O Reino Unido Escolheu Ser o Exemplo

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Com o advento das redes sociais e do apetite da população em se informar, divulgar e opinar sobre política e economia uma série de argumentos estão circulando na internet à respeito de cada governo, argumentos que possuem uma construção técnica e/ou teórica que a população não é instruída a analisar, apesar de ser induzida a compartilhar. Há ainda argumentos extremistas que buscam manipular os fatos, e provocar um medo na população em momentos de decisão social, como em um plebiscito. A ideia é que quando uma população precisa tomar decisões importantes num plebiscito, mas não tem a especialidade técnica no assunto, o melhor é espalhar o medo. Esta estratégia foi usada nas eleições brasileiras e agora no plebiscito do Reino Unido (RU), por isso a frase de um britânico anônimo se tornou símbolo desse plebiscito “Os britânicos estão cansados de ouvir especialistas”. O medo foi explorado em diversas áreas como na economia, no emprego, na cultura, na democracia e na soberania nacional. Para compreender a decisão e a coragem britânica de sair da união europeia é preciso buscar no contrapeso entre economia/democracia/soberania/cultura o que é mais palpável à maioria da população britânica, assim como a estrutura e opinião britânica pré-discussão sobre a saída da União Europeia (UE).

A UE é composta por 28 países, incluído o RU. O parlamento da UE é eleito por votação direta e simultânea nos 28 estados-membro, com uma proporcionalidade de cadeiras maior para a Alemanha, França e respectivamente. O poder executivo é exercido na Comissão Europeia com 28 comissários eleitos pelo voto indireto, pois são indicados pelo líder de cada país. As demais autarquias também são eleitas de forma indireta, sem a participação da população. A proporcionalidade predominante da Alemanha e França na UE, assim como as eleições indiretas para cargos importantes desestimula o eleitorado britânico à votação do parlamento europeu, e promove uma sensação ainda maior de falta de representatividade política e legitimidade democrática que sempre foi criticada por partidos britânicos de esquerda, como o Partido  Trabalhista (Labour Party) e o de extrema direita UKIP.

Além da falta de transparência e democracia, havia a percepção de que a UE se intromete demais na legislação britânica, impondo diversas leis, regras e regulamento para o povo britânico. Com a globalização, e a consequente quebra de barreiras econômicas e comerciais, surgiram novas barreiras no comercio internacional, barreiras de origem regimental e uma série de regras para isolar os demandantes internos dos ofertantes externos da UE., Legislações como qual é a curvatura ideal para armazenar bananas e pepinos, ou rótulos obrigatórios alertando que em pacotes de salmão congelado contem peixe. Esse conjunto de regras não faz sentido para os britânicos, principalmente para pequenas empresas que não exportam para a UE, e a percepção é de que tais regras servem para proteger determinados privilégios corporativos, em detrimento da população.

O único benefício palpável para os britânicos é o de viajar para qualquer país da EU sem passaporte e poder morar em qualquer país com os mesmos direitos da população local. Este é um grande beneficio da EU, pois permite livre circulação da população para estudar e trabalhar, promovendo grande mobilidade migratória e interação cultural. Porém segundo o britânico Philip Oltermann seus compatriotas  não utilizam muito este benefício, se sentem mais próximos da América do que da Europa e frequentemente veem a UE como uma violação da soberania britânica.

Sobre a imigração é importante dizer que a imigração a que se referem os britânicos é a respeito dos trabalhadores vindos do Leste Europeu, e não da crise humanitária com imigrantes de origem síria. A percepção britânica é que o desemprego está elevado e as facilidades da imigração estão absorvendo parte relevante dos empregos gerados no RU Esta percepção está parcialmente correta, uma vez que se baseia apenas em problemas migratórios mas esquece dos problemas econômicos do próprio UK. Segundo os britânicos a imigração em massa esta modificando alguns locais no RU, transformando a cultura urbana e desconectando os britânicos de sua cultura e de seu país, além disso, há certa dificuldade em matricular os filhos nas escolas por falta de vagas, bem como as filas em hospitais tem aumentado significativamente. Porém também há fatores econômicos que explicam a redução da qualidade dos serviços públicos. A política de austeridade do governo reduziu em cerca de 40% os repasses do governo federal para os municípios, em comparação com ano de 2010. Tais repasses são fundamentais para financiar a saúde e a educação.

