O que são Cadeias Globais de Valor? O exemplo do acordo Mercosul/União Europeia

Contrariando as expectativas de que um novo governo “pró-mercado” seria capaz de retirar a incerteza do ambiente econômico, em seis meses de governo Bolsonaro pesquisas apontam que a taxa de crescimento esperada da economia brasileira em 2019 caiu de cerca de 3% para 0,7%, segundo o Boletim Focus, e continua em queda livre. Alguns falam em recessão técnica nos primeiros dois semestres do ano.

Talvez a recessão não aconteça, mas uma coisa é fato, a economia brasileira está estagnada. Essa estagnação ocorre após dois anos de crise (2015 e 2016), que representaram cerca de 8% de queda no PIB per capita. O valor real do PIB em 2018 ainda foi inferior ao apresentado em 2010. Mas para além dessa análise conjuntural, não seria exagero dizer que a economia brasileira está estagnada a quase quatro décadas.

Nos anos 1980 a economia brasileira enfrentou constrangimentos e endividamento com o setor externo e processos de hiperinflação. Nos anos 1990 o Plano Real foi implantado, prometendo estabilidade e crescimento. O primeiro objetivo foi alcançado e mantido, mas o segundo não. Durante os anos 2000, pela primeira vez em décadas, a elevada liquidez internacional e o crescimento das economias centrais e, principalmente, China, impulsionaram nossa economia, em que passamos a exportar cada vez mais commodities em detrimento de produtos industrializados.

Entretanto, toda festa tem seu fim e depois de anos surfando na onda do crescimento global a ressaca veio, primeiro para os países ricos, depois para alguns emergentes, entre eles o Brasil. Ainda que a crise brasileira se explique por uma conjunção de fatores, tais como adoção de políticas econômicas mal sucedidas pelo governo Dilma (como desonerações fiscais seguidas de choque fiscal recessivo), e os choques do cambio, juros e preços administrados, a redução dos preços internacionais de commodities e a restrição externa tiveram papel importante. Mas além dessa crise conjuntural, a economia brasileira tem registrado crescimento reduzido desde os anos 1980.

Em parte, isso se deve a nossa pequena inserção nos fluxos de comércio internacional.  Durante nosso processo de industrialização, priorizamos a exploração de um mercado interno. Como resultado conseguimos internalizar muitos setores industriais, entretanto, estes não alcançaram a mesma competitividade a nível internacional, já que não priorizamos as exportações.

EUA, Japão, Coreia do Sul, México e mais recentemente Sul/Sudeste asiático e, principalmente, China, por outro lado, priorizaram a inserção nas chamadas cadeias globais de produção, ou cadeias globais de valor. Esse conceito está relacionado a capacidade de “fragmentação” do processo produtivo em vários países, viabilizado pelas inovações nos transportes e nas comunicações nas últimas décadas (como cargueiros mais eficientes e a internet).

Um ótimo exemplo é o que acontece com a Apple, empresa norte-americana de software e hardware, e no seu principal produto, o Iphone. Na produção desse smartphone temos várias etapas: o software (IOS), processadores e design do produto desenvolvido nos EUA, telas sensíveis ao toque produzidas na Coreia do Sul. Ambos são exportados para a China onde ocorrerá a montagem e, posteriormente, reexportados para vários outros países, como o Brasil, onde se encontra o produto em qualquer loja de varejo. Esse conceito de cadeia global de valor se enquadra em vários setores, passando por serviços, indústria e agropecuária.

Outro exemplo seria o caso mexicano: empresas montadoras de automóveis se instalaram no país, principalmente após a vigência do Nafta – um acordo comercial entre EUA, México e Canadá. Assim, peças de veículos e design do produto são produzidos na Europa ou EUA,exportadas para o México, onde as empresas montadoras realizam a montagem do automóvel e posteriormente reexportam para os EUA, onde encontra-se a maior parte do mercado consumidor.

Retornando ao atual governo, o anúncio de um acordo com a União Europeia foi bastante festejado pela mídia e governo. A maioria das análises parte da ótica de que tal acordo seria “melhor para os consumidores”, ao garantir mais concorrência e produtos com melhor qualidade e mais baratos, e de como o Mercosul poderá exportar mais produtos agrícolas e importar mais produtos industrializados, ou mesmo, como a indústria brasileira irá passar por uma modernização frente a possibilidade de importar componentes e tecnologia e se inserir em cadeias globais de valor.

