O assustador sucesso de Game of Thrones

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Em Game of Thrones as personagens demonstram ter mil faces e mais uma

 

Imagine um mundo dominado pela política, intrigas, mentiras, traições, dramas familiares, quebra de promessas, vingança, injustiça, guerras, confrontos, poder, tradições, conspirações, medo, horror, morte. Bem, isso tudo não parece ser muito promissor, e é claro que só podemos estar falando do mundo criado por George R.R. Martin e da série da HBO Game Of Thrones. Mas estamos falando deste universo?

Já faz décadas que a televisão e o cinema fazem parte da vida urbana, disseminando cultura e trazendo reflexões e, principalmente a partir dos anos 1970, criando verdadeiros fenômenos, que por óbvio, se transmitem em tendências de consumo, comportamento e atitudes. Mas é válido ressaltar que essa não é uma via de mão única. Tais fenômenos não apenas criam demandas para se atender as mudanças de uma sociedade, mas também buscam refletir aquilo com que a própria sociedade se identifica ou vive naquele momento. Eles não se criam do nada, ocorrem porque as pessoas daquela época se identificam, se reconhecem e se veem naquela determinada narrativa.

Grande parte da recente qualidade adquirida na TV se deve as séries que cada vez mais utilizam de roteiros bem elaborados e técnicas de produção em nível de cinema. E parte do sucesso das séries de televisão vem da capacidade de criar um forte vínculo com o público, uma identificação entre os personagens e o que o público vive, capaz de criar a verossimilhança e empatia necessárias ao estabelecimento de reflexões e questionamentos. É nesse ponto que alguns desses shows conseguem ultrapassar a fronteira das telinhas e se tornarem verdadeiros fenômenos culturais.

Mas o que histórias como as de um professor de química com câncer, um casal em busca do maior cargo da nação, um emaranhado de famílias em um jogo mortal de poder, uma aristocracia decadente e sobreviventes de um apocalipse têm em comum? Talvez a capacidade de demonstrar que o mundo em que vivemos não está dando tão certo, ou ainda, que a humanidade apresenta tantas facetas e tons de cinza que histórias tradicionais de vilões e mocinhos unidimensionais são incapazes de explorar.

As histórias citadas são parte fundamento do enredo de algumas das maiores expressões do gênero na atualidade: Breaking Bad, House of Cards, Game of Thrones, Downtown Abbey e The Walking Dead (embora essa última não apresente a sofisticação das primeiras). Não é de inteira coincidência que todas apresentem características em comum. Muito além da qualidade do roteiro, essas séries apresentam a decadência da moral, onde as personagens vivem no limite do que é ético ou não, e a humanidade em seu sentido mais benevolente não parece ser uma opção a ser seguida.

Em uma realidade onde os direitos fundamentais dos cidadãos são negados e liberdades são ultrapassadas pela vontade do Estado, a existência deste passa a ser questionada, e em grande medida o sucesso de The Walking Dead deriva disso. É importante notar que em The Walking Dead o próprio desenvolvimento da história demonstra que a falta do Estado pode conduzir a sociedade ao caos e violência. Em Breaking Bad a luta contra o câncer enfrentada por Walter White resulta em trazer à tona sua face mais obscura, ainda que sob o pretexto de deixar um legado para sua família. O desenvolvimento de sua personalidade, de um pai e professor a algo completamente inesperado conquistou milhões de fãs, a despeito de suas decisões e atitudes erradicas e desumanas.

Em House Of Cards os planos elaborados pelo casal Underwood apresentam uma Casa Branca que na formalidade cumpre todos os requisitos éticos, mas que esconde sótãos sujos de cinzas de charutos. Não é surpresa que os confrontos dos bastidores políticos geraram comparações com o cenário político brasileiro recente. E muito além de apresentar como aqueles que ocupam elevados cargos públicos podem esconder um caráter questionável (assim como de qualquer pessoa que nos cerca) House of Cards demonstra que a busca pelo poder pode gerar um débito elevado que pode ser empurrado para qualquer um pagar.

“Em Game Of Thrones assim como em Breaking Bad e House of Cards o protagonismo de anti-heróis ou até mesmo vilões passa a ser o novo paradigma narrativo”

E claro, a premiada Game Of Thrones que recentemente chega a sua sexta temporada. Baseada no romance de George R. R. Martin a série explora um universo de personagens cinza, que acumulam feitos de honra e justiça, mas que ao mesmo tempo podem ser tão mesquinhos e imorais. A série é famosa não apenas por matar personagens fundamentais, deixando claro que ninguém está a salvo, mas também por chamar a atenção pelo realismo de seus conflitos, deixando de lado o preconceito do público adulto por histórias do gênero de fantasia.

