Crise moral e falsas analogias

Falácias (1)

Em fevereiro do ano passado, quando escrevi o segundo texto deste blog, disse que a crise que passávamos não era apenas econômica e política, mas também moral. Hoje, passados quase um ano e meio, percebo como essa análise continua verdadeira.

O sentimento é de que não há mais tolerância nenhuma a nada, exceto ao velho. Parece que o “politicamente correto”, que tanto cresceu nos últimos anos, chegou a um limite em que parte da população ficou tão saturada, que começamos a ver retrocessos cívicos na opinião pública, e em virtude disso, fragilização de instituições e liberdades em nome de uma histeria coletiva.

Direitos humanos, que são uma grande conquista depois da barbárie vivida nas guerras mundiais, começam a ser vistos como “direitos dos manos”, “coisa de esquerda”. É importante frisar que essa fração dos problemas nacionais é, na verdade, um problema global.

Assim, quando pautas que dizem respeito a direitos humanos são contestadas por parte da população, percebemos que avanços que pareciam ter deixado para trás velhas práticas, não foram capazes de enterrar de vez certos problemas sociais.

Uma coisa que chama atenção nesse contexto é o uso recorrente de argumentos falaciosos para ancorar certezas incertas. Em vez das pessoas analisarem o que dá certo e o que dá errado, e partir daí modificar a forma como pensam o mundo, há na verdade uma tentativa de mudança dos parâmetros do que deu certo e errado para reafirmar o mesmo pensamento. Poucos são os capazes de assumir que erraram. Dos dois lados.

A atual esquerda erra em não se adiantar na autocrítica e em sua reconstrução, com ideias novas, percebendo o que fez de errado. A direita, tanto liberal, como conservadora, utiliza-se da nossa atual incapacidade de reconhecer que uma coisa está errada sem acreditar que para assumir isso precisemos concordar que seu oposto é o certo.

Nessa briga de extremos e da inserção dos “não-políticos”, que tende a dominar o país no próximo ano nas eleições presidenciais, incorremos em vários argumentos falaciosos para sustentar nossas falsas verdades.

Assim, para entender o que significa argumento falacioso, comecemos definindo silogismo. Silogismo é uma forma de raciocino dedutivo, composto de uma premissa maior, uma menor e uma conclusão.

“Todos os homens são mortais ← premissa maior
Sócrates é homem ← premissa menor
Logo, Sócrates é mortal” ← conclusão

Contudo, enquanto o silogismo é uma forma de raciocínio que parte do geral para o concreto, podendo ser condicional ou hipotético, disjuntivo, um dilema ou entinema, uma falácia é um erro de raciocínio.

Esse erro pode ocorrer porque houve generalização excessiva do argumento, uso de falsas analogias ou deduções, argumento autoritário, falso axioma ou de um círculo vicioso.

Quero chamar atenção para uma falácia presente no discurso liberal, que se apoia no fracasso da esquerda em responder certas demandas sociais para se engrandecer.

A primeira delas, e acho que a mais fácil de desconstruir, pode ser ilustrada na seguinte frase:

“Se socialismo fosse bom, os americanos estariam se jogando no mar para ir para Cuba, não o contrário”.

Nesse argumento, o erro é uma falsa analogia. Os Estados Unidos são sim um país muito rico e onde muitos desejam morar, os Estados Unidos são um país capitalista, mas não é verdade que se um país for capitalista será os Estados Unidos.

O capitalismo deve ser entendido de maneira global. Existem mais de 200 países no mundo, mas apenas os Estados Unidos possuem a riqueza dos Estados Unidos, e apenas outros 50 e poucos são considerados desenvolvidos. Se Cuba fosse capitalista ela não seria como os Estados Unidos, ela possivelmente seria mais próxima de suas nações vizinhas, como o Haiti, Honduras, Costa Rica, etc.

Cuba tem os problemas que por si só a condenam, como a falta de liberdade e oportunidades individuais. Não é necessário usar argumentos falaciosos para provar este ponto. Cuba ainda seria  um país pobre, assim como seus vizinhos, se capitalista fosse. Provavelmente com maiores índices de liberdade, com menos saúde e educação, mas pobre. É preciso ser claro para que as pessoas façam as escolhas sociais.