Para o alemão Khuê Pham a crise econômica europeia e a dificuldade de se compartilhar os recursos em tempos de escassez promove a xenofobia no RU, “Se alguém sair do mundo paralelo do debate sobre o referendo britânico e se junta ao mundo real por um momento, é possível ver que os verdadeiros problemas não estão em seu país, mas no continente: a ascensão da direita, o drama grego, a crise dos refugiados sem fim. Agora é a idade da crise econômica e da depressão cultural na Inglaterra. Tenho a sensação de que todo mundo está apenas tentando descobrir como fazer face às despesas. E eu sinto que este tornou-se o leitmotiv – motivo condutor – da política britânica e, especialmente, a campanha Brexit: o estado da nossa saúde, das nossas universidades, das nossas empresas seria melhor se nós não tivéssemos que compartilhar tanto com os europeus que no momento estão sangrando”.

Os partidos de esquerda sempre denunciavam a centralização do poder decisório sobre uma elite tecnocrática não eleita diretamente pela população e indiferente à soberania de cada país membro, adotando uma política neoliberal, pró mercado, pró privatização dos serviços públicos em favor das multinacionais. Discurso semelhante ao da extrema direita, como o partido UKIP, que além da insatisfação com o modo corporativo que se tem guiado a UE, agrega a questão da imigração e o nacionalismo em seu discurso.

No que diz respeito ao plebiscito, o partido trabalhista mudou de lado e defendeu a permanência do RU na UE. Segundo o partido a saída para democratizar a UE deve ser discutida junto à UE, promovendo transformações, e portanto, o apoio a não deixar o bloco pois isto poderia causar grandes perdas econômicas, mergulhar o RU numa grave crise e ampliar o desemprego. Por outro lado, o partido de extrema direita UKIP defendeu a saída da UE. Já o Partido Conservador (Conservative and Unionist Party) de David Cameron estava dividido. Seus dirigentes apoiavam ambas as decisões do povo britânico, segundo o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson do partido conservador: “o que eles dizem é que vale à pena sacrificar a democracia em troca de ganhos econômicos”, portanto até mesmo quem defende a saída do RU sabe que economicamente essa alternativa não é um bom negocio.

De acordo com Oltermann “A maioria da nossa população acredita que se juntou um espaço econômico comum , em 1973, e não uma união política. A Europa tem um déficit democrático que precisa ser tratado. O referendo britânico é talvez uma forma caótica de equilibrar esse déficit, isso mostra que o tema está em discussão”. Ainda segundo Oltermann a crise econômica mundial, iniciada em 2008, de origem financeira com grandes fraudes bancárias, contribuiu para formar a opinião popular na Europa de que “os maus britânicos estão arruinando tudo com os seus bancos, os gregos maus estão arruinando tudo com sua dívida e só a Alemanha saberia o que é certo para todo o continente” e este raxa está distanciando ainda mais os britânicos da Europa. Nos últimos anos a política internacional do RU tem perdido relevância e o governo tem se voltado para resolver os crescentes problemas internos,. Essa falta de moral internacional tem irritado parte dos britânicos, se tornando mais um motivo pela saída da UE, porque para o crescente sentimento nacionalista, uma maior autonomia da RU poderá recuperar parte de seu prestígio e relevância internacional, que datam do antigo império Britânico

Segundo Ingo Ploger a sensação de piora da qualidade de vida da população britânica promove um resgate às políticas de gerações passadas: “Existe um divisão de gerações, entre a geração mais velha, conservadora, que querem tomar as rédeas do país novamente e as gerações mais novas com uma concepção de integração internacional que reconhece as mudanças mundiais e que as complexas estruturas causam uma grande ruptura estrutural que pode ter sérias consequências econômicas. Os perdedores da globalização votam contra a globalização, ou seja, aqueles países ou segmentos sociais que se veem prejudicados pelo aumento da concorrência externa preferem uma retórica nacionalista e isolacionista que protege o mercado interno, o que fortalece o racismo e a aversão à progressiva da união que leva à perda de competitividade de parte da indústria no processo de abertura econômica e consequente desindustrialização, concentração de renda gerada pela globalização e a comunicação que não consegue qualificar de maneira adequada o balanço dos benefícios e custos da integração econômica, legal e política. Que com mobilização social pelas redes sociais se estruturam para dizer não à globalização. Houve perda de soberania, pois tiveram que equalizar diversos regulamentos e interesses nacionais distintos que criaram barreiras excessivas em certos setores da economia, como a agricultura, que irrita pequenos agricultores de países como Inglaterra que não querem exportar para a Europa e precisam seguir todas as determinações da UE”.

