Engenheiro dirigindo Uber, cientista entregando iFood

Pensemos num país hipotético cujo produto mais exportado é o abacate. O exportador número 1 de abacates do mundo! Ele é reconhecido mundialmente por produzir abacates em uma escala admirável. Tem um mercado interno pujante de abacates. Os diplomatas desse país hipotético tem como diretriz principal do seu trabalho estabelecer acordos comerciais com o mundo todo para comprarem seus abacates. Apesar disso, nem só de vitaminas e guacamoles vive uma sociedade, por mais minimalista que seja. A população precisa de outros itens: alimentos, roupas, energia, carros, remédios, celulares, computadores, aviões, serviços…

A pergunta é: quanto uma sociedade consome de abacates? E quanto de outras coisas que não abacates? No Brasil, segundo a CEAGESP (2016), o abacate é o 12º fruto mais consumido. Perde para laranja, banana, uva, abacaxi, maçã… Cada pessoa come incríveis 0,301 gramas por ano do fruto!

A situação hipotética é extrema para ilustrar o caso de países que produzem produtos agrícolas e compram produtos de maior valor agregado de outros países.

A troca que o Brasil faz com o resto do mundo é injusta: exporta muito mais produtos primários ou de baixa tecnologia, que somaram 74% do total em 2018. Aqueles produtos que possuem alguma tecnologia agregada, isto é, passaram por um processo de manufaturação qualquer, o mínimo que seja, compõem o segundo grupo de produtos que o País mais exporta: produtos alimentícios, fumos, madeira, couro, e por ai vai…

Importados em 2018, por intensidade tecnológica

importados em 2018, por intensidade

*classificamos como “Extrativo” os produtos que não são classificáveis, segundo o MDIC.

Evolução da importação, por intensidade tecnológica

por-intensidade.jpg

Evolução da Exportação, por intensidade tecnológica

evolução da exportação, por intensidade

De quais países mais importamos?

China (19,6%), União Europeia (19,2) e Estados Unidos (16%) são os parceiros mais relevantes, e são exatamente com quem compramos mais produtos de mais alta tecnologia. No gráfico abaixo é possível enxergar a Coreia do Sul como o terceiro parceiro com produtos de alta tecnologia que mais cresceu de 2017 para 2018.

Parceiros comerciais do Brasil em 2018 (variação em relação 2017)

parceiros comerciais

A Coreia do Sul é recorrentemente utilizada na literatura econômica para exemplificar o caso de países que eram pobres. Na década de 1960 a Coréia do Sul muito se assemelhava ao Brasil nas questões econômicas e sociais, mas com políticas ativas do Estado atingiu o patamar de renda dos países desenvolvidos.

Como se pode ver no gráfico abaixo, os anos de 1960 o Brasil possuía uma produtividade um pouco maior que a da Coreia do Sul sem, no entanto, possuir uma população escolarizada. A partir desse período, o país do Sudeste Asiático investiu massivamente em educação e, atualmente, possui uma sociedade 4 anos mais escolarizada que a brasileira, em média. O mais chocante do dado é que a política educacional não foi feita pura e simplesmente para educar a população, ela foi acompanhada de uma rigorosa política industrial, que garantiu à Coreia ganhos contínuos de produtividade.

Enquanto isso, no Brasil, parece haver algum tipo de necessidade de escolha entre produtividade e anos de estudo. Isto é, entre as décadas de 1960 e 1980, o País cresceu de forma substancial a produtividade, no entanto, a escolaridade da população quase nada variou, pelo contrário, entre 1970 e 1975 diminuiu os anos de estudo.

Produtividade versus anos de estudo, Brasil e Coreia do Sul

escolaridade e produtividade pequ

A partir de então, com o esvaziamento das políticas industriais, deixando o mercado realizar as suas alocações, a produtividade brasileira estagnou, de modo que em 2010 alcançamos a mesma produtividade que tínhamos nos anos de 1980. Aliás, esse é o mesmo número que a Coreia apresentava também na década de 1980. Em resumo, Brasil e Coreia eram idênticos em termos de produtividade nos anos de 1980, apesar de o último já estar passos à frente na questão de anos de estudos; em 2010 o Brasil, passivo, performava no mesmo nível que 30 anos antes.

