar em cargos iniciais, advindo da recente ampliação do acesso ao ensino superior. No entanto, a progressão na carreira dentro das empresas ainda está muito aquém do ideal.

Distribuição do pessoal por sexo (%) nas 500 maiores empresas (em faturamento) do Brasil, no ano de 2016.

gráfico

Fonte: elaboração própria com dados do Instituto Ethos.

Diante da realidade acima imposta, chegamos a um ponto bastante importante da nossa conversa que é a colocação no mercado de trabalho e o papel das empresas privadas na reversão desse cenário de exclusão da população negra, visto que o setor público não é capaz de enfrentar, sozinho, essa questão histórica. Nesse sentido, as empresas ao possuírem sua parcela de culpa na exclusão social da população negra (inclusive, nos seus processos seletivos e sua busca pelo perfil tido como de “boa aparência”) devem atuar para reverter essa situação. A realidade também é perversa no tocante às mulheres, as quais sofrem discriminação associada à maternidade, além de serem as principais vítimas do trabalho não remunerado, sobretudo o doméstico. Quando se tratam de mulheres negras, a situação piora uma vez mais, visto que elas sofrem, além do fator econômico, da conjugação do racismo e do machismo.

Já existem empresas trabalhando para a maior inclusão dos profissionais negros e mulheres no ambiente corporativo, por meio de ações objetivando esse fim. É importante destacar que  não se trata de caridade e vai além da questão ética relacionada à igualdade entre as pessoas, apesar da importância desse aspecto. A promoção da equidade racial e de gênero já tem sido encarada como um diferencial competitivo das empresas, já que a diversidade estimula a criação de ambientes mais produtivos e criativos. Além disso, com as recentes mudanças sociais, empresas mais diversificadas em seus quadros de funcionários, certamente, são mais bem vistas por seus clientes.

As ações das empresas podem ser diversas, tais como incentivo ao ingresso e ascensão de negras e negros em cargos de chefia e destaque, a contratação de fornecedores dentro desse grupo étnico (o que vem sendo bastante utilizado nos EUA, sobretudo em relação aos latinos, sem discutirmos a forma como está sendo feita) e o apoio a iniciativas voltadas para as questões de gênero e raça. Essa última é uma forma relativamente simples de atuação das empresas e de grande impacto, uma vez que muitas já patrocinam eventos e projetos culturais (mediante incentivos tributários) direcionados a outros públicos, bastando aplicar parte dos recursos para ações de valorização da cultura negra e discussões de gênero, o que – além do aspecto econômico – contribui para a autoestima da população atingida e estimula o respeito e a mudança de olhar por parte da população em geral.

Apesar de ações corporativas para a promoção da igualdade de gênero e raça já estarem sendo discutidas no Brasil, a realidade é que a maioria das principais empresas brasileiras ainda não tem ações afirmativas para incentivar a maior presença de mulheres e negros em seus quadros, como apresenta a pesquisa do Instituto Ethos. O estudo em parceria com a ONU mulheres e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) analisou as 117 maiores empresas, em faturamento, do Brasil no ano de 2016 e apontou que grande parte delas nem sequer possuía ações para a promoção da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres e/ou entre negros e brancos, o que contribui para a perpetuação da situação que os dados aqui apresentados mostram.

O interessante é observar que boa parte dos gestores entrevistados (64%) afirmou que tem consciência que a presença de negros no quadro executivo da empresa está aquém do que deveria, por exemplo. Além disso, cerca de 53% pensam a mesma coisa em relação à presença das mulheres. Quando questionados sobre o motivo dessa situação, boa parte dos gestores colocou que há falta de experiência da empresa em lidar com o assunto.