Segundo o The Economist o voto pela separação só se explica pela nostalgia do período imperial inglês. Segundo Samantha Pearson os britânicos olham muito pra trás, existe um racismo contra os imigrantes, contra a entrada da Turquia por acreditarem que sua entrada pode significar uma nova onda migratória para o RU. Uma campanha popular pela saída da UE dizia: “Se você quiser ficar na União Europeia, ligue para sua avó e ela irá explicar porque nós devemos sair”. Os gastos do RU com a estrutura da EU, em contrapartida dos baixos investimentos na saúde, também incomoda o povo.

Se analisarmos quem apoio a permanência do RU na UE, como as grandes empresas, o governo, sindicatos, intelectuais, artistas e compararmos com quem apoiou a saída do RU como os trabalhadores e a oposição ao governo, chego à conclusão de que o voto pela saída foi mais um ato de desespero pela mudança de política, do que uma visão estratégica sobre como deve ser o RU no futuro. Reino que talvez não seja unido por muito mais tempo, dada a eminência da saída da Escócia, província que no ultimo referendo pela independência teve o apoio para saída do RU por 45% da população. Os especialistas acreditam que a independência da Escócia deve ganhar força já que parte significativa da população votou pela permanência do RU no bloco. Ironicamente o RU fez forte campanha contra a independência escocesa na época do referendo.

A onda nacionalista é um contrassenso mundial, não apenas socialmente mas também economicamente. Nas ultimas décadas os países passaram por grandes transformações no sistema produtivo, passando de um sistema autônomo e isolado para a adoção de Cadeias Globais de Produção, utilizando recursos produtivos de diversos países num só produto. Justamente no campo econômico, onde o RU faz parte da UE desde 1973, e que desde então a economia inglesa foi se desenvolvendo, conectando-se à economia da Europa continental, e atraindo empresas transnacionais para produzir produtos e serviços para atender a demanda de todo o mercado europeu. Por isso uma mudança brusca nesse arranjo, pode ter impactos na estrutura produtiva que se desenvolveu por décadas de sistemática integração econômica, financeira, legislativa e institucional, e deverá gerar fortes complicações econômicas, principalmente para o RU, já que Alemanha e França se candidatam para que uma de suas cidades se tornar a capital financeira do bloco, em substituição a City Londrina, uma vez que de imediato cerca de 220 empresas podem deixar o RU e se mudar para o continente. Do ponto de vista político o resultado do referendo britânico está alimentando a realização de outros referendos na França, Holanda, Suécia, Polônia e Dinamarca. Novas propostas de saída deverão ocorrer, e serão estimuladas ou desestimuladas a depender do desempenho inglês, que para o bem da UE, o RU deverá fracassar quanto mais rápido melhor. RU escolheu sair da UE e ao mesmo tempo, ser o exemplo para toda Europa.

Kelmaisteis.

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A Diferença entre o Título, o Texto e o Contexto

Camara_deputadosAo olhar para os políticos que elegemos, tenho várias perguntas; Como podemos eleger tais políticos? Como pensamos tanto para escolher o melhor presidente, governador ou prefeito e ao mesmo tempo desdenhar dos senadores, deputados e vereadores? Até que ponto o sistema político e o sistema eleitoral pode contribuir pra nossa falta de atenção? Ou ainda, será que somos induzidos à negligência?

A reforma política é um consenso, porem as formas e mecanismos da reforma geram debate. Durante o período eleitoral os candidatos a cargos legislativos possuem de 5 à 10 segundos pra defender suas propostas e convencer o eleitor na televisão, outras fontes de informações sobre o candidato se restringem a panfletos e placas que, de uma forma ou outra, sujam as ruas e não trazem informações relevantes sobre sua biografia ou projetos que pretendem defender no poder legislativo, e são pouquíssimos os candidatos a que possuem uma plataforma online que permite uma maior difusão de suas ideias e perspectivas sobre o Brasil.