As conclusões são várias e nos próximos textos tratarei da importância de uma política educacional juntamente com uma política industrial para o desenvolvimento. Cada nível, fundamental, médio, graduação e pós-graduação, tem uma característica importante para o crescimento econômico, mas formação de capital humano em um país sem complexidade econômica é investir em cérebros que não terão outra alternativa que não a fuga para países em que podem ser empregados e valorizados. Ou serão engenheiros motoristas de Uber, ou cientistas entregadores de iFood.

Iago Silva

Doutorando em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

*Curta nossa página no Facebook para receber sempre nossos posts semanais!
https://www.facebook.com/blocojota/
**As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo.

A Recente Redução do Desemprego da Economia brasileira

Recentemente o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) disponibilizou os dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) contínua sobre desemprego atualizados até Dezembro de 2017. O Gráfico 01, abaixo, apresenta a taxa de desemprego mensal fornecida pela PNAD contínua entre Março de 2012 e Dezembro de 2017, sendo que a linha vermelha apresenta os dados originais e a linha preta a taxa de desemprego, considerando o ajuste sazonal de atividade econômica obtida pelo uso do filtro ARIMA X13. Este procedimento é importante à medida que ele exclui o elemento sazonal da taxa de desemprego ao longo do ano, permitindo análises sobre a tendência da variável.

Gráfico 01- Taxa de Desemprego

hugo1

 

Podemos notar que a taxa de desemprego passa de aproximadamente 6% em Maio de 2014 para 13% em Abril de 2017. Quer dizer, o desemprego dobrou em um período de 2 anos. No entanto, houve uma alteração de tendência. O desemprego diminuiu a partir de Abril de 2017 atingindo o valor de 12% em Dezembro de 2017. O nosso objetivo aqui não é explicar o porquê desta dinâmica do emprego no período em questão. Queremos entender como se deu tal redução do desemprego dentro da estrutura da criação de emprego. O desemprego diminuiu através da criação de empregos formais (de carteira assinada) ou por meio de postos trabalhos informais? Como podemos explicar isso?

A seguir apresentamos duas variáveis criadas a partir dos dados da PNAD contínua: i) a razão entre o número de empregados no setor privado com carteira e o total de empregos e ii) a razão entre o número de empregados no setor privado sem carteira assinada e o total de empregos. Estas variáveis captam o percentual do total de vagas de emprego que cada uma das duas variáveis correspondem e, possivelmente, um efeito substituição da redução do trabalho formal para o aumento do informal. As variáveis são apresentadas graficamente abaixo.

Gráfico 02- Razão entre o número de empregos com (e sem) carteira assinada e o número total de empregos

hugo2

O Gráfico 02 sugere que a informalidade diminuiu entre março de 2012 e janeiro de 2016. Tendência esta que se reverte a partir de então. A criação de empregos com carteira assinada reduziu-se esquematicamente entre o primeiro semestre de 2014 e novembro de 2017. Em termos relativos, houve a redução do número de postos com carteira assinada tal como a redução da informalidade, o que não se compensa quando olhamos para a taxa de desemprego.

Existe um efeito substituição de empregados formalizados para não formalizados no setor privado. Obviamente que este efeito não é completo. A redução dos postos de trabalho também implica em aumentos das categorias trabalhador doméstico, conta própria e trabalhador familiar auxiliar. Com acesso aos micro dados setoriais da PNAD contínua, o pesquisador do IBRE FGV Bernardo Coelho mostrou que a informalidade do mercado de trabalho dos setores de indústria e serviços apresenta um caráter cíclico até o segundo trimestre de 2017, isto é, A informalidade na Indústria e nos Serviços apresenta comportamentos mais similares entre si. No período pré-crise a informalidade cai 1,2% e 1,7%, em Indústria e Serviços, respectivamente, enquanto no período da crise o crescimento da informalidade é de 4,3% e 2,7%”. O que reforça o argumento do efeito substituição de empregados formalizados para não formalizados no setor privado para estes setores.

