Sim, Sense8 pode ajudar a explicar Trump

Na última semana estreou a segunda temporada da série Sense8, sucesso da plataforma de streaming Netflix. Para aqueles que não a seguem, Sense8 é uma série de drama/fantasia que retrata os desafios enfrentados por oito jovens, cada um em um canto do planeta, que estão “conectados” entre si. Essa conexão permite que eles estejam virtualmente presentes na vida uns dos outros, compartilhando habilidades, sensações e experiências. De forma geral, a série trata de um evidente discurso sobre empatia, e como ações de um dos integrantes do grupo podem gerar impacto no grupo como um todo, mesmo do outro lado do mundo. Essas características ajudam a explicar o porquê a série é um fenômeno, principalmente entre adolescentes e jovens adultos.

Também nas últimas semanas, grande parte da mídia voltou os olhos para as eleições presidenciais da França. De um lado Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional e representante da extrema-direita, do outro, Emmanuel Macron, centrista e social liberal. A primeira representava uma mudança abrupta, com ideias nacionalistas, anti-União Europeia, anti-imigração, mas que acabou sendo derrotada pelo opositor Macron, liberal em relação à economia e favorável à União Europeia. Apesar de Le Pen não ter sido escolhida para liderar o País, a mensagem foi clara: muitos franceses estão incomodados com a situação do país.

Ainda assim, Macron representa um fôlego para a União Europeia, após o choque causado pelo Brexit. Do outro lado do Atlântico, Trump continua com seu discurso mais duro sobre questões sensíveis como a Coreia do Norte e a Síria, ao mesmo tempo em que favorece o fechamento de fronteiras para imigrantes, e desfaz políticas do governo anterior, como a reforma do sistema de saúde, conhecida como “Obamacare”.

Mas o que Sense8, a eleição de Trump, o Brexit e a ascensão do nacionalismo e da extrema direita na Europa têm em comum? Globalização. O processo de integração internacional, no âmbito econômico, cultural, social e político parece não ser reversível. Na realidade, a globalização parece ser um processo que surgiu com a fase da exploração ultramarina europeia no século XIV e, após diversas fases, tem ganhando novos contornos a partir dos anos 1980 com a derrocada do regime socialista soviético. A partir de então, o processo de liberalização econômica, a ampliação de livre fluxos de mercadorias e, ainda mais de capitais, correntes de imigração e formas de governo mais democráticas têm sido a regra da globalização.

Também foi nesse período, mais especificamente entre o fim dos anos 1980 e início da década de 1990, que Francis Fuckuyuama publicou um artigo, e posteriormente um livro intitulado O fim da história e o último homem. Em suas proposições Fukuyuama defende que autores como Marx e Hegel previram o “fim da história” ao sugerirem que a evolução da humanidade teria um limite, o qual ocorreria assim que suas aspirações mais profundas fossem atendidas.

Partindo desse pensando hegeliano, Fukuyuama sugere que a democracia e o liberalismo econômico seriam o ápice das sociedades ocidentais. A partir de então, estariam garantidas a liberdade e a igualdade de oportunidades para cada cidadão. A emergência de uma sociedade tecnológica, representada principalmente pelo advento das tecnologias de informação e a internet, poderiam atender às necessidades básicas humanas, e o próprio liberalismo seria associado à democracia. Nas palavras do autor “o direito de participar do poder político pode ser considerado como outro direito liberal, na verdade, o mais importante, e é por isto que o liberalismo tem sido historicamente associado à democracia”. Ao defender a democracia liberal, o autor leva a entender que outros regimes políticos ou econômicos seriam ultrapassados, e que governos autoritários, como na Coreia do Norte ou na China, não resistiram por muito tempo.

Mais de vinte anos se passaram desde o polêmico livro e o cenário global apresenta contrapontos à teoria apresentada por Fukuyuama. A ascensão do extremismo religioso, principalmente o islâmico no Oriente Médio, a manutenção de regimes autoritários em diversos países do sudeste asiático, na China e na Coreia do Sul, bem como as convulsões democráticas causadas pelo Brexit e a eleição de Donald Trump nos EUA deixam isso claro. Após cerca de 40 anos de globalização aos moldes liberais os resultados não têm sido satisfatórios. Por outro lado, foi verificado a melhora nas condições de vida de milhões que saíram da miséria, principalmente na América Latina e Ásia, e também a ascensão econômica de países do Leste Asiático.

Ao que tudo indica, o autor estava ao menos parcialmente errado, e o próprio parece reconhecer recentemente que foi “mal interpretado”. O que acontece é que, assim como em Sense8, as decisões tomadas por uma nação têm impacto direto em outras, porém, diferentemente do verificado na série da Netflix o modelo de globalização que está em vigor não consegue contemplar a real conexão entre as diferentes sociedades que compõe o sistema mundo, não há troca de habilidades ou de conhecimento. Os países ricos continuam praticando barreiras alfandegárias à produtos primários dos países mais pobres, e os países mais pobres continuam a ter, ou voltar a ter, economias reflexivas aos acontecimentos e decisões dos países mais ricos.

Na era da internet e dos smartphones, a comunicação e a informação parecem ser as únicas a serem, de fato, globalizadas. Assim como um jovem do Japão, outro no interior do Peru pode ter acesso a perfis em redes sociais, seguir uma modelo famosa brasileira, e claro, assistir Sense8, produzida nos EUA. Esse jovem, esteja onde estiver, tem acesso à informação referente a todos os bens de consumo ofertados nos grandes centros urbanos do mundo desenvolvido. Ele pode fazer amizades com estadunidenses, espanhóis ou mexicanos. Entretanto, as oportunidades não são as mesmas. Aos cidadãos dos países mais pobres continuam sendo negados serviços básicos de saúde e educação, e, com isso, ao chegar ao mercado de trabalho, o que eles têm para ofertar ao mundo em troca de todos esses bens de consumo é muito pouco.

O resultado é a indignação, a insatisfação de não ter acesso ao que melhor pode ser ofertado pelo mundo globalizado. Por algum tempo isso foi restrito a países de baixa renda. Entretanto, a própria globalização aos moldes liberais começou a gerar insatisfação também dentro das fronteiras dos países ricos. Indústrias e setores inteiros da Europa e, principalmente, EUA migraram para países asiáticos, em grande parte para a China. Esses páises asiáticos passaram por uma intensa onda de industrialização e, ao contrário da América Latina, adotaram políticas industrializantes e de estímulo ao comércio exterior, em grande parte contrárias ao consenso de Washington. Hoje, o salário médio de um trabalhador industrial chinês já é maior que o de um trabalhador brasileiro (ainda nesta década o PIB PPP per capita chinês também deve ultrapassar o do Brasil).