Realmente, há falta de experiência na discussão do assunto, principalmente porque grande parte da população ainda se nega a reconhecer que não somos todos iguais e não temos as mesmas oportunidades de ascensão social, e que não basta repetirmos o mantra de que o problema é a educação básica e que basta resolver isso para termos igualdade de condições. Ainda há questões que vão além da educação e da situação econômica. Existe racismo (o que muitos, por incrível que pareça, se recusam a aceitar), machismo, lgtbfobia, dentre diversas formas de discriminação a serem combatidas, sendo as ações afirmativas extremamente importantes nesse sentido.

As empresas devem estar atentas à questão da inclusão e da ampliação da diversidade nos seus quadros de funcionários, bem como na sua estrutura hierárquica. A instituição de práticas como o monitoramento da evolução dos dados relacionados ao gênero, cor/raça no que diz respeito ao recrutamento e progressão de seus funcionários é de extrema importância para se pensar em ações para corrigir as distorções.

Enfrentar o debate é o início do ataque ao problema. Para quem ainda não entendeu, vamos entoar, em alto e bom som, as palavras: Diversificar e, sobretudo, “Enegrecer”. É preciso entender esse sentido das ações afirmativas para conseguirmos ir além da questão econômica, por mais que ela seja importante. A questão é também de representatividade, de ocupação dos espaços. Chegará o momento no qual entraremos em uma empresa e não lançaremos olhares procurando quem é  a gerente, o auxiliar de limpeza, a atendente e o engenheiro, de acordo com a cor da pele, sexo e etc., porque o nosso país já terá feito o seu dever mínimo, ou seja, o de corrigir os erros históricos, e esses papéis já serão impossíveis de serem identificados, por exemplo, pelo perfil étnico-racial das pessoas.

Douglas Xavier

Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

*Para maiores informações sobre ações afirmativas nas empresas acesse a pesquisa Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas. Disponível em:

http://www3.ethos.org.br/cedoc/perfil-social-racial-e-de-genero-das-500-maiores-empresas-do-brasil-e-suas-acoes-afirmativas/#.WV_1YhXyvMU

**Veja também indicadores para a promoção da igualdade racial e de gênero aplicáveis     nas empresas:

http://www3.ethos.org.br/cedoc/indicadores-ethos-ceert-para-promocao-de-equidade-racial/

 

Sim, Sense8 pode ajudar a explicar Trump

Na última semana estreou a segunda temporada da série Sense8, sucesso da plataforma de streaming Netflix. Para aqueles que não a seguem, Sense8 é uma série de drama/fantasia que retrata os desafios enfrentados por oito jovens, cada um em um canto do planeta, que estão “conectados” entre si. Essa conexão permite que eles estejam virtualmente presentes na vida uns dos outros, compartilhando habilidades, sensações e experiências. De forma geral, a série trata de um evidente discurso sobre empatia, e como ações de um dos integrantes do grupo podem gerar impacto no grupo como um todo, mesmo do outro lado do mundo. Essas características ajudam a explicar o porquê a série é um fenômeno, principalmente entre adolescentes e jovens adultos.

Também nas últimas semanas, grande parte da mídia voltou os olhos para as eleições presidenciais da França. De um lado Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional e representante da extrema-direita, do outro, Emmanuel Macron, centrista e social liberal. A primeira representava uma mudança abrupta, com ideias nacionalistas, anti-União Europeia, anti-imigração, mas que acabou sendo derrotada pelo opositor Macron, liberal em relação à economia e favorável à União Europeia. Apesar de Le Pen não ter sido escolhida para liderar o País, a mensagem foi clara: muitos franceses estão incomodados com a situação do país.

Ainda assim, Macron representa um fôlego para a União Europeia, após o choque causado pelo Brexit. Do outro lado do Atlântico, Trump continua com seu discurso mais duro sobre questões sensíveis como a Coreia do Norte e a Síria, ao mesmo tempo em que favorece o fechamento de fronteiras para imigrantes, e desfaz políticas do governo anterior, como a reforma do sistema de saúde, conhecida como “Obamacare”.