Em conjunto com a presença de dragões há o desenvolvimento de dramas humanos capazes de trazer a história mais próxima a sua audiência. As reviravoltas políticas, os dramas familiares, a busca por respeito e libertação daqueles que sempre são deixados de lado e claro os desastres causados por guerras e batalhas reforçam a ideia de que atitudes e caráter podem ser bons ou ruins a depender do ponto de vista. Alguém pode ser culpado por quebrar uma promessa em nome de outra? Matar o Rei que você prometeu proteger para salvar milhares de inocentes é correto? Nas entrelinhas ainda é perceptível comparações com a realidade, como o foco no conflito de interesses dos grandes Lordes de Westeros a despeito de uma constante ameaça que vem de uma região ao norte do continente juntamente com o inverno que pode trazer guerra e morte. Nesse ponto, é imediata a comparação com as mudanças climáticas em vigor, enquanto que nossos líderes apenas realizam convenções sem fim, em quase nunca chegam a um acordo que possa de fato reverter esse quadro, demonstrando ignorância e um sentimento de descaso.

Em Game Of Thrones assim como em Breaking Bad e House of Cards o protagonismo de anti-heróis ou até mesmo vilões passa a ser o novo paradigma narrativo. Fazer o público temer um traficante de metanfetamina, sentir ódio de um jovem Rei ou Lord ao mesmo tempo em que apresenta explicações sobre suas atitudes e comportamentos imorais, é mais do que uma escolha dos produtores de contar a história. O sucesso dessa estratégia demonstra que talvez as pessoas não tenham tanta esperança de um mundo moral, onde a justiça seja de fato exercida, e na realidade enxergamos que é da natureza humana misturar sentimentos bons e ruins.

A violência de Game Of Thrones exposta em estupros, decapitações e mortes impensáveis nem sempre resultam no esperado, ocasionando ainda mais violência. Tamanha violência pode ainda abrir espaço para que personagens ditos “de bom caráter” cometam atrocidades em nome do “bem”, e assim o público se vê obrigado a refletir sobre até onde atos de humanidade podem surtir efeitos frente à tamanha degradação humana. E dessa reflexão nos perguntamos, estamos mais distantes ou mais próximos dessas histórias cruéis e cheias de camadas? Em Game Of Thrones noite é escura e cheia de terrores, e na nossa realidade o mundo também é obscuro? Um fenômeno cultural pode dizer muito mais sobre nós mesmos, sobre o momento em que vivemos e o que pensamos. E bem, espero que estejamos prontos quando o inverno chegar.

Marcelo Duarte

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do(s) autor(es), não de todos os membros do grupo.

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Hollywood: Crise criativa ou econômica?

Nos idos de 2007 Syd Field, um dos maiores roteiristas de Hollywood alertou, em uma de suas palestras sobre cinema, como a indústria cinematográfica estava passando por transformações um tanto quanto profundas, e uma inescapável crise criativa. Mas Hollywood não é apenas uma das maiores produtoras de conteúdo audiovisual do mundo, se trata do centro de produção cultural mais importante do ocidente, e que por via disso acaba por transmitir toda a identidade cultural da maior potência do mundo. Mas estaria o centro da criatividade estadunidense de fato em crise?

Falar em crise de criatividade de forma geral me parece um tanto quanto forte, uma vez que filmes são lançados atrás de filmes e a produção não para, mas quanto a crise de originalidade essa de fato ocorre. Desde início da década de 2000 uma enxurrada de filmes adaptados de HQs, ou sequencias de universos já criados foram propagados nas telonas. Títulos como Homem-Aranha, Harry Potter, Transformes, e o mais recente universo cinematográfico da Marvel tem mostrado seu poder de arrecadação, e a disposição dos estúdios de não se arriscar em histórias originais, garantindo grandes investimentos em obras com maior possibilidade de retorno financeiro.

Retorno financeiro? Sim. Por que não seria? Antes de tudo se faz necessário reconhecer que Hollywood, assim como quase toda a produção audiovisual feita em qualquer parte do mundo é uma indústria. E, vale ressaltar, uma indústria poderosa, capaz de movimentar bilhões de dólares e empregar uma quantidade gigantesca de profissionais, e como tal, a necessidade de retorno financeiro se justifica. Entretanto se percebe cada vez mais que os executivos dos grandes estúdios hollywoodianos têm trocado qualquer risco pela acomodação de garantir lucros, o que pode ser perigoso para a maior indústria cultural do ocidente.