Os resultados gestados durante mais de três décadas deste modelo estão sendo verificados na insatisfação das camadas de classe média dos países ricos. Nos EUA, os trabalhadores industriais, em grande maioria brancos da região nordeste e sul do país, viram suas condições de vida caírem. Com salários estagnados, perda de empregos causados pela mudança da base produtiva para os países da Ásia, o que resta são os empregos no setor terciário, em muitos casos aqueles de baixa produtividade, como os ofertados por redes de varejo como o Walmart. Ao mesmo tempo, os filhos dessa antiga classe média se afogam em dívidas estudantis para tentar concluir um curso de nível superior ou pós-graduação, mas as condições no mercado de trabalho cada vez mais competitivo não têm apresentando a todos os estudantes recompensas ou formas de pagar essas dívidas.

O resultado de tanta insatisfação é a eleição de grupos que promovem o nacionalismo populista. As causas econômicas das eleições de Trump e do Brexit, além dos discursos xenófobos, é a insegurança e a queda do padrão de vida de camadas gigantescas das populações dos países ricos.

A globalização pode ser um processo sem volta, mas a forma com que ela é realizada pode sim ser alterada. Se causas humanitárias movessem os interesses da expansão da democracia, como sugere Fukuyuama, os EUA ou a União Europeia já teriam intervindo em tragédias como a da guerra civil do Sudão, mas ao que tudo indica esse não é o interesse dos que estão ganhando com a globalização liberal. Proporcionar as condições mínimas de vida para todos os cidadãos do mundo, como educação e saúde, sem piorar a situação dos que já conquistaram direitos, além de promover a empatia a outras culturas, e não a imposição cultural do ocidente, parecem ser os grandes desafios para que o processo de globalização consiga entregar algo minimamente parecido com o que é apresentado em Sense8: a extinção de fronteiras entre pessoas de diferentes culturas e expansão de humanidade em seu melhor sentido.

Marcelo

* As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo

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Por que a taxa de câmbio não é “escolhida”?

  • INTRODUÇÃO AOS CONCEITOS

Nota: Esta seção é introdutória à discussão sobre a taxa de câmbio, um recurso opcional para leitores não familiarizados com o tema. Se este não é o seu caso, vá direto à seção dois.

Ao discutirmos economia, pensamos imediatamente ao conceito de dinheiro, que tão logo o inserimos em temas e pautas sem ao menos termos de forma clara o seu conceito. Da mesma forma, e ainda mais, isto acontece nas abordagens sobre taxa de câmbio. Tendo esta negligência diagnosticada, este texto que lhes tomam a atenção terá uma pretensão: conversar sobre o dinheiro – o que chamaremos de moeda -, especificamente a moeda estrangeira. O tratamento da moeda estrangeira se insere nas discussões como taxa de câmbio e isso pode maquiar uma aparência em detrimento de sua essência, pois falar sobre câmbio não é nada menos do que se referir à moeda, especialmente à relação entre duas delas. Reside aqui a pretensão de enfatizar que a discussão de câmbio se refere ao tratamento de duas moedas, dois ativos na economia pelos quais os indivíduos (investidores, comerciantes, consumidores, bancos, instituições, etc.) recorrerão a elas para fins diversos.

Se os motivos para se demandar moeda são claros, aqueles para se demandar moeda estrangeira também o são, exigindo uma percepção extra que alcance os motivos internacionais para obtê-la.  A serventia da moeda estrangeira para os indivíduos está associada ao interesse em adquirir bens, serviços ou ativos atrelados a estas moedas, mas não apenas isso. A moeda estrangeira, assim como qualquer outro ativo, pode ser alvo para especulação, em que estes indivíduos esperam ganhar com a variação de seus preços, assim como pode ser alvo de busca por proteção, também como qualquer ativo, especialmente aqueles dotados de maior liquidez, como as moedas. A taxa de câmbio, relação entre a moeda doméstica e a estrangeira, é resultante dessa dinâmica por demanda e disposição de moedas que um país possui dado os fluxos que são realizados nelas. Uma maior entrada de recursos internacionais no país, tudo o mais constante, por exemplo, faz com que a dotação de moeda estrangeira se amplie em relação à doméstica, o que causa uma valorização da taxa de câmbio. Mas o que é desvalorização?

A taxa de câmbio, no seu sentido nominal[1] (agora apresentada de forma técnica), é o preço determinado pela relação entre a quantidade de moeda estrangeira e moeda doméstica de um país. “Valorizar” e “desvalorizar” a taxa de câmbio representa uma variação de quantidade em relação à outra e, quando a moeda estrangeira se amplia mais do que a moeda doméstica, isto determina uma nova relação entre o real e o dólar, por exemplo, fazendo com que a moeda doméstica se valorize, neste caso. Em outras palavras, há uma valorização da taxa de câmbio. Estas expressões utilizadas para se tratar dos movimentos da taxa de câmbio é uma das razões que tornam a taxa de câmbio uma pauta delicada, tornando muitas pessoas avessas ao tema.

  • POR QUE A TAXA DE CÂMBIO NÃO É “ESCOLHIDA”?

Caso o que se conceituou tornou-se claro (ou o já era antes desses parágrafos), é preciso, agora, traçar algumas características especificas da taxa de câmbio no Brasil, do mercado cambial, dos fluxos em moeda estrangeira recebidos e enviados pelo Brasil e, principalmente, das capacidades, objetivos e operacionalidade da política cambial no Brasil (ao menos traçar os seus principais atributos).

Se a taxa de câmbio nominal é uma relação de quantidade entre as moedas, colocando, por enquanto, os fenômenos inflacionários fora da discussão, qual a principal fonte de moeda estrangeira do Brasil? Como a taxa de câmbio, afinal, é formada e se comporta no País? O principal objetivo deste texto é desmistificar o processo de formação da taxa de câmbio no Brasil por meio do esclarecimento dos fatores e do mercado nos quais ela está sujeita e permeada.