Mas o que Sense8, a eleição de Trump, o Brexit e a ascensão do nacionalismo e da extrema direita na Europa têm em comum? Globalização. O processo de integração internacional, no âmbito econômico, cultural, social e político parece não ser reversível. Na realidade, a globalização parece ser um processo que surgiu com a fase da exploração ultramarina europeia no século XIV e, após diversas fases, tem ganhando novos contornos a partir dos anos 1980 com a derrocada do regime socialista soviético. A partir de então, o processo de liberalização econômica, a ampliação de livre fluxos de mercadorias e, ainda mais de capitais, correntes de imigração e formas de governo mais democráticas têm sido a regra da globalização.

Também foi nesse período, mais especificamente entre o fim dos anos 1980 e início da década de 1990, que Francis Fuckuyuama publicou um artigo, e posteriormente um livro intitulado O fim da história e o último homem. Em suas proposições Fukuyuama defende que autores como Marx e Hegel previram o “fim da história” ao sugerirem que a evolução da humanidade teria um limite, o qual ocorreria assim que suas aspirações mais profundas fossem atendidas.

Partindo desse pensando hegeliano, Fukuyuama sugere que a democracia e o liberalismo econômico seriam o ápice das sociedades ocidentais. A partir de então, estariam garantidas a liberdade e a igualdade de oportunidades para cada cidadão. A emergência de uma sociedade tecnológica, representada principalmente pelo advento das tecnologias de informação e a internet, poderiam atender às necessidades básicas humanas, e o próprio liberalismo seria associado à democracia. Nas palavras do autor “o direito de participar do poder político pode ser considerado como outro direito liberal, na verdade, o mais importante, e é por isto que o liberalismo tem sido historicamente associado à democracia”. Ao defender a democracia liberal, o autor leva a entender que outros regimes políticos ou econômicos seriam ultrapassados, e que governos autoritários, como na Coreia do Norte ou na China, não resistiram por muito tempo.

Mais de vinte anos se passaram desde o polêmico livro e o cenário global apresenta contrapontos à teoria apresentada por Fukuyuama. A ascensão do extremismo religioso, principalmente o islâmico no Oriente Médio, a manutenção de regimes autoritários em diversos países do sudeste asiático, na China e na Coreia do Sul, bem como as convulsões democráticas causadas pelo Brexit e a eleição de Donald Trump nos EUA deixam isso claro. Após cerca de 40 anos de globalização aos moldes liberais os resultados não têm sido satisfatórios. Por outro lado, foi verificado a melhora nas condições de vida de milhões que saíram da miséria, principalmente na América Latina e Ásia, e também a ascensão econômica de países do Leste Asiático.

Ao que tudo indica, o autor estava ao menos parcialmente errado, e o próprio parece reconhecer recentemente que foi “mal interpretado”. O que acontece é que, assim como em Sense8, as decisões tomadas por uma nação têm impacto direto em outras, porém, diferentemente do verificado na série da Netflix o modelo de globalização que está em vigor não consegue contemplar a real conexão entre as diferentes sociedades que compõe o sistema mundo, não há troca de habilidades ou de conhecimento. Os países ricos continuam praticando barreiras alfandegárias à produtos primários dos países mais pobres, e os países mais pobres continuam a ter, ou voltar a ter, economias reflexivas aos acontecimentos e decisões dos países mais ricos.

Na era da internet e dos smartphones, a comunicação e a informação parecem ser as únicas a serem, de fato, globalizadas. Assim como um jovem do Japão, outro no interior do Peru pode ter acesso a perfis em redes sociais, seguir uma modelo famosa brasileira, e claro, assistir Sense8, produzida nos EUA. Esse jovem, esteja onde estiver, tem acesso à informação referente a todos os bens de consumo ofertados nos grandes centros urbanos do mundo desenvolvido. Ele pode fazer amizades com estadunidenses, espanhóis ou mexicanos. Entretanto, as oportunidades não são as mesmas. Aos cidadãos dos países mais pobres continuam sendo negados serviços básicos de saúde e educação, e, com isso, ao chegar ao mercado de trabalho, o que eles têm para ofertar ao mundo em troca de todos esses bens de consumo é muito pouco.