O mesmo erro se encontra em analisar os indicadores de liberdade econômica de maneira isolada e ao tratar da reforma trabalhista.

De outro lado, na direita conservadora, vejo defensores do regime militar dizendo que o regime no país matou poucas pessoas, se comparado ao regime que evitaram que se instaurasse no Brasil (supostamente, o comunismo). Aqui, o problema do argumento exige não apenas que o leitor perceba a falsa analogia, como no caso anterior. É necessário que ele conheça um pouco de história para constatar que o argumento parte de premissas falsas.

Os que se debruçam a estudar a história brasileira sabem que o partido comunista não era a ameaça que a ditadura militar buscava combater. Para Ianni (1977), três correntes importantes dividiram o pensamento econômico governamental de 1930-1970 (lembrando que o regime militar se estabeleceu em 1964):

  • O desenvolvimento nacionalista, que vigorou de 1930-45, 1951-54 e 1961-64 (primeiro e segundo governo de Getúlio Vargas e João Goulart, respectivamente);
  • A estratégia de desenvolvimento dependente, que prevaleceu nos anos de 1946-50, 1955-60 e 1964-70 (governos de Dutra, de Juscelino Kubitschek e da ditadura militar);
  • E a estratégia de desenvolvimento socialista, que nunca chegou a ter controle sobre centros de decisões do país.

O projeto trabalhista de João Goulart não tinha nada de comunista, como nos mostram os historiadores. O economista Celso Furtado, que elaborou o plano econômico do governo de Goulart era capitalista, mas entendia as restrições e necessidades de planejamento estatal para uma nação com origens monocultoras, oligárquicas e escravocratas tinha para que se instaurasse no país um capitalismo que propiciasse desenvolvimento econômico. Aliás, as nações centrais, incluindo os Estados Unidos, apostaram em grande expansão do gasto social e intervencionismo estatal no período, afim de consolidar sua hegemonia e propiciar desenvolvimento econômico sustentado.

Esse entendimento parte da visão de como o capitalismo deve ser visualizado: um sistema global, que apresenta como produto os países desenvolvidos e industrializados, e como subproduto, as nações periféricas e dependentes.

Quando se fala que o capitalismo venceu por mostrar os casos de nações desenvolvidas como exemplo, esquecem da quantidade de países capitalistas que falham todos os dias em garantir condições mínimas de vida a seus habitantes. Eu diria que na verdade, países periféricos que não conseguem avançar e se tornarem de fato capitalistas. Afinal, para ser capitalista, a nação precisa, necessariamente, de capital, da figura do empresário e de mão de obra assalariada. O que se vê em muitos países, por diversas questões, é pobreza, elites oligárquicas mantidas no poder econômico não por mérito, mas por privilégios hereditários, e um exército de mão de obra de subsistência, que não consegue se integrar ao sistema e virar também mercado consumidor.

Assim, de fato algo deu errado no mundo. As tensões sociais se elevam, podemos customizar verdades e dialogar apenas com aqueles que concordam conosco. Ir contra ideias velhas, que decididamente fracassaram, de um lado e de outro, não é o caminho. As relações sociais, econômicas e a mídia, tudo tem mudado depressa com os avanços tecnológicos.

Deixemos, portanto, o novo e a criatividade entrar também no debate político do país: não há salvadores da pátria. Não é a figura de um presidente que muda o Brasil ou acaba com a corrupção, muito menos a ideia generalizada de que os políticos são todos corruptos e, portanto, negar a política. O que muda um país são as atitudes de seu povo, sobretudo no que diz respeito à própria política.

Ludmila Azevedo
Mestre em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

*As ideias/opiniões expressas no texto são parte do ponto de vista do autor e não necessariamente de todos os membros do Bloco Jota.

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Suicídio – fatos sociais e fatos econômicos

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A série “13 Reasons Why” e as assustadoras notícias sobre o estilo e a amplitude que ganhou o jogo “Baleia Azul” coloram em voga um assunto importante e ainda pouco debatido na sociedade: a questão do suicídio. A verdade é que, diferentemente do que pensamos, o suicídio está ligado a um complexo de fatores sociais, e não apenas a aspectos individuais, em que o econômico também importa. Como materialidade disso, temos que as últimas pesquisas da OMS (Organização Mundial de Saúde) constatam que os países mais pobres são aqueles que apresentam maiores taxas de suicídio.