Todas estas restrições resumem a eleição legislativa a um grande jogo de bingo e favorece candidatos bizarros e escusos. A restrição à informação impõem aos eleitores atrelarem o candidato a cargos legislativos ao projeto de candidatos a cargos executivos, supondo que todos os candidatos da chapa da base aliada pensem, planejem e executem da mesma forma uma infinidade de assuntos que mudam de acordo com a conjuntura. Quantas vezes votamos em vereadores que apoiam o candidato a prefeito que nós apoiamos simplesmente por ele apoiar nosso candidato a prefeito? É fácil saber podres de candidatos que estão a décadas no poder, mas e os que elegemos a pouco tempo? E os que ainda nem se elegeram? Será que estamos dependendo mais dos vazamentos de informações sobre os podres dos políticos do que do projeto que eles levam ao poder?

Na minha opinião, os votos que geraram a abertura do processo do impeachment na Câmara são títulos muito semelhantes aos usados pelos candidatos pra se elegerem, o mesmo discurso encontrados nos horários eleitorais expostos na televisão. Quem nunca viu um candidato a deputado em época de eleição dizer “pela família; pelo município de …; pela região de …; por Deus vote no pastor …”. Humor à parte na hora de se expressar, este pode ser o único contato que teremos com os candidatos antes de se elegerem e a única coisa que sabemos deles é que são comediantes.

Chamo a atenção para o pouco contato que temos com os candidatos ao poder legislativo porque tudo o que eles nos expressam são títulos e temas, que no fundo, não significam nenhum compromisso concreto, mas pode significar muito sobre o comportamento ideológico dos mesmos. O que significa um candidato dizer “em defesa da família” nas eleições? Pra você leitor a sua família precisa ser defendida do que? Do homossexualismo? Do desemprego? Do abandono do estado no caso de pessoas que moram em áreas de risco e/ou sem acesso aos serviços básicos que o Estado precisa prestar como água potável, saneamento básico, saúde e educação de qualidade? Percebe como estes títulos podem ser interpretados de várias formas dependendo de quem os interpreta?

Outra questão é o texto, mais confiável porque passa a conter mais informações sobre o histórico dos políticos, o texto, portanto, seria uma referência à biografia dos políticos a respeito de seu comportamento como homem público e sua tomada de decisão exercendo um cargo público em temas de interesse público que revelam se sua atuação é ou não é próxima ao discurso que o elegeu. Estes são muito explorados pelos candidatos a cargos do executivo nas eleições (prefeitos, governadores e presidente) tanto por aliados quanto por adversários políticos que buscam confrontar o discurso eleitoral com sua atuação efetiva em algum cargo público.

Já o contexto testa a atuação do político em situações e momentos específicos, será que ele terá uma ação populista em momentos de crise? Será que ele honrará seus eleitores, mesmo que a situação exigir políticas impopulares, como agora? Bem diferenciar o texto do contexto é uma tarefa complexa na política, mesmo para profissionais experientes porque deve levar uma série de aspectos qualitativos que confunde o analista e o povo. Acredito que acusar a presidenta Dilma de estelionato eleitoral é uma acusação grave e exige uma analise histórica, algo para os futuros analistas porque os atuais estão embebidos num debate político/econômico/ideológico que pretende alterar/manter uma série de políticas no país. Não se trata de um debate isento de opiniões e neutro, com intuito de avaliar a presidenta porque estamos numa fase de decisão sobre o futuro do Brasil, e não da pra cobrar isenção e imparcialidade agora.

No entanto, a cada noticia verídica ou não, feita por delatores ou instituições oficiais, estamos sendo testados. Me sinto constantemente confrontado. Minha capacidade de julgamento está sendo testada pelos conhecimentos que adquiri na academia, meus valores estão sendo testado ao ter que criticar duramente o lado que defendo e minha hipocrisia está sendo testada por um bom senso de justiça verdadeira. Me sinto num intensivo de democracia, como aquelas ultimas semanas antes do ENEM, em que precisamos estudar intensamente diversos assuntos, que talvez não tenha uma relação direta com o cotidiano do nosso trabalho e preparação profissional.