O resultado é a indignação, a insatisfação de não ter acesso ao que melhor pode ser ofertado pelo mundo globalizado. Por algum tempo isso foi restrito a países de baixa renda. Entretanto, a própria globalização aos moldes liberais começou a gerar insatisfação também dentro das fronteiras dos países ricos. Indústrias e setores inteiros da Europa e, principalmente, EUA migraram para países asiáticos, em grande parte para a China. Esses páises asiáticos passaram por uma intensa onda de industrialização e, ao contrário da América Latina, adotaram políticas industrializantes e de estímulo ao comércio exterior, em grande parte contrárias ao consenso de Washington. Hoje, o salário médio de um trabalhador industrial chinês já é maior que o de um trabalhador brasileiro (ainda nesta década o PIB PPP per capita chinês também deve ultrapassar o do Brasil).

Os resultados gestados durante mais de três décadas deste modelo estão sendo verificados na insatisfação das camadas de classe média dos países ricos. Nos EUA, os trabalhadores industriais, em grande maioria brancos da região nordeste e sul do país, viram suas condições de vida caírem. Com salários estagnados, perda de empregos causados pela mudança da base produtiva para os países da Ásia, o que resta são os empregos no setor terciário, em muitos casos aqueles de baixa produtividade, como os ofertados por redes de varejo como o Walmart. Ao mesmo tempo, os filhos dessa antiga classe média se afogam em dívidas estudantis para tentar concluir um curso de nível superior ou pós-graduação, mas as condições no mercado de trabalho cada vez mais competitivo não têm apresentando a todos os estudantes recompensas ou formas de pagar essas dívidas.

O resultado de tanta insatisfação é a eleição de grupos que promovem o nacionalismo populista. As causas econômicas das eleições de Trump e do Brexit, além dos discursos xenófobos, é a insegurança e a queda do padrão de vida de camadas gigantescas das populações dos países ricos.

A globalização pode ser um processo sem volta, mas a forma com que ela é realizada pode sim ser alterada. Se causas humanitárias movessem os interesses da expansão da democracia, como sugere Fukuyuama, os EUA ou a União Europeia já teriam intervindo em tragédias como a da guerra civil do Sudão, mas ao que tudo indica esse não é o interesse dos que estão ganhando com a globalização liberal. Proporcionar as condições mínimas de vida para todos os cidadãos do mundo, como educação e saúde, sem piorar a situação dos que já conquistaram direitos, além de promover a empatia a outras culturas, e não a imposição cultural do ocidente, parecem ser os grandes desafios para que o processo de globalização consiga entregar algo minimamente parecido com o que é apresentado em Sense8: a extinção de fronteiras entre pessoas de diferentes culturas e expansão de humanidade em seu melhor sentido.

Marcelo

* As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo

“O MIMIMI ESQUERDALHA”

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O Brasil é um país conhecido dentre vários fatores, pela beleza de suas mulheres. Mas nos últimos tempos nem se pode mais cantar uma mina que ela logo reclama e corre pra fazer “textão” no Facebook, e a razão disso é:

“Culpa dessas feministas mal amadas”

“Pois mulher que é vaidosa adora receber uma cantada pra elevar sua autoestima”

“Até por que, essas feministas são tudo feia, peluda, sapata, pois se fossem bonitas não seriam assim”

“Porque mulher que é mulher, gosta de homem que tome a iniciativa e que tenha pegada”

“A fulana agora deu pra virar lésbica. Deve ser só uma fase”

“Por mim, ela até pode ser sapatão, mas poderia vestir umas roupinhas mais femininas, pelo menos”

“O que falta pra essas lésbicas é tomar um bom chá de ro…”

E é até engraçado que em um país com tantas mulheres bonitas, o número de gays não para de aumentar, não é criticando quem é gay, mas não dá pra entender o que passa na cabeça deles, até por que:

“Eu não sou homofóbico, mas também, eles precisam se beijar em público?”