A razão inicial, mas não suficiente, de não termos uma taxa de câmbio em um nível precisamente escolhido deve-se a não adoção de um regime de câmbio fixoSob o regime de câmbio flutuante, sujeito às intervenções da autoridade monetária desde 1999[3], a taxa de câmbio no Brasil é uma resultante de várias operações e negociações que ocorrem dentro do mercado cambial, o qual se define mercado por representar o lócus de negociação de moedas domésticas por estrangeiras e vice-versa, isto é, onde há demanda e oferta dessas moedas. O mercado cambial brasileiro pode ser compreendido por basicamente três segmentos principais: primário, interbancário e de derivativos[4].

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O mercado primário é onde diversos agentes da economia, como investidores, exportadores, importadores, bancos, instituições e qualquer outro interessado em fazer negociações em outras moedas, expressam sua demanda e oferta em moeda estrangeira para satisfazer negociações nesta moeda. Neste segmento a troca de moeda tem, de um lado, um indivíduo disposto a oferecer moeda estrangeira e, de outro, um indivíduo tomando-a (disposto a comprar). Na maior parte das operações, são os bancos e instituições que se posicionam como ofertantes de moeda estrangeira, a depender de sua liquidez e de seu interesse em oferecer recursos para os demais indivíduos. Os indivíduos que demandam moeda, por sua vez, o farão para fins diversos, seja para importar ou para investir fora do país, o que pode ter uma natureza diretamente produtiva como investimento em bens de capital, como pode ser uma aplicação financeira, para pagamento de dívidas e outros compromissos. Não obstante, a demanda pode ser por mera especulação financeira, dado a diferença entre as taxas de juros doméstica e a de outro país, e para negociações no mercado de derivativos (como veremos) seja para se fazer proteção cambial, como para especular sobre o valor futuro da taxa de câmbio.

Configuradas estas relações, há vários fatores que influenciam o comportamento destes indivíduos neste segmento primário: as taxas de juros domésticas e externas – o diferencial entre elas, na verdade; os níveis de preços domésticos e externos; diversos indicadores de risco de investimento; a taxa de crescimento do PIB dos países alvos de interesse da negociação; incentivos e tributações dos governos sobre os fluxos internacionais; oferta monetária; etc. Em suma, todos esses fatores são de alguma forma considerados pelo agente e o peso que cada um tem na decisão individual não é algo objetivo, pois à medida que observam esses elementos, os agentes formarão expectativas e é a partir delas que uma decisão de investir se realizará ou não e, portanto, a moeda estrangeira será ou não demandada ou ofertada.

Enquanto no mercado primário revela-se o papel dos indivíduos na economia e os fins básicos pelos quais se demandam a moeda internacional, o mercado interbancário (ou secundário) desempenha uma espécie de função catalizadora dos fluxos do mercado primário, uma vez que controla sua liquidez (volume de moeda que pode ser potencialmente ofertada). Isto ocorre porque nele se insere diretamente a atuação do Banco Central do Brasil (BC), a autoridade monetária brasileira. Nos demais segmentos, seu papel incide indiretamente via intervenções diversas, ou diretamente, apenas quando, via política monetária, compra e vende moedas com a disposição de títulos.

No mercado interbancário, como o próprio nome diz, ocorrem as negociações entre os bancos e outras instituições autorizadas pelo BC. Estas negociações são realizadas pelos bancos por motivos de ajuste de balanço de suas dotações de moedas e eles fazem isso com outros bancos, buscando nivelar a posição de câmbio quando, no mercado primário, incorreram em vendas ou compras além do necessário. Especialmente o Banco Central é uma dessas instituições que atua neste segmento, o qual assume uma ponta da negociação para inserir ou remover determinado volume de moedas estrangeiras que está em poder destes bancos. Intuitivamente, o Banco Central tem a capacidade de de liquidez de moeda dos demais bancos, isto é, controlar a capacidade que estes bancos possuem de ofertar moeda no mercado primário para os demais agentes. De forma breve, há duas razões principais declaradas pela própria autoridade para este controle: i) garantir contas equilibradas no balanço de pagamentos, evitando déficits em transações correntes e estabilidade na conta capital; e ii) limitar as oscilações da taxa de câmbio, uma vez que sua maior variabilidade afeta outros preços importantes na economia, como a inflação. Tendo em vista a atuação da autoridade monetária no mercado de câmbio, a taxa de câmbio já não pode ser mais compreendida tão e somente pelas operações no mercado primário, uma vez que no mercado secundário os bancos se ajustam e, principalmente, o Banco Central incide diretamente, podendo movimentar um volume mais significativo de moeda daquele movimentado no mercado primário. Nota-se que o Banco Central não “escolhe” a taxa de câmbio neste segmento também, ele apenas cria mais uma referência e uma “pressão” via controle de liquidez sobre o potencial dos bancos em negociar moedas.

Resumidamente, no mercado primário, a taxa de câmbio se move a depender das decisões dos indivíduos para se fazer operações internacionais diversas; no mercado interbancário, os bancos ajustam suas dotações, o que define a liquidez para que atuem no mercado primário para satisfação das negociações que citamos; o BC atua diretamente e é o principal “controlador” de circulação de moedas neste segmento. Nota-se que a taxa de câmbio – já em uma consideração apenas destes dois segmentos e abstraindo-se de qualquer outra intervenção – não pode ter sua formação e variação compreendida claramente. Isto é, a determinação da taxa de câmbio no Brasil é de fato complexa e precisa compreender vários canais e variáveis.

Como se as dificuldades para se compreender precisamente a formação da taxa de câmbio não bastassem, ainda resta tratar o mercado de derivativos. O mercado de derivativos existe para duas funções, principalmente: i) a proteção cambial (hedge); ii) especulação sobre a moeda futura. A proteção cambial é a razão primordial de jure do mercado de derivativos, embora possa não ser a de facto. Derivativos são contratos negociados no mercado financeiro que possuem preços derivados de outros ativos – o que lhe dá o nome – e, com isto, possibilita a compensação de perdas em outros tipos de investimentos. Os agentes ao negociarem e ao fazerem investimentos arriscados estão sujeitos às variações nos valores da taxa de câmbio, que podem causar perdas em termos reais de seus investimentos. Por essa razão, fazem contrapartidas adquirindo derivativos para se protegerem dessas variações, compensando as perdas sobre os investimentos com ganhos nos derivativos quando a taxa de câmbio varia ao longo do tempo. Esta proteção permite liquidez e certa segurança para que os agentes façam investimentos mais volumosos e que possuem longo período para instalação e geração de retornos, criando mecanismos para se sentirem mais seguros em relação às incertezas existentes nas variações de preços no tempo.