De acordo com estatísticas da ONU (Organização das Nações Unidas) e da OMS, o alto número de suicídio nos apresenta como grave problema de saúde pública, responsável por 800 mil mortes todos os anos, ou seja, uma morte a cada 40 segundos no mundo, em que para cada caso há outras 20 tentativas fracassadas. Assim, a taxa mundial de suicídio é de 11,4 por 100 mil habitantes (15,0 para homens e 8,0 para mulheres). Mais que isso, o suicídio representa a segunda principal causa de morte entre os jovens, com idade entre 15 e 29 anos (ainda que estatisticamente, os idosos sejam mais propensos a cometer suicídio), em que 75% dos suicídios ocorrem em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento (baixa e média renda). Tendo estas estatísticas aumentado nos últimos anos, a OMS tem se esforçado, junto aos governos locais, a estabelecer estratégias contra esta tendência.

Segundo Durkheim, uma das maiores referências no assunto, o suicídio é um fato social e, está extremamente ligado à força/fragilidade dos laços sociais das vítimas, não tendo nenhuma ligação com a pobreza. No entanto, em uma sociedade globalizada, em que impera as regras/normas capitalistas, a própria pobreza é também uma forma de exclusão social, visto que, como ressaltado por Wacquant, na medida que as relações humanas são pautadas pela lógica de mercado, gera-se exclusão do contato social daqueles que não produzem e nem consomem -podendo também ser um forte indutor do suicídio.

Os motivos e formas de suicídio são complexos e multideterminados. Ainda que os motivos ligados a depressão, e próximos a este, sejam mais fortes nos países de alta renda, como o Japão e os Estados Unidos, crises econômicas, problemas financeiros ou dores crônicas e doenças, também são fortes fatores que estimulam o suicídio. Temos também que, a taxa de suicídio é mais alta em grupos vulneráveis, que sofrem discriminação, como refugiados e migrantes, indígenas, LGBTI e pessoas privadas de liberdade.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o suicídio não está apenas relacionado ao “colapso pessoal, mas também de uma deterioração do contexto social em que um indivíduo vive. O suicídio pode ser o ponto final de um número de diferentes fatores contribuintes. É mais provável de ocorrer durante os períodos de crise associadas a perturbações de relações pessoais, por meio de abuso de álcool e drogas, desemprego, depressão clínica e outras formas de doença mental.”

Numa visão global das taxas de suicídio é visto que as maiores taxas são encontradas no Leste Europeu e em grande parte da Ásia e África (ainda que os dados deste último não são muito confiáveis). No caso das menores taxas a América Latina apresenta os menores valores, nos levando a interpretação de que não somente os fatores econômicos são responsáveis pelo suicídio, uma vez que os países da América Latina são, normalmente, de baixa e média renda.

Taxas de suicídio por 100 000 habitantes – em 2012

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No entanto, em contraposição ao argumento anterior vemos que entre os 10 países que apresentam maiores taxas de suicídio há um predomínio dos países mais pobres. Vemos também que há um elevado número de suicídios em países como a Índia e a China, mas que proporcionalmente, (em relação a sua população total) estes países não apresentam altas taxas de suicídio (lembrando que as taxas de suicídio referem-se ao número de suicídios ocorrido em algum país ou região, por ano, a cada 100 mil habitantes, e são mais importantes que os valores brutos por ponderar o número de suicídios pela quantidade da população total).

Um exemplo de que os fatores econômicos são também relevantes para a questão abordada é o aumento desta estatística na Grécia, que com a crise econômica, teve sua taxa de suicídio passando de 3,4 para 3,8, de 2000 para 2010, ou seja, um aumento significativo de 10,5%.

Países com mais óbitos por suicídio e maiores taxas de suicídio em 2012. (OMS, 2014)

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Outro fator interessante em relação a temática é que as taxas de suicídio podem ser fixas (variarem pouco) ou não no tempo em relação a cada sociedade, demonstrando que este não é um fator intrínseco ao indivíduo, mas fortemente relacionado ao contexto social e econômico. Esta estatística é relevante para que tomemos mais cuidado ao culpar a vítima pelo ocorrido. Aliás (parêntese), se observarmos as notícias e opiniões em geral, quando a vítima é indicada culpada, cuidado! Este é um forte indício de alguma coisa não está certa. Assim, estas diferenças nas taxas sinalizam para a complexidade do fenômeno, em que fatores econômicos, políticos e culturais podem influenciar o suicídio.