“Eu não sou homofóbico, mas se vier com viadagem, eu desço a porrada”

“Eu não sou homofóbico, mas eles poderiam ser mais discretos”

“E se eles vão se casar, então quem entrará de terno em quem entrará de vestido de noiva?”

Mas sempre tem alguém que reclama quando nós cidadãos de bem exercemos nossa liberdade de expressão como gostaríamos, só porque alguns se sentem ofendidos. Mas é muito relativo isso, por exemplo, eu conheço vários negros, inclusive tenho amigos negros, e sempre faço brincadeiras e piadas com eles, mas tem gente que quer falar que eu sou racista, mas o fato é que:

“Os mais racistas são os próprios negros”

“Os negros que defendem as cotas, por exemplo, são os mais racistas”

“Qual é o problema em ser chamado de macaco? Eu quando era criança sempre fui chamado de girafa, macaco pelo menos é mais um animal mais esperto”

“A escravidão foi a tanto tempo atrás e ainda tem negro que hoje se faz de vítima.”

Assim como se fazem de vítima os bandidos, que fazem a população de bem refém em suas próprias casas, pois sabem que os direitos humanos vão proteger eles, pois é sempre assim:

“Os direitos humanos deveriam ser feitos para a população de bem”,

“Mas os direitos humanos na verdade são os direitos dos manos”.

E depois ainda me criticam quando eu digo que:

“Nós, os cidadãos de bem, temos que começar a fazer justiça com as próprias mãos”

“Pois bandido bom é bandido morto”

“Morreu na cadeia? Que maravilha”

“Se está com dó? Leva pra casa.”

Mas espere um momento…

“Espancada ao reagir a assédio morre após 4 meses de internação no RJ” [25/07/2016 17h09 – Atualizado em 26/07/2016 15h10] <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/07/espancada-ao-reagir-cantada-morre-apos-4-meses-de-internacao-no-rj.html>

“Assédio sexual é motivo de preocupação para mulheres durante o Carnaval” [21/02/2017 – 06h00 – Atualizado 08h18] <http://hojeemdia.com.br/horizontes/ass%C3%A9dio-sexual-%C3%A9-motivo-de-preocupa%C3%A7%C3%A3o-para-mulheres-durante-o-carnaval-1.447356>

“Assédio de mulheres? Isso é um ‘elogio’ nos países do sul, diz comissária europeia” [3/2/2017 – 15h02] <http://observador.pt/2017/02/03/assedio-de-mulheres-isso-e-um-elogio-nos-paises-do-sul-diz-comissaria-europeia/>

“Em post, jovem disse antes de morrer que foi agredido pela mãe por ser gay” [16/01/2017 15h51 – Atualizado em 16/01/2017 18h01] <http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2017/01/em-post-jovem-disse-antes-de-morrer-que-foi-agredido-pela-mae-por-ser-gay.html>

“Jair Bolsonaro: ‘Sou preconceituoso, com muito orgulho’” [02/07/2011 – 08h50 – Atualizado ‘em 02/07/2011 – 16h39] <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI245890-15223,00.html>

“Jogador brasileiro sofre racismo de torcedores e jogadores e vai às lágrimas na sérvia” [20/02/2017 – 19:54 – Editado em: 20/02/2017 – 20h19] <http://www.1news.com.br/noticia/6958/rodrigo-da-silva-monteiro/esportes/jogador-brasileiro-sofre-racismo-de-torcedores-e-jogadores-e-vai-as-lagrimas-na-servia>