Embora tenha papel complementar, o mercado de derivativos é o segmento em que se acontece o maior volume de transações monetárias. Embora a função hedge desempenhe uma função fundamental aos investimentos, o mercado de derivativos tem o potencial de aumentar as instabilidades macroeconômicas, pois permite a expansão da atividade especulativa e a introdução de novos riscos. Seus mecanismos se tornam objetos de especulação, dado seu elevado poder de ampliar a rentabilidade por meio de endividamento, usufruindo de efeitos de distorção de preços entre mercados distintos e até mesmo em periodicidades distintas. O funcionamento do mercado de derivativos é compreendido em duas instâncias: i) offshore, que são negociações de moeda doméstica de não residentes em jurisdição estrangeira; e ii) onshore, remetendo-se a transações de moeda submetidas às leis e regulamentação domésticas. Vinculadas, permite-se aos agentes realizar transações em diferentes moedas que usufruem da incidência de jurisdição de forma arbitrárias. Este tipo de negociação no Brasil é bastante volumoso, o que causa pressões significativas sobre a taxa de câmbio. Uma taxa de juros muito elevada, relativamente às taxas de juros das demais moedas, indica uma alta atratividade em questão de rentabilidade da moeda doméstica, tornando-a alvo de especulação. Não obstante, os fatores que guiam os fluxos de moeda aqui não são também objetivos: o processo de compra e venda de divisas pelos bancos vai depender do comportamento de demanda, da expectativa de realização de lucros sobre os ativos, da conjuntura econômica internacional e de outros fatores que influenciam na decisão de investimento dos agentes.

Expressas de forma breve, discutir os canais pela qual a taxa de câmbio se forma dentro dos segmentos cambiais revela as especificidades do mercado de câmbio brasileiro. Há, portanto, um conjunto de normas e instituições que atuam sobre os seus diversos segmentos, o que traz consigo seu comportamento microestrutural. Embora tenha se mantido as inúmeras outras formas de atuação e intervenção da autoridade cambial, os fatores que determinam mais precisamente a política cambial, algumas de suas dificuldades e funções podem já ser desvendadas. A eficácia dos instrumentos de política cambial depende, portanto, do conjunto de operações no mercado, tendo em vista seus diversos segmentos, suas especificidades e a subjetividade que o comportamento de cada agente aufere a depender de suas expectativas.

Assim, suficiente e incompletamente, destacou-se razões pela qual não se existe um controle preciso sobre a taxa de câmbio no Brasil.

Leandro Vieira
Doutorando em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Leituras sobre o tema:

O artigo “Currencies, capital flows and crises: a post Keynesian analysis of exchange rate determination” – Harvey (2009)

O artigo “A post Keynesian framework of exchange rate determination: a Minskyan approach” – Kaltenbrunner (2015)

O livro “Taxa de Câmbio e Política Cambial no Brasil” – Rossi (2016)

A tese de doutorado “Taxa de câmbio no Brasil: dinâmicas da arbitragem e da especulação” – Rossi (2012)

A tese de doutorado “O futuro no presente: um estudo dos mercados de derivativos financeiros” – Farhi (1998)

O artigo “A dinâmica da taxa de câmbio face às operações swap da política cambial: uma análise pós-keynesiana para o período 2002-2015” – Araújo e Terra (2016)

Leituras sobre temas anexos:

O artigo “Liberalização e performance econômica: a experiência recente do BRIC” – Ferrari Filho e Paula (2006)

O artigo “Fear of floating” – Calvo e Reinhart (2000)

O artigo “A hierarquia monetária e suas implicações para as taxas de câmbio e de juros a política econômica dos países periféricos” – Conti et al. (2014)

Notas:

[1] O valor nominal é aquele no qual não se incluem as influências da inflação ou outros efeitos que alteram seu valor. No caso da taxa de câmbio, o valor nominal é uma simples relação doméstica e estrangeira de quantidade de moedas que um país dispõe. O seu valor real, seria aquele calculado considerando a inflação (“poder de compra”).

[2] O regime fixo foi adotado pelo Brasil, por exemplo, com a implementação do Plano Real em 1994 e durou até o final da década, em 1999. Tal regime consiste numa adoção de controle direto e fixação do câmbio pela autoridade monetária, independendo das pressões que o mercado causa. No caso exemplificado do Brasil, tal adoção acrescentou a utilização de bandas cambiais assimétricas, permitindo faixas limites em que o câmbio poderia flutuar.

[3] Primeiramente, economias emergentes se inserem de forma subalterna no Sistema Monetário Financeiro Internacional (SMFI), o que lhes remete uma posição desfavorável em relação à capacidade de suas moedas em desempenhar as funções delas. Para mais, ler Conti et al. (2014). Em decorrência das assimetrias no SMFI, as economias emergentes acabam tendo que adotar determinados regimes cambiais para esquivarem-se de vulnerabilidade, para mais, ler Calvo e Reinhart (2000). A discussão mais precisa das implicações sobre a adoção de um regime cambial ou outro é feita por Ferrari Filho e Paula (2006).

[4] As análises de determinação da taxa de câmbio nos moldes de exame dos segmentos cambiais e de expectativas são feitas a partir de ROSSI (2012; 2016); FARHI (1998); ARAÚJO e TERRA (2016)

Reforma trabalhista pra quem?

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Protestos contra a reforma trabalhista na França não foram tão amistosos

Em 2016, envolta no medo do terrorismo, na latente disputa presidencial, em altas taxas de desemprego e em uma economia que ainda “patina”, a França optou por realizar uma reforma trabalhista profunda. Por França se entenda o Presidente François Hollande, e alguns de seus aliados, uma vez que segundo pesquisas de opinião mais de 70% dos franceses eram contrários à proposta de reforma trabalhista apresentada.

Sem apoio popular, e com indícios que a reforma não seria aprovada pela Assembleia Nacional, o presidente fez uso de um artigo da constituição francesa que prevê o termo de “Compromisso de responsabilidade”, com a finalidade a sancionar a nova legislação sem que ela fosse posta em discussão no legislativo, ou seja, por decreto. Um evidente choque de poder. A nova legislação só poderia ser derrubada por uma moção de censura, mas tanto a esquerda crítica ao projeto, como a direita de olho nas primárias não foram capazes de fazê-la.