Variação nas taxas de suicídio entre 1990 e 2010, em alguns países selecionados (OCDE, 2014)

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No caso do Brasil, a taxa de suicídio por 100 mil habitantes é de 5,8 (2,5 para mulheres e 9,4 para homens, para o ano de 2014), em que para os jovens entre 15 e 29 anos esta estatística sobe para 6,9 casos para cada 100 mil habitantes. Comparativamente, os números do Brasil são baixos, em que os países que têm maiores taxas, apresentam mais de 30 casos a cada mil habitantes. Na lista de países latino-americanos o Brasil é o 12º, em relação a taxa de suicídio.

Ainda assim o tema deve ser tratado com atenção no nosso país, uma vez que de 2000 para 2012 tivemos um aumento de 10,4% na taxa de suicídio e, em algumas regiões, como o extremo norte e sul, as taxas são tão elevadas como as do Leste Europeu.

A expectativa do texto era demonstrar as nuances da questão do suicídio através das estatísticas para o Brasil e o Mundo, em um momento em que este ganhou lugar de destaque no debate, com a rápida ascendência dos casos envolvendo as vítimas do jogo “Baleia Azul”. A tentativa foi reafirmar a complexidade da temática, mas também, quebrar o tabu de que o “suicídio é apenas coisa de rico” e é intrínseco ao indivíduo, demonstrando que ele está fortemente atrelado a um complexo de fatores sociais, em que os econômicos não escapam.

Henrique

Quando a crise tapa os olhos

“Deus abençoou Noé e seus filhos: ‘Sede fecundos’, disse-lhes ele, ‘multiplicai-vos e enchei a terra’”. Durante praticamente toda a história a humanidade parece ter seguido com afinco essa pequena passagem de Gênesis. Demoramos milhares de anos para atingir o primeiro bilhão de pessoas vivendo no planeta, mas com o advento da Revolução Industrial, da Revolução Verde e da Revolução médico-sanitária a população passou a crescer em taxas galopantes.

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Levamos desde os primórdios da civilização até cerca de 1800 D.C. para atingir a marca de um bilhão de pessoas vivendo no planeta. O segundo bilhão demorou cerca de 120 anos, atingido nos anos 1930. O terceiro aproximadamente 33 anos mais tarde, o quarto em 1975, o quinto em 1987, o sexto em 1999, e o sétimo em 2012. A primeira vista podemos concluir que o crescimento populacional está completamente fora de controle. Mas ao analisarmos mais de perto percebemos que o sétimo bilhão demorou um ano a mais para chegar que o sexto, o que indica que as coisas estão mudando.

Segundo projeções da ONU, a explosão demográfica verificada no século XX não irá se repetir no século XXI, e agora a humanidade pela primeira vez na história parece estar ignorando as escritas de Gênesis. A população ainda cresce, mas cada vez em ritmos menores. A ampliação do acesso à saúde, as melhorias sanitárias e a revolução de produtividade no campo que garantiram a superação de doenças e da fome crônica em muitas nações, permitiram que a população crescesse assustadoramente no século passado. Agora, o planejamento familiar e a urbanização são responsáveis pela queda contínua nas taxas de fertilidade.

A taxa de fertilidade pode ser considerada como a taxa de filhos por mulher. Quanto maior é a taxa, maior tende a ser o crescimento populacional. A taxa de reposição populacional, aquela capaz de manter população constante, sem crescer ou diminuir, é algo entre 2,1 a 2,3 filhos por mulher.

Taxa de Fertilidade em grupos de países por renda

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Fonte: Banco Mundial

Países desenvolvidos têm apresentado taxas de fertilidade abaixo do nível de reposição já há várias décadas. Agora, essa também é uma realidade para muitos países de renda média na Ásia e, principalmente, na América Latina. Apenas países de renda baixa ainda apresentam taxas de fertilidade muito elevadas, mesmo que já estejam em queda. Assim há uma contraposição. Enquanto países de baixa renda precisam lidar com a explosão demográfica e os desafios para garantir alimentos e serviços de saúde para enfrentar a mortalidade infantil, países de renda elevada tem enfrentado o crescente envelhecimento de suas populações.