“Bruno Gagliasso registra queixa por ofensas racistas contra a sua filha” [16/11/2016 10h19 – Atualizado em 16/11/2016 16h26] <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/11/bruno-gagliasso-chega-delegacia-para-registrar-queixa-por-racismo.html>

“PM de Campinas determina abordagem de suspeitos de ‘cor parda e negra’” [23/01/2013 | 19h13] <http://www.estadao.com.br/noticias/geral,pm-de-campinas-determina-abordagem-de-suspeitos-de-cor-parda-e-negra,987908>

“Homem negro desarmado é morto por policial em estrada dos EUA” [20/09/2016 04h27 – Atualizado em 20/09/2016 04h27] <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/09/homem-negro-desarmado-e-morto-por-policial-em-estrada-dos-eua.html>

Adolescente é absolvido 70 anos depois de ser executado por homicídio nos EUA” 18/12/2014 – 17h44] <https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2014/12/18/jovem-negro-e-absolvido-70-anos-depois-de-ser-executado-por-homicidio-nos-eua.htm>

“Adolescente suspeito de roubo é espancado e amarrado nu em poste na zona sul do Rio”  [3/2/2014 – 11h28 – Atualizado em 3/2/2014 – 12h10] <http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/adolescente-suspeito-de-roubo-e-espancado-e-amarrado-nu-em-poste-na-zona-sul-do-rio-03022014>

“Morre mulher linchada no Guarujá (SP) por suspeita de realizar magia negra” [05/05/2014 – 11h18] <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/05/05/morre-mulher-linchada-pela-populacao-no-guaruja.htm>

“CNJ aponta que 30% dos presos no Brasil não foram julgados” [23/02/2017 22h24 – Atualização – 22h47] <http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/Policia/2017/02/611052/CNJ-aponta-que-30-dos-presos-no-Brasil-nao-foram-julgados>

“Pelo 5º ano, Brasil é líder em mortes em conflitos de terra; Rondônia é Estado mais violento no campo” [20 junho 2016] <http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36580912>

Mas é claro, isso é só mais um mimimi esquerdalha.

Sílvio Alberto.

**As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo.

Lugar de Preto: a construção da identidade negra e o papel da mídia

O que inspirou esse texto foi a polêmica gerada em torno da nova temporada de Malhação, intitulada “Pro dia Nascer Feliz”, em substituição à anterior “Seu Lugar no Mundo”. A nova temporada terá sua primeira protagonista negra, após 21 anos (é isso mesmo!) de exibição do folhetim. A atriz Aline Dias, 23 anos, viverá Joana, uma garota cearense e pobre que sairá do seu estado natal para tentar a vida no Rio de Janeiro. Lá trabalhará como faxineira em uma academia e se apaixonará pelo jogador de vôlei Gabriel, branco e de melhor condição socioeconômica.

Esse fato gerou críticas, sobretudo na internet, uma vez que a trama estaria reforçando um estereótipo que vem sido apresentado há muito tempo na mídia, principalmente nas telenovelas, que é o da personagem negra, pobre, que se apaixona pelo rapaz branco e rico, sofre toda sorte de humilhações das personagens brancas até, no final, ficar com o rapaz rico e “subir na vida”, ao invés de situar a personagem enquanto estudante comum, como todas as outras protagonistas até então.

Nos anos recentes, observamos a ampliação da presença de negros na mídia brasileira. Recordemos a trama “Da cor do pecado” de 2004, na qual a atriz Taís Araújo vive a protagonista Preta, o que se torna um marco dos avanços recentes. No entanto, a euforia causada por esse fato acaba obscurecendo a visão estereotipada do negro trazida na novela e que o próprio nome da trama demonstra, ou seja, qual é a cor do pecado.