A reforma trabalhista da França alterou alguns pontos primordiais como a possibilidade de subir a carga horária semanal para até 60 horas, criação por parte das empresas de turnos de 12 horas e ultrapassagem das 35 horas de trabalho semanais sem direito a hora extra. Além da possibilidade de negociação direta da empresa com o trabalhador, em substituição as tradicionais negociações setoriais, demissão mais flexível, com minimização de multas, em caso de crise econômica, redução das diferenças entre empregados com contratos seguros e aqueles temporários, e o detalhamento de horas para que empregados se mantenham desconectados de aparelhos eletrônicos.

Percebe-se que a reforma francesa buscou não apenas flexibilizar a carga horária, como também reduzir custos de demissão e horas extras. Os defensores da reforma dizem que agora a França poderá se colocar ao lado de outras economias desenvolvidas com relações de trabalhado mais “modernas” como EUA e Reino Unido. Do outro lado do Atlântico, a lei da terceirização e a discussão da reforma trabalhista no Brasil também se encaminham para essa direção.

Já acumulando três anos de estagnação ou recessão econômica o governo de Temer está buscando atender a pressões do empresariado para alteração da legislação trabalhista brasileira, incialmente pela aprovação de uma legislação para terceirização e posteriormente uma possível reforma trabalhista mais profunda. Mas é realmente necessário pensar em uma reforma trabalhista? A terceirização é o melhor caminho?

As respostas podem ser amargas, ou não, a depender de quem as compreende. A atual legislação brasileira que trata da terceirização, e a própria CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), ainda deixam algumas margens para interpretação, além das evidentes mudanças nas relações de trabalho proporcionadas pela mudança tecnológica. Isso pode resultar em insegurança jurídica, tanto para o empregador como para o trabalhador, e resolver essas questões é de fundamental importância, o que implica em um amplo debate democrático. Entretanto não é isso que tem sido verificado. Assim como na França a democracia pode estar sendo deixada de lado em nome da “modernização” do mercado de trabalho brasileiro.

As regras atuais de terceirização no Brasil tem datação relativamente recente. Permitem às empresas e órgãos públicos terceirizar atividades-meio, como limpeza, segurança e suporte, mas não atividades-fim. Uma universidade pública não pode terceirizar a contratação de professores, ou uma empresa montadora de automóveis não pode terceirizar sua linha de montagem. O projeto aprovado no Congresso Nacional data de 1998, e apresenta novas regras, como a terceirização irrestrita de qualquer atividade, inclusive a atividade-fim da empresa, como os professores de uma universidade, ou os funcionários do caixa de um banco, além de alterar o prazo de contratos temporários, dos atuais três meses de vigência para um semestre, prorrogável por mais três meses. Além de deixar de lado o compartilhamento de responsabilidades quanto a pagamento de encargos sociais e em caso de litígio da “empresa-mãe” e da terceirizada.

Essa legislação representa uma mudança muito forte em relação as regras atuais, e garante poucas “salvaguardas” ao trabalhador, como o impedimento de realizar serviços diferentes daqueles aos quais foram contratados, que terão as mesmas condições de segurança, higiene e salubridade dos empregados da “empresa-mãe” e estarão abrangidos nas regras da CLT sobre fiscalização.

As mudanças previstas na CLT também são polêmicas, como privilegiar negociações coletivas, alterar os limites de horas de trabalho para 12 horas diárias e 220 horas mensais, além de possibilitar a extensão de acordos coletivos após a expiração, entrada em programa de seguro-desemprego, planos de cargos e salários, acréscimo de horas extras, remuneração por produtividade, trabalho remoto e registro de ponto. Outros pontos como o FGTS, 13º salário, licença maternidade de 120 dias e aviso prévio não seriam alterados.

Sob a propaganda de que a maior crise exige as maiores reformas, o Governo de Temer tem buscado aprovar o mais rápido possível essas e outras reformas, como a da previdência, educacional e do regime fiscal. Como dito antes, atualizar as regras, e propor uma legislação mais coesa pode resultar em maior segurança jurídica e gerar melhor balanceamento nas negociações. Mas talvez essas reformas não estejam trabalhando em vista a atingir esse objetivo.

Normalmente em países desenvolvidos a terceirização é observada nos mais diversos setores. Ainda que possa ocorrer mais frequentemente naqueles serviços menos qualificados e de salários menores, a terceirização também é observada em setores de alta tecnologia, serviços de engenharia, tecnologia de informação, softwares e por meio de serviços de outsourcing, quando uma empresa terceiriza a prestação de serviços especializados. Entretanto, nos países em desenvolvimento a terceirização ocorre, via de regra, em trabalhos menos qualificados como limpeza, segurança ou produção/montagem de manufaturas, onde, apesar dos salários serem mais baixos, eles representam parcela importante da mão de obra assalariada desses países.

É importante notar que há um padrão, que reproduz uma divisão internacional do trabalho, ou analisando a restruturação produtiva, as cadeias globais de valor. Esse processo acaba direcionando partes do trabalhado de um mesmo setor para alguns países, como marketing e design, enquanto que a montagem dos componentes do produto se fazem em outros países.

O projeto de lei de terceirização aprovado pelo Congresso Nacional, e as regras incialmente propostas pelo governo apontam que o Brasil se encaixa nesse segundo grupo de países, naqueles que oferecem mão de obra barata, propícia a atrair investimento estrangeiros para montagem de manufaturas, assim como países do Leste Asiático. Entretanto essa não é a realidade do mercado de trabalho brasileiro, que passou por um processo de valorização real do salário mínimo na última década, e da consequente melhora na distribuição de renda.

Imaginar que o Brasil possa concorrer com esses países, ou mesmo com o México, para atrair empresas que buscam mão de obra barata e pouco especializada pode não ser a melhor estratégia. Na realidade mostra que os empresários e industriais brasileiros possam estar mais preocupados com redução de custos do que em promover um ambiente inovativo capaz de diferenciar sua produção e então atingir novos mercados.

Por outro lado, cerca de 70 anos após a criação da CLT, manter regras rígidas quanto ao horário e intervalos entre a jornada de trabalho possa não ser mais factível. Principalmente em uma realidade onde, infelizmente ou não, cada vez mais o trabalho está interligado à vida pessoal dos trabalhadores devido ao surgimento e rápida expansão das mídias digitais, da comunicação e da internet desde os anos 1990.