Os novos desafios estão exatamente no grupo de países de Alta Renda. Desde meados dos anos 1970 esses países apresentam taxas de fertilidade menores que as de reposição. Mas depois de quarenta anos isso não significaria que as populações desses países começariam a diminuir? Pois é exatamente isso que está acontecendo. Países como taxa de fertilidade muito baixa como a Espanha, Japão, Alemanha e Itália estão começando a ver suas populações diminuírem já nesta década. Entretanto, outros países de renda elevada como os EUA, Austrália, França e Reino Unido ainda continuam apresentando crescimento populacional, seja porque tem taxa de fertilidade mais próxima do nível de reposição, seja por que recebem constantes e elevados fluxos migratórios.

Taxa de Fertilidade em países selecionados

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Fonte: Banco Mundial

Por outro lado, essa não é a realidade de alguns países pobres do Leste Europeu, como no caso da Ucrânia e Bulgária, dentre outros. Essas sociedades apresentam PIB per capita menor que o Brasileiro, sendo incapazes de gerar empregos de qualidade e elevar seu nível de renda, tem visto cada vez mais seus jovens migrarem para a rica Europa Ocidental. Em consequência disso a população destes países decresce a cada ano, e sem jovens para trabalhar, fica cada vez mais difícil sustentar as crianças e o crescente número de idosos.

Nesse contexto o Brasil, enquanto país de renda média, ainda apresenta um crescimento populacional de 0,9% (2013), mas a taxa de fertilidade brasileira, que já é menor que a taxa de reposição desde 2005, coloca desafios importantes para os próximos 30 anos. Estamos envelhecendo rápido, e também passando pelo período final do que alguns economistas chamam de “Janela de Oportunidade”.  Esse período ocorre quando uma sociedade tem maior parcela da população em idade produtiva, entre 15 e 65 anos, em relação à parcela da população de dependentes, crianças e idosos.

A “Janela” se abriu por volta dos anos 1980 e se fechará em meados da década de 2020. Nesse período, devido ao grande contingente de jovens e adultos, poderíamos ter saltos de produtividade, expansão e diversificação da base produtiva, desenvolvimento econômico, que garantiriam elevação da renda, para depois podermos lidar com o crescente envelhecimento da população e aumento da parcela de idosos sobre a população total. Infelizmente esse processo não está sendo verificado com o vigor esperado. As reformas econômicas dos anos 1990 entregaram um fraco crescimento econômico, e nos anos 2000 o boom de commodities e investimentos permitiram melhores taxas de crescimento, mas menores que as taxas de outros países emergentes. Já nos anos 2010 nos deparamos com outra década perdida, crise e paralisia nos ganhos de produtividade.

Em meio à crise, com empresas endividadas, crescente relação dívida pública/PIB, desemprego e empobrecimento dos trabalhadores, as saídas propostas pelo governo mais uma vez ignoram a realidade brasileira. Segundo projeções da ONU, a população brasileira ainda continuará a crescer até meados da década de 2040, e, portanto, temos pouco mais de 20 anos para elevar a renda per capita, promover melhora na distribuição de renda e elevar a produtividade dos trabalhadores para enfrentarmos essa realidade.

A resposta do governo a esses problemas veio por meio da PEC 241/55. A proposta do “Novo regime fiscal” da PEC prevê a queda per capita dos gastos em educação, em virtude do crescimento populacional e congelamento real dos gastos, sob o argumento que precisamos melhorar a forma de como gastamos. Entretanto, não é apresentado nenhum plano factível, ou reforma microeconômica, de como aumentar a eficiência dos gastos. A proposta de reforma do ensino médio tem sido muito criticada, e como os recursos federais se destinam mais a educação técnica e superior pode-se prever estagnação ou paralisia nos investimentos em Universidades e Institutos federais enquanto a PEC vigorar. Tal arranjo pode dificultar ganhos de produtividade pela educação, dificultando também a criação de empregos de alta qualidade que tem salários mais altos, devido à falta de mão de obra qualificada.