Agora estamos tomando ciência do quanto os assuntos jurídicos, econômicos e políticos influenciam diretamente nossas vidas e somos cobrados o tempo todo pra tomarmos uma posição sobre isso, para decidir o futuro do país. E o grande problema é que temos péssimos professores. Jornalistas nos ensinam economia, políticos nos ensinam política e advogados nos ensinam jurisdição. Acontece que jornalistas não sabem economia e todas as pessoas que eles pedem auxílio têm um lado, uma posição que defendem e que nos influência com ela, até mesmo de forma desonesta porque nos ensinam o que querem e não o que precisamos aprender para tomarmos nossas próprias decisões, assim como ocorre com os políticos e advogados, são pessoas parciais que estão nos ensinando a ter visões laterais, ora direita, ora esquerda.

Abraços

Att,  Kelmaisteis

O consenso é a negociação da liderança (Margaret Thatcher)

Com o declínio recente da economia brasileira, a média de crescimento, tão ostentada pelo PT em seu governo, está cada vez mais dependente do passado do que do presente e futuro. Agora, até que ponto podemos esperar que a memória da população seja boa o suficiente para manter no poder uma presidente que vem perdendo a identificação social?

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Em 2010 o PIB brasileiro cresceu 7,6%, foi um auge de crescimento após um período de grandes reformas sociais ocorridas no Brasil, um período lembrado com orgulho pelo povo, pois passou a ter voz e atrair o interesse do governo, que propôs e fez grandes reformas sociais estruturais. A redução da desigualdade social foi tratada em várias frentes pelo governo Lula, com o aumento real do salário dos trabalhadores, o ingresso do povo nas universidades públicas e privadas, profissionalização nas escolas técnicas federais, formalização dos micro e pequenos negócios e diversos programas que beneficiaram nichos sociais esquecidos por outros governos e que agora estão transformando a estrutura social nacional.

Porém, a partir de 2011 o PIB brasileiro passou a crescer em um ritmo cada vez menor, chegando, segundo alguns analistas, a uma grande depressão em 2016, dado dois anos seguidos de forte recessão. Atualmente estamos no 6° ano de governo Dilma sem uma grande conquista para celebrar.  Temos uma agenda mais próxima da oposição do que do PT e com poucas mudanças na forma de se lidar com a crise econômica em seu segundo mandato, intensificando o ajuste em reformas econômicas que reduzem os direitos sociais, mas com a manutenção, sem revisão, de vultuosos subsídios, que já passam de 400 bilhões de reais para empresários que não investem no setor produtivo nacional.

Pela mídia, a presidente da 7° maior economia mundial é vista como uma grande negociadora de cargos e benefícios para permanecer no poder, um exemplo é o atual ministro da saúde Marcelo Castro (PMDB-PI), que já se envolveu em uma investigação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no qual pediram a anulação de seu mandato de deputado pela suspeita de compra de votos, além disso, já foi acusado pela Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares  de ser  incapaz de lidar com a atual crise do sistema público de saúde, dadas suas declarações polêmicas e inconvenientes, como “torcer para que mulheres pegassem o Zika antes de engravidar”, o Brasil esta perdendo a batalha contra o mosquito Aedes Aegypte e “sexo é para amadores e gravidez é para profissionais”. Em um ano normal de governo Lula seus defensores diriam que estas negociações fazem parte do jogo político para o bem final do povo, porém como justificar este tipo de comportamento agora? Em 2015, perguntávamos se um presidente consegue governar o país sem aliados, hoje a pergunta já deve estar em outro patamar, será que um presidente consegue governar sem base?

Muito tem se falado de uma agenda política progressista ou ainda um projeto de país, porém neste ambiente político adverso quem realmente está batalhando por isso? O poder não tolera fraquezas, e o presidente de uma economia expressiva como o Brasil não pode ficar refém de chantagens e jogos políticos, que não seja o protagonista, isto não é compatível com o desenvolvimento de um projeto de país, na verdade não é compatível com nada e nos reflete a outro termo muito mencionado nas eleições presidenciais de 2015, o tal retrocesso.

Em um período de crise econômica boas intenções não faltam, depois de muita articulação política o senador José Serra (PSDB-SP) conseguiu passar seu projeto de flexibilização das normas para participação da Petrobrás no pré-sal. A articulação contou com o apoio do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da presidente Dilma Rousseff (PT) que contrariou seu próprio partido na decisão de apoiar o projeto.