Elaborar uma legislação específica para a terceirização é extremamente necessário em vista dos novos arranjos produtivos, impostos pelas cadeias globais de valor. Esse tipo de legislação pode favorecer o desenvolvimento de setores como o de tecnologia de informação e call centers. Mas tal legislação deve garantir os mesmos direitos que dos demais trabalhadores da mesma empresa. Outros pontos como expandir o período de experiência para nove meses pode ser contraditório com o próprio caráter temporário do contrato. Ao que se indica, essa pode ser mais uma demanda setorial de empresas que objetivam apenas reduzir custos em resposta à flutuação de demanda de seus produtos, do que proporcionar contratação mais rápida de novos empregados.

Há de se destacar que mercados de trabalho muito desregulados não são sinônimo de sucesso. Nos EUA a taxa de desemprego dos últimos anos tem sido considerada uma das menores da série histórica, entretanto isso não tem resultado em maior bem-estar da população. Seis de cada 10 famílias estadunidenses que vivem abaixo da linha de pobreza tem pelo menos um de seus componentes trabalhando, porém em um trabalho de meio período, quase sempre no setor de serviços. São os MacJobs, empregos de meio período gerados principalmente por redes de fast food ou em grandes supermercados, como o Walmart. Mesmo que busquem trabalhar mais horas, os trabalhadores não conseguem, e assim não ganham suficiente para sustentar a si e a suas famílias, e acabam tendo que pedir ajuda do governo por meio de programas sociais. Recursos públicos acabam sendo dirigidos para manter a subsistência destes trabalhadores, e ao mesmo tempo assegurar a mão de obra barata para grandes corporações.

Pensar em uma legislação para terceirização no Brasil demanda muito esforço, seja para atender a diferença entre os empregos menos qualificados e os de setores nascentes e em grande crescimento como de tecnologia de informação e softwares. Buscar manter regras mais claras capazes de assegurar empregados e empregadores, e que sejam favoráveis ao estabelecimento de um Estado de bem-estar social deve ser o objetivo. Objetivo este que parece cada vez mais turvo em um ambiente pouco democrático que em que se encontra a nação brasileira.

Marcelo

* As ideias apresentadas nos textos traduzem a opinião do autor e não de todos os membros do grupo

O Reino Unido Escolheu Ser o Exemplo

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Com o advento das redes sociais e do apetite da população em se informar, divulgar e opinar sobre política e economia uma série de argumentos estão circulando na internet à respeito de cada governo, argumentos que possuem uma construção técnica e/ou teórica que a população não é instruída a analisar, apesar de ser induzida a compartilhar. Há ainda argumentos extremistas que buscam manipular os fatos, e provocar um medo na população em momentos de decisão social, como em um plebiscito. A ideia é que quando uma população precisa tomar decisões importantes num plebiscito, mas não tem a especialidade técnica no assunto, o melhor é espalhar o medo. Esta estratégia foi usada nas eleições brasileiras e agora no plebiscito do Reino Unido (RU), por isso a frase de um britânico anônimo se tornou símbolo desse plebiscito “Os britânicos estão cansados de ouvir especialistas”. O medo foi explorado em diversas áreas como na economia, no emprego, na cultura, na democracia e na soberania nacional. Para compreender a decisão e a coragem britânica de sair da união europeia é preciso buscar no contrapeso entre economia/democracia/soberania/cultura o que é mais palpável à maioria da população britânica, assim como a estrutura e opinião britânica pré-discussão sobre a saída da União Europeia (UE).

A UE é composta por 28 países, incluído o RU. O parlamento da UE é eleito por votação direta e simultânea nos 28 estados-membro, com uma proporcionalidade de cadeiras maior para a Alemanha, França e respectivamente. O poder executivo é exercido na Comissão Europeia com 28 comissários eleitos pelo voto indireto, pois são indicados pelo líder de cada país. As demais autarquias também são eleitas de forma indireta, sem a participação da população. A proporcionalidade predominante da Alemanha e França na UE, assim como as eleições indiretas para cargos importantes desestimula o eleitorado britânico à votação do parlamento europeu, e promove uma sensação ainda maior de falta de representatividade política e legitimidade democrática que sempre foi criticada por partidos britânicos de esquerda, como o Partido  Trabalhista (Labour Party) e o de extrema direita UKIP.

Além da falta de transparência e democracia, havia a percepção de que a UE se intromete demais na legislação britânica, impondo diversas leis, regras e regulamento para o povo britânico. Com a globalização, e a consequente quebra de barreiras econômicas e comerciais, surgiram novas barreiras no comercio internacional, barreiras de origem regimental e uma série de regras para isolar os demandantes internos dos ofertantes externos da UE., Legislações como qual é a curvatura ideal para armazenar bananas e pepinos, ou rótulos obrigatórios alertando que em pacotes de salmão congelado contem peixe. Esse conjunto de regras não faz sentido para os britânicos, principalmente para pequenas empresas que não exportam para a UE, e a percepção é de que tais regras servem para proteger determinados privilégios corporativos, em detrimento da população.

O único benefício palpável para os britânicos é o de viajar para qualquer país da EU sem passaporte e poder morar em qualquer país com os mesmos direitos da população local. Este é um grande beneficio da EU, pois permite livre circulação da população para estudar e trabalhar, promovendo grande mobilidade migratória e interação cultural. Porém segundo o britânico Philip Oltermann seus compatriotas  não utilizam muito este benefício, se sentem mais próximos da América do que da Europa e frequentemente veem a UE como uma violação da soberania britânica.

Sobre a imigração é importante dizer que a imigração a que se referem os britânicos é a respeito dos trabalhadores vindos do Leste Europeu, e não da crise humanitária com imigrantes de origem síria. A percepção britânica é que o desemprego está elevado e as facilidades da imigração estão absorvendo parte relevante dos empregos gerados no RU Esta percepção está parcialmente correta, uma vez que se baseia apenas em problemas migratórios mas esquece dos problemas econômicos do próprio UK. Segundo os britânicos a imigração em massa esta modificando alguns locais no RU, transformando a cultura urbana e desconectando os britânicos de sua cultura e de seu país, além disso, há certa dificuldade em matricular os filhos nas escolas por falta de vagas, bem como as filas em hospitais tem aumentado significativamente. Porém também há fatores econômicos que explicam a redução da qualidade dos serviços públicos. A política de austeridade do governo reduziu em cerca de 40% os repasses do governo federal para os municípios, em comparação com ano de 2010. Tais repasses são fundamentais para financiar a saúde e a educação.