Por outro lado, na saúde, a queda per capita dos gastos ao longo dos 10 ou 20 anos, proposta pela PEC 241/55, pode ser como uma bomba relógio, à medida que cada vez mais os brasileiros envelhecem tencionando o aumento dos gastos em saúde. O SUS que deveria se expandir a fim de se tornar de fato universal, pode enfrentar fortes restrições financeiras devido às amarras que o orçamento público sofrerá. Junto a esse processo as dificuldades financeiras enfrentadas pelos Estados, fruto de um modelo de arrecadação tributária que pouco considera a federação, pode provocar adoção de regras fiscais parecidas com a PEC também em nível estadual. Com isso, os gastos nas escolas e redes de saúde estaduais também podem sofrer dos mesmo efeitos que os equivalentes da União.

Dentre as reformas que ignoram a necessidade de dinamizar a economia nacional, talvez a realmente necessária seja a amarga reforma da previdência. Com o rápido envelhecimento populacional brasileiro, a pressão sobre os Regimes de Previdência Social cresce. A idade mínima para adquirir a aposentadoria parece ser uma boa proposta, mas, mais uma vez a realidade brasileira é deixada de lado. Imaginar que um trabalhador rural, em um país onde práticas modernas de agricultura ainda estão restritas ao grande agronegócio, possa se aposentar ao mesmo tempo em que um trabalhador urbano é pura fantasia. Mais que isso, é também ignorar os efeitos de distribuição de renda que a previdência tem, uma vez que o beneficio da aposentadoria rural se limita a um salário mínimo.

Também é irreal a necessidade de se trabalhar 49 anos para adquirir a integralidade do valor a que o trabalhador contribuiu durante todas as décadas de trabalho. Uma reforma da previdência é de fato necessária, mas apenas com a retomada do crescimento, do desenvolvimento econômico com distribuição de renda, da geração de empregos de qualidade, da participação ativa nas cadeias globais de produção, que garanta inovações e, portanto ganhos crescentes de produtividade, é que a previdência poderá de fato ser sustentável.

Com a proposta do “Novo Regime Fiscal” que enrijece o orçamento Federal, e com a rápida mudança demográfica no Brasil, que irá pressionar a previdência e gastos de saúde, futuros planos de desenvolvimento nacional poderão ser inviabilizados, temos aqui a armadilha. A despeito da discussão sobre a eficiência de planos privados de saúde e dos problemas com os inviáveis financiamentos estudantis semelhantes aos norte-americanos, é nessa direção que caminha o Brasil, com a constante perda de seu Estado de Bem Estar social.

Sem os investimentos necessários em educação, ciência e tecnologia, e infraestrutura, a geração de conhecimento do Brasil pode ser imensamente prejudicada. E até hoje nenhuma nação conseguiu se desenvolver sem criar conhecimento internamente, e sem que o pudesse transformar em empregos, inovações nas empresas. Sem isso a economia continuará girando em torno de voos de galinha, capazes de gerar empregos de baixa qualificação e apenas isso.

Com essa dinâmica será difícil sustentar fluxos migratórios, ou ganhos de produtividade que garantam a sustentação de longo prazo dos sistemas de previdência como no caso de países ricos como a Austrália, França ou Reino Unido. Tal cenário pode parecer distante para o Brasil, mas já é realidade para países do Leste Europeu. Essas nações que incapazes de gerar crescimento, desenvolvimento econômico e progresso técnico após o fim da União Soviética, e assistindo o êxodo de sua população jovem, que deixa crescentes parcelas de idosos para trás, pode chegar a uma inédita não sustentação do próprio Estado, o que poderá gerar conflitos internacionais. Talvez no século XXI poderemos ver, pela primeira vez, a morte de Estados Nacionais modernos, causados pela incapacidade de reprodução de sua população aliado ao marasmo em que suas economias mergulharam.

Estimativa da população em milhões

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Fonte: Banco Mundial, em milhões

Algumas projeções da ONU preveem que a população mundial chegue a cerca de 11 bilhões em 2100, mas na segunda metade deste século em quase todos os países das Américas, Europa e em muitos da Ásia a população começará a diminuir, a exceção seriam os Africanos. É válido ressaltar que a ONU considera que a taxa de fertilidade dos países convergiriam, no futuro, para a taxa de reposição. Mas nada garante isso. A evidência tem demonstrado que a urbanização promove a queda nas taxas de fertilidade em todos os países que passam por esse processo. Isso já ocorreu nos países mais ricos e agora ocorre nos mais pobres. E uma vez abaixo da taxa de reposição há forte resistência em eleva-la novamente. Sendo assim a população do Brasil, e de todo o mundo, pode ser ainda menor e mais idosa que as projeções médias apresentadas pela ONU.