Não que histórias de super-heróis sejam necessariamente ruins, mas ao focar sua produção em criar grandes pacotes de marketing em torno de sequencias e adaptações de histórias já consideradas populares a indústria pode garantir o torno de um lucro previsível em detrimento da criatividade característica do centro produtor de cultura e entretenimento que está em xeque. Se o foco da própria produção é o lucro, poderíamos falar de uma possível crise econômica em Hollywood?

O advento da internet trouxe problemas não apenas para a indústria fonográfica, que hoje vende apenas algumas parcelas reduzidas dos álbuns que vendeu no final da década de 1990. Com a popularização e barateamento de conexões de internet de banda larga, e o sucesso de serviços de streaming e de TV por demanda, bem como a corrida tecnológica com criação de aparelhos televisores com qualidade de imagem e som cada vez melhores, se tornou possível pra que cada um possa ter em sua casa uma sala de cinema. E Hollywood está sentido no bolso o impacto da concorrência com o mundo virtual. Mesmo que se analise os lançamentos recentes como Os Vingadores, e Star Wars: O Despertar da força, com arrecadação de respectivamente 1,5 bilhão e 2 bilhões, inegáveis sucessos de bilheteria, quando comparados em valores reais (ajustados com a inflação) não conseguiram ultrapassar o desempenho de clássicos, como …E o vento levou, ou E.T. o extraterrestre*.

star wars.jpgA franquia sem fim de Star Wars significa dinheiro infinito no bolso da Disney? (Foto: Divulgação/Disney)

Para fazer a audiência sair do conforto de seu sofá e se dirigir ao cinema mais próximo, a indústria tem entendido ser necessário ampliar investimentos em marketing e diferenciação da apresentação do produto. Mas não diferenciação do produto em si. Grandes promoções, investimentos milionários em novas tecnologias como a inovação do cinema 3D – já no filme Avatar (2009) – a criação e expansão de salas IMAX, o estabelecimento de universos cinematográficos, moldagem de personagens que gerem afeição com o público capaz de motivar a criação de fã bases são medidas entendidas como capazes de lotar as salas de exibição da próxima produção. A criação de universos cinematográficos, do ponto de vista do roteiro, aproxima das histórias do cinema às séries de televisão. O público passa a esperar e acompanhar o próximo filme da franquia assim como espera pelo próximo episódio da nova temporada de sua série preferida.  Ao mesmo tempo, a necessidade de se criar histórias com caráter mais global, capaz de atender audiências a nível mundial, se torna uma realidade em uma indústria cada vez mais internacionalizada e menos dependente de resultados domésticos, no caso dos próprios Estados Unidos. Bem mas essa ainda é outra discussão.

E sair da zona de conforto, ainda que de forma razoavelmente sútil, pode ser sinônimo de sucesso, mesmo que não seja uma tarefa fácil. O recente lançamento de Deadpool (O anti-herói mercenário e tagarela da Marvel) demonstrou isso. Mesmo sendo uma adaptação, ao se fazer mais fiel a história original, repleta de sangue, violência, humor ácido e até mesmo autocrítica somada a um orçamento relativamente baixo – que difere das atuais produções – o título conseguiu até o momento arrecadar cerca de 700 milhões* mundialmente (mais de 11 vezes seu orçamento), um sucesso claramente inesperado, daquele que era considerado um investimento de alto risco pelos executivos da Fox.

De qualquer forma, apesar da indústria cinematográfica estadunidense estar passando por grandes desafios, os caminhos escolhidos são cada vez mais reafirmados, como na recente intenção de se criar um universo da Dc Comics, editora de HQs famosa por personagens como Superman e Batman. Como já dito isso pode não ser necessariamente ruim. Entretenimento de qualidade é feito como em Os Vingadores (2012), Guardiões da galáxia (2014) e franquias de animação como os divertidos Minions (2015) que surgiram do anterior Meu Malvado Favorito (2010). Mas mesmo para entreter a indústria está dizendo ao espectador para não esperar muito mais que adaptações e caso o ‘novo’ título alcance sucesso espere revê-lo dentro de alguns poucos meses novamente. E pode ter certeza que Hollywood deseja que você o faça, de preferência na sala de cinema 3D mais próxima.

Até a próxima,

Marcelo

*Informações sobre bilheteria foram retiradas do site Box Office Mojo.