Para o alemão Khuê Pham a crise econômica europeia e a dificuldade de se compartilhar os recursos em tempos de escassez promove a xenofobia no RU, “Se alguém sair do mundo paralelo do debate sobre o referendo britânico e se junta ao mundo real por um momento, é possível ver que os verdadeiros problemas não estão em seu país, mas no continente: a ascensão da direita, o drama grego, a crise dos refugiados sem fim. Agora é a idade da crise econômica e da depressão cultural na Inglaterra. Tenho a sensação de que todo mundo está apenas tentando descobrir como fazer face às despesas. E eu sinto que este tornou-se o leitmotiv – motivo condutor – da política britânica e, especialmente, a campanha Brexit: o estado da nossa saúde, das nossas universidades, das nossas empresas seria melhor se nós não tivéssemos que compartilhar tanto com os europeus que no momento estão sangrando”.

Os partidos de esquerda sempre denunciavam a centralização do poder decisório sobre uma elite tecnocrática não eleita diretamente pela população e indiferente à soberania de cada país membro, adotando uma política neoliberal, pró mercado, pró privatização dos serviços públicos em favor das multinacionais. Discurso semelhante ao da extrema direita, como o partido UKIP, que além da insatisfação com o modo corporativo que se tem guiado a UE, agrega a questão da imigração e o nacionalismo em seu discurso.

No que diz respeito ao plebiscito, o partido trabalhista mudou de lado e defendeu a permanência do RU na UE. Segundo o partido a saída para democratizar a UE deve ser discutida junto à UE, promovendo transformações, e portanto, o apoio a não deixar o bloco pois isto poderia causar grandes perdas econômicas, mergulhar o RU numa grave crise e ampliar o desemprego. Por outro lado, o partido de extrema direita UKIP defendeu a saída da UE. Já o Partido Conservador (Conservative and Unionist Party) de David Cameron estava dividido. Seus dirigentes apoiavam ambas as decisões do povo britânico, segundo o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson do partido conservador: “o que eles dizem é que vale à pena sacrificar a democracia em troca de ganhos econômicos”, portanto até mesmo quem defende a saída do RU sabe que economicamente essa alternativa não é um bom negocio.

De acordo com Oltermann “A maioria da nossa população acredita que se juntou um espaço econômico comum , em 1973, e não uma união política. A Europa tem um déficit democrático que precisa ser tratado. O referendo britânico é talvez uma forma caótica de equilibrar esse déficit, isso mostra que o tema está em discussão”. Ainda segundo Oltermann a crise econômica mundial, iniciada em 2008, de origem financeira com grandes fraudes bancárias, contribuiu para formar a opinião popular na Europa de que “os maus britânicos estão arruinando tudo com os seus bancos, os gregos maus estão arruinando tudo com sua dívida e só a Alemanha saberia o que é certo para todo o continente” e este raxa está distanciando ainda mais os britânicos da Europa. Nos últimos anos a política internacional do RU tem perdido relevância e o governo tem se voltado para resolver os crescentes problemas internos,. Essa falta de moral internacional tem irritado parte dos britânicos, se tornando mais um motivo pela saída da UE, porque para o crescente sentimento nacionalista, uma maior autonomia da RU poderá recuperar parte de seu prestígio e relevância internacional, que datam do antigo império Britânico

Segundo Ingo Ploger a sensação de piora da qualidade de vida da população britânica promove um resgate às políticas de gerações passadas: “Existe um divisão de gerações, entre a geração mais velha, conservadora, que querem tomar as rédeas do país novamente e as gerações mais novas com uma concepção de integração internacional que reconhece as mudanças mundiais e que as complexas estruturas causam uma grande ruptura estrutural que pode ter sérias consequências econômicas. Os perdedores da globalização votam contra a globalização, ou seja, aqueles países ou segmentos sociais que se veem prejudicados pelo aumento da concorrência externa preferem uma retórica nacionalista e isolacionista que protege o mercado interno, o que fortalece o racismo e a aversão à progressiva da união que leva à perda de competitividade de parte da indústria no processo de abertura econômica e consequente desindustrialização, concentração de renda gerada pela globalização e a comunicação que não consegue qualificar de maneira adequada o balanço dos benefícios e custos da integração econômica, legal e política. Que com mobilização social pelas redes sociais se estruturam para dizer não à globalização. Houve perda de soberania, pois tiveram que equalizar diversos regulamentos e interesses nacionais distintos que criaram barreiras excessivas em certos setores da economia, como a agricultura, que irrita pequenos agricultores de países como Inglaterra que não querem exportar para a Europa e precisam seguir todas as determinações da UE”.

Segundo o The Economist o voto pela separação só se explica pela nostalgia do período imperial inglês. Segundo Samantha Pearson os britânicos olham muito pra trás, existe um racismo contra os imigrantes, contra a entrada da Turquia por acreditarem que sua entrada pode significar uma nova onda migratória para o RU. Uma campanha popular pela saída da UE dizia: “Se você quiser ficar na União Europeia, ligue para sua avó e ela irá explicar porque nós devemos sair”. Os gastos do RU com a estrutura da EU, em contrapartida dos baixos investimentos na saúde, também incomoda o povo.

Se analisarmos quem apoio a permanência do RU na UE, como as grandes empresas, o governo, sindicatos, intelectuais, artistas e compararmos com quem apoiou a saída do RU como os trabalhadores e a oposição ao governo, chego à conclusão de que o voto pela saída foi mais um ato de desespero pela mudança de política, do que uma visão estratégica sobre como deve ser o RU no futuro. Reino que talvez não seja unido por muito mais tempo, dada a eminência da saída da Escócia, província que no ultimo referendo pela independência teve o apoio para saída do RU por 45% da população. Os especialistas acreditam que a independência da Escócia deve ganhar força já que parte significativa da população votou pela permanência do RU no bloco. Ironicamente o RU fez forte campanha contra a independência escocesa na época do referendo.