O mesmo ocorre em relação à imigração. Para que a população de países como os EUA, que tem baixa taxa de fertilidade, continue crescendo é necessário que a de outros países diminua o que não é levado em consideração nas projeções.

Em frente à crise esse problema parece estar em um futuro longínquo para o Brasil, mas assim como foi rápido nosso processo de urbanização, também será rápido nosso processo de envelhecimento. Com cada vez menos jovens os desafios de tornar a economia Brasileira mais competitiva e manter o mínimo de bem estar social serão enormes. Enquanto não percebermos que mudanças estruturais estão em fluxo o tempo todo, continuaremos tomando decisões apenas conjunturais que podem não apenas não resolver os problemas atuais, como também complicar ainda mais a vida das gerações futuras.

Marcelo Duarte

O assustador sucesso de Game of Thrones

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Em Game of Thrones as personagens demonstram ter mil faces e mais uma

 

Imagine um mundo dominado pela política, intrigas, mentiras, traições, dramas familiares, quebra de promessas, vingança, injustiça, guerras, confrontos, poder, tradições, conspirações, medo, horror, morte. Bem, isso tudo não parece ser muito promissor, e é claro que só podemos estar falando do mundo criado por George R.R. Martin e da série da HBO Game Of Thrones. Mas estamos falando deste universo?

Já faz décadas que a televisão e o cinema fazem parte da vida urbana, disseminando cultura e trazendo reflexões e, principalmente a partir dos anos 1970, criando verdadeiros fenômenos, que por óbvio, se transmitem em tendências de consumo, comportamento e atitudes. Mas é válido ressaltar que essa não é uma via de mão única. Tais fenômenos não apenas criam demandas para se atender as mudanças de uma sociedade, mas também buscam refletir aquilo com que a própria sociedade se identifica ou vive naquele momento. Eles não se criam do nada, ocorrem porque as pessoas daquela época se identificam, se reconhecem e se veem naquela determinada narrativa.

Grande parte da recente qualidade adquirida na TV se deve as séries que cada vez mais utilizam de roteiros bem elaborados e técnicas de produção em nível de cinema. E parte do sucesso das séries de televisão vem da capacidade de criar um forte vínculo com o público, uma identificação entre os personagens e o que o público vive, capaz de criar a verossimilhança e empatia necessárias ao estabelecimento de reflexões e questionamentos. É nesse ponto que alguns desses shows conseguem ultrapassar a fronteira das telinhas e se tornarem verdadeiros fenômenos culturais.

Mas o que histórias como as de um professor de química com câncer, um casal em busca do maior cargo da nação, um emaranhado de famílias em um jogo mortal de poder, uma aristocracia decadente e sobreviventes de um apocalipse têm em comum? Talvez a capacidade de demonstrar que o mundo em que vivemos não está dando tão certo, ou ainda, que a humanidade apresenta tantas facetas e tons de cinza que histórias tradicionais de vilões e mocinhos unidimensionais são incapazes de explorar.

As histórias citadas são parte fundamento do enredo de algumas das maiores expressões do gênero na atualidade: Breaking Bad, House of Cards, Game of Thrones, Downtown Abbey e The Walking Dead (embora essa última não apresente a sofisticação das primeiras). Não é de inteira coincidência que todas apresentem características em comum. Muito além da qualidade do roteiro, essas séries apresentam a decadência da moral, onde as personagens vivem no limite do que é ético ou não, e a humanidade em seu sentido mais benevolente não parece ser uma opção a ser seguida.