Ainda que não se saiba com detalhes como será efetivado o acordo, já se sabe que haverá cotas máximas para exportação de carnes, etanol e açúcar pelo Brasil. E por outro lado, queda contínua até zero de importação de automóveis europeus, e de exportação de produtos industrializados brasileiros. Nesse sentido, o acordo foi elogiado desde a Confederação Nacional da Indústria até setores ligados ao agronegócio.

Segundo aqueles que elogiaram o acordo, a inserção do Brasil nas cadeias globais será garantida à medida que a indústria nacional terá de se adaptar, importar tecnologias e máquinas mais modernas, bem como peças e componentes, para montagem aqui.

Aqui se encontra um ponto central sobre as cadeias globais de valor: estar inserido nessas cadeias nem sempre quer dizer que o país terá maior dinamismo econômico, e com isso geração de mais emprego, renda e tecnologias nacionais. Isso depende de onde os países se inserem nas cadeias globais de valor. Não é difícil notar que as partes mais “nobres” da produção, ou seja, aquelas que agregam mais valor ao produto final são aquelas ligadas a Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), criação e design de produto e criação de novas tecnologia. São nessas etapas que se empregam engenheiros e mão de obra especializada, ou seja, onde há maior uso de trabalhadores qualificados, que exige mais especialização e anos de estudo.

Nesse caso, quando pensamos nos smartphones ou nos automóveis, é na parte de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) de novas tecnologias e design, como a de carros elétricos ou celulares dobráveis, que se encontra a maior geração de valor. Essas etapas da produção continuam nos países mais ricos, onde está a sede da empresa, e dificilmente são transferidas a outros países.

A China está conseguindo desenvolver tecnologias nacionais nessas etapas de produção, em grande parte por exigência do governo chinês de transferência de tecnologias pelas empresas multinacionais que querem produzir naquele país, e em outra parte devido a investimentos pesados em infraestrutura, educação e pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico fazendo com que a logística do país seja de qualidade e barata e os trabalhadores qualificados e empresas capazes de absorver novas tecnologias.

A pergunta então é: o Brasil irá se inserir nas cadeias globais, mas como e onde?Estaremos aptos em um período tão curto de tempo (cerca de 10 anos), até a integralização do acordo com a União Europeia, de termos desenvolvido tecnologias nacionais para nos inserirmos em etapas que agregam mais valor aos produtos finais? Nossa indústria irá se capacitar em tão pouco tempo?

Aparentemente a resposta é não. Com o teto de gastos, investimentos públicos estão inviabilizados até 2026, o que compromete a melhoria contínua em infraestrutura. Por outro lado, ainda que nossa educação melhore, ainda temos um gargalo importante no ensino médio e educação superior. Nosso setor financeiro privado nacional é incapaz de prover financiamento barato e de longo para empresas, e o BNDES tem encolhido sua participação em estratégia deliberada do atual governo. As maiores construtoras brasileiras que poderiam participar de contratos públicos na União Europeia estão quebradas, na esteira dos acontecimentos da Lava Jato, e normas de transferência de tecnologia e políticas industriais ativas não aparecem, nem de longe, como prioridade de políticas públicas.

Desse modo não há dúvida, o acordo com a União Europeia poderá fazer do Brasil o novo México, inserido nas Cadeias Globais de Valor, mas limitado a montagem de produtos industriais de menor grau tecnológico e produção de commodities agrícolas, importando peças e componentes, adubos e defensivos agrícolas, além claro dos produtos de alta tecnologia para consumo doméstico, como aparelhos médicos-hospitalares, máquinas, equipamentos eletrônicos, e demais produtos de consumo de luxo como vinhos e queijos. Sem estratégia, poderemos nos aprofundar em um processo de completa dependência tecnológica dos países avançados da Europa, particularmente, da Alemanha, o que, com certeza, é o sentido oposto do caminho para o pleno desenvolvimento socioeconômico do nosso país.

Marcelo Duarte

Doutorando em Economia pela Universidade Federal de Uberlândia

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