Observamos também outras situações que demonstram avanços em relação à representação do negro nos veículos de comunicação, mas infelizmente, a presença desse segmento da população brasileira nesses espaços ainda possui caráter secundário e uma posição de destaque é exceção. O caráter de exceção é tanto que quando uma jornalista negra aparece no jornal de maior visibilidade do País, com seu cabelo crespo, é atacada por internautas racistas. Quem não se lembra do caso Maju?

O ataque à jornalista veio pra confirmar o que já sabíamos: o Brasil ainda é um país racista, no qual o “lugar de preto” está bem definido no imaginário de muita gente e, com certeza, não é no horário nobre e muito menos sem alisar o cabelo. Ah, mas o tempo é mesmo o senhor de tudo. Não é mesmo, Ali Kamel?

Há 10 anos, o diretor de jornalismo da TV Globo, publicava o livro “Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor”. No livro publicado em 2006, o sociólogo e jornalista, argumenta contra a adoção de cotas raciais nas universidades públicas, pois, segundo ele, tal política, ao “dividir” o País entre negros e brancos,  ao contrário de combater o racismo,  poderia incitar o ódio racial.

Um grande equívoco da análise do autor, como apontado pelo Professor da UFRRJ Aristóteles de Paula Berino, é associar ao racismo principalmente uma ação odiosa, o que o faz afirmar que isso, definitivamente, não estaria presente na nossa sociedade. Afirmação que se perde diante das ações de ódio dirigidas, poucos anos depois, aos próprios funcionários da emissora em que o autor trabalha, a exemplo de Maju, Taís Araújo, Cris Vianna e Sheron Menezzes.

Observa-se com os exemplos citados que os ataques se dirigiram em grande magnitude às mulheres negras, as quais sofrem – nas palavras de Sueli Carneiro – “da conjugação perversa do racismo e do sexismo, que resulta em uma espécie de asfixia social com desdobramentos negativos em todas as dimensões da vida. Esses se manifestam em sequelas emocionais com danos à saúde mental e rebaixamento da autoestima”.

Chegamos ao ponto principal do texto: a autoestima. O que quero enfatizar nesse texto não é o aspecto quantitativo da presença do negro na mídia (o que têm melhorado, sobretudo a partir da década de 1990), mas sim a forma como estamos inseridos. Diante disso, a questão que se coloca é: Que papel que nós negros temos nessa mídia? Quais personagens recebemos nas telenovelas? Quantos de nós estamos nos cargos de direção dos veículos de comunicação? Quantos roteiristas somos?

Sabemos que a realidade brasileira é marcada por uma perversa desigualdade racial e que a população pobre é majoritariamente negra (o que inclui pretos e pardos). Nesse sentido, podemos dizer que o que as novelas, filmes, seriados, etc, fazem nada mais é que tentar retratar essa realidade. No entanto, o que não recebe atenção é o fato de que a TV enquanto principal veículo de comunicação consumido pelos brasileiros possui o poder de influenciar a construção da identidade das pessoas, bem como sua autoestima e imaginário. Nesse sentido, mais do que uma representação do real, a TV precisa ser pensada como elemento influenciador da própria construção do real, como aponta a professora da UNB, Renísia Garcia.

Digo isso, enquanto negro que já foi criança e não se via representado na mídia como pessoa que pudesse ter qualquer profissão que quisesse, por exemplo. Digo isso, enquanto estudante de ensino médio que não tinha um professor negro em que se espelhar, o mesmo ocorrendo na graduação e pós-graduação. Não fosse a persistência da minha família em deixar claro que eu poderia ocupar o espaço que eu quisesse, talvez esse texto nem existisse nesse momento.

Eu vos pergunto: como podemos chegar para uma criança pobre negra e dizer que ela pode ser uma professora, um advogado, uma médica, um ator, uma jornalista, se na sua escola ela não tem uma professora que a representa? Se nem na novela pessoas como ela desempenham essas atividades? E aí que está a questão da autoestima.