Em uma realidade onde os direitos fundamentais dos cidadãos são negados e liberdades são ultrapassadas pela vontade do Estado, a existência deste passa a ser questionada, e em grande medida o sucesso de The Walking Dead deriva disso. É importante notar que em The Walking Dead o próprio desenvolvimento da história demonstra que a falta do Estado pode conduzir a sociedade ao caos e violência. Em Breaking Bad a luta contra o câncer enfrentada por Walter White resulta em trazer à tona sua face mais obscura, ainda que sob o pretexto de deixar um legado para sua família. O desenvolvimento de sua personalidade, de um pai e professor a algo completamente inesperado conquistou milhões de fãs, a despeito de suas decisões e atitudes erradicas e desumanas.

Em House Of Cards os planos elaborados pelo casal Underwood apresentam uma Casa Branca que na formalidade cumpre todos os requisitos éticos, mas que esconde sótãos sujos de cinzas de charutos. Não é surpresa que os confrontos dos bastidores políticos geraram comparações com o cenário político brasileiro recente. E muito além de apresentar como aqueles que ocupam elevados cargos públicos podem esconder um caráter questionável (assim como de qualquer pessoa que nos cerca) House of Cards demonstra que a busca pelo poder pode gerar um débito elevado que pode ser empurrado para qualquer um pagar.

“Em Game Of Thrones assim como em Breaking Bad e House of Cards o protagonismo de anti-heróis ou até mesmo vilões passa a ser o novo paradigma narrativo”

E claro, a premiada Game Of Thrones que recentemente chega a sua sexta temporada. Baseada no romance de George R. R. Martin a série explora um universo de personagens cinza, que acumulam feitos de honra e justiça, mas que ao mesmo tempo podem ser tão mesquinhos e imorais. A série é famosa não apenas por matar personagens fundamentais, deixando claro que ninguém está a salvo, mas também por chamar a atenção pelo realismo de seus conflitos, deixando de lado o preconceito do público adulto por histórias do gênero de fantasia.

Em conjunto com a presença de dragões há o desenvolvimento de dramas humanos capazes de trazer a história mais próxima a sua audiência. As reviravoltas políticas, os dramas familiares, a busca por respeito e libertação daqueles que sempre são deixados de lado e claro os desastres causados por guerras e batalhas reforçam a ideia de que atitudes e caráter podem ser bons ou ruins a depender do ponto de vista. Alguém pode ser culpado por quebrar uma promessa em nome de outra? Matar o Rei que você prometeu proteger para salvar milhares de inocentes é correto? Nas entrelinhas ainda é perceptível comparações com a realidade, como o foco no conflito de interesses dos grandes Lordes de Westeros a despeito de uma constante ameaça que vem de uma região ao norte do continente juntamente com o inverno que pode trazer guerra e morte. Nesse ponto, é imediata a comparação com as mudanças climáticas em vigor, enquanto que nossos líderes apenas realizam convenções sem fim, em quase nunca chegam a um acordo que possa de fato reverter esse quadro, demonstrando ignorância e um sentimento de descaso.

Em Game Of Thrones assim como em Breaking Bad e House of Cards o protagonismo de anti-heróis ou até mesmo vilões passa a ser o novo paradigma narrativo. Fazer o público temer um traficante de metanfetamina, sentir ódio de um jovem Rei ou Lord ao mesmo tempo em que apresenta explicações sobre suas atitudes e comportamentos imorais, é mais do que uma escolha dos produtores de contar a história. O sucesso dessa estratégia demonstra que talvez as pessoas não tenham tanta esperança de um mundo moral, onde a justiça seja de fato exercida, e na realidade enxergamos que é da natureza humana misturar sentimentos bons e ruins.

A violência de Game Of Thrones exposta em estupros, decapitações e mortes impensáveis nem sempre resultam no esperado, ocasionando ainda mais violência. Tamanha violência pode ainda abrir espaço para que personagens ditos “de bom caráter” cometam atrocidades em nome do “bem”, e assim o público se vê obrigado a refletir sobre até onde atos de humanidade podem surtir efeitos frente à tamanha degradação humana. E dessa reflexão nos perguntamos, estamos mais distantes ou mais próximos dessas histórias cruéis e cheias de camadas? Em Game Of Thrones noite é escura e cheia de terrores, e na nossa realidade o mundo também é obscuro? Um fenômeno cultural pode dizer muito mais sobre nós mesmos, sobre o momento em que vivemos e o que pensamos. E bem, espero que estejamos prontos quando o inverno chegar.

Marcelo Duarte

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.