A onda nacionalista é um contrassenso mundial, não apenas socialmente mas também economicamente. Nas ultimas décadas os países passaram por grandes transformações no sistema produtivo, passando de um sistema autônomo e isolado para a adoção de Cadeias Globais de Produção, utilizando recursos produtivos de diversos países num só produto. Justamente no campo econômico, onde o RU faz parte da UE desde 1973, e que desde então a economia inglesa foi se desenvolvendo, conectando-se à economia da Europa continental, e atraindo empresas transnacionais para produzir produtos e serviços para atender a demanda de todo o mercado europeu. Por isso uma mudança brusca nesse arranjo, pode ter impactos na estrutura produtiva que se desenvolveu por décadas de sistemática integração econômica, financeira, legislativa e institucional, e deverá gerar fortes complicações econômicas, principalmente para o RU, já que Alemanha e França se candidatam para que uma de suas cidades se tornar a capital financeira do bloco, em substituição a City Londrina, uma vez que de imediato cerca de 220 empresas podem deixar o RU e se mudar para o continente. Do ponto de vista político o resultado do referendo britânico está alimentando a realização de outros referendos na França, Holanda, Suécia, Polônia e Dinamarca. Novas propostas de saída deverão ocorrer, e serão estimuladas ou desestimuladas a depender do desempenho inglês, que para o bem da UE, o RU deverá fracassar quanto mais rápido melhor. RU escolheu sair da UE e ao mesmo tempo, ser o exemplo para toda Europa.

Kelmaisteis.

O que nos interessa sobre a corrida eleitoral estadunidense?

GOP Presidential Candidates Debate In Milwaukee

Donald Trump já é considerado o principal candidato republicano (Photo by Scott Olson/Getty Images)

 

Conhecer e entender a política internacional é essencial para qualquer cidadão que queira se inteirar um pouco sobre o mundo que o cerca. Saber qual é a influência de Rússia e Estados Unidos no governo de Bashar al-Assad na Síria, entender o avanço do ISIS (o autointitulado Estado Islâmico) no oriente médio com o hiato de poder causado pela invasão estadunidense no Iraque e a Primavera Árabe de 2010; entender o avanço da direita política na América Latina nos últimos anos (no Paraguai , na Venezuela , na Argentina). São exemplos que, por mais que tenham um certo afastamento com a realidade da economia e da política interna brasileira, podem de fato influenciar o Brasil.

Na história da economia brasileira são incontáveis os fatos associando Brasil e EUA. A relação de Getúlio Vargas e os democratas Truman e Roosevelt, a crise da dívida e o avanço das ideias neoliberais já na década de 1980 com o republicano Reagan, e, mais recentemente, as fortes relações do democrata Clinton e FHC, Bush Filho e Lula, Obama e Dilma, são só alguns exemplos.

Ter uma ideia do processo eleitoral nos Estados Unidos e conhecer um pouco cada candidato nos faz criar cenários sobre o futuro na economia mundial e doméstica. Apesar de ser presidencialista assim como no Brasil, a lógica do sistema político lá é um pouco diferente. Ao invés de existir uma série de partidos que representam causas bem particulares como aqui, nos Estados Unidos são apenas dois partidos que têm relevância no debate político e de fato concorrem às eleições: os republicanos e os democratas, que historicamente vêm alternando o poder na Casa Branca. Dentro de cada partido existem alas mais conservadoras ou mais liberais, isto é, mesmo os republicanos que historicamente são mais conservadores possuem seus partidários mais liberais e no partido democrata, mais liberal, existe também uma ala mais conservadora.

A corrida eleitoral em si já ocorre desde o fim de 2015, um ano antes das eleições em 8 de novembro de 2016. Isso acontece porque existem as prévias de cada partido em cada estado, ou seja, há uma eleição para escolher qual candidato de fato entrará na corrida eleitoral este ano. No partido republicano, os principais pré-candidatos são Donald Trump, que tem um duro discurso com relação aos imigrantes e propõe a construção de um muro entre os EUA e o México, o banimento da entrada de mulçumanos no país e algumas propostas bizarras; Marco Rúbio, foi senador pela Flórida em 2010, questiona o aquecimento global, é contra a reaproximação estadunidense com Cuba, é contrário ao aborto mesmo em casos de estupro e incesto; Ted Cruz, assim como Trump, propõe a construção de um muro com a fronteira mexicana, é contra uma legislação que dificulte a compra de armas além de ser contrário à legalização da maconha e, assim como Trump e Rúbio, critica fortemente a ideia da existência do aquecimento global.

No partido democrata, são apenas dois os principais: Hillary Clinton e Bernie Sanders. Hillary foi senadora por Nova Iorque, secretária de governo de Obama entre 2009 e 2013, além de ter sido primeira-dama entre 1993 e 2000 e tem uma proposta bastante progressista com relação a igualdade salarial entre homens e mulheres e regulamentação do setor financeiro. Sanders, que faz parte de uma ala ainda mais liberal dentro do partido democrata, tem um discurso duro contra o setor financeiro e promete universidades gratuitas nos EUA, tendo um forte apoio dos mais jovens. Nesse primeiro momento, cada estado dos EUA escolhe os delegados que apoiarão os pré-candidatos na convenção nacional de cada partido em julho. A partir daí os candidatos percorrerão o território nacional em busca de votos.

O discurso inicial de política externa dos republicanos se mostra contrário a todas as conquistas do governo Obama, como as reaproximações de Cuba e Irã. O discurso dos democratas parece bem próximo ao que já é feito no atual governo. E apesar de tratarem em grande parte de temas domésticos em suas prévias, como a causa do aborto e das armas, é importante buscar nas falas dos pré-candidatos pistas que nos ajudem a projetar a participação estadunidense nesse período crítico que vive a economia mundial – de baixo crescimento do PIB global, puxado principalmente pelos emergentes. Além de temas internos polêmicos, o novo presidente precisará ter boa articulação para resolver problemas de política internacional.

Iago L Silva

Mestrando em Economia o Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

* estadunidense é o gentílico de quem nasce nos Estados Unidos e não reflete o fato do autor do texto ser de esquerda ou de direita

**para acompanhar de perto as eleições nos Estados Unidos, além de seguir colunistas que tratam do tema como Guga Chacra, é interessante seguir agências de notícias que tratam mais de perto o assunto se comparado com a mídia brasileira, como CNN, The Economist, DW e em especial eu recomendo um canal excelente no Youtube, o Xadrez Verbal, que além de vídeos trata do tema por podcasts também.

***as ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos dos autores, não de todos os membros do grupo.