Neste sentido, o aumento da informalidade (considerando apenas os empregados no setor privado sem carteira de trabalho) acontece de fato após 2016. Quando esta variável passa de 10,8% do total de empregos para 12% em dezembro de 2017. Se considerarmos a informalidade como soma de todas as categorias exceto a de carteira assinada e o setor público, a situação é pior. Aproximadamente 52% dos empregos da economia brasileira são informais conforme os dados da PNAD contínua para o último trimestre de 2017 (Gráfico 03). Daí que a criação de empregos passa a ser explicada pelo aumento da informalidade.

Gráfico 03- Estrutura do Emprego na Economia brasileira no quarto trimestre de 2017

hugo3

O Gráfico 04, abaixo, apresenta a média mensal dos rendimentos reais dos postos de trabalho com e sem carteira assinada. Como esperado, o rendimento dos trabalhadores sem carteira assinada é menor que os empregados formais.

Gráfico 04- Rendimento real dos empregos com (escala a esquerda) e sem carteira assinada (escala a direita)

hugo4

O DIEESE calcula o salário mínimo ideal para a sobrevivência de uma família de 4 pessoas para pagar os custos com habitação, alimentação, educação, saúde, higiene pessoal e etc. Vamos assumir que a diferença entre o salário calculado pelo DIEESE (média mensal) e o salário mínimo dos empregados formais e informais como uma medida de exploração do sistema econômico brasileiro. Analisando o Gráfico 05, onde esta diferença é apresentada, temos que o aumento da informalidade significa aumentar a exploração do sistema econômico, uma vez que a diferença entre o salário de sobrevivência e o dos empregos informais é tão grande quanto o próprio salário de fato. Portanto, do ponto de vista do trabalhador, tem-se que a informalidade se traduz em precariedade e em rendimentos menores. Para o sistema econômico, a informalidade significa aumento da taxa de exploração.

 Gráfico 05- Diferença entre Salário de Sobrevivência do DIEESE e o Salário de Fato

hugo5

O Gráfico 06, a seguir, mostra o índice de satisfação com a margem de lucro operacional oferecido pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) por regiões. Como não há uma proxy para a lucratividade das empresas para um período tão recente, esta variável pode ser útil para captar a os efeitos da distribuição de renda sob os lucros empresariais. Vamos assumir aqui que a satisfação empresarial é uma função positiva do lucro operacional. Além disso, vamos tomar esta variável (a única que existe) como uma proxy para a economia brasileira.

Analisando o gráfico, percebemos que a partir de 2014 a satisfação do empresariado nacional em relação ao lucro operacional por unidade monetária de venda líquida se reduz até o fim de 2015. Podemos interpretar isto como uma redução da lucratividade. Por outro lado, a partir de 2016 a satisfação com a margem de lucro operacional apresenta reversão da tendência declinante. Embora existam diversos elementos pelos quais os empresários possam defender o lucro durante a recessão econômica, tem-se indícios de que empresariado brasileiro utilizou a substituição do trabalho formal, mais caro, pelo trabalho sem carteira assinada, sobretudo nos setores de indústria e serviços. O que significou a redução dos custos e contribuiu para uma lucratividade “normal”.

Gráfico 06- Índice de Satisfação com a Margem de Lucro Operacional dos Empresários Industriais por Região

hugo6

 

Em síntese, a economia brasileira passou por um processo de redução das margens de lucro devido à queda da demanda agregada. Naturalmente, o número de demissões de empregados formais aumentou. Os empresários, visando a manutenção da lucratividade de suas atividades produtivas, passaram a contratar empregados sem carteira assinada, os famosos “bicos”, especialmente nos setores de serviço e indústria. Quer dizer, os empresários passaram a substituir o trabalho formal (mais caro) pelo trabalho informal (mais barato).

Ao passo que para os trabalhadores este processo signifique precariedade e rendimentos menores, para os empresários isto se traduz em redução dos custos e aumento da lucratividade em um período de recessão. Esta dinâmica tende a se intensificar, mesmo com a retomada do crescimento da economia, à medida que a reforma trabalhista de Michel Temer reduza os direitos trabalhistas e aumente o grau de informalidade da economia.

Hugo Carcanholo Iasco Pereira – Doutorando em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais

*As ideias/opiniões expressas no texto são parte do ponto de vista do autor e não necessariamente de todos os membros do Bloco Jota.