Como influenciar na construção da identidade e autonomia dessas crianças, se a história eurocêntrica que lhes foi colocada na escola situa o sujeito negro como passivo no processo de colonização e escravidão, negando a essas crianças o conhecimento acerca da luta e resistência dos povos negros.

Esse cenário está em vias de modificação devido a ações como a Lei 10.639 de 2003, que inclui no currículo oficial do ensino fundamental e médio o ensino da “história e cultura afrobrasileira e africana’’, cuja importância é inegável para a construção de um ideal de inserção do negro na história do País, demonstrando sua importância na constituição da nação, que extrapola a escravidão. Com a criação da lei nosso desafio é preparar os nossos professores para o cumprimento desse nobre papel de agentes contra o preconceito, desigualdade e discriminação racial.

Outra ação importante foi a criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), em 2003, com a função de articular políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial. A secretaria passou a compor o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos em 2008. No entanto, infelizmente, foi extinto em maio deste ano, como parte da reforma ministerial do governo interino de Michel Temer e os temas da pasta passaram a ser discutidos no âmbito do Ministério da Justiça e Cidadania.

O estatuto da igualdade racial de 2010 também se constitui um grande avanço, inclusive na questão da mídia ao instituir que na produção de filmes e programas destinados à veiculação pelas emissoras de televisão e em salas cinematográficas, deva ser adotada a prática de conferir oportunidades de emprego para atores, figurantes e técnicos negros, o que vale também para as peças publicitárias. Além disso, os órgãos entidades e empresas públicas devem incluir cláusulas de participação de artistas negros nos contratos de realização de filmes, programas ou quaisquer outras peças de caráter publicitárias. Essa ação já têm efeitos notáveis, pois já se observa um aumento da participação de negras e negros nas peças publicitárias, filmes, seriados, dentre outros.

A aprovação da lei 12.711 em 2012, que reserva 50% das vagas das instituições federais de ensino superior para estudantes oriundos da rede pública de ensino, abrangendo critérios de cor/raça, se constitui, juntamente com a lei 10.639, uma importante conquista de movimentos sociais no Brasil. Essas conquistas contaram fortemente com a atuação do Movimento Negro, sobretudo após as reivindicações da Marcha de Zumbi dos Palmares contra o Racismo pela Cidadania e a Vida, em 1995, que reuniu aproximadamente 300 mil pessoas. Isso demonstra que a implantação das ações afirmativas não é reflexo apenas da benevolência do Governo Federal, mas sim, de um processo de luta constante que precisa ficar claro no imaginário da população.

Como é possível perceber, houve avanços no âmbito do acesso à educação, ensino da história, dentre outros direitos dos povos negros, embora haja algumas tentativas de cerceamento desses direitos adquiridos, como podemos verificar com a extinção do ministério que tratava da igualdade racial. No entanto, o que quero chamar atenção nesse texto é para os avanços que ainda precisamos fazer no âmbito psicológico, rumo à construção de um ideal de pertencimento da população negra brasileira.

É necessário que consigamos desconstruir o imaginário depreciativo e o estigma que ronda a população negra e, nessa questão, o papel da mídia é de extrema importância, pois quando ela destaca – por exemplo – um padrão que já existe no imaginário da população acerca do que seja um “marginal”, como coloca a professora Renísia Garcia, ela referenda essa imagem e dificulta a desconstrução do preconceito.

É nesse sentido que se colocam as críticas dirigidas a teledramaturgia, retratadas no início desse texto. É papel dela também – mais que retratar a realidade – de contribuir para a construção de uma nova realidade, na qual os pobres, negros, as mulheres, homossexuais, se vejam retratados em sua luta, mas que também se inspirem na superação das dificuldades que a sociedade desigual os impõe, para que alcancem verdadeiramente o Seu Lugar no Mundo, que é exatamente onde quiserem estar.

Douglas

*As ideias contidas nos textos traduzem as opiniões/pensamentos do(a) autor(a), não de todos os membros do grupo