De acordo com o professor Edmilson Coutinho, do Instituto de Energia e Ambiente, da Universidade de São Paulo (USP) as mudanças na legislação do pré-sal são necessárias para dar folego ao caixa da Petrobrás, alavancar os investimentos no pré-sal, ampliar a independência gerencial da empresa. O novo texto desobriga a Petrobrás de ser a operadora única e de ter participação mínima de 30% dos investimentos no pré-sal.

O problema, ao meu ver, é que a votação foi acelerada, sem um debate digno da importância do tema e, pra piorar, o documento aprovado é impreciso em várias questões que devem ser revisadas, inclusive o ponto mais sensível e que demorou meses pra ser aprovado que é a distribuição dos royalties do pré-sal para saúde, atualmente 25%, e educação em 75%. O documento ainda dá preferência à Petrobrás na exploração do pré-sal, para tanto, a Petrobrás terá 30 dias para identificar quais áreas é de seu interesse após ser notificada pelo conselho. Após se manifestar, o CNPE deverá propor à Presidência da República quais blocos deverão ser operados pela empresa, recomendando a participação mínima da empresa.

Neste arranjo operacional, dependendo de uma negociação entre o CNPE e o presidente da república vigente, acredito que o texto trás grandes mudanças práticas para a exploração do pré-sal, pra começar, transforma uma política estratégica de Estado numa política de governo, que poderá variar de acordo com o presidente vigente, sobre um ativo que levará décadas de exploração, podendo gerar instabilidade jurídica e legislativa num ambiente de investimento à longo prazo.

Dada à conjuntura política, acredito que o apoio popular à democracia e ao ex-presidente Lula são fundamentais para a presidente, além de ser a única força que a mantém no poder atualmente. Estas negociações ao qual a presidente está se submetendo até agora, tem como resultado o desgaste político com sua base, o distanciamento da presidente com o povo, o prolongamento de sua elevada taxa de rejeição e o aumento da incerteza política, por isso, talvez todas estas concessões e negociações que Dilma está entregando para permanecer no poder, seja a grande força que a enfraquece e a pressiona por um impeachment.

Isto porque não há uma contrapartida aceitável para tamanho pagamento, e a lista de oportunidades de chantagens políticas ainda é longa, podendo ameaçar o ajuste fiscal com pautas bomba, recusa em aprovar as medidas de ajuste, acelerar a votação de projetos contrários ao governo, aprovar a flexibilização no regimento do pré-sal, a reforma previdenciária e tantas outras reformas que o país precisa. Nada mais paradoxo do que negociar a permanência do mandato com a estrutura corrupta que tentou destruir. O objetivo da oposição não é mais negociar favores, apoios ou projetos. Agora, o objetivo é fazer a presidente sangrar, e se não conseguir um impeachment, não tem problema, as eleições são em 2018 e a oposição tem folego e pautas bombas o suficiente pra chegar a te lá, e o que conseguir pelo caminho já é um bom lucro.

Acredito que as coisas estão acontecendo no Brasil porque com a revolução do acesso à educação, os brasileiros estão menos propensos a aceitar as coisas como elas estão e querem uma liderança que reforme o Brasil em busca de alternativas a este país, em que, com recursos tudo pode e qualquer um manda, um país que talvez nossa presidenta já não representa com tanto vigor como no começo de seu governo. Neste estado caótico e carente de perspectivas, onde o progresso faz cada vez mais parte de nosso passado do que nossa perspectiva de futuro, onde uma presidente troca de partido e de ideologia de forma explicita e não necessariamente formal, em que a manutenção de seu cargo está mais ligada à fé popular no PT e no ex-presidente Lula do que pelo seu próprio desempenho.

A impressão que tenho é que estamos desenvolvendo nosso espírito crítico envolto em um vórtice de verdades e mentiras, intensificados pela mídia, sociedade e pelo governo. Não há como construir uma sociedade que supere tais dificuldades se continuarmos defendendo nossas opiniões em trincheiras de vidro, escondendo nossas intenções egoístas em um manto de país melhor.

Abraço,

Kel

*as ideias contidas nos textos traduzirão as opiniões/pensamentos dos autores, não de todos os membros do grupo.