Ocupação dos espaços públicos

18927239-1484788418259745-918006600-o

A foto acima diz respeito a uma abordagem policial que ocorreu durante a madrugada do dia 4 de junho de 2017, na “Praça da Bicota”, local que fica no coração da cidade de Uberlândia, tendo uma vida noturna agitada por conta de bares e restaurantes no local e proximidades. De acordo com a PM, nada de ilícito foi encontrado.

Até aí, nada demais, uma abordagem, que apesar de grande, não incorreu em maiores problemas. Os jovens não estavam cometendo nenhum crime, e após interpelação, todos voltaram para suas casas tranquilamente e a polícia continuou fazendo o seu trabalho. Mas será que essa abordagem ocorreu sem maiores transtornos tanto para quem assistia, como para quem foi abordado?

Para muitos que assistiam, a polícia só estava fazendo o papel dela, garantindo a ordem e a segurança no centro da cidade, pois se tratavam de jovens que não se enquadram no perfil dos cidadãos e cidadãs de bem que circulam normalmente pelo local. Assim, é sempre importante saber o que aquelas pessoas estranhas aos olhos de muitos, estavam fazendo justamente naquele local. Eu passei pela praça uma madrugada antes da abordagem policial, e realmente percebi que havia uma concentração maior de pessoas que não via habitualmente pelo centro nas madrugadas dos fins de semana, e era claramente visível a separação que havia entre as pessoas que estavam nos bares da praça, e quem estava sentado nos bancos da praça, como uma espécie de cordão de isolamento. As pessoas abordadas, provavelmente vêm das periferias da cidade, pois apesar de Uberlândia ser uma cidade de mais de 600 mil habitantes, ainda tem raízes bastante conservadoras, e a vida noturna no centro dela é povoada pelas mesmas pessoas basicamente – universitários e moradores com maior poder aquisitivo.

Mas qual é o problema com tudo isso?

O que incomoda não é a polícia fazer o trabalho dela, é a maneira como ela o faz, de forma bastante tendenciosa, tratando o pobre como um potencial bandido, realizando a abordagem, por vezes, extremamente agressiva, que, em poucos minutos fere a dignidade de alguém que não tinha nada a dever à sociedade. A forma como grande parte da população menos privilegiada é tratada, causa insatisfação nela, e é compreensível, já que ela não se sente representada pelos governantes eleitos, além de ser vista como inferiorizada e relegada a ocupar os espaços periféricos da cidade para evitar que incomodem os tão importantes “cidadãos de bem”, sem, contudo, reduzir a violência, tanto no centro, como na periferia.

O que me parece, a partir da abordagem policial tratada no inicia do texto, é que os jovens da periferia devem continuar longe do centro da cidade, curtindo a vida social que lhes é devida, mas longe do incômodo e estranheza que podem causar num lugar que não foi feito para eles.

Recentemente o novo comandante da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) em São Paulo, declarou que a abordagem policial deve ser diferente conforme o bairro em que o agente está. Isto é, a abordagem varia conforme a classe social do respectivo bairro. Segundo o comandante, em entrevista para o portal UOL: “É outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma de ele abordar tem de ser diferente. Se ele for abordar uma pessoa da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins (bairro nobre de São Paulo), ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado”. O policial ainda complementa, tratando sobre a linguagem utilizada em uma abordagem: “Da mesma forma, se eu coloco um da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando. O policial tem de se adaptar àquele meio que ele está naquele momento”.

O que vejo que está em jogo, acima de tudo, é a ocupação dos espaços urbanos. É preciso reduzir a distância entre o centro e a periferia, ou pelo menos, acabar com os obstáculos para que isso ocorra, diminuindo a marginalização da periferia. Para isso, não é preciso tratar as classes mais privilegiadas de maneira pior, é necessário tratar melhor as classes menos privilegiadas, pois ninguém gosta de ser mal tratado. Mas até que ponto, quem acha que a abordagem da polícia foi a mais correta, no primeiro exemplo apresentado no texto, quer que haja mudança em como são tratadas as diferentes “castas” da sociedade?

Sílvio Alberto

*As ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos do autor, não de todos os membros do grupo

**Reportagens consultadas

https://g1.globo.com/minas-gerais/triangulo-mineiro/noticia/dezenas-de-pessoas-sao-abordadas-durante-blitz-da-pm-em-praca-de-uberlandia.ghtml

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,abordagem-nos-jardins-tem-de-ser-diferente-da-periferia-diz-novo-comandante-da-rota,70001948516

Anúncios